Arquivo de junho, 2009
Yes, we can
O mundo mudava a cada instante. O final do século XIX já anunciava que o século XX vinha aí e não ia ser nada fácil.
Graças ao Iluminismo (que correntes mais medievais tentam, nos dias que correm, fingir que não aconteceu), nossa mentalidade mudava. A aprendizagem, a educação da busca de informação e, claro, de formação, tornam-se constantes, pelo menos na vida de parte da população de muitos países. E nós passamos a questionar várias verdades absolutas. Inclusive o papel da mulher na sociedade. Inclusive, ahá, a proibição do voto feminino em todos os cantos do planeta. Entenda, o direito votar foi sempre o primeiro passo nas reivindicações femininas. Ter direito de ajudar a escolher os rumos de sua nação, abre as portas de uma nova vida e da possibilidade de viver novos papéis para todas as mulheres, de qualquer lugar.
Em 1893, na Nova Zelândia, as mulheres alcançam o direito ao voto, graças a um movimento liderado pela inglesa Kate Sheppard.
A luta das inglesas continua. Em 1897, Millicent Fawcett dá voz ao movimento, organizando-o e usando as próprias mulheres para pressionar o governo. Graças a uma série de leis novas, elas podiam, depois de casadas, manter o controle de suas propriedades e/ou pedir o divórcio! Elas também já podiam freqüentar Universidades.
O movimento sufragista começou a ganhar força entre as mulheres de classe média, mas em pouco tempo a classe trabalhadora e a aristocracia aderiram também. Por volta de 1900, lideradas por mulheres como Emmeline, Christabel e Sylvia Pankhurt, a mulheres começaram a fazer passeatas e piquetes e a se acorrentar à galeria de visitantes na Câmara dos Comuns para exigir mudanças. Elas também rasgavam telas em museus, invadiam santuários masculinos como clubes e pistas de golfe para escrever com ácido na grama “voto para as mulheres”, quebravam vitrines de lojas, incendiavam residências de políticos.
O governo as prendia e elas faziam greve de fome. Sem saber direito como lidar com a situação que havia se tornado uma bomba-relógio, o governo britânico aprovou então uma lei dúbia, chamada “Do Gato e do Rato”, que autorizava que as prisioneiras fossem soltas quando as greves de fome as tornasse muito doentes e que previa que, depois de recuperadas, elas deviam ser presas de novo.
Em 1914, com a Primeira Guerra, o movimento foi interrompido. Só em 1918 as inglesas puderam votar. E tão importante quanto, puderam ser eleitas.
E se hoje podemos escolher se queremos ou não nos casar (e com quem), se queremos ou não ter filhos, cortar os cabelos, fumar em público – e, vamos esperar, que, um dia, até mesmo votar aqui no Brasil, pois o voto deveria ser um direito comum a todos os cidadãos, não uma obrigação – devemos a todas as mulheres que vieram antes de nós, e às que vieram antes delas. A história é um processo, um contínuo, um fluir sem fim e não um monte de dados e fatos isolados e sem ligação. E entender a vida, os motivos e as questões de quem veio antes de nós, ajuda a entender, sim, quem somos e para onde vamos, mas mais importante que isso, porque fazemos as coisas que fazemos. Nossas escolhas, todas elas, começaram um em algum lugar. Vamos estudar.
PS: No Brasil, podemos votar desde 1932. Foi outro dia.
