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05/06/2009 - 15:44

São sedutoras as vozes da noite

Kafka aos seis anos  em Praga (desconheço o fotógrafo)

Reflexões calmas, inclusive as mais calmas, ainda são melhores do que as decisões desesperadas.”

A Metamorfose

 Discutindo os dias que correm, os desastres aéreos, os queridos que se vão (achei que só eu achava que os melhores vão antes), a ameaça patética de um terceiro mandato e, ah, por que não, o inexorável, um amigo muito culto terminou o telefonema dizendo que estes são tempos kafkanianos.

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“Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer.”

                                                                                                                Carta a Pollak

*

Franz Kafka nasceu em Praga no final do século XIX. Ele foi um desses escritores que só o século XIX poderia ter nos dado. Sabe, gente como Melville,  Eça de Queiróz e Zola – cada um de um país, uma época do século XIX e com um estilo absolutamente particular, mas todos representantes geniais daquele século movimentado, inovador, instigante, incrível. O século XIX foi o século que nos inventou, a você e a mim, foi o século onde as raízes do que fazemos, cremos e sonhamos foram lançadas, e esses homens maravilhosos foram parte muito importante dele.

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“Em última análise, parece-me que devíamos ler apenas livros que nos mordam e firam. Se o livro que estamos a ler não nos desperta violentamente como uma pancada na cabeça para que nós haveríamos de nos dar o trabalho de o ler? Um livro tem que ser como a picareta para o mar gelado dentro de nós. É isso que penso.”

Carta a Pollak

*

Mas não deixa de ser interessante observar que Kafka, que morreu em 1904, teve a maior parte de sua obra publicada postumamente. O que quer dizer que, ao contrário dos outros escritores aqui citados, ele só foi descoberto, lido e analisado no século passado.

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“São sedutoras as vozes da noite: também assim cantavam as Sereias… Não fora de justiça para com elas, atribuir-lhes o deliberado propósito de seduzir: elas sabiam que possuíam garras e nenhum seio fértil, e disso lamentavam-se em altas vozes – mas não tinham culpa de soarem tão belos os lamentos.”

Os Lamentos

*

Em plena revolução industrial, Kafka imprimiu, a cada linha que escreveu, a estranheza e o desconforto que aquele mundo novo, cheio de máquinas, com um sistema de trabalho e novas regras, nos trazia.

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“Só podia encontrar a felicidade se conseguisse subverter o mundo para o fazer entrar no verdadeiro, no puro, no imutáve.l”

Diário

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Um mundo que produzia em série, que sacramentava e, de muitas formas, ritualizava a classe média, que vencia distâncias com trens de ferro, que revolucionava a comunicação com o telégrafo e com um negócio novo, que ninguém podia prever se iria ou não cair no gosto popular, chamado telefone.

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Kafka não canta em verso e prosa o desenvolvimento tecnológico e industrial do século XIX. Kafka fala de nosso espanto, de nossa dor, de nossa pequeneza, frente a um mundo tão grande e tão misterioso. Kafka fala sobre o incerto que há em nós, sobre o frágil, o que se equilibra com dificuldade, nós, um pé no bote, outro na margem.

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O homem de Kafka não ama as máquinas enormes e brilhantes e não vê nenhuma vantagem em atravessar a Europa no estômago de uma engrenagem de ferro. O homem de Kafka quer saber que diabos ele faz ali, qual é sua motivação, qual é sua função e, principalmente, onde cabem todas as coisas que ele sente e é.

*

Kafka, um autor do realismo do século XIX, lido e estudado no século XX, está sempre em nossos pensamentos. Fazemos histórias em quadrinhos baseadas em seus contos, ele é citado (ai de nós) em músicas populares, seus contos são adaptados de novo e de novo para o teatro, escrevemos teses sobre ele e sua obra, mas também sobre sua vida sentimental e familiar, todo o tempo. Esmiuçamos seus diários e seus desenhos, procuramos mensagens cifradas, queremos explicações, queremos que ele nos justifique, queremos…

*

Nesse sentido, meu amigo está certo, somos todos kafkanianos. Sua angústia fala à nossa alma e, de muitas formas, suas questões ainda são as nossas. Nossos conflitos existenciais, nossa perda de rumo, as reviravoltas da vida que nos deixam pasmos, nossos muitos medos, nossos questionamentos. Kafka nos entende, ele já sentiu isso tudo muito antes de nós, Kafka nos ampara, ele já falou disso tudo há muito tempo.

