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03/07/2009 - 19:58

NO CONSULTÓRIO DA DRA. SHIRLEY

Ela nem devia estar ali naquela terça-feira de manhã. O dentista dela era o Dr. Manoel. Mas sua obturação do fundo caíra durante o churrasco na casa da Nininha, no sábado. Quando ela reclamou da obturação, da dor e da viagem do Dr. Manoel justo naquela semana, o marido da Nininha pediu para a mulher anotar o telefone da Dra. Shirley num papel, que a Dra. Shirley era ótima. Por isso ela estava ali, na sala de espera da Dra. Shirley, logo cedo. Bom, talvez cedo demais, mas ela tinha ficado com medo de não ter onde estacionar o carro. A Dra. Shirley a cumprimentou e explicou que tinha dois pacientes marcados antes dela. Ela disse que tudo bem, que iria ficar ali, esperando e abriu uma revista. Um pouco depois, ele chegou. Ele sim, deveria estar ali. Ele estava fazendo um tratamento demorado, que incluía canais, obturações e coroas. Ele vinha toda semana, naquele mesmo horário. Chegou esbaforido e se queixando do trânsito. Ela ergueu os olhos da revista para comentar que desde que sua família se mudara para o Morumbi, há três anos, ela nunca mais passara por ali, e tinha ficado assustada com o volume do trânsito. Ele respondeu que realmente estava impossível, mas que no Morumbi também não devia ser fácil. Ela disse que não era não, principalmente porque na região tinha um monte de colégios, o que significava mães paradas em fila dupla. Tinha o Cervantes, o Ítaca, o Fernando Pessoa, o Porto Seguro, o Santo Américo, o… Ele a interrompeu para perguntar se ela era casada. Ela disse que era sim e perguntou se ele também era. Ele disse que também era. Ela respondeu um “ah”. Eles ficaram em silêncio um pouco. Aí, a Dra. Shirley apareceu na porta e pediu para eles terem um pouquinho de paciência, porque a coroa do Seu William ia demorar. Eles disseram que tudo bem. A Dra. Shirley entrou. Ele levantou para pegar uma revista. Quando foi se sentar, sentou-se perto dela. Ela cruzou a perna. Ele cruzou a perna. Ela tirou um fiapo imaginário da saia. Ele limpou os óculos no lenço. Ela arrumou o cabelo atrás da orelha. Ele abriu e fechou a correia do relógio. Ela tossiu e perguntou se ele tinha filhos. Ele respondeu que não, porque a mulher dele não podia. Ela contou que tinha duas meninas e um menino, sem ele perguntar. Ele fez um desses comentários vagos que fazemos sobre os filhos dos outros. Ela perguntou o que ele fazia. Ele respondeu que era funcionário público federal, e ela? Ela disse que era fisioterapeuta, mas que estava parada até o caçula ficar maiorzinho. O celular dela tocou. Ela colocou a revista de lado e atendeu. Era o marido. Ela disse para ele que estava tudo bem e que eles iriam jantar na casa da Carmem e do Áureo, que ela havia confirmado. Ouviu um pouco em silêncio e depois disse que não adiantava ele reclamar,que ele que tinha pedido para marcar aquele jantar em primeiro lugar, que ela nem gostava muito da Carmem, mas que agora ficava muito chato desmarcar em cima da hora. Ela se despediu do marido com um beijo barulhento e guardou o telefone na bolsa. Ele comentou que até que aquela sala de espera era fresquinha. Ela concordou e disse que era porque o prédio era antigo, então, o pé direito era alto, dava corrente de ar. Ele sorriu para ela. Ela sorriu para ele. Ele colocou a mão na perna dela, com a palma virada para cima e perguntou se alguma vez na vida ela já havia sentido alguma coisa assim. Ela encaixou a mão dela na mão dele e murmurou que não. Ele suspirou como ela. Eles ficaram assim, de mãos dadas, quinze minutos. Aí, a Dra. Shirley saiu acompanhando o Seu William, que foi embora. A Dra. Shirley estranhou a cena, mas não fez nenhum comentário. Depois do tchau para o Seu William,virou-se e disse: “Vamos lá, Rodolfo?”, e assim ela ficou sabendo o nome dele. Depois a Dra. Shirley disse: “Você espera mais um pouquinho, Isabel?”, e ele ficou sabendo o nome dela. Ele beijou a mão dela e entrou no consultório seguido por uma atônita Dra. Shirley, que àquela altura do campeonato não entendia mais nada. Quarenta minutos depois, quando acabou o tratamento daquela semana, eles saíram de dentro da sala da Dra. Shirley. Ele doido para falar de novo com ela, dar seu cartão e pedir, por favor, para ela ligar. A Dra. Shirley louca para saber como aquela história iria acabar. A única pessoa na sala de espera era o Coronel Meireles, um militar reformado, que estava ali só para fazer limpeza. Ele deu um oi para a Dra. Shirley e disse que a moça pedira para avisar que teve que sair antes, mas que telefonaria para marcar uma nova consulta. A Dra. Shirley agradeceu o recado, chamou o Coronel para a consulta e se despediu dizendo: “Então, mesma hora na semana que vem, Rodolfo?”, mas sem olhar para ele. Ele estava visivelmente perturbado e a Dra. Shirley ficou sem jeito.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:

