Arquivo de maio, 2009
29/05/2009 - 16:03

Sir Isaac Newton, pintado por Van der Bawr
“Platão é meu amigo, mas a verdade é minha maior amiga” – Aristóteles.
Newton leu essa frase quando estava em Cambridge, sozinho, sem grana, sem amigos, estudando feito um maluco, buscando um sentido para tudo o que ele sabia, para tudo o que ele sentia – para tudo o que ele era.
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Como é que ele foi parar lá?
Seu pai também se chamava Isaac Newton.
Era um pequeno proprietário rural e morreu antes de Isaac nascer, o que fez de nosso herói uma “criança póstuma”.
Do pai analfabeto, Isaac herdou o solar dos Woolsthorpe e um punhado de terras que rendiam uns bons trocados nas mãos de seus arrendatários.
Quando ele tinha três anos, sua mãe, Hannah Ayscough, casou-se com um pároco chamado Barnabas Smith.
O piedoso pároco queria uma esposa, mas não queria criar o filho de outro homem.
Por isso, Hannah deixa Isaac para trás quando se muda para a casa do novo marido. E ele é criado pela avó.
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Isaac cresce num mundo rústico, mas um mundo que também apreendeu a usar a força da água e do vento para polir, moer e para esmagar.
Isaac e seus contemporâneos estavam familiarizados com a forja, o moinho e a fornalha. A Inglaterra onde Isaac cresceu era um país rural, formado de vilarejos espalhados, fazendolas e sítios, que se regulava pelo calendário cristão e que, como em muitas outras partes do mundo, produzia objetos de metal (panelas e chaleiras de bronze, barras e pregos de ferro etc.), vidro, lentes, papel, tinta, relógios mecânicos e tinha, além de um serviço postal eficiente, um sistema numérico capaz de expressar frações.
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Infeliz, com saudades da mãe, o solitário menino Isaac Newton não sabia, mas já tinha à sua volta tudo o que o ajudaria a ser um grande cientista, um grande pensador.
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Quando a mamãe volta para casa depois de ficar viúva – de novo – Newton já sabia ler. Também já sabia as tabuadas e já conhecia a Bíblia – frequentara a escola do vilarejo. Mamãe não fez muito caso do fato de Newton cortar pedras para fazer relógios de sol e de ele já entender, mesmo antes de saber do que se tratava, a órbita elíptica da Terra e a inclinação de seu eixo, que o Sol subia e descia no céu durante o ano, segundo um padrão. Os relógios mecânicos eram raros em Woolsthorpe e, quando alguém perguntava as horas por ali, era aconselhado a consultar um dos muitos relógios de sol do menino Newton – eles eram conhecidos por sua exatidão. A mãe de Newton pode não ter feito caso disso tudo, mas também não o mandou parar de estudar. Pelo contrário. Enviou o guri para uma escola em Grantham, que ficava a 13 quilômetros de distância. O menino ficava hospedado com um boticário, Mister William Clark.
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Morando no sótão da casa dos Clark, Newton frequentou a King’s School, onde aprendeu grego, latim, teologia e hebreu. Henry Stokes, o mestre-escola durão, também incluía aritmética no currículo de seus meninos, futuros fazendeiros. Achava importante que os guris aprendessem a medir áreas e formas, a calcular acres, a mexer com logaritmos para medir terras e mais: ainda esperava que eles inscrevessem polígonos regulares em um círculo e calculassem o comprimento de cada um dos lados, exatamente como Arquimedes fizera para calcular o pi.
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Quando ele está com 16 anos, a mãe o manda voltar para casa. Ela quer que ele assuma seu papel e administre a vida prática da família, cuide da fazenda e dos negócios. Isaac volta e passa seus dias arrastando-se pela propriedade, com a cara mais infeliz do mundo, um fazendeiro frustrado, brigando com os irmãos, fugindo do trabalho, zanzando pra cima e pra baixo, sabendo que queria alguma coisa da vida, mas não sabia o quê. Seu desamparo era tão óbvio que o mestre-escola Strokes e o irmão de sua mãe, o reverendo Ayscough, conseguiram que Isaac fosse mandado para Cambridge. Contrariada, a mãe lhe mandava bem pouco dinheiro, então ele vivia na universidade como subsizar – ou seja, ele ganhava seu sustento incumbindo-se de pequenas tarefas e servindo os outros alunos às refeições.
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O currículo da universidade pareceu chatinho a Newton. Seguia ainda a tradição escolástica medieval. Logo, estudavam-se, basicamente, textos gregos e romanos e Aristóteles. Hum, como? Aristóteles? Epa, isso era interessante.
Lógica, ética, retórica, cosmologia, mecânica: Aristóteles estava com tudo.