*

Ler e reler Kakfa é descobrir a nós mesmos e aos nossos descaminhos. É, humildemente, declarar que não sabemos tudo, que não temos todas as respostas, que estamos aturdidos diante da vida, por mais que queiramos engrossar a voz e fazer afirmações taxativas.

Ler Kakfa é dizer “bem, vamos lá, mais uma vez”. E ir.

*

“E, como levava uma existência divina, Deus o tomou para Si; ninguém o viu mais”

Diário

****

Fontes (material de pesquisa sobre o autor, uma pequena parte dele, sem contar, claro, os livros de Kafka, que são muitos e podem ser encontrados, em português, nas mais variadas condições, edições caríssimas e luxuosas e em sebos, por preços muito baixos):

Kafka

Autor: Erich Heller

Editora: Cultrix

Conversas com Kafka

Autor: Gusstav Janouch

Editora: Novo Século

Anjos Necessários: Tradição e Modernidade em Kafka, Benjamin e Scholem

Autor: Robert Alter

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:

13 comentários para “São sedutoras as vozes da noite”

  1. Gi Jardim disse:

    Kafka é assim, como Baco, não é?

  2. Fernanda disse:

    Querida Fal,

    Minha filha está com 13 anos. Ama, ama, ama leitura. Recentemente descobriu Dostoiévisky (sou tão dã que até tive que verificar no google como escreve o nome dele direitim) pelos comentários belíssimos do pai. Pois bem, seu texto é tão maravilhoso quanto as discussões que ouço de ambos. Então, com sua licença, estou copiando e enviando para a menina. Tenho certeza de que, a partir dele, ela terá uma nova paixão. Obrigada, Fal, obrigada ao infinito.

  3. Daisy disse:

    Nada mais angustiante do que “O Processo”. Kafka consegue me deixar mais deprimida do que o meu trabalho.

  4. ana b. disse:

    eu li pouco kafka, mas do que li acho seus textos esquisitos (não num sentido pejorativo) e sedutores ao mm tempo!
    e eu a-do-ro eça de queiróz, totalmente!
    vou ali procurar meu “metamorfose”, estranhar mais um pouco a vida…

  5. Fabí Barillo disse:

    Fal, Fal,
    Achei que só você era apaixonante… mas, pelo que leio, tudo o que você lê também o é.
    Continue colhendo e distribuindo a nós, pobres mortais literários, essas “preciosidades”.
    Um beijo imenso, na alma e nos olhos

  6. K disse:

    Uma vez , há alguns anos , ao descobrir que meu sobrinho era um anjo de tão bom, tive uma crise de choro porque tinha certeza que ele iria morrer.
    Também acredito que os bons vão antes.
    Se bem que aos 6 meses de idade, o padre de minha cidade profetizou minha morte iminente e nem era porque eu era boa . Era só porque eu já falava e muito.
    Estranho mundo esse.
    p.s.Kafka teria adorado o Minúsculos.

  7. marinaide disse:

    Querida Fal,
    continuo torcendo pra que você seja adotada por um grande patrocinador cultural, de modo que possa transmitir o conhecimento, a cultura e a arte com essa graça e leveza que só vc tem. Só vc, minha querida, que as muito boas me perdoem, mas vc é única e é ótima!
    Bjs

  8. Regina Helena disse:

    Querida Val, quando leio os seus textos me sinto esperançosa e mais otimista. Volto a fazer parte da raça humana, crer em mim mesma e nos outros seres humanos. Vc consegue isto…Obrigada
    Mais e mais inspiração. Bjs Regina

  9. Regina Helena disse:

    UPS, desculpe coloquei V ao invés do F de Fal. sorry Re

  10. vera disse:

    obrigada, fal, por me iluminar, mais uma vez. bjucas

  11. ADHEMAR disse:

    Só falta uma coisa: EI PESSOAL, VAMOS DIVULGAR, MAIS E MAIS, A FAL, COMO UMA AUTÊNTICA “CORRENTE DO BEM”. Com certeza contribuiremos para um mundo melhor.
    Mais uma vez Fal, muito obrigado por suas lições de vida. Os comentários acima dizem tudo. Outros, com certeza, irão se somar. Bjs.

  12. Isa disse:

    dá vontade de ler kafka. maravilhoso. bjs

  13. Solange disse:

    Eu não entendo Kafka, devo ser muito burra e pouco evoluída.
    Adoro ler voce…:)
    Beijinhos.

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