
retrato de Beethoven pintado por Joseph Karl Stieler em 1820
Ah, a vida. Eis que a vida muda. Sempre. Queiramos nós ou não. E, geralmente, láááá no fundo, não queremos, mas isso é conversa pruma outra sexta-feira.
Bão. Durante o século XVIII, nossas vidas mudaram como nunca, lembram? A revolução intelectual, a Independência Americana, a Revolução Francesa, o Iluminismo, a burguesia no poder (só pra gente ter em mente: quando a Revolução Francesa terminou, a Europa tinha 180 milhões de habitantes. Em 1914, 460 milhões).
Nossas vidas nunca haviam sido tão complexas.
E, com isso, eu não quero dizer que os que vieram antes de nós tinham vidas fáceis ou simples, porque o passado nunca foi feito de “bons e velhos tempos que não voltam mais”, não nos iludamos.
Mas o fato é que nunca na história tínhamos tanto com o que lidar, não importando a qual classe econômica pertencesse nossa família.
Ideais sociais e políticos multiplicavam-se, a confusão era geral, conflitos e problemas sociais surgiam de todos os lados - e nós não sabíamos nem por onde começar.
Contrário ao Neoclassicismo, o Romantismo baseia-se na liberdade de criação e no individualismo, tão caro à burguesia.
“Metamos o martelo nas teorias, nas políticas e nos sistemas. Abaixo esse velho reboco que mascara a fachada da arte. Nada de regras, nem de modelos!” – Victor Hugo.
Com a burguesia alçando voo e transformando-se na nova força política e financeira na Europa, no final do século XVIII, tanto o clero quanto a nobreza, perdem a função de mecenato.
Eles não podem mais financiar os artistas, pelo menos não da forma e na quantidade em que costumam financiar – falta-lhes cacife.
A burguesia passa a ser a grande consumidora de arte no continente, mas, caras, a burguesia tem seu próprio jeito de fazer as coisas: o jeito capitalista. Era comum que o artista patrocinado pela nobreza – fosse qual fosse sua área de atuação – não raro, vivesse na propriedade de seu gentil patrocinador, que assumia suas despesas e lhe dava um salário e condições de criar, enquanto lhe fazia encomendas.
O burguês, por outro lado, raramente encomendava alguma coisa. O que ele queria era pagar o preço justo (ou o que ele considerava justo) para assistir, ouvir, olhar ou ver a mais recente criação do artista. Exatamente como nós fazemos hoje. Como assim? Olha só: por mais que eu ame o Kenneth Branagh e os filmes que ele faz, eu não dou casa, comida e roupa lavada pra ele, e muito menos faço encomendas de filmes e pago por isso. O máximo que eu faço é pagar o ingresso do cinema e o aluguel da fita de vídeo (umas 200 vezes) e achar que ele é maravilhoso – mesmo não tendo boca.
Com o advento da Revolução Industrial, do começo do capitalismo e, sure, do Romantismo, somem os mecenas.
Os financiadores da arte passam a ser os membros daquela massa anônima, que agora pode pagar para ver coisas bonitas também (embora, na maioria das vezes, não possa pagar para tê-las – como nós, amiguinhos), e que assiste aos artistas, ávida por novidades, no escuro dos teatros.
Ah! Então.
Exatamente nessa transição entre o jeito aristocrático e o jeito burguês de se financiar arte, surge Ludwig van Beethoven (1770-1827).
Ele nasceu em Bonn, na Alemanha. Seu pai era um alcoólatra violento, que alimentava sonhos de grandeza sobre o talento precoce do filho, e que queria garantir que ele fosse um novo Mozart com surras de cinta. Mas Beethoven não foi um menino prodígio. E o talento que ele demonstrava desde petitico, só amadurece aos 22 anos, quando Beethoven se livra do pai e muda para Viena. Lá, ele alcança algum reconhecimento como improvisador ao piano, tocando em bares. Suas primeiras composições agradam parte do púbico, mas nenhuma parte da crítica.
Mesmo assim, Beethoven passa os anos mais felizes em Viena. Essa primeira parte de sua vida profissional ele passa flanado por entre simpáticos aristocratas que o financiam e o tratam muitíssimo bem. Seu jeito rude, instável, grosseiro e seus comentários insolentes são tidos como excentricidades inerentes ao talento – os ares do Romantismo já sopravam, os gênios tinham certas liberdades.