(ah, sim: esse site, em inglês, traz muitas informações interessantes sobre o assunto)
Marli

Comunista sim, senhor, como não? Comunista de proibir Sílvio Santos e Pato Donald, os mais temíveis agentes do capitalismo imperialista. Não comia criancinha, mas bem que mascava uns pés de criancinhas, prelas verem o que era bão. Érico Veríssimo na cama, depois da escola, antes do almoço. Chico Buarque no carro, buscando as crianças na escola. Ah, sim, crianças ainda, ambos com mais de trinta. Cachorros enormes. Banho nos cachorros enormes. Internacional Comunista era canção de ninar. Quando todo mundo tinha patins de botas, a filha ganhou patins de tênis, lindos, azuis, sensação, “foi minha mãe que escolheu”. Cabelo tão fininho, paina, “pêlo” de pintinho. Italiano sem sotaque, francês de moça de colégio de freiras, latim dos césares. Mãos lindas, de fazer comercial, frias, frias, unhas com esmalte clarinho, gelatina e complexo B. Pés tão magrinhos que, segundo o genro, não têm meio, só começo e fim. Peitos lindos, um dos orgulhos da vida da filha. Perfume de limão. Sobrancelha que, erguida, vale por uma bronca de duas mil laudas, sobrancelha de cinema. Voz que treme um pouquinho às vezes, de gripe, de choro, de fome, de sono. Jogos de tênis, corridas do Ayrton Senna. Yoga. Muito pouca paciência com os imbecis desse mundo, o que quer dizer que vive impaciente. Veemência, apoio incondicional, discursos pelo telefone. Óculos, luvas, chapéus e carro doirado, a escola parava na hora da saída, o coração da menina explodindo de orgulho, de prazer com a exibição, “é a MINHA mãe”. Tom de voz ideal para manter à distância as setembrinas deste mundo. A melhor oradora do mundo, a melhor cantora do mundo. Nenhuma crença em Deus. Nem no diabo. Nem na Terra do Sol. Filmes do Fred Astaire, livros do Loyola, paixonite pelo Dr. Reis dividida com a filha. Remédio para diabetes engolido com Coca-Cola, enlatados americanos na TV “pela curiosidade sociológica”, claro, claro. Plantas que nunca morrem. Cabecices, livros de mitologia germânica, filósofos alemães, teólogos tchecos, filmes insuportáveis, vindos d’alguma parte suculenta e remota da Rússia, rádio do carro fixo em estações de música experimental, a filha suspirando de saco cheio, tapas na testa da filha. Feijoada, claro, mas light. Café com leite docinho. Teorias da conspiração borbulhantes, gritos de “Coisa da máfia, eu sabia, eu sabia!”, sempre que alguém morre ou se dá bem. Rins preguiçosos, críticas implacáveis, melhor amiga com câncer, pastora alemã com a barriga cheia de cachorrinhos, netos pouco vistos, filho genial, nora que sorri, filha mal-educada, genro perfeito, óculos na ponta do nariz, pudim de sobremesa, aniversário, anivrsário, aniversário.
Letícia

Ela entendeu errado, ela sempre, sempre entende. Viu sinais onde sinais não havia e meteu as sandálias lilás nos pés. As melhores sandálias que ela tem. Ou que ela já teve na vida, se você quer mesmo saber. Lindas, lindas sandálias, caras, sólidas, salto Anabela, um espetáculo. E evidentemente ela vestiu a calça mais molinha, a melhor blusa, fez o melhor cabelo. E foi, né? Com o melhor perfume atrás da orelha e os brincos de ametista.
E ele? Ele encheu a casa de gente. Gente simpática e falante e moderna e atuante. Ah, é maldade dela. São pessoas legais. São pessoas engraçadas. São pessoas.
Ela é que entendeu todos os recados errados. Ela é que perdeu as placas de indicação e foi parar, sei lá, no Andaraí. Ela definitivamente não entendeu coisa nenhuma e agora está lá, na sala moderna, minimalista, cercada de peças de bom gosto, cercada de pessoas falantes e seguras e sorridentes, cheia de dor, calçando as sandálias mais lindas que já teve na vida.
