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29/06/2009 - 01:34

Otávia

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A pele do dorso da mão dele encosta na dela na porta do bar. Ele no banco da frente, tão longe. Escolha dele, ela deveria mesmo saber. O riso dele enche a sala, a sala toda, a alma, os potes da cozinha, as memórias. O riso dele transborda nos vasos empacotados, escorre pelas prateleiras que não existem mais, encolhe a tristeza e afasta o Nada, que exatamente como num livro que ela leu, engole tudo o que vê e estava quase no batente da porta antes dele chegar. Mas o riso dele não é dela. Ela sabe disso e não sabe, entende e se recusa a entender. Ela acredita piamente nos poderes mágicos da negação. O nariz dele ela acha lindo, meio curvado para baixo. Ela gosta da obsessão que ele tem pelos anos 80, do seu cheiro de pinho, do seu cabelo que perdeu os cachinhos castanhos. Ele gostou do cabelo dela, abriu a porta do carro e ela passará o resto do tempo se apegando a gestos sem sentido algum. Ele tem orelhinhas pequenas e ela se comove, como se isso significasse algo para alguém em qualquer momento, como se isso mudasse o tempo que passa, a história universal, os rumos do Senado: ele tem orelhas pequeninas e bem feitas, que ela gosta de olhar. O que eles foram, o que eles querem, o que eles não poderão ser, o que eles nunca tiveram. As palavras impensadas, a cena do filme, a justificativa exagerada, o Mercado de Pinheiros e ela ligando e dando vexame, balbuciando sem nexo e se sentindo ridícula enquanto é ridícula mesmo. Manga rosa, desamparo, barracas de uva passa, ametista, unhas brancas, coisas não ditas, zona oeste, um cachorro com nome de música, suspiros via Telefônica. Dela. Os suspiros, quero dizer. As moças gorduchas e vacilantes do século XIX não têm lugar nos dias que correm, sua submissão, sua confusão mental, seu atropelo com as palavras e seu desejo de passar o resto da vida de avental, sovando a massa da pasta e assando bolos de laranja. Otávia sabe disso. Mas ela não sabe de verdade. Os poderes mágicos, como eu já lhes contei.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: , ,

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9 comentários para “Otávia”

  1. Clara Machado disse:

    Faaaal!
    que poder mágico é esse que vc tem? hein guria?
    Coisa mais linda! Tô aqui emocionada.
    E com saudades de vc, sempre!

    beijos e abraços apertados,

    Clara

  2. vera disse:

    que bom voce cedinho! beijos

  3. claudia lyra disse:

    Ai, a negação!!!! É uma delícia estar sob o efeito dela, não é? Uma viagem, é praticamente alucinação. Ô droga poderosa, sô!!!

  4. Isa disse:

    é por isso que as pessoas reclamam Fal, pq tu lhes tocas no pontinho mais magoado e mais escondido e de uma forma brilhante. as pessoas deixam quieto e tu vais lá e cutucas a coisa, abres a ferida. o povo n se resolve e a culpa é tua.

    amei mais este, do cacete mesmo.
    Bj grande

  5. Ana Paula disse:

    Ai, que lindo! Como a gente faz pra ser uma moça do século XIX e continuar sendo do século XXI? Parte de mim, uma parte tão significativa e interna fica tão à vontade lá nos 1800 e tanto. E vc pinta isso tão bem em tão poucas palavras.

  6. deia disse:

    Fal, que coisa mais linda!

  7. Luci100 disse:

    ‘ o povo não se resolve e a culpa é tua’… miúda é Ph, né?!
    um cachorro com nome de música…lindo, Fal, muito lindo.
    beijos apertados!

  8. Luanna disse:

    Menina,
    me fazer chorar no trampo num dá…
    este texto mais a leticia e o retrato fiel ao me coração
    Fal, assim vc me acaba de emoção..só vc para por em palavras tanto sentimentos

    Bjs

  9. Isa disse:

    é Luci, é mt ph… haja paciência fia :-)
    Bjs miles procês duas

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