Um Coliseu para você e para mim

Era uma vez um imperador chamado Vespasiano. E a história dele começa assim:
Em 68 d.C. Nero foi derrubado pela oposição, declarado inimigo público pelo Senado, caçado pelos guardas da cidade. Com a ajuda de um escravo, Nero corta sua garganta antes de ser preso. Suas últimas palavras foram: “Que grande artista morre em mim”. Bão, com a morte de Nero, em 68 d.C., a cadeira tá vaga. De Julio Cesar a Nero era todo mundo da mesma linhagem familiar. Pela primeira vez, desde Julio Cesar, Roma não tem um herdeiro. Os generais romanos começam a se matar e, em um ano, Roma tem quatro imperadores: todos eles generais, todos eles querendo pudê. Muito pudê. Gaba, Otão, Vitélio, Vespasiano.
Gaba, Otão, Vitélio: Eles vão se tornando imperadores nessa ordem. Mas cada um deles tem base de sustentação muito fraca e são mortos pelo sucessor (quer dizer, Otão se matou). Cada um deles só é imperador por pouquíssimos meses. Acontece que Vespasiano era queridíssimo pelas legiões egípcias, assim como pelas legiões da Judeia e da Síria. Apoiadíssimo pelo exército, Vespasiano é aclamado imperador, manda matar Vitélio e estamos conversados. Seus homens matam Vitélio e vup, ele vira imperador. Vespasiano foi um sopro de ar fresco depois da confusão que foi o império do Nero e da bagunça Galba/Vitélio. Vespasiano fez uma rigorosa reforma tributária, cortou os gastos e promoveu uma estabilidade política muito bem-vinda. Ele era um cara comum, soldado, simples, frugal – e o povo o adorava por isso. Pacifica Roma, abafa rebeliões em Jerusalém, onde meio milhão de judeus morre e mais de cem mil são feitos escravos, reformulou o Senado e conquistou de uma vez por outra a Bretanha. Ele deu uma bela saneada nas contas do Império e também calou rebeliões na Gália. Ele restaurou o Capitólio e reorganizou o exército, que tava um lixo de bagunçado. Ele ampliou o império, fortaleceu as fronteiras. E quando morreu, virou Deus. Nada mal, né? Depois dele, Roma foi governada por seus filhos, um de cada vez, Tito e Domiciano.
Tá, mas e o Coliseu? Por que é que o Coliseu é tão importante? Porque o Coliseu não esteve sempre lá. E ele é um símbolo importante. De mudança. De perseverança. De poder. E, por que não, de grana. O que acontece é que Vespasiano precisava melhorar, rápido, a imagem do governo. Precisava tirar os 300 mil desempregados das ruas de Roma, onde a rapeize vivia bêbada, violenta e doidona. Vespasiano queria acalmar seus cidadãos. Diverti-los. Entretê-los. Fazê-los sentir orgulho de sua cidade. Fazê-los sentir-se parte de alguma coisa. Hum. Um anfiteatro. Diversão para 55 mil pessoas (tem historiador que dá 70 mil como o número máximo lá dentro), com entrada e saída fáceis, comida à vontade, todo mundo protegido da chuva e do sol, com uma visão bacana do espetáculo. Vespasiano era um cara sabido. Ele sabia que, pra redimir o Império das palhaçadas de Nero, ia ter que dar duro. O lugar escolhido foi exatamente o ponto onde Nero tinha seu lago de peixinhos. O recado do veio Vespa era claro: “Vou construir um lugar pro povo, onde todo mundo tenha acesso à diversão – é uma maravilha, mas não é pra mim, é pra vocês. Eu sou bacana.” Vespasiano bota as melhores cabeças de Roma trabalhando pelo povo. Ele drena o lago do Palácio de Nero e ergue ali o Coliseu. Golpe de Mestre. Ele pega o espaço particular de um mau imperador e entrega esse lugar, transformado, para o povo. A construção teve início no ano de 72 d.C. e foi financiada pelo saque a templos judeus em Jerusalém. Doze mil prisioneiros judeus foram trazidos a Roma para trabalhar na construção. Mais de seis mil toneladas de concreto foram usadas. Empregaram gruas de madeira sofisticadas para erguer blocos de terra e, em oito anos, o Coliseu se erguia a quase 50 m do chão. Roma já era como é hoje: lotada, impossível de andar, cheia de ruazinhas estreitas. Construir ali é, e era, um pesadelo. Em seus quilômetros quadrados viviam 1 milhão de pessoas. Sim, a palavra é abarrotada. O mundo nunca tinha visto tamanha densidade populacional. Construir no meio de uma cidade tão populosa exigia um instrumento que pudesse levantar as coisas. Os romanos tinham o know how pressas coisas. Alguns de seus aquedutos tinham 30 metros de altura. Os romanos tinham guindastes incríveis. Tecnologia de primeiro mundo – polias. Com as polias combinadas, multiplicando a força, e cordas fortes, os romanos erguiam monstruosos blocos de pedra. Vespasiano queria o treco feito em menos de dez anos. Você ouviu bem: dez anos. Os construtores piraram. Bão. Para pôr a arena do Coliseu no lugar do lago, os engenheiros começaram drenando a área – o novo edifício seria alto e precisaria de uma base apropriada, sólida, estável. Ele precisaria repousar num leito sólido de pedras. Para drenar o lago e chegar ao leito de pedra, os engenheiros romanos cavaram profundas valas até o Rio Tibre, de modo que toda a água do lago fluísse em direção ao rio. Feito isso, tudo quanto era construtora de Roma levou pra lá seus guindastes e a estrutura de mármore do Coliseu começou a ser construída. Os romanos descobriram, muito antes de sonhar com o Coliseu, que cinza vulcânica misturada à água vira concreto. (Nota: um ano antes do Coliseu estar terminado, o Vesúvio entrou em erupção. Cinzas e a água da chuva revestiram a cidade duma duríssima camada de… concreto. A cinza vulcânica, ou “pozzolana”, era o ingrediente principal do concreto usado no Coliseu, misturada com cal, cascalho e água. Isso gerava um concreto muito forte). Hum, os romanos tinham outro trunfo tecnológico: o arco. Sem arcos não haveria Coliseu. E nem um monte de outras coisas. Os arcos são semicirculares, certo? Certo, tia Fal. Isso permite que eles suportem muito mais peso porque dirigem a força da carga para suas pernas. Os arcos permitiram que o doido do Vespasiano metesse quatro níveis de assentos no Coliseu, com a construção chegando a 48 metros de altura. O Coliseu representava a riqueza, o poder, a capacidade romana. O Coliseu controlava a multidão de até 70 mil pessoas com ingressos e um complexo sistema de corredores que distribuía os espectadores pelo anfiteatro. Cento e dez fontes de água e dois banheiros. Nos dias de muito sol uma lona podia ser aberta sobre o Coliseu, protegendo os espectadores. Sim, você leu direito, teto retrátil. A lona era desenrolada por marinheiros romanos que eram posicionados em torno da arcada superior do Coliseu. Essa cobertura podia ser movida de acordo com o Sol e de acordo com o vento. Era uma delícia ficar lá, sentado confortável, na sombrinha, olhando os negos se matarem. Diversão saudável para toda a família. Vespasiano morreu um ano antes do Coliseu ficar pronto. Em 80 d.C., o Coliseu foi inaugurado por seu filho e sucessor, Tito. A carnificina que acontecia no Coliseu só podia ser vista fora dali em guerras. Os canais de água construídos abaixo do lago artificial de Nero foram deixados intactos e adaptados para inundar o Coliseu e depois drená-lo, o que permitia espetáculos aquáticos no anfiteatro.
O Coliseu viu de tudo. Leões, cristãos apavorados, desafetos de vários imperadores, gladiadores, execuções, simulações de batalhas – inclusive batalhas navais – representações de caçadas, culminando na morte de inúmeros grandes felinos, rinocerontes, hipopótamos, elefantes, girafas, crocodilos e avestruzes; peças teatrais, dancinhas de virgens vestais, turistas encantados, saque, pilhagem, destruição, decadência. O Coliseu viu de tudo.
Pão e circo para o povo por séculos, para sempre se valer o inconsciente coletivo, o Coliseu foi e continua sendo tudo isso e muito mais. É um testemunho em cinza vulcânica, mármore e sangue das nossas muitas capacidades e competências, dos nossos vários talentos, da nossa eterna necessidade de superação, do nosso orgulho, das nossas fraquezas, da nossa pequenez, da nossa crueldade e da nossa soberba. É um testemunho da nossa, ah, humanidade.
É que hoje é sexta-feira. E esta não foi uma semana tão fácil quanto achei que seria. E, de muitas formas, eu, que não tenho como orquestrar a morte de imperadores, ser aclamada por tropas, drenar lagos e erguer símbolos de concreto e cinza vulcânica, precisava me lembrar que sim, há humanidade em tudo, para o bem e para o mal. E que são possíveis mudanças, assim como os erros. E que, de muitas formas, são possíveis os recomeços.

Amei, Fal. E o Coliseu é meu monumento preferido em Roma. Quando levei minha mãe ali ela se emocionou muito…e não queria mais sair dali de dentro, ahahaha.
Eu não sabia de metade da história que li aqui hj. Vou repassar o link pra minha mãe vir aqui ler também.
Beijo grande
Eu estava no Coliseu a um pouco mais de um mês, e a sensação de estar num lugar desse que passou por tanta coisa e viu tanta história é incrível.
Se eu tivesse lido seu texto antes de ir pra lá eu teria visto tudo aquilo com outros olhos.
Fal, querida, agora que tento postar sobre POA, vejo o quão é difícil construir um texto histórico que seja nosso. tu fazes isto de uma forma brilhante, absolutamente brilhante. Jamais lá chegarei…
E sim, querida mia, os recomeços são possíveis. E serão bons, serão bons.
Bjs miles de admiração profunda. li amo li.
Fal, o seu jeito de contar História é maravilhoso.
Recomeços são sempre possíveis, querida, sempre.
