Ainda está em mim
No fim do terceiro colegial, veio a notícia: o colégio vai fechar! Fechar? Como, quando? O resumo da ópera era o seguinte: a diretora e dona do colégio, Laura, ia vender o Colégio Gávea para uma grande companhia imobiliária, que iria derrubar o velho prédio e construir um condomínio.
Depois do pânico inicial, as coisas foram se ajeitando. Alguns professores e coordenadores se organizaram e para não deixar nenhum aluno “a pé”, Paul, nosso coordenador de inglês, e a Zezé, a melhor professora de história do mundo, fundaram um colégio. A Antonina, que era uma das diretoras, abriu outro. Assim, quem queria continuar no esquemão do Gávea estava garantido, e quem estava no terceiro colegial acabou o ano letivo e foi cuidar da vida.
Por algum motivo, o tal condomínio não foi construído. E assim, eu estava lá, de bobeira, olhando o prédio da minha velha escola, abandonado há 7 anos. O prédio estava velho, sem pintura, com as janelas quebradas, mas pelo menos, pensava eu, não fora demolido após a venda. Eu via o meu velho colégio ali. Podia ouvir ecos dos gritos das crianças pequenas. Eu me lembro muito bem de tudo, ou quase tudo. Me lembro dos fatos, dos nomes, das pessoas, dos sons e dos cheiros. Guardo as cartas que recebi, em seus respectivos envelopes. Tenho álbuns de fotografias, e muitas delas estão em porta-retratos na minha estante, como um altar alegre que celebra um passado distante. Não é a primeira vez que eu estou ali, na frente daquele prédio decadente. Às vezes volto, para resgatar o tipo doce de esperança que tive um dia, para resgatar a mim mesma e o que fui. Lembro das músicas que cantávamos, e ouço o eco do gritos das crianças pequenas. Fecho os olhos e imediatamente estou lá.
Durante grande parte da minha vida o Gávea foi minha casa, meu lar, minha família. Eu fui para lá na 6ª série, quando meus pais estavam se separando, e foi lá que encontrei paz para minhas dores. Quando as aulas acabavam, ao meio dia, eu não queria ir para minha casa nova, que não era exatamente minha casa. Então eu almoçava o hambúrguer da Tia Laurinha e ia até a biblioteca, onde Daisy, a bibliotecária, me ajudava com os deveres de português. De lá, ia até a lojinha do colégio, onde trabalhava a Eli, que virou minha amiga de vida inteira. Ela ouvia minhas manhas, ria das minhas piadas e me contava a sua vida. Quando eu não tive para onde voltar, estava tudo bem, porque eu tinha o Gávea.
Diariamente o Gávea me recolhia de um mundo novo e quase sempre assustador, e me punha para dentro de seus corredores e salas seguros. A entrada era de paralelepípedos. As salas de baixo tinham vitrôs altos, as de cima, grandes janelas de casa, que a gente pulava para pegar as bolas que caíam no telhado. Lá também ficavam as salas de inglês. E a sala do Paul era fantástica. Ele se dependurava na janela da sala dele para gritar nossos nomes, num megafone, avisando que o recreio tinha acabado e não estávamos num clube. A sala dele tinha quadros lindos, com a mesa invejavelmente bagunçada e, Paulo José acaba de me lembrar, tinha ar condicionado também, um luxo. Entrar na sala dele era como entrar na cozinha da avó da gente, um lugar grande e sagrado, de onde sempre se saía com um presente, mesmo que fosse uma homework.
A da Laura era no corredor de baixo, cheia de tesouros. Quando a tristeza era muito grande, a sala da diretora era um bom lugar para ficar. Laura tinha sempre uma tarefa útil para mentes confusas, ou almas que queriam matar a aula de matemática da Rute. Até hoje eu a amo por isso.
Não sei mais da maioria das pessoas desse tempo, mas o Gávea está em mim. Reconheço a Joana no meu jeito de mexer no cabelo, e quando eu rio, é o riso da Ciça que ouço. Minhas piadas têm a cara do Serge e cada conta que faço na minha limitada calculadora, vejo a calculadora enorme, com teclas luminosas e sirenes, do Rubão. Canto como o Fabão e ouço como o Dani. Muito do meu vocabulário de hoje tem frases e expressões engraçadas que aprendi lá com o Paul, a Bia e a Cristina, que também me ensinou a amar biologia.
Com as poucas pessoas da época que ainda encontro, construí uma vida depois do colégio. Com a Eli e a Carina. Com o Pedrão, meu irmão, que também estudou lá, e que é um cara maravilhoso. E com o Paulo José, meu norte, que tinha teorias muito firmes dos motivos pelos quais se devia tomar a cada 4 horas os remédios que a bula indicava como “uma cápsula a cada 12 horas”. Com essas pessoas tenho uma história hoje, mas tenho também um passado em comum.
Abro os olhos e olho para a frente. Vejo um prédio velho, precisando urgentemente de pintura, mas não vejo o meu colégio. Meu colégio foi outra coisa que já acabou. Meu colégio foi outra coisa, que não vai acabar nunca. Porque eu ainda estou aqui. Engato uma primeira, vou embora e sei que não preciso voltar para olhar aquele prédio nunca mais. Tenho a melhor vista quando fecho os olhos.
