O Fazendeiro Frustrado
Sir Isaac Newton, pintado por Van der Bawr
“Platão é meu amigo, mas a verdade é minha maior amiga” – Aristóteles.
Newton leu essa frase quando estava em Cambridge, sozinho, sem grana, sem amigos, estudando feito um maluco, buscando um sentido para tudo o que ele sabia, para tudo o que ele sentia – para tudo o que ele era.
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Como é que ele foi parar lá?
Seu pai também se chamava Isaac Newton.
Era um pequeno proprietário rural e morreu antes de Isaac nascer, o que fez de nosso herói uma “criança póstuma”.
Do pai analfabeto, Isaac herdou o solar dos Woolsthorpe e um punhado de terras que rendiam uns bons trocados nas mãos de seus arrendatários.
Quando ele tinha três anos, sua mãe, Hannah Ayscough, casou-se com um pároco chamado Barnabas Smith.
O piedoso pároco queria uma esposa, mas não queria criar o filho de outro homem.
Por isso, Hannah deixa Isaac para trás quando se muda para a casa do novo marido. E ele é criado pela avó.
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Isaac cresce num mundo rústico, mas um mundo que também apreendeu a usar a força da água e do vento para polir, moer e para esmagar.
Isaac e seus contemporâneos estavam familiarizados com a forja, o moinho e a fornalha. A Inglaterra onde Isaac cresceu era um país rural, formado de vilarejos espalhados, fazendolas e sítios, que se regulava pelo calendário cristão e que, como em muitas outras partes do mundo, produzia objetos de metal (panelas e chaleiras de bronze, barras e pregos de ferro etc.), vidro, lentes, papel, tinta, relógios mecânicos e tinha, além de um serviço postal eficiente, um sistema numérico capaz de expressar frações.
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Infeliz, com saudades da mãe, o solitário menino Isaac Newton não sabia, mas já tinha à sua volta tudo o que o ajudaria a ser um grande cientista, um grande pensador.
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Quando a mamãe volta para casa depois de ficar viúva – de novo – Newton já sabia ler. Também já sabia as tabuadas e já conhecia a Bíblia – frequentara a escola do vilarejo. Mamãe não fez muito caso do fato de Newton cortar pedras para fazer relógios de sol e de ele já entender, mesmo antes de saber do que se tratava, a órbita elíptica da Terra e a inclinação de seu eixo, que o Sol subia e descia no céu durante o ano, segundo um padrão. Os relógios mecânicos eram raros em Woolsthorpe e, quando alguém perguntava as horas por ali, era aconselhado a consultar um dos muitos relógios de sol do menino Newton – eles eram conhecidos por sua exatidão. A mãe de Newton pode não ter feito caso disso tudo, mas também não o mandou parar de estudar. Pelo contrário. Enviou o guri para uma escola em Grantham, que ficava a 13 quilômetros de distância. O menino ficava hospedado com um boticário, Mister William Clark.
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Morando no sótão da casa dos Clark, Newton frequentou a King’s School, onde aprendeu grego, latim, teologia e hebreu. Henry Stokes, o mestre-escola durão, também incluía aritmética no currículo de seus meninos, futuros fazendeiros. Achava importante que os guris aprendessem a medir áreas e formas, a calcular acres, a mexer com logaritmos para medir terras e mais: ainda esperava que eles inscrevessem polígonos regulares em um círculo e calculassem o comprimento de cada um dos lados, exatamente como Arquimedes fizera para calcular o pi.
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Quando ele está com 16 anos, a mãe o manda voltar para casa. Ela quer que ele assuma seu papel e administre a vida prática da família, cuide da fazenda e dos negócios. Isaac volta e passa seus dias arrastando-se pela propriedade, com a cara mais infeliz do mundo, um fazendeiro frustrado, brigando com os irmãos, fugindo do trabalho, zanzando pra cima e pra baixo, sabendo que queria alguma coisa da vida, mas não sabia o quê. Seu desamparo era tão óbvio que o mestre-escola Strokes e o irmão de sua mãe, o reverendo Ayscough, conseguiram que Isaac fosse mandado para Cambridge. Contrariada, a mãe lhe mandava bem pouco dinheiro, então ele vivia na universidade como subsizar – ou seja, ele ganhava seu sustento incumbindo-se de pequenas tarefas e servindo os outros alunos às refeições.