Um Coliseu para você e para mim

Era uma vez um imperador chamado Vespasiano. E a história dele começa assim:
Em 68 d.C. Nero foi derrubado pela oposição, declarado inimigo público pelo Senado, caçado pelos guardas da cidade. Com a ajuda de um escravo, Nero corta sua garganta antes de ser preso. Suas últimas palavras foram: “Que grande artista morre em mim”. Bão, com a morte de Nero, em 68 d.C., a cadeira tá vaga. De Julio Cesar a Nero era todo mundo da mesma linhagem familiar. Pela primeira vez, desde Julio Cesar, Roma não tem um herdeiro. Os generais romanos começam a se matar e, em um ano, Roma tem quatro imperadores: todos eles generais, todos eles querendo pudê. Muito pudê. Gaba, Otão, Vitélio, Vespasiano.
Gaba, Otão, Vitélio: Eles vão se tornando imperadores nessa ordem. Mas cada um deles tem base de sustentação muito fraca e são mortos pelo sucessor (quer dizer, Otão se matou). Cada um deles só é imperador por pouquíssimos meses. Acontece que Vespasiano era queridíssimo pelas legiões egípcias, assim como pelas legiões da Judeia e da Síria. Apoiadíssimo pelo exército, Vespasiano é aclamado imperador, manda matar Vitélio e estamos conversados. Seus homens matam Vitélio e vup, ele vira imperador. Vespasiano foi um sopro de ar fresco depois da confusão que foi o império do Nero e da bagunça Galba/Vitélio. Vespasiano fez uma rigorosa reforma tributária, cortou os gastos e promoveu uma estabilidade política muito bem-vinda. Ele era um cara comum, soldado, simples, frugal – e o povo o adorava por isso. Pacifica Roma, abafa rebeliões em Jerusalém, onde meio milhão de judeus morre e mais de cem mil são feitos escravos, reformulou o Senado e conquistou de uma vez por outra a Bretanha. Ele deu uma bela saneada nas contas do Império e também calou rebeliões na Gália. Ele restaurou o Capitólio e reorganizou o exército, que tava um lixo de bagunçado. Ele ampliou o império, fortaleceu as fronteiras. E quando morreu, virou Deus. Nada mal, né? Depois dele, Roma foi governada por seus filhos, um de cada vez, Tito e Domiciano.
Tá, mas e o Coliseu? Por que é que o Coliseu é tão importante? Porque o Coliseu não esteve sempre lá. E ele é um símbolo importante. De mudança. De perseverança. De poder. E, por que não, de grana. O que acontece é que Vespasiano precisava melhorar, rápido, a imagem do governo. Precisava tirar os 300 mil desempregados das ruas de Roma, onde a rapeize vivia bêbada, violenta e doidona. Vespasiano queria acalmar seus cidadãos. Diverti-los. Entretê-los. Fazê-los sentir orgulho de sua cidade. Fazê-los sentir-se parte de alguma coisa. Hum. Um anfiteatro. Diversão para 55 mil pessoas (tem historiador que dá 70 mil como o número máximo lá dentro), com entrada e saída fáceis, comida à vontade, todo mundo protegido da chuva e do sol, com uma visão bacana do espetáculo. Vespasiano era um cara sabido. Ele sabia que, pra redimir o Império das palhaçadas de Nero, ia ter que dar duro. O lugar escolhido foi exatamente o ponto onde Nero tinha seu lago de peixinhos. O recado do veio Vespa era claro: “Vou construir um lugar pro povo, onde todo mundo tenha acesso à diversão – é uma maravilha, mas não é pra mim, é pra vocês. Eu sou bacana.” Vespasiano bota as melhores cabeças de Roma trabalhando pelo povo. Ele drena o lago do Palácio de Nero e ergue ali o Coliseu. Golpe de Mestre. Ele pega o espaço particular de um mau imperador e entrega esse lugar, transformado, para o povo. A construção teve início no ano de 72 d.C. e foi financiada pelo saque a templos judeus em Jerusalém. Doze mil prisioneiros judeus foram trazidos a Roma para trabalhar na construção. Mais de seis mil toneladas de concreto foram usadas. Empregaram gruas de madeira sofisticadas para erguer blocos de terra e, em