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Newton leu Aristóteles nos mais diversos idiomas e foi se encantando com tudo o que lia. Com ele, deu-se conta de que o mundo é, sem dúvida, o mundo das substâncias. E que o conjunto das qualidades de cada substância conduz a uma forma e que, ao mudarem, as propriedades das substâncias produzem movimento.
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Movimento – ação, transformação, alteração.
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Puxar, arrastar, empurrar, carregar, largar, girar, circundar, separar, unir, combinar, crescer, alterar, minguar, diminuir, aumentar, morrer. Aristóteles conjuga todos esses verbos como movimento e Newton lê pela gramática de Aristóteles.
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O menino Newton e o velho Aristóteles parecem concordar que movimento é vida.
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Usando Aristóteles como base, Newton viaja a obra de todos os grandes. Fica pasmado e pirado com a filosofia geométrica e mecânica de Descartes. Perde-se de amores por Galileu e suas teorias sobre velocidade. Enche sua cabeça e seus cadernos de anotações de dúvidas, tabelas, listas, questionamentos.
Começa uma nova sessão em um dos seus cadernos: questiones quaedam philosophicae (algumas questões filosóficas).
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E assim cria para si mesmo (e para nós, mas isso ele não sabia) um novo começo.
Organizando seu caderno com títulos elementares, ele começava a mudar a vida dele – e a nossa também.
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O que Newton descobriu é a essência do que fazemos e vivemos.
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Não quero nem saber se você é budista ou católico, antes disso comungamos da mesma fé, somos todos newtonianos.
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Quando você joga uma bolinha de papel no cesto e atinge seu alvo, meu bem, você está professando nossa fé.
As leis newtonianas fazem parte das nossas vidas dum jeito tal que parece instituição.
Mas não são.
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Acreditamos que o avião sai daqui e chega ali, em poucas horas, acreditamos em cálculos de distâncias, acreditamos nos mecanismos que regem as marés, acreditamos que a luz não “está por aí” e sim que ela vem do sol e demora oito minutos e meio para chegar. Assimilamos as idéias newtonianas como fé, de tal forma que fica difícil imaginar quão gigantesca foi a mudança operada por sua obra.
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Se hoje a vida é menos difícil, se para nós o universo é mais decifrável, se temos leis matemáticas e estatísticas, tabelas e padrões para nos tirar das brumas cotidianas, devemos a Newton e a seu trabalho de vida inteira.
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O domínio do mundo, ou vá lá, essa ilusão de domínio, esse certo domínio que temos de nosso mundo, vem de nossa certeza de que a natureza é regida por leis racionais e universais e não por misteriosos desejos divinos.
Ela vem também do nosso entendimento dessas leis, entendimento que devemos em grande parte a Newton.
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Calcular e prever distâncias e trajetórias, a mensuração das marés, a localização de navios e do Amyr Klink no oceano através de latitude e longitude e mais montes de outras coisas que facilitam a vida?
Agradeço a São Isaac Newton pela graça alcançada.
***
Fonte (e, claro, dica quentíssima de leitura)
Isaac Newton – uma biografia
Autor: James Gleick
Editora: Cia das Letras
Nota da autora: Obrigada a todos que chamaram atenção para o meu pavoroso erro de digitação
Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado
Tags: Newton
27/05/2009 - 13:55
Em 27 de maio de 1703, Pedro – o grande, fundava São Petesburgo, na Rússia. Bons tempos aqueles. Tá certo que não foi no século XIX, o melhor século de todos, mas ah, mesmo assim era bão. São Petesburgo transformou-se na nova capital da Rússia e estou com o velho Pedro: se eu fosse imperador, também ia querer governar de lá. Ele era um cara preocupado com o papel da Rússia no mundo, com formas de cuidar do império, com a modernização do país. Ele introduziu na Rússia novas cartas topográficas e algumas das invenções de Isaac Newton e muitos e muitos livros de autores até então desconhecidos naquela parte do mundo. Ele foi o primeiro cara a entender que seu país tinha que ser uma nação integrada no mundo e que tinha que dominar uma série de linguagens e conceitos se quisesse crescer. Ele entendeu como poucos que ninguém, especialmente um país, especialmente um país do tamanho e da importância da Rússia, pode se isolar do resto do mundo. Há quem defenda o berço do Iluminismo não no século XVIII, mas no final do século XVII, afinal, Espinosa sequer viu raiar o século XVII e Locke morreu em 1706. Tendo a concordar com quem defende essa bandeira porque Pedro I não deixou de ser um homem com os pés plantados no iluminismo, e de todas as coisas que fez, para mim, a mais bacana foi ter fundado a Academia de Ciências Russa. Ele levou gente séria e importante para trabalhar lá, caras como o matemáticos Leonhard Euler (craque em análises matemáticas, em mecânica, óptica, e astronomia), o botânico Johann Georg Gmelin (que participou de uma expedição científica para a Sibéria, que durou de 1733 a 1743. Ele escreveu longamente sobre o Rio Ienissei, que é o limite físico entre a Europa e a Ásia, foi o primeiro cara a sacar, medir e comprovar cientificamente que o nível do Mar Cáspio fica abaixo do nível do Mar Mediterrâneo, escreveu muitíssimo sobre a flora da Sibéria, foi um cientista de ponta mesmo para os padrões atuais), Caspar Friedrich Wolff , um dos pais da embriologia, um cientista que, retomando Aristóteles, desenvolvendo a tese da epigênese, influenciando para sempre cientistas e até filósofos. Também lá desenvolviam seus trabalhos científicos homens como o astrônomo e geógrafo francês Joseph-Nicolas Delisl. Então, não era iluminismo, mas já era iluminismo. Zeitgeist é isso. E num mundo que se afunda em medievalismos inacreditáveis, é sempre um consolo lembrar que houve gente voltada para o racionalismo e o estudo sério e a pesquisa científica. Sempre acho isso um alento.