Beethoven sonhava em casar-se com uma jovem aristocrática bonita e rica e “uma dessas condessas da qual ignoramos o nome: é a famosa amada imortal, da qual Beethoven fala em uma carta não datada e sem endereço, talvez fosse aquela à qual foi dedicada a Sonata ao Luar”. – Otto Maria Carpeax no O Livro de Ouro da História da Música.
Entre condessas, aristocratas simpáticos e sonhos de amor, Beethoven passa a 1ª fase de sua carreira.
No comecinho do século XIX, Beethoven começa a desenvolver uma doença misteriosa nos ouvidos que, lentamente, vai lhe roubando a audição.
Desesperado, ele pensa em se matar, mas por pouco tempo. Segue vivendo, continua compondo, namorando meio mundo, cultivando sua vasta obra e seu jeitão de gênio atormentado.
Em 1814, reúnem-se em Viena alguns dos mais importantes políticos, aristocratas e intelectuais da Europa, e Beethoven é aclamado como o maior músico do século e “como artista, só comparável a Goethe”. – O.M.C.
Ele, aliás, chamava a si mesmo de “Napoleão da Música” e foi o primeiro músico a impor condições aos seus editores.
Quando fica surdo de vez, Beethoven se afasta do convívio social. Conserva uns poucos amigos e parece ser bem chegado num copo. Esse é aquele Beethoven cabeludo, de cenho franzido e de cara amarrada, que conhecemos, cujo busto morava em cima do piano da minha professora de música, Tia Arlete.
Sua última aparição em público foi no dia 7 de maio de 1824, e ele já era incapaz de reger. Foram executadas a Nona Sinfonia e a Missa Solenis e Beethoven foi aclamado pela multidão que lotava o teatro.
Oia aqui. Esqueça aquela imagem de “pobre-surdinho-incompreendido-e-esquecido”, que Hollywood incutiu em nossas jovens mentes impressionáveis. Ele morreu pobrinho? Morreu. Não na miséria, não passando fome, só pobrinho. Meu avô também morreu pobrinho, e não era um coitadinho. Beethoven escolheu se afastar do mundo, escolheu gastar cada tostão de suas economias sustentando um sobrinho forgado. Essa história de “coitadinho do Ludovico” é uma palha que extrapola o Romantismo e vira romantismo rasgado. Ele nunca foi um coitado, nunca foi uma vítima. Ele era um cara durão pra cacete, lutador sim, sofredor jamais. Mesmo no lance da “Amada Imortal”, que até virou um livro e um filme, chatos pra cacete, é tudo uma fantasia do autor, uma belíssima fantasia. Caçamba, quem nunca sofreu por amor? Hum, e a surdez? Tá bom, o cara era surdo, mas a surdez só se tornou obstáculo pra Beethoven trabalhar nos últimos anos de sua vida. A gente tá acostumado (e tem certa necessidade mórbida), de ver até caras sérios, como o biógrafo Romain Rolland a tratarem a vida de Beethoven (e muitos outros) como uma luta inglória, “ele contra as forças do mal da sórdida e corrompida sociedade”. Cuidado. Beethoven teve uma vida feliz, cheia, criativa, divertida, animada e próspera. Seu IMENSOOO talento foi reconhecido em vida, ele comeu todo mundo que quis, foi venerado tanto pela nobreza, quanto pela burguesia e viveu segundo seus padrões e suas normas.
Para os franceses, ele foi romântico. Para os alemães, ele foi clássico. Pra mim, ele é do cacete.
O fato é que, para muitos, Beethoven esgota certas formas e gêneros: fica difícil, depois dele, escrever uma sinfonia ou uma sonata realmente inovadora.
A liberdade e a questão pessoal estão sempre presentes na obra de Beethoven. Não à toa que ele é considerado o grande artista individualista de todos os tempos, sua maior qualidade, enquanto compositor, é sua individualidade. Suas sinfonias, seus quartetos de cordas, as pastorais, as sonatas para piano, a grande Missa Solemnis, todas elas nos arrebatam, sua força nos deixa prostados e as promessas de poder de sua música fazem nossa cabeça girar.
Ele é meu favorito, e, minha mãe, que entende muito mais de música do que jamais serei capaz, bate na minha cabeça com a caixinha do CD do Mozart. Mas eu não ligo. Ele é e pronto.
Semana que vem?
Claro.
* imagem daqui
**bibliografia? tem um mundo de coisa, mas esse aqui você tem que ler: O Livro de Ouro da História da Música, de Otto Maria Carpeax