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Arquivo de julho, 2009

31/07/2009 - 13:49

Cinema


 
Cinema é fotografia.

Você já ouviu essa frase mil vezes. E é mesmo.

O cinema só existe, você só tem a chance de olhar para a cara linda do Robert Redford e maldizer sua própria carga genética porque, no século XIX, um cara chamado Joseph-Nicephore Neepce e outro nego, chamado Louis-Jacques Laguerre, na França, inventaram a fotografia.

Ela inventada, um monte de outros homens, com suas experimentações e pesquisas, foram incrementando o processo, decompondo fotos, projetando a imagem com luz, explorando sua possibilidade de movimento, fixando imagens no filme de celuloide.

Daí, os irmãos Lumiere conseguem projetar imagens ampliadas numa tela, graças ao cinematógrafo, um equipamento que tem um mecanismo de arrasto para a película.

Por fim, são eles que definem a arte de fazer cinema. Objetivamente, cinema é a técnica (oui, e a arte), de projetar imagens animadas numa tela, através de um projetor.

Do latim imago-gims, vêm imagem, imaginação e imaginário.

Então, você tá lá no escurinho do cinema, com pipoca e todo um sortimento de balinhas e drops, pra quê? Pra entregar sua cabeça e seu tempo pra alguém que vai ocupar seus pensamentos pelas próximas horas.
A sala escura está cheia de outras pessoas, prestes a passar pelo mesmo que você.

O cinema nos pega auditivamente, tem música (uma das mais primitivas forma de arte), mas tem imagens – e nós somos extremamente visuais. Mais que isso, ele te obriga a ficar imóvel, prestando absoluta atenção à trama, por 90, 120 minutos ou mais, e no escuro – você não recebe nenhum outro estímulo.

Além disso, ao contrário de teatro e espetáculos de dança – que também têm som e imagem e também são assistidos no escuro, no cinema você pode se entregar sem medo, pode projetar seus sentimentos na tela sem nenhum pudor porque o que está ali na sua frente não são pessoas reais – são representações de pessoas.

O cinema é a loucura de todos nós, é de longe a forma de arte mais querida, que desperta mais paixões, porque ele encerra em si todas as outras formas de arte. Porque nele, de muitas formas diferentes, cada um de nós é o protagonista. Porque, finalmente, nos sentamos todos juntos, vendo juntos sombras na parede da caverna, aconchegados e em segurança, vivendo aventuras que jamais viveríamos.

O entretenimento é a coluna dorsal do sistema capitalista. Trabalhamos 8 horas por dia e dormimos 8 horas por dia, mas o que nos move é a possibilidade de brincar 8 horas por dia.

O entretenimento, aliado sempre ao consumo, é a cenoura presa numa vara de pescar, meio metro à frente do cavalo. A promessa de que iremos nos divertir é o que mantém a carroça em movimento.
 

O que é que você vê? Possibilidades de diversão. De entretenimento. Vivemos e trabalhamos, aceitamos todas as regras, aturamos todas as chatices – porque falta pouco pro feriado. Porque este ano o feriado cai na terça, porque este final de semana eu vou pra São Paulo com a Ângela enfiar o pé na jaca, porque esta pilha de trabalho vai me permitir comprar aqueles livros caros.

Nunca foi fácil viver, jamais a vida humana correu sem percalços. Os sistemas políticos vêm e vão, e nada, nada mesmo, é definitivo.

Sabendo disso, o sistema capitalista nos oferece algo em troca. Fica, amor, fica, eu sei que o trabalho é duro, mas olha todas as coisas divertidas que você pode fazer se ficar!! Olha quanto filme, cinema com ar refrigerado e pipoca em embalagem-balde, montes de peças de teatro, algumas até com ator da Globo, festival de dança panamericana, Bienal de Arte cheia de instalações, fica amor, fica! A gente transforma tudo o que você quiser em arte e em entretenimento, culinária, moda, jardinagem, fica, que aqui tem 200 canais de TV!!

Queremos, basicamente, ser felizes, certíssimos que essa felicidade passa pela diversão – o capitalismo descobriu que a arte divertida nos encontra e nos acalma – nos ajuda a suportar a reunião das 11, o chefe bolha, os alunos que guincham e a dor. O entretenimento serve muito bem ao consumo-totem sagrado do capitalismo, gera receita, dá empregos e nos faz suportar esta vida de merda. Nada mal.

A vida cotidiana de cada um de nós depende de uma intrincada e bem articulada rede de entretenimento, que passa pelos valores culturais de cada sociedade, pela produção industrial e pelos valores ideológicos, que vão do gibi ao Programa do Ratinho, do seu blog favorito ao último filme-cabeça que você viu no festival.

