Arquivo de abril, 2009
29/04/2009 - 20:38
Quando o carro dele estacionou ao lado do meu, deu para ouvir lá de cima. Eu estava o tempo todo atenta, esperando um ruído, um sinal. A estrada estava vazia, o condomínio tranquilo. As férias de julho ainda não tinham, realmente, começado. E eu havia ido para a praia, mesmo achando que ele não iria aparecer. Não liguei, não pedi, nem o procurei. Ele que se lembrasse do compromisso e o honrasse. E ele havia se lembrado. E estava ali.
Ouvi seus passos na escada. A voz dele se misturando com outras vozes. Abri a porta para ele vestindo o melhor dos meus sorrisos. E foi o sorriso dele que vi me esperando no umbral.
Ainda sorrindo, me deu um abraço longo e quentinho. A lembrança desse abraço ainda me assalta, quando menos espero. Ainda sinto suas costas sob minhas mãos, seu peito contra o meu e o perfume do seu pescoço. Ainda vejo o abrigo azul que ele usava, a camiseta listrada comovedoramente surrada, seus tênis, seu queixo com covinha. Seus olhos bons atrás dos óculos piscavam para mim, me avaliando daquele jeito perturbador que ele tem de me invadir e me entender.
Esse homem, quase um mistério, que eu tenho a sorte e surpresa de encontrar vez que outra, entrou no meu apartamento e também, mesmo que só por algumas horas, na minha vida, nos meus sonhos e, por que não, no meu coração.
Eu precisava tanto de um abraço naquela sexta-feira e ele me deu vários, todos maravilhosos. Eu precisava tanto me sentir querida e bonita e ele fez com que eu me sentisse assim. Ele sempre faz. Eu precisava desesperadamente rir e ele me deu risadas, com suas histórias bobas, seus comentários precisos.
Comeu minhas torradas de queijo, achou o apartamento uma gracinha, esculhambou a churrasqueira com ares de especialista, dizendo que não iria funcionar nunca e me chamou para conhecer o centro, que a relapsa aqui ainda não conhecia. O carro dele, uma perua grandona, dessas de levar criança para escola e para natação, tinha um ar familiar e cálido e fez com que eu me sentisse uma invasora. Era o carro de uma família que não era a minha, com uma história que eu não conhecia. Mas me acomodei, coloquei o cinto de segurança e sorri para ele.
Pegamos a estrada contando histórias, falando da vida, sorrindo para o mundo, porque era sexta feira e estávamos fazendo gazeta juntos.
Por alguma razão que não consigo me lembrar, comecei a tagarelar sobre um lado meu muito sombrio, sombrio demais para aquela sexta feira alegrinha: minha enorme incapacidade de competir. Meu monstruoso medo de conflito, de embate, de comparação. De como eu havia sido uma menina tímida e retraída, que jamais entrava em qualquer tipo de disputa e que acabou se transformando numa mulher não tão tímida, mas incapaz de jogar qualquer jogo, buraco, gamão, fliperama ou basquete. Na verdade eu não estava me lamuriando ou reclamando, só contando. Talvez tenha sido uma dessas confissões meio sem sentido, que fazemos para as pessoas que gostamos. Talvez, percebo agora, eu estivesse sutilmente querendo dizer alguma outra coisa. Eu não sei.