*
Enquanto isso, de volta à Idade das trevas, ônibus incendiados em São Paulo; o exército da Coréia do Sul em alerta máximo; um pedaço de Mata Atlântica – algo como dois terços da cidade de São Paulo – foi desmatada de 2005 e 2008; o mundo perde o genial artista Arcangelo Ianelli; certo presidente da república tira mais uma série de fotos ao lado de seu ídolo venezuelano; 88% dos formados em direito que prestaram OAB em São Paulo foram reprovados; e também em São Paulo hoje, tivemos 168 quilômetros de congestionamento, para quem reclamar da falta de recordes quebrados.
*
Ah, e a cereja do bolo: PMDB e PT indicando “nomes de confiança” para ocupar as vagas de titulares na CPI da Petrobrás. Hum. Essa é daquela série “comentar o que?”
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Faltam 218 dias para acabar o ano. Falta muito para 1703?
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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25/05/2009 - 11:37

Assisto aos programas da madrugada, esses que cobrem festas e lançamentos de produtos e, mesmo acusada de ingenuidade crônica, não deixo de me espantar: como tem picareta nesse mundo. Muito bronzeamento de butique, muito mega-hair, muito implante, muito dente de porcelana e muito silicone. Todos com opiniões, todos assinando contratos milionários, expandindo suas networks, fazendo “instalações”, expressando-se em performances, explanando teorias inovadoras, esmiuçando suas assombrosas vidas pessoais bem na minha frente e eu só tenho forças para me perguntar: com que diabos pagam o condomínio e o colégio dos filhos os nadas deste país?
*
Bonita e importante empresária do ramo dos cosméticos me sai com a seguinte e taxativa afirmação:
- Ah, todo mundo sai pra jantar umas duas ou três vezes por semana.
Todo mundo quem, cara-pálida? Nem em Luxemburgo a taxa há de ser essa.
*
Não deixa de me espantar esse povo querendo cortar cordas vocais de cachorrinhos e gatinhos pelos aí. Agora vocês imaginem se eu me lanço aqui a sugerir que, já que é assim, tudo pelo bem-estar auditivo dos vizinhos, que se cortem as cordas vocais dessas criancinhas insuportáveis que berram na piscina e atrapalham meu filme, desses homens lamentáveis que jogam futebol bem debaixo da minha janela e que, com suas barrigas peludas e suas bermudas, ainda gritam “Passa! Passa!” às 9 da manhã de um domingo, dessas senhouras mal-amadas que discutem a relação aos brados, com suas vozes fininhas e estridentes, depois das 11 da noite, encostadas na minha janela, atrapalhando, assim, o casamento delas e o meu. Se for pelo bem da vizinhança, eu tenho uma lista de cordas vocais a serem sacrificadas. Imagina o número de cartinhas de mamãs indignadas, de esposas amantíssimas e de maridocos abobalhados que eu ia receber. O povo abusa porque a mãe do cachorrinho não sabe (ainda) escrever.
*
O Leonardo tem certeza de que o pessoal do escritório só trabalha até tarde porque não consegue achar a porta da saída.
*
Ela me ligou para reclamar que o maior saco de ser mulher e trabalhar em casa eram as interrupções. Que nem filho, nem marido, nem empregada respeitam e ficam toda hora interrompendo, falando, perguntando. E completou que duvida que o João Ubaldo Ribeiro seja tirado de suas atividades para comprar azeite. Eu ri e concordei. Mas acho que o Ubaldo não sabe o que está perdendo. Essa é a graça de trabalhar em casa.