 

O cinema supre nossa cota necessária de fantasia pra que consigamos aguentar a cultura de trabalho que mantém nossa vida como é. A gente sabe que é “mentirinha”, mas é uma mentirinha tão verossímil, tão crível. A sala escura aumenta a evidência da tela colorida, e o tamanho dos seres humanos que vemos é tão proporcional, é tão real, é tão fácil de acreditar.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: ,
29/07/2009 - 14:31

Baco, sempre

Baco é pop e o pop não poupa ninguém.

Baco não é a prova viva de que samba não se aprende no colégio.

Baco não tem um i-pod.

Baco nunca saltou de paraquedas.

Baco não come sucrilhos.

Baco não acha os pandas fofinhos

Baco nunca leu Harry Potter.

Baco nunca assiste CSI e nem West Wing, mas adora documentário de
bichinho e torneio de cachorro pegando frisbee.

Baco não sabe fazer miojo.

Baco não joga basquete.

Baco não tem uma câmera fotográfica digital.

Baco não compra dólares.

Baco não faz sapateado.

Baco nunca foi pescar no Guarujá com o vô Affonso.

Baco gosta muito de batata frita. E de salsicha.

Baco não sabe voar.

Baco odeia reunião de condomínio.

Baco não se tornou conhecido na noite boêmia do bairro da Lapa.

Baco não se encontra abalado física e mentalmente.

Baco não conduziu a política exterior britânica durante a convulsão da Revolução Francesa.

Baco não é um réptil da família dos boídeos.

Baco não é o fruto da pitombeira.

Baco nunca foi à Ilha de Tortuga.

Baco não sabe qual é o principal traço morfológico dos pelicanos.

Baco não foi o autor da epístola que frisa o conhecimento hierárquico da Igreja Católica.

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags:
24/07/2009 - 18:05

Noutras palavras, sou muito romântico – III

Ainda sobre Romantismo, anotações soltas, para acabar.

- O romantismo domina a música do século XIX. Weber, Schubert, Hoffman, Meldesson, Schumann, Berlioz, Verdi, Wagner e Brahms (pelo menos nalgum ponto de suas alegres carreiras) são românticos. E, mesmo assim, eu pulei um monte.

- Mesmo com traços em comum, os românticos são todos diferentes entre si. O romantismo, ao permitir liberdade de expressão, incentiva os talentos individuais e, claro, as diferenças entre seus representantes. E mais, autores de países diferentes ainda são mais diferentes entre si, de tal forma que o estudioso Otto Maria Carpeax, não fala em Romantismo na música, mas sim em Romantismos: Romantismo alemão, Romantismo francês, Romantismo inglês etc..

- O Romântico está sempre recriando a realidade. No Neoclassicismo, essa recriação passava pela imitação da arte greco-romana.
Já no Romantismo, não se espera a obediência a esquemas pré-estabelecidos, nem modelos de criação gregos e latinos. O Romântico se expressa de forma única, individual.

- A busca do Romantismo será sempre analisar e se expressar por meio dos sentimentos, não mais da razão. O sentimento individual dá a dimensão exata do mundo, que busca, ao expressar-se, o absoluto, o infinito, a perfeição – que são inalcançáveis. A impossibilidade de alcançar a perfeição, o ideal, gera insatisfação, amargura, sofrimento e dor, que, de muitas formas, são as molas propulsoras para a criação Romântica. Conheci poucas coisas que representem melhor esse espírito Romântico, essa característica Romântica em especial, do que um trecho de uma linda carta de amor que Camile Claudel escreve para Rodin. Sim, eu sei, eles tão lá pra frente, invadindo o século XX, mas o espírito é o mesmo. À certa altura, ela diz “Há algo de ausente que me atormenta”.

- É isso. O artista Romântico é empurrado adiante por essa coisa ausente, essa completude que nunca chega, esse tormento de saber-se, para sempre, incompleto. O tormento e o desespero são tantos e tão profundos, que muitas vezes o artista Romântico não vê outra alternativa, a não ser a morte.

- O Romântico se sente um desajustado. “Tal desajustamento conduz ao mal do século, definido como a aflição e a dor decorrentes da falta de sintonia com o mundo.” – Faraco e Moura, no Língua e Literatura.

O mal do século é esse estado de espírito que acaba por levar o Romântico a procurar a solidão, a viver sua dor e seu sofrimento de maneira profunda e contínua.
Também como saída para o desequilíbrio que via à sua volta, o Romântico desenvolve formas de fuga ou de evasão da realidade.

- Uma das formas de evasão do Romântico, é o tempo. Ele recua em busca do passado histórico ou individual, em busca de completude, em busca da felicidade que existiu um dia. O Romântico é o rei do “eu era feliz e não sabia”.

