Caçada ao javali
Quando o carro dele estacionou ao lado do meu, deu para ouvir lá de cima. Eu estava o tempo todo atenta, esperando um ruído, um sinal. A estrada estava vazia, o condomínio tranquilo. As férias de julho ainda não tinham, realmente, começado. E eu havia ido para a praia, mesmo achando que ele não iria aparecer. Não liguei, não pedi, nem o procurei. Ele que se lembrasse do compromisso e o honrasse. E ele havia se lembrado. E estava ali.
Ouvi seus passos na escada. A voz dele se misturando com outras vozes. Abri a porta para ele vestindo o melhor dos meus sorrisos. E foi o sorriso dele que vi me esperando no umbral.
Ainda sorrindo, me deu um abraço longo e quentinho. A lembrança desse abraço ainda me assalta, quando menos espero. Ainda sinto suas costas sob minhas mãos, seu peito contra o meu e o perfume do seu pescoço. Ainda vejo o abrigo azul que ele usava, a camiseta listrada comovedoramente surrada, seus tênis, seu queixo com covinha. Seus olhos bons atrás dos óculos piscavam para mim, me avaliando daquele jeito perturbador que ele tem de me invadir e me entender.
Esse homem, quase um mistério, que eu tenho a sorte e surpresa de encontrar vez que outra, entrou no meu apartamento e também, mesmo que só por algumas horas, na minha vida, nos meus sonhos e, por que não, no meu coração.
Eu precisava tanto de um abraço naquela sexta-feira e ele me deu vários, todos maravilhosos. Eu precisava tanto me sentir querida e bonita e ele fez com que eu me sentisse assim. Ele sempre faz. Eu precisava desesperadamente rir e ele me deu risadas, com suas histórias bobas, seus comentários precisos.
Comeu minhas torradas de queijo, achou o apartamento uma gracinha, esculhambou a churrasqueira com ares de especialista, dizendo que não iria funcionar nunca e me chamou para conhecer o centro, que a relapsa aqui ainda não conhecia. O carro dele, uma perua grandona, dessas de levar criança para escola e para natação, tinha um ar familiar e cálido e fez com que eu me sentisse uma invasora. Era o carro de uma família que não era a minha, com uma história que eu não conhecia. Mas me acomodei, coloquei o cinto de segurança e sorri para ele.
Pegamos a estrada contando histórias, falando da vida, sorrindo para o mundo, porque era sexta feira e estávamos fazendo gazeta juntos.
Por alguma razão que não consigo me lembrar, comecei a tagarelar sobre um lado meu muito sombrio, sombrio demais para aquela sexta feira alegrinha: minha enorme incapacidade de competir. Meu monstruoso medo de conflito, de embate, de comparação. De como eu havia sido uma menina tímida e retraída, que jamais entrava em qualquer tipo de disputa e que acabou se transformando numa mulher não tão tímida, mas incapaz de jogar qualquer jogo, buraco, gamão, fliperama ou basquete. Na verdade eu não estava me lamuriando ou reclamando, só contando. Talvez tenha sido uma dessas confissões meio sem sentido, que fazemos para as pessoas que gostamos. Talvez, percebo agora, eu estivesse sutilmente querendo dizer alguma outra coisa. Eu não sei.
Só sei que ele me ouviu com atenção. Ficou em silêncio por algum tempo. Balançou a cabeça gravemente. E depois começou a falar comigo. Primeiro em tom baixo e grave, depois com a voz cada vez mais exaltada, cada vez mais excitado, sobre os acampamentos de escoteiros que ele participa. Ele é coordenador, monitor, acompanhante, ou seja lá qual é o nome que tenham os corajosos responsáveis por esse grupo de pequenos Átilas. Falou sobre o prazer que é ver um bando de garotos mimados por sumas mamães, adorando ter que limpar o terreno, montar barracas e cozinhar sua própria comida. Contou entusiasmado da satisfação que é ver esses meninos se transformando, crescendo, aprendendo, com coragem para encarar desafios e dores, medos e apreensões. Contou sobre um acampamento em especial. Depois de toda a trabalheira de instalação, os meninos desse acampamento foram dormir em suas barraquinhas, exaustos. E, pouca horas depois, foram acordados por apitos de alerta e informados que, a partir daquele momento, teriam até o amanhecer para encontrar, capturar e trazer para o acampamento, os javalis escondidos no meio do mato, para serem pegos pela molecada. Prêmios, que representariam pontos para cada equipe. Meninos frágeis e mimados foram pintados para mim, durante vinte sólidos minutos, com cores vivas e brilhantes. Meninos que antes estavam assustados e chorões, agora se arrastavam na lama, charcos e plantações, sem medo, sem dor. Eu, no geral, tão avessa a qualquer tipo de aventura, fiquei tomada pela narrativa.