*
Recebo e-mail de uma famosa firma de venda de livros pela rede: “Seu pedido de 199,00 reais já foi enviado”. Ligo para lá e dá-se o seguinte entrevero:
- Oi, vocês estão mandando pra minha casa um pedido de quase 200 paus?
- Sim, senhora.
- E quem pagou?
- A senhora.
- Como?
- Senhora, aqui consta como débito na sua conta do Banco Tal.
- Eu não tenho conta no Banco Tal querida.
- …
- Oi? Moça, você tá ai?
- Mas, senhora, então quem pagou os produtos?
- Eu não sei, mas espero que chegue logo, vou adorar o presente.
O maravilhoso mundo das compras pela internet. Rá.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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22/05/2009 - 12:56

Baco não edita o arquivo hosts
Baco não compartilha pasta
Baco não usa roteador
Baco não sabe copiar os favoritos do Internet Explorer
Baco não sabe onde fica o PST
Baco não usa o MSN
Baco não dá control+alt+Del
Baco não manda foto do ex-namorado para a lixeira
Baco não back-up
Baco não tem Orkut… mas Baco está no twitter
Baco não tem cluster geográfico
Baco não consegue achar droga nenhuma no Google Maps
Baco não faz redundância
Baco não tem banco de dados
Baco não disco rígido
Baco não lê o blog de ninguém
Baco não usa o botão direito do mouse
Baco não tem fonte de alimentação
Baco não fica sem conexão
Baco não fica sem bateria
Baco não usa Apple
Baco não precisa de front-end
Baco não usa photoshop… o corpinho dele é bem feitinho assim mesmo
Baco não compra música na lojinha do i-tunes
Baco não baixa filmes e séries ilegalmente… Baco não pratica pirataria
Baco não compra livro na amazon.com
Baco não tira certificação da Microsoft
Baco não troca o monitor
Baco não está nem aí para o estabilizador de voltagem
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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20/05/2009 - 14:23
Sinto falta das cartas. O papel bonito, os envelopes bem preenchidos. Sinto falta delas. A minha letra é razoável e eu gosto de escrever à mão. Todas as vezes que ensaio um retorno ao mundo epistolar, alguma coisa acontece e não dá muito certo. Na falta das cartas, os e-mails quebram um galho. Gosto de e-mails. E-mails com fotos anexadas, das férias, das crianças, dos cãezinhos. E-mails malvados às vezes, engraçados, quase sempre. E-mails com fofocas, com confissões, escritos no meio duns minutins roubados do trabalho, com sorrisos. E-mails que sussurram, gosto muito (há os que gritam, mas não quero mais nenhum grito nessa vida). E-mails que falam de lareiras e piscinas e receitas e escaladas em paredes e ensaios de coral. E-mails que pedem informações e conselhos, que dão conselhos e informações, que passam recibo, que anexam dores, que acabam relacionamentos. E-mails que são interceptados e apagados por mulheres ciumentas. E-mails que são vasculhados por maridos ciumentos. E-mails que são deletados antes de serem abertos. E-mails que se perdem no cyber espaço: nem chegam ao destinatário, nem voltam para quem os enviou. E-mails que chegam ao destinatário, só que é o destinatário errado e causam a maior confusão. E-mails que quase fazem chorar, mas estamos no trabalho, então, não dá. E-mails que avisam que um bebê nasceu. E-mails que dão esperança sobre o projeto que ainda não saiu. E-mails que são uma fatia, quase sempre fininha, do dia de alguém, da vida de alguém, do tempo de alguém. Gosto de e-mails.
*
Alguns e-mails chegam como um bolinho doce e quentinho no meio de um dia frio. Ou como um copo de suco de maracujá deliciosamente azedo no meio dum verão horroroso. Eles pura e simplesmente salvam o dia, a semana, salvam você de você mesmo, salvam seu coração. Semana passada um amigo me escreveu “Receber seu e-mail foi como ‘ler’ uma caneca de sopa”. Alguns e-mails são tão necessários quanto um abraço morninho, tão úteis quanto uma sacudidela.
*
Alguns e-mails são âncoras amarradas ao seu pescoço: eles chegam, você lê e afunda. E não há o que fazer. Só esperar passar.
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Às vezes, depois de troca animada de três ou quatro e-mails, o outro lado silencia. Você relê tudo o que escreveu, procura sinais de que tenha ultrapassado algum limite ou ofendido seu correspondente, mas não acha nada e fica inconsolável. Daí começa a fantasiar que ele não recebeu, que ele não está acessando a internet por estes dias, que ele… desista. É muito mais provável que ele tenha recebido do que o contrário. De quando em vez as pessoas são assim, elas perdem o interesse em você e no que você tem a dizer por motivo nenhum. Tente não ficar muito sentido, e não perca a esperança, uma hora o correspondente ideal vai aparecer.