Só sei que ele me ouviu com atenção. Ficou em silêncio por algum tempo. Balançou a cabeça gravemente. E depois começou a falar comigo. Primeiro em tom baixo e grave, depois com a voz cada vez mais exaltada, cada vez mais excitado, sobre os acampamentos de escoteiros que ele participa. Ele é coordenador, monitor, acompanhante, ou seja lá qual é o nome que tenham os corajosos responsáveis por esse grupo de pequenos Átilas. Falou sobre o prazer que é ver um bando de garotos mimados por sumas mamães, adorando ter que limpar o terreno, montar barracas e cozinhar sua própria comida. Contou entusiasmado da satisfação que é ver esses meninos se transformando, crescendo, aprendendo, com coragem para encarar desafios e dores, medos e apreensões. Contou sobre um acampamento em especial. Depois de toda a trabalheira de instalação, os meninos desse acampamento foram dormir em suas barraquinhas, exaustos. E, pouca horas depois, foram acordados por apitos de alerta e informados que, a partir daquele momento, teriam até o amanhecer para encontrar, capturar e trazer para o acampamento, os javalis escondidos no meio do mato, para serem pegos pela molecada. Prêmios, que representariam pontos para cada equipe. Meninos frágeis e mimados foram pintados para mim, durante vinte sólidos minutos, com cores vivas e brilhantes. Meninos que antes estavam assustados e chorões, agora se arrastavam na lama, charcos e plantações, sem medo, sem dor. Eu, no geral, tão avessa a qualquer tipo de aventura, fiquei tomada pela narrativa.
Ele elogiou os meninos e, por extensão, a si mesmo. Falou sobre coragem, fibra e entrega como atributos inerentes à masculinidade que aflorava naqueles meninos, mas parecia tão bonitinho e entusiasmado que meus ímpetos feministas ficaram quietos. Nunca o vi tão entusiasmado, falando tão alto. Talvez minha pequena confissão tenha dado a ele vontade de dividir algo importante comigo também. Talvez ele também tenha querido me dizer alguma coisa. Eu não sei, nunca vou saber. Só sei que ele nunca havia me contado tanto sobre ele. Nunca havia se mostrado tanto, dado tanto dele para mim. Falou sobre os acampamentos, sobre os garotos, os riscos e as provas de caráter como uma metralhadora giratória, tornando meus “hum-hum” e “puxa vida” tolos e sem razão. Depois se calou. Acho que sem graça por ter se mostrado tanto para mim. Justo ele, que é tão reservado. O que ele me deu naquele carro foi um presente que eu guardei, sem fazer movimentos bruscos, porque sei que ele se assusta. Ele dividiu comigo, em meia hora, mais sobre ele mesmo do que em meses de conhecimento e conversas. Depois de dividir esse orgulhozinho comigo, tomou coragem e dividiu mais. E eu ouvi, o resto da tarde, pequenas histórias pessoais, segredinhos, idéias.
Fizemos mais naquela tarde. Passeamos pelo centro de Bertioga. Andamos descalços na areia, molhamos os pés na água friinha. Tentamos visitar o velho forte, enquanto ele me contava histórias de piratas. Comemos amendoins, falamos sobre progresso e morte, educação e futuro. Fiz um cafuné desajeitado nele e ele me chamou de namorada, um jogo bobo e familiar no qual gostamos de fingir que acreditamos. Ri do cabelo dele, que estava enorme, e ele me preparou inesquecíveis batatas de microondas. Ele mordeu meu pescoço e eu abri a porta para ele. Ele saiu da minha vida mais uma vez. Quase sem dor. Quase sem lágrimas.
Tenho várias lembranças daquela tarde. Já falei dos seus abraços, mas também ficaram seu sorriso, seu cabelo cinza e comprido, seus óculos engraçados. Ficaram o cheiro do seu corpo, o cheiro do interior do seu carro, o cheiro do mar. Ficaram o som de nossas risadas e o gosto da sua boca e das suas batatas.
Mais do que tudo, ficou a surpresa da transformação, do novo, do inesperado. Daquele homem enorme e querido, contando entusiasmado e feliz uma absurda história sobre um bando de garotos e sua infindável caçada a uns tais javalis.
Refleti sobre o quanto eu sabia dele. Sobre o nada que eu sabia dele. Sobre a tarde maravilhosa que ele havia me dado, roubando tempo das suas lojas, da sua família, das suas responsabilidades. Sobre a tarde maravilhosa que, eu sei, ele havia tido, menos por meus talentos e encantos, mais pela gazeta, pelo descanso.
Fecho os olhos e abraço esse homem surpreendente, quase irreal. Tão simples, tão complicado, tão transparente, tão cheio de segredos. Que não é meu namorado, nem meu amante, e que conheço tão pouco que mal posso chamar de amigo.