- Acho encantador verificar quão românticos ainda somos. Somos tão, tão tocados por esse movimento de séculos atrás, somos tão influenciados por ele, dependentes dele até. Temos todo um sistema de crenças e vários kits de sobrevivência emocional calcados nesse período. Somos maniqueístas e nacionalistas e saudosistas e tudo o mais que o Romantismo exaltou. Somos sim, todo o tempo, queiramos ou não, para o bem e para o mal. Hum. Inté.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
22/07/2009 - 16:04

Num fevereiro distante

Mana, tenho pensado muito em você. Muito. Os dias têm sido uma confusão, horas curtíssimas mescladas a outras intermináveis, um vento abençoadamente frio para esta altura de fevereiro e uma caixa postal que cospe e-mails nos meus olhos, o que me faz ainda mais cega do que já sou. E, uns dias atrás, véspera da entrega de um trabalho, hahahaha – sou uma fraude, dona Naty – tive um dia que, mesmo tendo começado bem, com café com leite numa caneca enorme, bolo de cenoura e abracinhos, rapidamente descambou para caixas de livros, móveis empilhados, prateleiras desabadas e, no meio disso tudo, eu ali catando palavrinhas e aceitando sem vergonha ou pudor, ajuda de amigos de 4 cantos deste mundo, porque o prazo, o prazo.  Cheguei à casa quase às de dez da noite, completamente imunda e podre, tomei banho e me acomodei na cama, com Antônio Carlos – meu laptop – o preto que satisfaz. Liguei a tevê para ter um barulhinho enquanto trabalhava e lá estava ele, Dona Naty, nosso filme, Little Miss Sunshine. Nas horas em que o filme durou, fui um pouco de tudo, fui o tio viado que não conseguiu se matar, fui a mãe sobrecarregada e exausta e o menino que não quer falar e que não vê a hora de crescer. Fui o pai babacão e a meninazinha que chora na cama e fui o avô que consegue o que quer. E fui a kombi amarela também, grande e desajeitada, dando problema nas estradas e carregando seus mortos. Eu assisti, escrevi, um olho no peixe e o outro no gato, pensei em você, nas suas sacadas, na sua generosidade, na sua graça e nas nossas conversas quilométricas. Já antes, mas principalmente depois que ele morreu, sua doçura, via Embratel e ao vivo, me redimiu, me salvou de mim mesma mais de uma vez, me amparou e me fez rir até sair coca-cola do meu nariz. E agora, aqui, ainda no texto cujo prazo vence à meia noite – mas quem é que está contando? – com um olho no trabalho e outro no Mr. Monk, ainda penso em você. Espero que você tenha uma boa semana. E que perdoe minha ausência, não é trabalho demais, é organização de menos.  Sigo, não graças ao meu caráter estóico, à minha ‘força’ ou a qualquer outra bobagem dessas, nas quais você sabe que eu não acredito, eu sigo, cá entre nós, porque só há uma direção. Se houvesse outra, eu a escolheria, como confessei para uma moça linda, de lindos olhos escuros, ontem mesmo, pela manhã. O futuro me paralisa, as providências práticas me embaralham, a preocupação com grana ainda faz a nuvenzinha cinza estacionar sobre a minha cabeça, a gratuidade das coisas, a crueldade das pessoas ‘espiritualizadas’ (repare bem no contingente enorme dos ‘espiritualizados’ que possuem uma filha-da-putice que não condiz com criaturas que realmente acreditam que a vida é uma ‘passagem’ e em coisas como ‘resgate’ e ‘aprendizado’. Nunca entenderei.) ainda me deixam sem ar, de modos que eu vou indo, Mana. Aliás, seguimos Antão, Peixoto, meus neuroninhos capengas e eu,  juntos não geramos nem 70 pontos de QI (os gatos dão de dez a zero em nós e vivem nos levando na conversa), mas a ignorância é uma benção, ainda que disfarçada. Amor, sempre.
Eu.                                                                                  

PS: Só mais uma coisiquita, mana: em verdade vos digo, não existe nada, nada mais doce do que descer dum avião horroroso, num dezembro pavoroso por-si-só e dar de cara com você, usando sandálias lindas e um sorriso esplendoroso, sendo doce e me fazendo respirar.