*
E quando seu amigo correspondente é mil vezes mais interessante via e-mail que ao vivo e a cores? Acontece também. Daí nos despedimos rápido e voltamos para o computador, de onde nunca deveríamos ter saído.
*
E-mails com piadas e filminhos de gatinhos e ratinhos, e-mails que pedem orçamentos, e-mails que são puro ódio envelhecido em tonéis de carvalho, e-mails que convidam para um café, e-mails que chamam para a briga, e-mails que botam panos quentes, e-mails que são um soprinho de vida no meio dum dia morto. Gosto mesmo de e-mails.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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18/05/2009 - 14:13
Lista das coisas que não deve fazer depois dos 23 anos? Eu ia começar com drogas – nada mais patético que um trintão/quarentão que paga aluguel e freqüenta reuniões de pais e mestres drogado e se sentindo da rapeize (meu deus, como eu sou velha, de onde eu fui tirar ‘rapeize’?) – cheio de pó, erva ou seja lá o que vocês jovens usam, nesses dias que correm, mas não, minha lista tem que começar com despedida de solteiro.
Ah, não, nada contra uma reunião de amigos, de ambos os sexos, de preferência num bar para comemorar a data que se aproxima, para dar risadas, para alguma dança, alguma pizza, alguma vodca e algumas reminiscências, brindando a nova fase da vida de, pelo menos, dois deles. Não é a esse tipo de despedida de solteiro a qual me refiro.
Nem falo daquela instituição chamada “chá de panela”, onde senhoritas em flor ou senhoronas em fruto, ajudam a amiga casadoira a montar a casa nova no que de mais básico uma casa pode ter: baldes, vassouras, rodos, pregadores e material de limpeza. Porque esse ritual de passagem eu também adoro. Aliás, desconfio que, se eu tivesse tido uma festa de casamento e tivesse recebido presentes, os presentes do chá de panela me divertiriam mais que os do casamento. Adoro quinquilharias.
O que me dá a tal da “vergonha pelos outros”, se não por mim mesma, são essas despedidas de solteiro onde senhouras que, se nascidas noutros tempos, nem tão longínquos assim, já teriam, elas mesmas, filhas casadoiras, pintam a cara de outra senhoura da idade delas, com imagens de falos y otras cositas más, fazendo jogos de adivinhação onde uma mulher de meia idade (sim, queridinhas, 38 é meia idade, ninguém vive até os 120. Bom, quase ninguém.) tem que pagar prendas que vão de andar pelas ruas com um modess pintado de batom amarrado na testa, até colocar camisinha com a boca numa banana.
O que eu quero dizer é: essa gente não teve adolescência? Não que eu fizesse essas coisas quando adolescente, fui criada pra ter um razoável senso crítico, mas Jesus, se alguém vai fazer que seja aos 17, jamais aos quase-quarenta!
Enfim, entreguei meu maravilhoso jogo de panos de prato – praticamente um enxoval, a moça terá os mais belos panos de prato até a década de 20 do presente século – dei um olá geral e fui embora, pois, se não dei gritinhos e nem fiquei fazendo barulhos de gozo pelo Kadu Moliterno, nas janelas da minha juventude (não, eu não sou velha, eu era precoce), não farei isso pelo Rodrigo Santoro, nas janelas da não-juventude alheia.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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15/05/2009 - 17:36

“Então, Sandra, você quer saber o que aconteceu? Rá, foi assim: os gatos derrubaram minhas garrafas de licor de murano, coleção da vida inteira, e sabe como pobre coleciona, né? Uma-por-uma. Bão, estamos lá limpando aquela melequeira, aí ele falou “Pronto, começamos a campanha Eu Agasalho 2003″, aí eu tive um acesso de riso daqueles de doer a barriga. Fui me equilibrar segurando na parede, eu tenho milhares de quadrinhos com fotas de família na parede, e rasguei a lateral da mão por dentro (assim, perto da palma). Aí tinha sangue, caco de vidro, licor, gato, gata, cachorro, nós dois abobados. Mas ele desabobou rápido, me fez sentar. Escorria sangue, eu chorava alto e você sabe cumé vizinho de pobre? O meu vizinho, o Manolo, ouviu barulheira, grito, choro, falou, “Uia, os gordo tão se espancando”, tocou a campainha, viu a cena, buscou a maleta e deu 12 pontos na minha mão. Detalhe, nega: o Manolo é veterinário. Aí eles limparam a melequeira, embrulharam minhas pobres garrafas em bilhares de jornais pro lixeiro não se machucar, limparam o resto da melequeira; e a minha prateleira antigatos, que não é antiporranenhuma, tá lá, vazia, uma tristeza. Minha mão está boa, não inchou e só dói um pouquinho, os dedinhos se mexem, o Manolo é um grande veterinário. Os gatos estão trancados na área de serviço, não quero olhar na cara deles por muitos e muitos anos.