Esse homem alto e, para mim, lindo, que entra e sai da minha vida, me dando quindins, doces beijos, histórias secretas e lindos, lindos dias frios de sol.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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27/04/2009 - 11:29
No meio da nossa conversa digo a ele como os homens são volúveis, como seus afetos são precários, como seus medos são profundos e os imobilizam. Brado sobre a imaturidade masculina, sua falta de sensibilidade, sua crueldade. Arremato dizendo que os homens em geral merecem cada segundo da dor e da solidão em que estão metidos, porque muito mais que as mulheres, eles tem pavor de se comprometer com alguém real, pavor de mostrar que são vulneráveis, pavor de demonstrar afeto. Meu Capitão Rodrigo, ao invés de brigar comigo, pois provocar uma briga era o que estava tentando, olha para mim com seus olhos azuis e seu único comentário é “Amém”.
*
A moça alta e loura fica chorando na fila da alfândega enquanto o homem alto, de óculos, se afasta. Ele parece perturbado, e a dor da moça é tão óbvia e profunda que Inês e eu ficamos perturbadas também assistindo a cena. A única coisa que somos capazes de fazer é olhar a moça com carinho, um pouco de pena e muita inveja. Gostar tanto assim de alguém, a ponto de não se preocupar em fazer da própria dor uma atração turística pode ser angustiante. Mas é bom também. Muito bom.
*
- Linda, um homem que te diz gracinha o dia todo no escritório e depois quando a mulher entra nem te cumprimenta, dá para acreditar? Olha que formação! Que firmeza de caráter E eu vou fazer planos com um homem desses, Lindíssima? Deus me livre.
- Deus livre a todas nós, Clau. Todas nós.
*
Ela fixa seus enormes olhos verdes em mim e me conta em voz baixa, no meio de muita dor, da impressão ruim de ter visto sua avó em estado terminal no hospital, poucas horas atrás. Seu choque não é pela situação da avó, sua dor também não. Seus sentimentos são por si mesma, por não sofrer, não ter pena ou se comover com aquela pessoa que morre. Ela não sente nada pela avó e me confidencia isso num fim de tarde, na sala da minha casa, depois de um dia de muito trabalho. E eu a ouço, sentada na sua frente no sofá, grata por ela não querer grandes reações, só alguém que a ouça.
*
O alívio na voz dele dizendo que sim, quando perguntei se queria pegar uma ponte aérea mais cedo que o planejado, me fez tão mal, que eu quase vomitei.
*
As duas comadres discutiram durante quinze minutos se o bebê de uma delas deveria ou não tomar suco de melancia com esse frio.
*
Chego da escola no meio da tarde. Tenho o que? Oito, nove anos. Deito na cama dela, fico encostada no seu peito, enquanto ela lê trechos de J. D. Salinger, Louise May Alcott e Érico Veríssimo para mim. Se algum dia na minha vida, já me senti tão segura, não me lembro quando foi. Nada no mundo teve cheiro e som tão seguros quanto a curva do pescoço e a voz doce da minha mãe.
*
Abraço você na porta do embarque doméstico do Aeroporto de Cumbica e vejo você indo embora da minha vida. Sua cabeça loura, mais alta do que todas as outras cabeças que se afastam. Para mim, naquele momento, você é o homem mais alto do mundo. Depois que você some, tenho que me sentar num daqueles banquinhos para controlar meu choro. Mas não adianta. A moça do guichê do estacionamento pergunta se eu quero um lenço de papel.
*
Eles não se falavam há quarenta dias ou mais. Por culpa de ninguém. Os dois pararam de ligar, os dois ocupados, cheios de dúvidas, cheios de dívidas, cheios de coisas para fazer. E cuidadosos, muito cuidadosos. Mas, um dia, ele ligou. Ligou pelo celular com aquela voz docinha, perguntando porque ela havia desistido dele, e quase matou a moça do coração. Ele contou sobre a casa nova, sobre o quanto estava feliz. Ela falou sobre a vida, sobre os planos, sobre si mesma. Sobre as saudades que sentia dele, ela falou cuidadosamente. Ele com doçura disse que tinha saudades dela também. Ela desligou o telefone sorrindo.