oito anos, o Coliseu se erguia a quase 50 m do chão. Roma já era como é hoje: lotada, impossível de andar, cheia de ruazinhas estreitas. Construir ali é, e era, um pesadelo. Em seus quilômetros quadrados viviam 1 milhão de pessoas. Sim, a palavra é abarrotada. O mundo nunca tinha visto tamanha densidade populacional. Construir no meio de uma cidade tão populosa exigia um instrumento que pudesse levantar as coisas. Os romanos tinham o know how pressas coisas. Alguns de seus aquedutos tinham 30 metros de altura. Os romanos tinham guindastes incríveis. Tecnologia de primeiro mundo – polias. Com as polias combinadas, multiplicando a força, e cordas fortes, os romanos erguiam monstruosos blocos de pedra. Vespasiano queria o treco feito em menos de dez anos. Você ouviu bem: dez anos. Os construtores piraram. Bão. Para pôr a arena do Coliseu no lugar do lago, os engenheiros começaram drenando a área – o novo edifício seria alto e precisaria de uma base apropriada, sólida, estável. Ele precisaria repousar num leito sólido de pedras. Para drenar o lago e chegar ao leito de pedra, os engenheiros romanos cavaram profundas valas até o Rio Tibre, de modo que toda a água do lago fluísse em direção ao rio. Feito isso, tudo quanto era construtora de Roma levou pra lá seus guindastes e a estrutura de mármore do Coliseu começou a ser construída. Os romanos descobriram, muito antes de sonhar com o Coliseu, que cinza vulcânica misturada à água vira concreto. (Nota: um ano antes do Coliseu estar terminado, o Vesúvio entrou em erupção. Cinzas e a água da chuva revestiram a cidade duma duríssima camada de… concreto. A cinza vulcânica, ou “pozzolana”, era o ingrediente principal do concreto usado no Coliseu, misturada com cal, cascalho e água. Isso gerava um concreto muito forte). Hum, os romanos tinham outro trunfo tecnológico: o arco. Sem arcos não haveria Coliseu. E nem um monte de outras coisas. Os arcos são semicirculares, certo? Certo, tia Fal. Isso permite que eles suportem muito mais peso porque dirigem a força da carga para suas pernas. Os arcos permitiram que o doido do Vespasiano metesse quatro níveis de assentos no Coliseu, com a construção chegando a 48 metros de altura. O Coliseu representava a riqueza, o poder, a capacidade romana. O Coliseu controlava a multidão de até 70 mil pessoas com ingressos e um complexo sistema de corredores que distribuía os espectadores pelo anfiteatro. Cento e dez fontes de água e dois banheiros. Nos dias de muito sol uma lona podia ser aberta sobre o Coliseu, protegendo os espectadores. Sim, você leu direito, teto retrátil. A lona era desenrolada por marinheiros romanos que eram posicionados em torno da arcada superior do Coliseu. Essa cobertura podia ser movida de acordo com o Sol e de acordo com o vento. Era uma delícia ficar lá, sentado confortável, na sombrinha, olhando os negos se matarem. Diversão saudável para toda a família. Vespasiano morreu um ano antes do Coliseu ficar pronto. Em 80 d.C., o Coliseu foi inaugurado por seu filho e sucessor, Tito. A carnificina que acontecia no Coliseu só podia ser vista fora dali em guerras. Os canais de água construídos abaixo do lago artificial de Nero foram deixados intactos e adaptados para inundar o Coliseu e depois drená-lo, o que permitia espetáculos aquáticos no anfiteatro.
O Coliseu viu de tudo. Leões, cristãos apavorados, desafetos de vários imperadores, gladiadores, execuções, simulações de batalhas – inclusive batalhas navais – representações de caçadas, culminando na morte de inúmeros grandes felinos, rinocerontes, hipopótamos, elefantes, girafas, crocodilos e avestruzes; peças teatrais, dancinhas de virgens vestais, turistas encantados, saque, pilhagem, destruição, decadência. O Coliseu viu de tudo.