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O currículo da universidade pareceu chatinho a Newton. Seguia ainda a tradição escolástica medieval. Logo, estudavam-se, basicamente, textos gregos e romanos e Aristóteles. Hum, como? Aristóteles? Epa, isso era interessante.
Lógica, ética, retórica, cosmologia, mecânica: Aristóteles estava com tudo.
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Newton leu Aristóteles nos mais diversos idiomas e foi se encantando com tudo o que lia. Com ele, deu-se conta de que o mundo é, sem dúvida, o mundo das substâncias. E que o conjunto das qualidades de cada substância conduz a uma forma e que, ao mudarem, as propriedades das substâncias produzem movimento.
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Movimento – ação, transformação, alteração.
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Puxar, arrastar, empurrar, carregar, largar, girar, circundar, separar, unir, combinar, crescer, alterar, minguar, diminuir, aumentar, morrer. Aristóteles conjuga todos esses verbos como movimento e Newton lê pela gramática de Aristóteles.
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O menino Newton e o velho Aristóteles parecem concordar que movimento é vida.
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Usando Aristóteles como base, Newton viaja a obra de todos os grandes. Fica pasmado e pirado com a filosofia geométrica e mecânica de Descartes. Perde-se de amores por Galileu e suas teorias sobre velocidade. Enche sua cabeça e seus cadernos de anotações de dúvidas, tabelas, listas, questionamentos.
Começa uma nova sessão em um dos seus cadernos: questiones quaedam philosophicae (algumas questões filosóficas).
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E assim cria para si mesmo (e para nós, mas isso ele não sabia) um novo começo.
Organizando seu caderno com títulos elementares, ele começava a mudar a vida dele – e a nossa também.
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O que Newton descobriu é a essência do que fazemos e vivemos.
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Não quero nem saber se você é budista ou católico, antes disso comungamos da mesma fé, somos todos newtonianos.
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Quando você joga uma bolinha de papel no cesto e atinge seu alvo, meu bem, você está professando nossa fé.
As leis newtonianas fazem parte das nossas vidas dum jeito tal que parece instituição.
Mas não são.
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Acreditamos que o avião sai daqui e chega ali, em poucas horas, acreditamos em cálculos de distâncias, acreditamos nos mecanismos que regem as marés, acreditamos que a luz não “está por aí” e sim que ela vem do sol e demora oito minutos e meio para chegar. Assimilamos as idéias newtonianas como fé, de tal forma que fica difícil imaginar quão gigantesca foi a mudança operada por sua obra.
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Se hoje a vida é menos difícil, se para nós o universo é mais decifrável, se temos leis matemáticas e estatísticas, tabelas e padrões para nos tirar das brumas cotidianas, devemos a Newton e a seu trabalho de vida inteira.
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O domínio do mundo, ou vá lá, essa ilusão de domínio, esse certo domínio que temos de nosso mundo, vem de nossa certeza de que a natureza é regida por leis racionais e universais e não por misteriosos desejos divinos.
Ela vem também do nosso entendimento dessas leis, entendimento que devemos em grande parte a Newton.
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Calcular e prever distâncias e trajetórias, a mensuração das marés, a localização de navios e do Amyr Klink no oceano através de latitude e longitude e mais montes de outras coisas que facilitam a vida?
Agradeço a São Isaac Newton pela graça alcançada.
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Fonte (e, claro, dica quentíssima de leitura)
Isaac Newton – uma biografia
Autor: James Gleick
Editora: Cia das Letras
Nota da autora: Obrigada a todos que chamaram atenção para o meu pavoroso erro de digitação