Amor
Fal”
“Celebremos a vida com o nosso sol ou com os outros todos.
A.”
“Ana: Preciso de uma amiga que tenha com quem deixar as crianças, não ligue para a quantidade de vodca que pretendo ingerir neste final de semana e queira ouvir choro (eu ouço o dela em troca, palavra), que não ligue para coisas burguesas, tais como apartamento limpo e comida quente, e que saiba cantar You Don’t Know Me de fogo. Tenho umas dez garrafas de Lambrusco gelando. Um microssuicídio coletivo estaria nos seus planos deste sábado?
Beijoquinhas
Fal”
Fal, querida, eu nunca mais vou trabalhar dignamente, ter um empreguinho? Meu Deus, eu quero tanto trabalhar. Quer dizer, trabalhar não. Eu não quero trabalhar. Eu quero é comprar, caramba. Quero exercer o sagrado direito das pessoas de comprar coisas. Muitas, muitas coisas. Uma jaqueta. Uma tintura maneira pra cabela. Mais mil livros. A melhor festa do mundo para o meu filho. Roupa de cama do Xopetaime.
Mas não. Ao invés disso, fico usando casaco véio, tinta tubaína que estraga meu cabelo ruim e encomendando cento de coxinha de doze reau.
Deve ter um pé de galinha em cada coxinha dessas. A moça que faz deve usar galinha da macumba.
Amor
Ângela”
“Ah, querida, eu aqui a ver novela, claro. A mãe quer dar um apartamento de presente pra filha de 18 anos, que não estuda e trabalha como balconista na doceria da família. “E como ela vai pagar as contas?” – pergunta você, com essa mentalidade pequeno-burguesa, que não leva ninguém a lugar nenhum. Cara, eu não estou nem aí. Aliás, a mãe também não, a única preocupação da mãe é que seja num prédio com camareira e telefonista, essas coisas (sic) que facilitam a vida da gente. Se eu me choco com a classe média deste paraíso tropical, deste porto moreno, criando os filhos como se fossem sinhozinhos do café do século XIX? Eu não, estou é morta de inveja!
Muitos beijos
Eu”
“Oi Helga. Acabo de constatar que sexo é uma coisa de gente jovem, gostosa e sem celulite, como um anúncio de Molico. Deixei pra lá.
Beijocas
Fal”
“Querida T.: Ele tinha um rosto que só dá vontade de lembrar, mas eu preciso mesmo esquecer.
Sua F.”
Dra. Vânia: Ele goza em cinco minutos e eu passo o resto da noite com os olhos pregados no teto.
Espero uma taça de Bailey’s com gelo, um pôr-do-sol perfeito, beijocas no pescoço, um passeio de escuna com direito a cardumes de golfinhos, lençóis alvos, comida bem temperada, sonecas na rede, feirinha de artesanato, camarões graúdos e um verão sem fim. Sim, sim, em plena Avenida Paulista. Se vira.
“Minhas belas, em verdade vos digo: há de chegar o dia em que seus maridos comprometerão o orçamento de vocês por quatro ou cinco meses para comprar o mais cafona dos brincos, uma aberração em ouro branco, com pinguinhos de minúsculos e insuspeitadamente caros de diamantes. E vocês usarão, sabiam? Por amor. Então, não riam de mim.
Fal”
“Cara Vera: Felicidade é encontrar um ex-namorado especialmente cruel, e constatar que ele continua com cara de fuinha.
Amor
Adivinha quem”
“Uia. nega: tava andando com pressa, sapato incomodando, cheeeeeia de coisa pra fazer, na Voluntários da Pátria, rua cheia, carros, buzinas. E me deu uma vontade enlouquecida de comer coxinha com catupa numa lanchonete bagaceira. Parei tudo, lógico, e fui comer a tal coxinha. Comi uma, duas, três. Aí me deu uma moleeeeza. Comprei umas galochas lindas pro André (nada mais lindo que criança pulando na água de galocha) e fui pra casa. Nunca serei uma executiva de sucesso. Eu não tenho força de vontade. Largo tudo por coxinhas com catupa e um par de galochas bonitas.
Beijo
Ângela”
“Doce Vera: começo a me perguntar se meia dúzia de certezas não é muito pouco para tantos anos de dor.
Falzuca”
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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13/05/2009 - 12:56
Independência, Ju, até vá lá. Tudo bem. Mas morte? Não, de jeito nenhum.
Beijos, Fal
*
Amiga: Aqui em casa ele acaba comigo. Depois vai pro escritório, levantar a auto-estima das secretárias.
ass: L.