Pão e circo para o povo por séculos, para sempre se valer o inconsciente coletivo, o Coliseu foi e continua sendo tudo isso e muito mais. É um testemunho em cinza vulcânica, mármore e sangue das nossas muitas capacidades e competências, dos nossos vários talentos, da nossa eterna necessidade de superação, do nosso orgulho, das nossas fraquezas, da nossa pequenez, da nossa crueldade e da nossa soberba. É um testemunho da nossa, ah, humanidade.
É que hoje é sexta-feira. E esta não foi uma semana tão fácil quanto achei que seria. E, de muitas formas, eu, que não tenho como orquestrar a morte de imperadores, ser aclamada por tropas, drenar lagos e erguer símbolos de concreto e cinza vulcânica, precisava me lembrar que sim, há humanidade em tudo, para o bem e para o mal. E que são possíveis mudanças, assim como os erros. E que, de muitas formas, são possíveis os recomeços.
Só por hoje
Obama mata mosca durante entrevista e o mundo vem abaixo. Gente, pelo amor de Deus.
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Você achou que viveria, leitor, para ler, um dia, o presidente defendendo Zé Bigode e dizendo que ele tem história suficiente nesse país para não ser tratado como pessoa comum? Nunca imaginei que esse dia chegasse. Nunca.
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Enquanto isso, Zé Bigode afirma que a crise não é dele. É do Senado. Ah, então, tudo bem. Desculpe qualquer cousa.
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O que mais choca na invasão da USP pela PM (o tema fez ferver São Paulo semana passada) não é nem o autoritarismo (que choca sim), nem nenhuma outra coisa. É a burrice. Como é que uma criatura com ambição política cai numa esparrela dessas? Vi as imagens na televisão encantada com a burrice alheia. Bom ver que não estou sozinha no mundo, hahaha.
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E minha amiga Helena me diz que o Snoopy faz 60 anos no próximo ano. Mas não é um fofo? Aprendi a ler, também, nos gibizinhos do Minduim que meu pai tinha guardado com todo o amor da década de 60. No começo da década de 70, eles me ajudaram no B+A=BA, ainda que eu não entendesse todas as piadas. Era um mundo delicioso, onde não existiam adultos, que me atraia muito. Ainda atrai.
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Trabalho aqui, no apart hotel do Conde Drácula, embalada pelo som irritante duma voz feminina que, no auto falante de algum carro, informa trocentas vezes por dia, que troca panelas por maçãs do amor e telesenas por pamonhas. É um país inacreditável, senhoras e senhores.
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E da lista “coisa nas quais não vale a pena economizar”, minha amiga Ângela lembrou de um item essencial: palmito. Salve Ângela. Certíssima.
em casa

Um amigo, certa vez, perguntou onde eu gostaria de viver se, tempo, dor, dinheiro e governo não fossem um problema e eu não soube responder. Eu não soube. Eu não soube dizer se gosto de casa, de apartamento, se de campo, se de mar, se dum resort, se dum submarino, se do castelo prometido pela revista ou dum sobrado no Brooklyn. Eu não gosto de nada, disse a ele, eu não gosto de nada e não quero ir a lugar nenhum. Meu amigo, que além de bom, ainda é, ele mesmo, um poeta, disse que isso é porque eu e meu coração não estamos no mesmo lugar.
*
Ele tem razão, claro. Não estar no mesmo lugar que seu coração é nunca estar em casa. Eu não tinha percebido isso, até que minha mãe (com quem voltei a morar depois que meu marido morreu), miou, fazendo beicinho, que eu nunca digo “em minha casa”, e sim “na casa da minha mãe”.