 

*foto dele, Nelsin Biagio Jr.,  as usual

 

 

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags:
20/07/2009 - 15:53

Maria Rita

Ela sente vontade de chorar. Como uma adolescente, como uma idiota. Porque ele não a quer. Porque ele não sinaliza. Na verdade, porque ele não sinaliza como ela quer, o que ela quer. Ela quer uma xícara gigante de café e algum carinho no rosto. Mas ele diz uma coisa num dia, uma coisa completamente diferente num e-mail, em seguida, e uma terceira coisa, tirada sabe Deus lá de onde, num telefonema esquisito. Ela é uma senhorinha, ela já tem muita experiência, ela não precisa ler aquele livro para entender que ele não a quer. E, além disso, ela não é burra, ela entendeu cada sinal. Mas ela tenta. Sejamos francos, ela se humilha. É ridículo, mas ela passa mensagenzinhas para ele pelo celular. E ela nem quer dar pra ele. Bom, pelo menos, não muito. Ela quer companhia. Ela quer ouvir sua risada. Ela quer que o abismo desapareça por umas horas. E, quando ele manda uma carta que termina com “tenha uma boa semana”, ela se sente mortalmente ofendida. Como é que ele acha que ela vai ter uma boa semana sem vê-lo? Ela quer cometer todos os erros conhecidos, de novo e de novo.

 

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
17/07/2009 - 15:11

Noutras palavras, sou muito romântico II

retrato de Beethoven pintado por Joseph Karl Stieler em 1820

Ah, a vida. Eis que a vida muda. Sempre. Queiramos nós ou não. E, geralmente, láááá no fundo, não queremos, mas isso é conversa pruma outra sexta-feira.

Bão. Durante o século XVIII, nossas vidas mudaram como nunca, lembram? A revolução intelectual, a Independência Americana, a Revolução Francesa, o Iluminismo, a burguesia no poder (só pra gente ter em mente: quando a Revolução Francesa terminou, a Europa tinha 180 milhões de habitantes. Em 1914, 460 milhões).

Nossas vidas nunca haviam sido tão complexas.

E, com isso, eu não quero dizer que os que vieram antes de nós tinham vidas fáceis ou simples, porque o passado nunca foi feito de “bons e velhos tempos que não voltam mais”, não nos iludamos.

Mas o fato é que nunca na história tínhamos tanto com o que lidar, não importando a qual classe econômica pertencesse nossa família.

Ideais sociais e políticos multiplicavam-se, a confusão era geral, conflitos e problemas sociais surgiam de todos os lados  - e nós não sabíamos nem por onde começar.

Contrário ao Neoclassicismo, o Romantismo baseia-se na liberdade de criação e no individualismo, tão caro à burguesia.

Metamos o martelo nas teorias, nas políticas e nos sistemas. Abaixo esse velho reboco que mascara a fachada da arte. Nada de regras, nem de modelos!” – Victor Hugo.

Com a burguesia alçando voo e transformando-se na nova força política e financeira na Europa, no final do século XVIII, tanto o clero quanto a nobreza, perdem a função de mecenato.

Eles não podem mais financiar os artistas, pelo menos não da forma e na quantidade em que costumam financiar – falta-lhes cacife.

A burguesia passa a ser a grande consumidora de arte no continente, mas, caras, a burguesia tem seu próprio jeito de fazer as coisas: o jeito capitalista. Era comum que o artista patrocinado pela nobreza  – fosse qual fosse sua área de atuação – não raro, vivesse na propriedade de seu gentil patrocinador, que assumia suas despesas e lhe dava um salário e condições de criar, enquanto lhe fazia encomendas.

O burguês, por outro lado, raramente encomendava alguma coisa. O que ele queria era pagar o preço justo (ou o que ele considerava justo) para assistir, ouvir, olhar ou ver a mais recente criação do artista. Exatamente como nós fazemos hoje. Como assim? Olha só: por mais que eu ame o Kenneth Branagh e os filmes que ele faz, eu não dou casa, comida e roupa lavada pra ele, e muito menos faço encomendas de filmes e pago por isso. O máximo que eu faço é pagar o ingresso do cinema e o aluguel da fita de vídeo (umas 200 vezes) e achar que ele é maravilhoso – mesmo não tendo boca.

 

Com o advento da Revolução Industrial, do começo do capitalismo e, sure, do Romantismo, somem os mecenas.

Os financiadores da arte passam a ser os membros daquela massa anônima, que agora pode pagar para ver coisas bonitas também (embora, na maioria das vezes, não possa pagar para tê-las – como nós, amiguinhos), e que assiste aos artistas, ávida por novidades, no escuro dos teatros.

Ah! Então.

Exatamente nessa transição entre o jeito aristocrático e o jeito burguês de se financiar arte, surge Ludwig van Beethoven (1770-1827).