21 comentários para “NO CONSULTÓRIO DA DRA. SHIRLEY”

  1. Isa disse:

    AMOOOOOOOOO!
    Bjs

  2. vera disse:

    ai, tao bonito. a gente nao permite que essas coisas aconteçam. beijos

  3. Ana Paula disse:

    Aaaahhhhhhhhh!
    Fiquei sem fôlego. Pede pra Isabel voltar semana que vem, no mesmo horário? Fiquei com tanta vontade que eles se vissem de novo… Essas histórias que burlam qualquer senso de prudência, bons modos, correção, conveniência, praticidade, mexem tanto comigo. Ai, ai, suspirei.

  4. Flavia disse:

    ai Fal, doeu aqui.
    e eu já não sei se “é meninice ou cafonice” esse tipo de sentimento que eu também nem sei se é amor, mas que eu sei que é lindo, e mais ainda descrito assim com essas palavrinhas tuas que me acompanham e fazem a minha vida mais feliz.
    Amei.

  5. claudia lyra disse:

    Adoro esse texto!!! Adoro!!!! Ele é uma delícia, dá uma vontade de viver uma coisa assim, né? Adoro!!!

  6. antónio fernandes disse:

    Fal no seu melhor!

  7. ana b. disse:

    ah, fal, eu tb a-do-ro esse texto! parabéns!

  8. aiaiai disse:

    me lembrou uma música do chico: não se afobe não, que nada é prá já…

  9. Flor disse:

    adoro esse =)

  10. Sunny disse:

    Caracas !

  11. Erika disse:

    É um texto que a gente vai “devorando”, sem querer que acabe… Que pena que acabou!…

  12. Paula disse:

    Primeira vez que leio um texto seu, e simplismente lindo! Seria tão bom a continuidade , por ser tão belo.

  13. Laura disse:

    É belo justamente por não ter a continuidade… a beleza que se esconde nesses momentos pequetiticos…
    beijos e amor, querida…

  14. Suzana disse:

    Ai Fal que bonito. Deu até um frio na barriga. Terminei de ler com um sorriso no rosto.

  15. Gi Jardim disse:

    Bibi, eu me pergunto: por que esses dois não sairam correndo da sala de espera e foram ser “gauche” na vida?

  16. Margot disse:

    Ai Fal, terminei de ler com lágrimas nos olhos. Essa doeu.
    Beijooooooooooooooooooooooooooooooooooo

  17. Heloisa disse:

    “nada do que posso me alucina
    tanto quanto o que não fiz”…

    lembrou-me a música. Texto delicioso, Fal.

    Beijos mil.

  18. Neri disse:

    Mas as vezes se a gente deixa acontecer a imprudência, ou como isso se chame, dá uma ressaca…

  19. Edgard disse:

    historinha boba, chata de ler, e ainda glamourizando (e discretamente fazendo apologia) a infidelidade. Enfim, um texto dispensável.

  20. ALE LELE disse:

    QUE GROSSERIA A MINHA, E’ A 3a VEZ QUE COMENTO UM TEXTO SEU SEM ME APRESENTAR, DESCULPA. MAS COMO TEMOS AMIGAS EM COMUM, ME SENTI JA EM CASA… PRAZER ALESSANDRA. ADOREI, ESTOU VICIANDO EM DAR UMA OLHADA TODAS AS NOITES, NOS SEUS TEXTOS! BJ

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