*
Comigo ele sempre foi agradável, encantador e meigo. Mas o que eu mais adorava a seu respeito, é que sempre íamos a motéis com o carro da família dele, onde se lia num adesivo “Nenhum sucesso no mundo vale o fracasso no meu lar”.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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24/04/2009 - 21:03

Baco e mamãe
Baco não é um excelente meio para ensinar a uma criança o valor do dinheiro
e estimular seu senso de responsabilidade.
A maioria de nossas atitudes para com Baco não é formada na primeira infância.
Baco não defende reformas sociais.
Baco não despreza a rima, a métrica e os processos rotineiros da retórica.
Baco não é do ramo dos Plantagenetas.
Baco não invade a reitoria da USP.
Baco não entende o que são formas acentuadamente geométricas.
Baco não é um modelo aperfeiçoado de aeronave mais leve que o ar.
Baco leva tudo para o lado pessoal.
Baco não representa uma das principais formas de energia da dieta humana.
Baco não é composto de riboflavina e nem de tiamina. Ou talvez seja. Baco
não sabe.
Baco não possui um par de nefrídios.
Baco não é o principal porto canadense na costa do Oceano Pacífico.
Baco não reprova os movimentos inconformistas e nem minimiza a importância
dos acontecimentos pré-revolucionáros.
Baco não morreu por volta de 27 a.C.
A intensidade ou a velocidade de Baco não se mede por anemômetros.
Baco não foi fundado em 385 a.C.
Baco não é influenciado por costumes do Oriente Médio.
Baco não deu continuidade à tradição etrusca.
Baco não usa vestidos de cintura alta.
Baco não é conhecido como a capital mundial das pedras preciosas.
Baco nunca alcançou renome como comandante militar graças às suas vitórias
sobre os sármatas nas províncias de Panônia e Mésia, junto às margens do
Danúbio.
Baco nunca unificou o Império Romano.
Baco não está definitivamente incorporado ao cotidiano nacional.
Baco tem a barriguinha cor-de-rosa, o pelinho macio, só um olhinho preto em
volta e chora quando não pode dormir no travesseiro que foi de papai.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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22/04/2009 - 11:11
Meu pai anda a cavalo sem medo e com o corpo reto. Meu pai compra peixes na feira e os disseca para mim, explicando tudo sobre escamas, respiração embaixo d’água e guelras e dá aulas de astronomia para as crianças da vizinhança usando laranjas e lanternas. Meu pai castrou a gata do vizinho e me leva todos domingos à Cidade da Criança. Meu pai diz que me ama, elogia meu cabelo e canta “Se Essa Rua Fosse Minha” para eu dormir. E eu durmo muito bem.
*
As duas amigas trocam confidências no sofá cor de vinho.
- Homens e mulheres dos anos 90, é tudo tão complicado! Em que puta confusão a gente foi se meter.
- Bah! Bota confusão nisso. Mas porque será, heim? Que será que a gente está fazendo de errado? Acho que as coisas estão mudando muito rápido. E a gente não tem competência para acompanhar. – a gaúcha dá uma tragada funda no cigarro. Ela não fumava há onze anos.
*
Ele me promete colo e sussurros, vinho e conversa. Quando podemos, nos encontramos. Sorrimos e somos encantadores, extremamente cuidadosos. De vez em quando, indo para casa, ele me telefona da Marginal pelo celular… e ri das minhas piadas e ouve como foi meu dia e sorri quando digo que sinto saudades. Diz que me adora. Gostar dele é tão fácil que dá medo.
*
Ele me liga dizendo que vai ficar até tarde na empresa, pondo uns papéis em dia e que depois vai ter uma reunião no SEBRAE. Digo que tudo bem, dou jantar para as meninas e as ponho na cama. Antes de dormir suspiro e me pergunto como ele não se lembra que era isso que ele dizia para a ex-mulher quando ia sair comigo.