Ele nasceu em Bonn, na Alemanha. Seu pai era um alcoólatra violento, que alimentava sonhos de grandeza sobre o talento precoce do filho, e que queria garantir que ele fosse um novo Mozart com surras de cinta. Mas Beethoven não foi um menino prodígio. E o talento que ele demonstrava desde petitico, só amadurece aos 22 anos, quando Beethoven se livra do pai e muda para Viena. Lá, ele alcança algum reconhecimento como improvisador ao piano, tocando em bares. Suas primeiras composições agradam parte do púbico, mas nenhuma parte da crítica.

Mesmo assim, Beethoven passa os anos mais felizes em Viena. Essa primeira parte de sua vida profissional ele passa flanado por entre simpáticos aristocratas que o financiam e o tratam muitíssimo bem. Seu jeito rude, instável, grosseiro e seus comentários insolentes são tidos como excentricidades inerentes ao talento – os ares do Romantismo já sopravam, os gênios tinham certas liberdades.

Beethoven sonhava em casar-se com uma jovem aristocrática bonita e rica e “uma dessas condessas da qual ignoramos o nome: é a famosa amada imortal, da qual Beethoven fala em uma carta não datada e sem endereço, talvez fosse aquela à qual foi dedicada a Sonata ao Luar”. – Otto Maria Carpeax no O Livro de Ouro da História da Música.

Entre condessas, aristocratas simpáticos e sonhos de amor, Beethoven passa a 1ª fase de sua carreira.

No comecinho do século XIX, Beethoven começa a desenvolver uma doença misteriosa nos ouvidos que, lentamente, vai lhe roubando a audição.

Desesperado, ele pensa em se matar, mas por pouco tempo. Segue vivendo, continua compondo, namorando meio mundo, cultivando sua vasta obra e seu jeitão de gênio atormentado.

Em 1814, reúnem-se em Viena alguns dos mais importantes políticos, aristocratas e intelectuais da Europa, e Beethoven é aclamado como o maior músico do século e “como artista, só comparável a Goethe”. – O.M.C.

Ele, aliás, chamava a si mesmo de “Napoleão da Música” e foi o primeiro músico a impor condições aos seus editores.

Quando fica surdo de vez, Beethoven se afasta do convívio social. Conserva uns poucos amigos e parece ser bem chegado num copo. Esse é aquele Beethoven cabeludo, de cenho franzido e de cara amarrada, que conhecemos, cujo busto morava em cima do piano da minha professora de música, Tia Arlete.

Sua última aparição em público foi no dia 7 de maio de 1824, e ele já era incapaz de reger. Foram executadas a Nona Sinfonia e a Missa Solenis e Beethoven foi aclamado pela multidão que lotava o teatro.

Oia aqui. Esqueça aquela imagem de “pobre-surdinho-incompreendido-e-esquecido”, que Hollywood incutiu em nossas jovens mentes impressionáveis. Ele morreu pobrinho? Morreu. Não na miséria, não passando fome, só pobrinho. Meu avô também morreu pobrinho, e não era um coitadinho. Beethoven escolheu se afastar do mundo, escolheu gastar cada tostão de suas economias sustentando um sobrinho forgado. Essa história de “coitadinho do Ludovico” é uma palha que extrapola o Romantismo e vira romantismo rasgado. Ele nunca foi um coitado, nunca foi uma vítima. Ele era um cara durão pra cacete, lutador sim, sofredor jamais. Mesmo no lance da “Amada Imortal”, que até virou um livro e um filme, chatos pra cacete, é tudo uma fantasia do autor, uma belíssima fantasia. Caçamba, quem nunca sofreu por amor? Hum, e a surdez? Tá bom, o cara era surdo, mas a surdez só se tornou obstáculo pra Beethoven trabalhar nos últimos anos de sua vida. A gente tá acostumado (e tem certa necessidade mórbida), de ver até caras sérios, como o biógrafo Romain Rolland a tratarem a vida de Beethoven (e muitos outros) como uma luta inglória, “ele contra as forças do mal da sórdida e corrompida sociedade”. Cuidado. Beethoven teve uma vida feliz, cheia, criativa, divertida, animada e próspera. Seu IMENSOOO talento foi reconhecido em vida, ele comeu todo mundo que quis, foi venerado tanto pela nobreza, quanto pela burguesia e viveu segundo seus padrões e suas normas.

Para os franceses, ele foi romântico. Para os alemães, ele foi clássico. Pra mim, ele é do cacete.

O fato é que, para muitos, Beethoven esgota certas formas e gêneros: fica difícil, depois dele, escrever uma sinfonia ou uma sonata realmente inovadora.