*
Ah, querida, casa-se por tantos motivos, tantas razões, para irritar o próximo, para magoar o pai, para se vingar da mãe, porque não se quer ser a “prima solteirona” no próximo Natal, porque não se tem o que fazer no sábado à noite, para atormentar o ex-noivo, para ter do que viver, para ter filhos (como sou antiga, rárárá!). Case-se para ser feliz, querida, por que não?
beijos, Vera
*
Mas, por mal dos pecados, ainda teve, hoje, na televisão, um especial do Paul MacCartney. Jamais entrei na deles, mas me lembro, muito bem, das avassaladoras mudanças das quais eles fizeram parte. Que fiz, internada numa biblioteca? Passei para a prateleira do lado. Nessa prateleira avistei um pedacinho da página onde estava escrito “The book is on the table”. Aí, desmaiei. Era passado demais para o meu domingo.
Abraços, Maria José.
*
Amélia, meu bem:
Não tenho medo do futuro, não temo o porvir. Não tenho medo de ser pobre , de ficar velha, de engravidar, de morrer. Não tenho medo de perdê-la. Não tenho medo da terceira guerra mundial, do coreano maluco, de pegar catapora, de bater no carro, de andar na chuva. Só tenho medo de mim. E de você, um pouco.
Amor, Sandra.
*
Querida M.:
Sonho com você constantemente. Você está nua, de cabelos soltos, sentada nos degraus da casa do seu pai. Nem Freud sonharia um treco desses. Melaine Klein talvez, mas o Freud? Nunquinha.
Ass: sua P.
*
Querida F., quando você, com síndrome de pânico, triste, cheia de porras pra resolver, desanimada, gorda e pobre, respira fundo, sacode os fantasmas de cima do ombro, vira pra alguém e diz cheia de energia “VAMOS PASSAR O SÁBADO NA ESTRADA?!”, porque esse alguém vive dizendo o quanto relaxa na estrada e fica feliz quando viaja, você não quer ombros caídos, cara de cu e uma vago “Hum, e aonde a gente ia?”. O que você quer, o que você precisa, no mínimo, é dum “Vamos!!!” entusiasmado.
Pensamentos sombrios pruma sexta-feira, né?
Vou voltar para a reunião.
G.
*
O que eu vejo nele, Ângela? A melhor meia hora da minha vida.
cuide-se
Fal
*
Fal, não sei se devo engolir tanto sapo pra manter aquele casamentinho com meu príncipe falido, ou semando esse sapo pra outro brejo, pra fazer companhia à vaca que já está lá.
beijos, Li.
*
Perdemos o hábito, o medo, o rumo, o trem, a noção, as chaves do carro e a vergonha, claro. Perdemos tanta coisa pelo caminho. Eu o perdi e nem me lembro onde. Ou porque. E você?
*
Minha bela Helga, dancei, flertei (olha como eu sou velha?), bebi, cantei, a noite foi divertidíssima. Comigo agora é assim, pego a dor desprevenida.
amor, sempre
Fal
*
Guriazinha querida, não consigo entender seu espanto a respeito do entusiasmo do Nelsão pela Setembrina. Queridinha, quem ama o burro, inteligente lhe parece.
Beijos da sua Inesita.
*
Nós superamos isso, meu bem. Feliz ou infelizmente.
amor
F.
*
Ângela: pensei sobre a sua pergunta. Eu ia ser uma dessas pessoas que não sabem nunca onde estão, que não ligam pro nome da rua nem pro número da casa. Eu ia amar só as pessoas que merecem meu amor. Eu nunca ia ter preguiça de raspar a perna. Eu ia ter longas unhas vermelhas e uma cinturinha de pilão, ao invés desse meu look de “cozinheira inglesa” – você sabe, gorda, relaxada e com roupas esquisitas. Eu ia ter um cavalo. Eu ia viver de escrever. E eu ia escrever cousas que deixariam todo mundo admirado com meu talento. Ia ter amigos intelectuais, que teriam conversas interessantes e que viriam à minha casa fumando cachimbos. Eu teria um pai que me amasse. Eu jamais guiaria um carro, não ia nem ter carta. Eu teria tempo. Teria mais talento e menos vocação. Teria cabelos vermelhos. Eu iria me amar mais. Eu iria ser organizada de verdade. Paciente. Eu seria uma dessas pessoas que pensam antes de fazer. Eu usaria chapéus. Saberia usar pronomes. Faria jardinagem ou teria alguma outra atividade aristocrática. Não teria medo de falar em público. Não teria pesadelos. Teria um piano na sala. Não aturaria nenhum medíocre, nunca, nunca. Só usaria salto alto. Faria bolos altos, fofos, daqueles que não solam. Acreditaria em Deus. Acreditaria num mundo melhor, num lugar melhor, numa vida melhor.
beijuca
Fal
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Ah, Docinha, não sabes disso? Então falhei miseravelmente na tua educação. Toda delicadeza, querida, toda, é perdida.