Ele elogiou os meninos e, por extensão, a si mesmo. Falou sobre coragem, fibra e entrega como atributos inerentes à masculinidade que aflorava naqueles meninos, mas parecia tão bonitinho e entusiasmado que meus ímpetos feministas ficaram quietos. Nunca o vi tão entusiasmado, falando tão alto. Talvez minha pequena confissão tenha dado a ele vontade de dividir algo importante comigo também. Talvez ele também tenha querido me dizer alguma coisa. Eu não sei, nunca vou saber. Só sei que ele nunca havia me contado tanto sobre ele. Nunca havia se mostrado tanto, dado tanto dele para mim. Falou sobre os acampamentos, sobre os garotos, os riscos e as provas de caráter como uma metralhadora giratória, tornando meus “hum-hum” e “puxa vida” tolos e sem razão. Depois se calou. Acho que sem graça por ter se mostrado tanto para mim. Justo ele, que é tão reservado. O que ele me deu naquele carro foi um presente que eu guardei, sem fazer movimentos bruscos, porque sei que ele se assusta. Ele dividiu comigo, em meia hora, mais sobre ele mesmo do que em meses de conhecimento e conversas. Depois de dividir esse orgulhozinho comigo, tomou coragem e dividiu mais. E eu ouvi, o resto da tarde, pequenas histórias pessoais, segredinhos, idéias.
Fizemos mais naquela tarde. Passeamos pelo centro de Bertioga. Andamos descalços na areia, molhamos os pés na água friinha. Tentamos visitar o velho forte, enquanto ele me contava histórias de piratas. Comemos amendoins, falamos sobre progresso e morte, educação e futuro. Fiz um cafuné desajeitado nele e ele me chamou de namorada, um jogo bobo e familiar no qual gostamos de fingir que acreditamos. Ri do cabelo dele, que estava enorme, e ele me preparou inesquecíveis batatas de microondas. Ele mordeu meu pescoço e eu abri a porta para ele. Ele saiu da minha vida mais uma vez. Quase sem dor. Quase sem lágrimas.
Tenho várias lembranças daquela tarde. Já falei dos seus abraços, mas também ficaram seu sorriso, seu cabelo cinza e comprido, seus óculos engraçados. Ficaram o cheiro do seu corpo, o cheiro do interior do seu carro, o cheiro do mar. Ficaram o som de nossas risadas e o gosto da sua boca e das suas batatas.
Mais do que tudo, ficou a surpresa da transformação, do novo, do inesperado. Daquele homem enorme e querido, contando entusiasmado e feliz uma absurda história sobre um bando de garotos e sua infindável caçada a uns tais javalis.
Refleti sobre o quanto eu sabia dele. Sobre o nada que eu sabia dele. Sobre a tarde maravilhosa que ele havia me dado, roubando tempo das suas lojas, da sua família, das suas responsabilidades. Sobre a tarde maravilhosa que, eu sei, ele havia tido, menos por meus talentos e encantos, mais pela gazeta, pelo descanso.
Fecho os olhos e abraço esse homem surpreendente, quase irreal. Tão simples, tão complicado, tão transparente, tão cheio de segredos. Que não é meu namorado, nem meu amante, e que conheço tão pouco que mal posso chamar de amigo.
Esse homem alto e, para mim, lindo, que entra e sai da minha vida, me dando quindins, doces beijos, histórias secretas e lindos, lindos dias frios de sol.