A liberdade e a questão pessoal estão sempre presentes na obra de Beethoven. Não à toa que ele é considerado o grande artista individualista de todos os tempos, sua maior qualidade, enquanto compositor, é sua individualidade. Suas sinfonias, seus quartetos de cordas, as pastorais, as sonatas para piano, a grande Missa Solemnis, todas elas nos arrebatam, sua força nos deixa prostados e as promessas de poder de sua música fazem nossa cabeça girar.

Ele é meu favorito, e, minha mãe, que entende muito mais de música do que jamais serei capaz, bate na minha cabeça com a caixinha do CD do Mozart. Mas eu não ligo. Ele é e pronto.

Semana que vem?

Claro.

 

* imagem daqui

**bibliografia? tem um mundo de coisa, mas esse aqui você tem que ler: O Livro de Ouro da História da Música, de Otto Maria Carpeax

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: ,
15/07/2009 - 12:49

Rembrandt e outras delicadezas

                                    

Rembrandt, Filósofo em meditação

 

Hoje, mas em 1869, a margarina foi patenteada, em Paris. Já comíamos lixo antes, eu sei, mas é um marco, vá? Uma das piores ideias desta humanidade tão cheia de ideias ruins.

*

Porque a delicadeza, suas muitas formas e detalhes, têm estado em meus pensamentos (e, espero, em minhas ações). Porque a delicadeza e tudo o que ela encerra, por uma porção de motivos que não vêm ao caso, tem me ocupado os dias. Porque a não-delicadeza para comigo deixou de ser um estado natural do meu coração e me fez ver que eu mereço mais, sim, até mesmo de você, tenho passado algum tempo apagando endereços das agendas e da caixa postal, fotos e bilhetes. Porque a delicadeza, em estado bruto ou lapidado, em suas mais variadas manifestações, é cada vez mais necessária, ler a Claudia Letti me fez feliz: A moça que faz a limpeza em casa virou um quadro, por engano. Quem chega elogia as flores de cabeça pra baixo. Não conto. E não desviro.”

*

Ainda falando de delicadeza, Ney, nos comentários: “Não há fracasso pessoal, há sim, busca, espera! Que se danem os fortes, cheios de soberbo “amor próprio”, mas tirar a espera de quem tem tão pouco??? Só o tempo, que é implacável com fortes e fracos, pode atirar essa pedra.”

*

Os templos românicos se orientam para leste: é onde o sol nasce e é onde Jerusalém está.

*

E hoje, em 1606, nasceu o holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn, já que falamos em delicadeza.  Goya, aquele homem brilhante, à certa altura da vida disse que só reconhecia três mestres: Velázquez, Rembrandt e a Natureza. Mestre de Goya, portanto, e também do corpo, da alma e dos estados de espírito.  Rembrandt sabia o que fazer sobre o chiaroscuro. Adorava contrastes fortes de luz e sombras. A escuridão em seu trabalho oculta detalhes desnecessários e os contrastes dramatizavam cenas comuns. Sua personagem principal é a luz, não a claridade pura que realça as formas, mas aquele raiozinho fugidio que é afogado na sombra. Seus belos efeitos de luz e sombras estão em toda parte, em cada rosto, nos chapéus, nos objetos em cima das mesas. E as vidas daquelas pessoas ficam tão importantes, cada pequeno gesto é tão relevante e revelador. É de extrema delicadeza enxergar na vida do outro, seus maiores e menores gestos, tamanha relevância. Ninguém entendeu a angústia e a solidão como ele, salvo, talvez, Van Gogh, muitos anos depois, pelo menos é minha humilde opinião. O mistério da vida, a finitude humana, a impotência de cada um de nós. Está tudo lá. Dê uma boa olhada no trabalho desse cara. É introspectivo, é quase doloroso e todo mundo com cara de quem sabe um grave segredo sobre a vida e não vai te contar. Rembrandt está no barroco, mas Rembrandt não é barroco, dá para entender? Como nós, de muitas formas.

* 

“A vida é tão elaborada que o evento não pode e não vai igualar-se à expectativa”

                   Charlote Brontë

 

 

 

*imagem daqui

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , ,
10/07/2009 - 20:56

*Noutras palavras sou muito romântico – I

 

Há séculos usamos “romantismo”, e todos os seus derivados, como uma espada, como um escudo, como ataque e defesa, como definição para o que é e o que não é “definível”. O que importa é ser romântico, sentir o romantismo, espalhar o romance. Romantismo nos arrasta a conceitos tão vagos quanto ele, hipervalorizados como ele e, como ele, difíceis de definir e enquadrar, tais quais amor, glória, beleza, sedução.