Amor,
Rui.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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11/05/2009 - 13:26
Sempre me espantou quem é assaltado ‘usando as pérolas da vovó’, ‘saindo da peça da Fernanda Montenegro’, ‘indo jantar fora com Cae’, ‘com o carro novinho’, ‘com cinco mil reais em dinheiro que eu tinha acabado de sair do banco’. Espantou e deu uma invejinha também, tá, tudo bem, o cara foi assaltado, mas antes disso, pombas, que pusta vida legal!
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Pois eu, vejam bem as senhoras e os senhores leitores ilustrem do IG, eu fui assaltada hoje, às 9 da manhã, comprando saco de lixo.
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Nada de jóias de família, nada de jantar com cantor famouso. Eu estava saindo do japonês dos descartáveis, depois de comprar saco de lixo, sabão líquido no garrafão de cinco litros e copo de plástico. Eu não ia ver a peça da Fernanda Montenegro, ia ao correio.
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E nós estamos tão acostumados, à violência e à mediocridade, que o que mais se escuta depois de uma coisa dessas é o famoso “Ainda bem que não aconteceu nada mais sério com você”.
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O moço não disse nada do tipo “Mãos ao alto”, e nem me informou solene “Isso é um assalto”. Não precisava. Assim que me virei, vi o que era e o funcionário da loja, que colocava saco de lixo e garrafas de sabão em meu carro, também.
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Já que não havia nenhuma pérola na área, o moço levou meu celular, uns sessenta pilas em dinheiro e meu cartão do banco. Levou uns envelopes endereçados e colados, minha lanterninha da relouquite (da década de oitenta, insubstituível), bloquinhos e batons, anotações e moedinhas. Deve estar me xingando numa hora dessas e lamentando profundamente não ter levado Torresmo, meu carrinho, que é veio, mas anda.
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Ah, e eu tinha acabado de sair da terapia. O que me deixa com uma dúvida: não é hora duma lei que garanta que se a gente é assaltado depois da terapia (inda mais depois de um domigo de dores de ouvido lancinantes), a sessão não valeu, o resto do dia está automaticamente cancelado e a vítima deve voltar imediatamente ao consultório de seu psicanalista e lá passar permanecer por quantas horas quiser?
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Trincado de tanta droga, o menino que me assaltou tinha uns 15, 16 anos. O revólver era mais pesado que ele. Ele balbuciava coisas sem sentido, de vez em quando batia com o cano da arma no lado da minha cabeça e apontava (com a arma, com a arma, para meu eterno pavor), para a sacola cheia de envelopes que eu tinha no ombro. Entreguei a sacola, tirei o celular do bolso e dei também, e ele chegou a pedir a chave do carro. Mas daí um companheiro dele passou correndo pela calçada e ele foi correndo atrás, amêm nóis tudim.
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Não era raro que os ladrões da Roma antiga, oferecessem sacrifícios ao deus Marte, para agradecer a boa sorte em suas, ah, atividades. O menino que me roubou vai pegar aquele dinheirinho, meu cartão imediatamente bloqueado do banco e vai acender um cachimbinho, celebrando a própria existência, o país onde vive e todas as coisas que ele não teve, não pode fazer, e não será.
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E meu terapeuta só tem horário depois do dia 25.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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08/05/2009 - 16:30

Baco não começou a notabilizar-se no século XVI, nem exerceu enorme
influência na vida italiana até o século XIX.
Baco não foi originalmente um reino islâmico.
Baco não tem cartão comercial.
Baco não é substância ilícita.
Baco não nasceu em solos silicosos, graníticos, ácidos e ricos em potássio e
fósforo.
Baco não foi direcionado para investir prioritariamente em infra-estrutura.
Baco nunca foi a Garanhuns.
Baco não é uma homilia poética.
Baco nunca foi a Noruega.
Baco não oferece dupla proteção e sensação de frescor.
Baco não prejudica o funcionamento dos aeroportos.
Baco acontece nas melhores famílias.
Baco não é ameaçado por um terremoto.
Baco não é uma arma química.
Baco não fica na zona leste.
Baco não opera por instrumentos.
Baco não causou um tremor sentido em Tóquio.
Baco não é uma área onde os terremotos são comuns.
Baco não ocorre nem quando o verbo inicia a oração e nem com locuções
adverbiais cujo verbo principal esteja no infinitivo
Os grão fermentados de Baco não entram na fase inicial da elaboração de diversos tipos de uísque.
Baco não entende o que Cézanne quis dizer ao declarar que para representar
a natureza são fundamentais o cone, o cilindro e a esfera.
Baco não tem a ambição de filmar em cores.
Baco é um cachorrinho, não uma ênclise.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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