*
E quando foi que estivemos, quando, quando foi que tive meu coração e a mim na mesma sala, no mesmo espaço, no mesmo mundo? Só quando pude, só quando pude, só quando pude encostar meu ombro ao seu, olhar na mesma direção, beber suas palavras, aprender seus códigos, entender suas piadas, olhar a vida através de suas lentes, cantar as suas notas, viver do seu sonho e inventariar suas sardas, meu bem, meu bem, meu bem.
Love love love

E eu:
- Que bom que foi possível remediar o relacionamento de vocês.
E ela:
- Ah, é tratar, que cura não tem!
*
Ela acordou de novo, respirou fundo de novo, e de novo trocou a areia do gato, tomou banho, passou maquiagem, botou roupa bonita. Levou a menina na escola outra vez, tomou café na máquina do primeiro andar de novo, e foi produtiva e positiva o dia todinho, como sempre. Hum, e feliz. Ela foi feliz também, claro, cada hora do dia. Disciplina é tudo nessa vida.
*
- Menina, o Sérgio é maravilhoso, o melhor namorado que eu já tive.
- Não me fala, esse nome me dá arrepios, eu me lembro do pavoroso irmão da Cecília.
- Mas é com ele mesmo que eu tou namorando!
*
- Ele é meigo, engraçado e brincalhão! Ah, ele é tão alegrinho!
- Péra aí, Rose. Pela descrição você está namorando um dálmata!
*
Tomei coragem e terminei o namoro. Ele era muito doce, não me entenda mal. E eu realmente gostava muito dele. Mas ele tinha essa mania: discutia a relação, com todos os seus prós e contras, em qualquer lugar, na frente de qualquer um. A mãe dele sabia de cada uma de nossas brigas, o cara da avícola ficou sabendo que eu só durmo de janela aberta e, meu Deus, a tia que guarda os carros na rua da feira foi informada de que eu detesto camisinha. Aquilo não era um relacionamento a dois, era um filme do Arnaldo Jabor.
*
- Ângela, você tá bem, amor?
- Não, Mi, péssima. Mas estou trabalhando, não dá para fazer catarse agora.
*
Você sabe que seu pão caseiro não deu lá muito certo quando você acorda num domingo de manhã e seu marido já foi à padoca e comprou oito pãezinhos.
*
Definição. É aí que vem a encrenca. Quer dizer, você conhece o cara. Sai com ele. Ele liga todo dia. Tá, nem todo dia, mas quando ele não liga quem liga é você, e o resumo da ópera é que vocês acabam se falando todo santo dia. Ele vai à sua casa buscá-la duas, três vezes por semana. Quando ele aparece sem você, a turma dele pergunta o que aconteceu. Quando você aparece sem ele, a sua turma murmura “Xiiiiii…”. Finais de semana? Juntos. Feriados? Juntos. Vocês sempre transam de camisinha, menos quando não dá tempo, porque, sei lá, acontece. Você dá bronca no cachorro dele. Ele chama sua avó de “vó”. Ele leva seu carro pra lavar. Você arruma a gola da camisa dele. Você acordou num domingo, cheio de sol, e tinha uma rosa ao seu lado na cama. Daí você deixou um bilhete de amor para ele escrito com batom no espelho do banheiro. Não é assim? Isso, aí na hora de apresentá-la para a mãe, ele gagueja, treme e não completa a frase. “Minha…, minha…”? Foi assim com a Rita e o Júlio. É por isso que a Rita vai pra Ubatuba sozinha desta vez.
*
Depois de jurar para todos nós, de pés juntos, inclusive invocando o testemunho do Seu Alfredo, dono do bar, que nunca mais ia namorar uma moça com QI abaixo da temperatura ambiente, o Mário aparece com quem? Com a Leda, pô. Sei lá, tudo bem, mas, jurou em falso, vai pro inferno.
*
Ele disse: “Não vá se apaixonar por mim”. Respondi que ele não corria esse risco. Falei do fundo do meu coração.