 

É romântico o pagodeiro careca que pede, gemendo e piscando, que você ligue no celular dele, é romântico o final de Casablanca, mesmo que a mocinha e o mocinho não terminem juntos. Romântico também é o papel de carta da Hello Kitty, as almofadas de coração no quarto da menina, a mocinha em “Cantando na Chuva” sacrificando a própria carreira, o Alexandre que me levava sabonetes artesanais num dia de semana sem qualquer motivo aparente.

Tudo isso e o que mais você quiser incluir nessa lista são presentificações de valores que o estilo romântico marcou em nossos corações, a ferro e fogo no século XIX: um certo saudosismo, aquela sensação de que no passado é que era legal, a vida idealizada, o parceiro idealizado, a certeza meio amarga – meio blasé, de que os bons dias de outrora não voltarão, o grande amor que nos redimira a todos e, claro, o final da estória recheado de casamentos, vilões punidos e mulheres grávidas.

Os deliciosos professores Faraco e Moura ensinam que o romantismo pode ser um estado d’alma. E esse tal “estado d’alma” pode aparecer em qualquer época, em qualquer tipo de manifestação artística, em maior ou menor intensidade.

Romantismo, assim, pode designar um estado de espírito, um modo de sensibilidade, de ver a vida, senti-la e reagir a ela.

Mas o Romantismo é também o nome de um movimento artístico.

Ele compreende a tendência geral da arte que era feita do final do século XVIII até meados do século XIX (embora diferentes autores dêem diferentes datas, e me deixem doida).

O Romantismo, quando se fala em estilo de época, é algo que acontece entre o final do século XVIII e meados do século XIX. O termo reina numa atmosfera dramática – amorosa, vasta e ao que parece, inacabável.

A localização histórica do estilo romântico é explicação para quase tudo: na Revolução Francesa em curso, no final do século XVIII, cabeças nobres eram cortadas. Um pouco antes disso os Estados Unidos se libertaram da Inglaterra e criaram o primeiro governo constitucional da América. Na Inglaterra, uma forma de produção sem paralelos transformava o mundo como nada antes o fizera.

Quem é que tem o poder nesse mundo nosso? Quem tem grana, como sempre foi, certas coisas não mudam. E quem tem grana? Acertou, a burguesia.

A burguesia tem padrões diferentes da nobreza que uma porção de sentidos, ainda que admire a nobreza e queira imitá-la também num montão de cousas. A burguesia tem que erguer e alicerçar seu, hohoho, “império”, sobre novos padrões. Seus parâmetros são diferentes, seus objetivos também.  

O estilo Romântico será a expressão artística dessas circunstâncias históricas. Foi um movimento que abraçou com a mesma fúria apaixonada o conservadorismo e o desejo libertário, o ontem e o hoje, as novidades e as fórmulas consagradas, o poder e a revolta. Debaixo do signo romântico, coube, e cabe, de um tudo.

 

Contradição, minha senhora? É claro que sim. O Romantismo foi o movimento das contradições por excelência: sua principal marca é o conflito entre o indivíduo e o mundo, o indivíduo e o Estado, o indivíduo e si mesmo – à medida que o homem romântico não corresponde nem às suas próprias expectativas, nem às suas próprias idealizações. A perplexidade do indivíduo diante do mundo que vê à sua volta a frustração do presente na qual se transformou sua crença no progresso, a vida nova prometida pelas muitas revoluções que não veio: tudo isso se traduziu no estilo romântico como emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia.

 

 

Opa… emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia??

Eba.

Sexta-feira que vem, sexta-feira que vem.

 

*frase se Caetano Veloso

**Foto do querido Nelson Biagio Jr.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , ,
08/07/2009 - 21:48

Não os fatos em si, mas os fatos em nós

  

por e-mail:

“(…) Compramos uma casa aqui. (…)Um dos resultados é que minha conta aí no Itaú saiu de sua condição normal (o vermelho) para entrar em outro nível, o infravermelho. E eu acho que, se eu não olhar para o saldo, não tem problema…”

*

por e-mail:

“Claro que as pessoas querem ler, e querem opiniões, e querem rir. Desde que elas concordem. Nem que seja um pouquinho. Se elas não concordam, é isso que se vê.

*

por e-mail:

“Ainda que Michael Jackson não tenha morrido de overdose, o brasileiro corre o risco de morrer de overdose de Michael Jackson” (R. Manso Neto via Eduardo Almeida Reis).

*

Telefone:

- E tu, vai no encontro de 20 anos?

- Eu? Eu não. E você?

- Fabia Vitiello de Azevedo, acompanhe meu raciocínio: nesses vinte anos eu não me casei, não tive filhos, não fiquei nem mais belo, nem mais atraente e tenho um emprego de merda. Vou lá contar vantagem do quê?

- Hahaha! Exatamente o meu caso. Adicione um carro velho e essa sou eu.