Beijão
faaaaai, onde que ia aprender isso? apois, fal, numa feirinha de livros em florença, há muitos anos, comprei um livrinho engenhoso, com uma foto do que determinado monumento (ou suas ruínas) é (são) hoje e uma folha transparente que se encaixa direitinho na foto, mostrando como ele era ou seria. fiquei chapada quando mostraram que o coliseu era coberto com lona retrátil (wimbledon só fez isso este ano, agora em maio), utilizando tecnologia de marinheiros, coisa mais maravilhosa.
bom recomeço para voce, flor.
beijos
Texto soberbo!!!
É tão fácil história com voce Fal!! A gente fica enxergando tudo como num filme!! Devia publicar logo seu livro de arte na históriaaa heheh
Beijos minha querida, um ótimo final de semana prá voce ..
Fal, como disse a Vera, onde que ia aprender isso?!
eu fiquei aqui imaginando vc. lendo e uma multidão de olhinhos estáticos e queixos caídos (eu na multidão!) te ouvindo atentamente!!!!
Fal, mais uma aula inesquecível que vc. nos dá!
beijo
ps: eu, 100tida e com muita saudade!
Fal, adorei o texto, uma delícia! Só uma coisa: o Vesúvio é no Sul da Itália na costa, perto de Napoli, bem longinho de Roma. será mesmo que as cinzas foram parar lá em Roma?
já respondendo à minha própria pergunta, fui olhar na wiki antes de mandar o comentário e diz assim: “Vesúvio entrou em erupção várias vezes na história, tendo sido a erupção mais famosa a de 79. (…) Em 79, as erupções foram tão grandes que toda a Europa do sul esteve coberta por cinzas; em 472 e em 1631, as cinzas de Vesúvio caíram em Constantinopla (agora chamada Istambul), a mais de 1609 km de distância. É o único vulcão do continente europeu que há quase 19 séculos manifesta atividade regular.”
Caramba, fortinho esse Vesúvio heim?
Vera,
Também comprei este livrinho que vc citou, comprei no Coliseu mesmo, é bem legal, os acetatos encaixam na imagem de baixo mostrando como era…
Dá até dó ver tudo que era e tudo que virou!
Fal, lá no Coliseu rolava uma guia que contava um pouco da história do “Anfiteatro Flaviano”. Claro que nem com metade do charme que vc contou!
Fal, como aprendemos com você, sobre história, sobre fatos, sobre a vida. E creia: recomeços SÃO possíveis sim.
Bjs.
Adoro tua vozinha mansa cantando tudo isso pra mim e a gente tomando um café quentinho e os meus olhos brilhando e pedindo canta mais Fal me tira desse poçodeignorança. É assim que eu sinto Falinda. Eu acredito em recomeços são looongos e duuuros mas aontecem.Bjs
Assisti um documentário sobre o Vespasiano e fiquei fã dele, adoro ler sobre historia romana, aquele Eu Claudius Imperador do Robert Graves (acho que á assim que se escreve) e Memorias de Adriano me fascinaram, mas tu consegue contar melhor Fal, escreve logo esse livro sobre arte na historia
Beijocas
Vespasiano é uma cidade aqui da Grande BH e este comentário não tem absolutamente nada a ver com o texto. : *
Nossa, eu aprendo tanto com você sobre como dar aula de história, tanto. Gostei desse neguinho, o Vespasiano, sobre quem eu sabia muito pouco ou quase nada, mas meu imperador romano favorito segue sendo Adriano, e meu monumento de estimação segue sendo o Panteão, erguido por ele. O Coliseu é fantástico, mas o Panteão é transcendente. Pena que foi tão profanado. Nesse sentido, é verdade, as ruínas do Coliseu são mais autênticas, mais dignas na sua decadência, testemunham com mais veracidade o seu tempo e a história da sua existência. Fala sobre isso algum dia?
fal, voltei. da licença:
1. oi, luci!
2. ila, diliça de livrinho, nao e? apesar da dor das perdas…
3. adrina, hahahaha, pra nós de belzonte vespasiano é mesmo aquela cidade no caminho de confins.
beijos
Bom, você não precisa orquestrar a queda de imperadores ou mesmo levantar tal estrutura para se sentir vitoriosa. Às vezes as vitórias da vida se fazem através de pequenos feitos que nos dão sentido, se faz por pessoas que estão próximas o suficiente para nos dar apoio. E como você disse, recomeçar é sempre possível.
ps: obrigado pelo elogio Fal, significa muito para mim, principalmente vindo de você. Afinal, foi a partir de um livro seu que comecei a pensar em escrever ^^
Fal, eu ia escrever um monte de coisas, mas estou com vergonha :S
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Então, me diga apenas como é que uma pessoa como eu, assim, meio atrasada, em absolutamente todos os sentidos da palavra, faz para finalmente entender as coisas? Como é que a gente pega um conhecimento e chama ele de tu assim, igual a vc? Morre e reza por mais uma chance?
Fal,
amei,amei e amei,uma verdadeir aula de Historia.
Bjos
Como posso gostar tanto em tão pouco tempo…..