*
E-mails secretos, bombons e telefonemas sem nexo no meio da tarde. Seus olhares me seguindo pela repartição, suas sobrancelhas unidas. Bilhetes sem assinatura nas reuniões, muitos deles com desenhos. Almoços de duas horas. Isso tem que acabar, meu caro.
*
Posso amar você sem precisar entender seus motivos.
Baco na véspera do feriado

Baco não sabe o que é ascetismo.
Baco nunca assistiu West Wing.
Baco não sabe o que cardamomo.
Baco não sabe que as três bruxas em Macbeth usavam como ingredientes raiz
de cicuta, sangue de babuíno, escama de dragão, lábios de tartaruga, forquilha
de víbora, fígado de judeu blasfemo, asa de coruja, pequena serpente dos
pântanos, dedos de rã, múmias de feiticeiras, mandíbulas de tubarão, nariz de
turco, perna de lagarto, língua de cão, pele de morcego, fel de bode, criança
estrangulada ao nascer e entranhas de tigre.
Baco não sabe que o nome em latim da baunilha é Vanilla fragrans.
Baco nunca comeu a Panqueca St. Clements, que é recheada de creme de
laranja e limão, polvilhada de açúcar e servida com creme de leite.
Baco nunca leu nada sobre o erudito e escritor da Roma Antiga Marcus Vano
que viveu entre 116 e 27a.C., e que dizia que o número de convidados num
jantar não deveria ser inferior ao número das Graças (3) e nem superior ao das
Musas (9).
Baco nunca foi a San Salvador.
Baco não sabe falar alemão.
Baco não joga pocker.
Baco nunca jogou tênis com a Vera.
Baco não faz Direito na F.M.V.
Baco nunca fez uma autópsia.
Baco não usa gravata listrada.
Baco nunca fez tatuagem.
Baco não sabe o que quer dizer “coloquialismo”.
Baco não usa bigode.
Baco não tem porte de arma.
Baco nunca andou numa asa delta.
Baco não tem um grampeador.
Baco nunca bebeu um daiquiri clássico.
Baco não sabe o ponto de ebulição da água.
Baco nunca comeu charque, mas se comer ele vai gostar.
Baco gosta de pudim.
Baco não sabe fazer pudim.
Febre

Acordei hoje e você não estava aqui. Procurei por você nas dobras do lençol e nas rugas dos meus olhos, nas gavetas cheias de potes de cremes, na prateleira dos DVDs que sobraram. Procurei por você nas pastas dos documentos, atrás de cada livro, no meio dos cachecóis, nas linhas das minhas mãos. Procurei por você, querido, mas você não estava aqui. Faz dez anos hoje, faz dez anos todos os dias nesse maldito calendário, nesse tempo que passa, que fica, que se expande e se contrai, como se fosse uma barriga de bicho, como se fosse eterno, como se precisasse me lembrar a cada instante que é inescapável. Procurei por você nas agendas velhas, nas fotos sem álbum, nos banquinhos de mosaico. Procurei por você nos blogs do Nelson e do Idelber, ‘blogs de macho’, você dizia, no fundo da caneca de chá, nos meus tênis cor de cereja e nas taças da Marli. Procurei por você nos e-mails que não recebi e no silêncio das que não vão mais falar comigo. Não fui capaz de encontrar você em lugar nenhum, nem nas prateleiras de Maliu que guardam os poucos objetos que guardei da nossa casa, nem na caminha do Baco, nem na voz da sua mãe para quem, liguei, covarde, sem dizer que dia era hoje. Procurei por você em mim, mas nada em mim ficou de seu humor perfeito, seu bom coração, seu caráter impecável, sua fé enorme no amanhã, na solução, no que é correto, no que permanece. Não pude achar você, querido. Olhei nos bolinhos das meias, na caixa dos brincos de gatinho que você me deu, nos montes de lencinhos de pano e nas caixas de remédio, no vidro de xarope e na bolsinha do termômetro. Não sou capaz de encontrar você em lugar nenhum, faz dez anos e eu ardo aqui.
