Cirandinha

Quando partiste, te dei minha mais conhecida canção, minha mais recôndita maldição, minha louça, meus cristais, os talheres de prata, as minhas telas das mulatas. Partilhei meus bens e tu os carregaste como tua bagagem: meu lindo pé de limão, o naco mais curtido do meu queijo, o meu vinho do garrafão.
Quando partiste eu fiquei abandonada nas pregas do lençol, nas pregas do tempo, nas malhas do tempo e, por um momento, sonhei que não partias.
Dividi minhas posses escassas, minhas preces vagarosas, acalmei-te o sono, os anseios; arrepiei-te os cabelos… mas partiste e não me quiseste levar, perdi meu olhar na distância, passei a vida adivinhando a curva do caminho, a ausência na estrada.
Partiste e perdi minha fé, deixei de cantar as cantigas que te fizeram dançar, deixei de tocar piano, não fiz promessas pros santos, nem deixei de fumar; não acendi incenso pra perfumar a casa, não acendi as velas do candelabro pra jantar, não preparei densos molhos de odores exóticos, não construí labirinto pra encontrar tesouro, não consultei mapa astral.
Quando partiste, não me embebedei, não corri em desvario, não procurei macumbeira, não rebordei tapete, não pintei porcelana.
Partiste impedindo-me de pecar.
Quando partiste, revelaste meus segredos, desmentiste-me as verdades, afogaste-me o sol, arrancaste-me do solo e os filhos ao meu seio, oficializaste a má fé, o mau gosto, a má vontade, o mal de amar, a maldade, a maledicência, a melancolia.
Tu ficaste com minha força, minha bela voz, meu olhar sereno, meus gestos, minha tez macia. Tu ficaste com meus travesseiros, meus abraços, meus encantos.
Tu levaste para longe o melhor de mim e fizeste uso dessas belezas como se fossem atributos teus, herança tua, cultivo do teu próprio arar. Eu desejei que nada tivesse de teu, mas nada mais tinhas porque o que levaste quebrou-se ou se perdeu, o que não tinhas não pudeste reinventar: meus sorrisos, meus afetos, meu pesar.
O cão raspa a pata na porta, aflito, chama e pede que lhe permitam entrar. Ele teme o foguetório de ano novo, os latidos de outros cães, a solidão.

Simplesmente lindo….
Fal, você é um tranforma-dor de altíssima voltagem! Chorei muito, cada imagem de morrer, lindo lindo. Beijos.
ai Falindafaz isso não fia, eu já sou uma senhoooura e meu coração tá fraco, num guenta mais tanta emoção
depois disso nao tem o que falar.
Por um momento, senti que ele me abandonaste também…
Você é espetacular…
Caraca, mas o que é isso? De tão linfo, me deu até uma angústia…
Nossa…Compartilho de algo assim.A perda de quem está aqui, mas já se foi há tempos!
Muito forte.