- Pois, quem não tem do que se jactar, não se mete nessas encrencas.

- Hahahaha, você deveria ir só pra conjugar o verbo jactar na frente deles.

- A modéstia me impede.

- Hahaha!

*

Recado no livro de visitas:

“Falzinha, essa de entrar sozinho em restaurante, sentar, balançar a taça de vinho, olhar para os lados e dar um sorriso já é rotina dos finais de semana. Pra quê companhia?”

*

Há muito tempo, uma carta:

“Falzuca:
Lá vai o texto com estrelinha rosa. Charles Bronson tá escrito certo, viu? Conferi no Google.
Eu vi o ‘Filme Falado’ e adorei…ahahahahahahahahah! Não me xingue.
Eu desconfiava que (ponto censurado, para que os felizardos que ainda num viram essa merda de filme fiquem p* no final, que nem eu), pois sabe, quando era mostrado o navio cortando o mar, toda vez do mesmo ângulo?…Reparou que o mar ia ficando mais escuro conforme o filme andava? Rá, eu presto atenção numas coisas…
Enfim, acho que a (trecho censurado) representa o fim da civilização contemporânea, não? Não era disso que eles vinham falando por todo o filme? E elas foram de navio, como todos os antigos iam, oras. Por que não foram de avião?
Enfim, fico divagando em assuntos bestas que é pra fugir dos pensamentos sobre a minha vida besta, sobre as pessoas que não merecem e nem nunca mereceram nenhum dos meus gestos, sobre a minha eterna (e patética) necessidade de fechar os olhos quando a luz está acesa.
Amor,
Lígia”

 

* a foto é de Nelson Biagio Jr. The best. 

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/07/2009 - 10:47

Ieda

 

 

 

Todas as velhas morreram.

Todas.

As velhas foram morrendo, foram acabando uma a uma.

Menos ela, claro.

Ela ainda está aqui.

Firme.

A Casa também permanece.

A Casa é eterna.

Ela esqueceu de morrer.

Aliás, ela nem pode morrer.

Se ela morrer, quem vai cuidar da Casa?

Quem é que vai mostrar para o jardineiro e para as meninas da limpeza e para o moço que limpa as calhas o que deve ser feito, se ela morrer?

Quem é que vai tirar o pó das fotos sobre o piano, quem vai manter o piano afinado?

Quem é que vai cuidar dos bichos, se ela morrer?

Ah, sim, porque cada velha tinha, pelo menos, um bicho.

Elas morreram, mas os bichos estão aí.

Há mais gatos que cães.

Mas os cães dão mais trabalho.

Alguns passarinhos.

Um peixinho dourado que desbotou, mas que é estranhamente resistente.

Uma tartaruga que desaparece de vez em quando.

Um papagaio comprado numa praia – ela viu na televisão que dá cadeia comprar papagaio, era só o que faltava.

Ela recebe visitas, às vezes.

Os parentes dela, e  das velhas que já morreram aparecem no final do ano.

Suas crianças barulhentas assustam os bichos, estragam as coisas e tiram as coisas do lugar.

Os adultos emendam um papo furado com olhares compridos para cima das coisas expostas.

“Titia adoraria que eu ficasse com esse serviço de prata…”

Ela atura, estoicamente, as hordas de final de ano e depois tenta não pensar mais nelas.

Ela recebe outras visitas também.

Historiadores, arquitetos, reitores de universidades.

Não importa se ligados a órgãos públicos ou não, ela os rotula vagamente como “gente do governo”.

Eles querem a Casa. E tudo que há nela.

Os livros.

As tapeçarias.

O piano.

Os baús de pau brasil.

As fotos.

As armas do papai.

Cada um deles espera que, antes de morrer, ela doe a Casa e tudo o que ela contém, para a universidade ou ONG que representam.

Ela serve o café,  sacode a cabeça lentamente e finge que sabe o que é uma ONG.

E depois que eles vão embora, ela também não pensa mais neles.

O que nenhum deles sabe, é que ela não vai morrer.

Aquela é a Casa dela, e ela vai ficar exatamente ali.

Se ela morrer, quem é que vai cuidar de tudo?

Quem vai alimentar os animais, quem vai deixar os quartos arejados, quem vai manter as cortinas sem traças, quem vai tirar as teias de aranha dos cantos e fazer a bandeja de prata brilhar?

Se ela morrer, a Casa morre também, condenada a ser uma clínica, escola de música ou algum tipo inútil de fundação.

Aquela é a Casa dela e ela não vai a lugar nenhum.

Ela vai ficar exatamente ali.

ps: ah, tá tão bonito nosso Delas, não está? Parabéns à Clarissa Passos.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
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