*
- Mas não é uma loucura, Domingos? Quase século 21, o homem já vai para a Lua e ainda se morre de tuberculose nesse país! Tuberculose só, não. Tuberculose, sífilis, dengue. Que coisa, não? Que absurdo.
- Imagina, Fá, para que tanta indignação? Não tem nada de errado, ora bolas, o brasileiro é um povo nostálgico, só isso!
*
Naquela tarde em Lisboa, a portuguesinha vai subindo a rua na calçada oposta ao nosso ponto de observação (leia-se mesa de bar). E não parece contente. Aliás, parece fula da vida com o rapaz que teima em acompanhá-la. Fala alto, dá empurrões, tapas no braço moço, e joga a mão dele longe, quando ele tenta abraçá-la. Assistimos à cena fazendo comentários pertinentes, tecendo conjecturas, dando urras. Mas o consenso geral é que alguma ele aprontou.
*
O garçom veio tirar os pratos e perguntou se a Lu queria mais alguma coisa.
- Quero sim – ela respondeu – Quero uma lipoaspiração.
*
Ele a chamava de “Trator Simpático”, antes deles se divorciarem. Um dia ela lhe disse: “Queridinho, nem todo mundo nessa vida pode ser uma Mercedes”.
Daí eles se divorciaram.
*
Ela me diz que preciso pensar no que quero para minha vida porque os anos estão passando. Ela me olha fixamente. Eu desvio o olhar.
*
A Dalva me ligou chorando, aos soluços quase à uma da manhã. Parece que ela mandou uma foto para o namorado da Internet que mora em Salvador. Aí ele ligou para ela dizendo que mesmo vendo a foto ainda queria vir para Sampa conhecê-la. Consolei, fiz barulhinhos de amparo, disse que ela havia entendido mal o significado da frase e desliguei. “Mesmo” vendo a foto? Jesus, onde a gente arranja esses homens? Eu sei, eu sei.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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20/04/2009 - 16:56
Você já chorou de desespero?
O que seria de nós sem o chocolate?
Por que é que a visita que chega sem avisar que viria, chega sempre quando seu enlatado americano favorito acaba de começar?
Você já jantou danone só pra não ter que sujar a pia?
Para onde estão indo as pessoas que parecem saber para onde estão indo?
Por que é que todas as sua amigas de infância estão mais magras que você, têm carreiras incríveis e pelo menos um filho cada uma?
Pra onde vão os pés de meia perdidos?
Por que seu cérebro não tem um botãozinho de liga e desliga?
Quando foi que você se meteu nessa encrenca?
Por que é que os gatos vomitam no sofá e não no chão, que é bem mais fácil de limpar?
Você já teve a impressão que essa vida não lhe pertence?
Por que é que você só descobre que o papel toalha acabou depois de quebrar uma garrafa de suco de tomate?
Por que é que ninguém mais além de você mesma pode resolver seus problemas? Eu adoraria ter alguém que resolvesse tu-do.
Você está de saco cheio de ouvir falar de sem-terras, do cachorrinho do Obama, do Caso Daniel Dantas e das suas muitas falhas e defeitos?
De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar?
Você já quis tatuar um gatinho no seu pé?
Você já comeu um pacote inteirinho de biscoito de aveia e mel com requeijão enquanto via um episódio de Sex and the City no sábado de noite?
Por que o aspirador, a máquina de lavar e a TV quebram juntos? Solidariedade?
Por que é que depois duma vida dedicada (em parte, em parte) ao estudo da literatura portuguesa, com amor, com seriedade, com paixão, tem sempre um achando que vc cita F.Pessoa e Fernando Namora porque aprendeu de orelhada no mondo blog?
Os babacas da sua vida contam sempre com a sua capacidade de cura e regeneração?
Você sabe o que é estar diariamente à beira do precipício, equilibrada num pé ruim e o outro que vacila, num solo cheio de erosão?
Por que é que você assiste ” Nosso Amor de Ontem” de madrugada, sozinha, fungando, assoando o nariz no lençol e esperando um final diferente. Hum?
update da Silvana que, como eu, também está assolada pelos anos 80: Por que não eu? Aaaaahhhh aaaaahhhhh, por que não eu?
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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17/04/2009 - 13:38

A pessoa trabalhar ouvindo Chico Buarque é contraproducente demais. Acaba achando tudo que escreve, pensa, planeja ou é, uma bosta. E coberta de razão, porque é mesmo. Fica tudo pequeno, fica tudo mal escrito, fica tudo truncado e sua mediocridade dá na sua cara. De modos que amei a Maloca ter me ensinado a comprar o Carioca – ao vivo, que comprei, amei, chorei que nem a vaca que sou e tal, mas daí botei na caixinha e vou ouvir nos intervalos (e como sou minha própria patroa, tenho muitos intervalos). Pra trabalhar, preciso mesmo dos meus seriados americanos. Na comparação, não fico tão ruim, Maloca.
*
Geralmente recebo e-mail de reclamação e choradeira duma boa parte dos leitores. Um montão de gente dizendo que sou depressiva ( sic ) e deprimida, que a vida que pinto é sempre terrível, que “eu cheguei ao fim do primeiro capítulo do seu livro e já estava arrasado”, blablablá. Tou acostumada a ser o alvo da raiva de quem não consegue lidar com a própria dor e fico, muitas vezes, comovida, porque a dor do cara tá ali, pintada naquele e-mail indignado dando “nota zero pra publicação”. Além de achar um mistério o fato de eu, mesmo fazendo tão mal pra criatura, merecer suas constantes visitas e leituras, né? Mas hoje eu recebi um sensacional, dizendo que eu rio demais, falo bobagem demais, não me debruço sobre a tristeza, nem a minha e nem a dos outros, e que o mundo tá em crise e que eu não tenho tanto motivo de ficar de palhaçada. Juro. Caras, vocês precisam decidir.
*
“Bi, os meninos estão ficando alcoólatras. Só vejo eles querendo O VINHO de chocolate para cá, o vinho de chocolate para lá… triste isso.
:O)amor
Pedrão” * Escrevendo sobre Lisboa para dois amigos que vão para lá quase ao mesmo tempo, mas em viagens separadas (amigos que não se conhecem, oi Vera, oi Elísio), vejo quanta falta sinto das fotos todas do meu pai e só posso imaginar o que a pessoa que ficou com anos e anos de álbuns de viagens em família pode ter feito com elas. Jogou fora, muito provavelmente, com todos os livros do velho que não dariam mucha plata ao serem vendidos. Me parte o coração. Nem venha com o papo furado de que está tudo guardado no coração, não está, não. Eu queria as fotos do velho ao lado do Pessoa no Chiado, cantando fado totalmente bêbado no Mesquita, no bairro alto, andando tão lindo por Sintra e pelo Estoril. Nossa, que dor no coração. Décadas de fotos, de passeios, de lembrança, duma família que nunca, jamais, em tempo algum, foi ou poderia ser dela. E ela ficou com as fotos e, sabe deus, não devem mais existir há milênios.
*
Aliás, aqui também tem muito de Lisboa. Minhas memórias do velho, dum jeito ou doutro, sempre se enlaçam com a cidade.
*
Ninguém entende meus garranchos, minha papelada misteriosa, meus guardanapos anotados, essa confusão. Que saudade da Lígia, meu deus do céu. Por tudo e, especialmente hoje, porque ela pegaria meus e-mails, um por um, meus papéis, um por um, e colocaria tudo em seus devidos lugares, digitaria tudo, decifraria o que nem eu mesma sei o que quis dizer. Tou perdida na papelada, nos pen drives (mas agora meu pen drive de relouquites voltou, oi Tavo), nos arquivos, em mim mesma, e não posso telefonar pra Lígia, nem enfiar tudo numa caixa com um bilhete engraçado. Bah. Ou, como ela dizia, nhé.
*
Focar no blog e no trampo, largar o infinito e me preocupar só com a defesa do Guarani (oi Silvana, oi velho Adão), é uma arte difícil e demorada pra se dominar. Não ampliar a voz dos imbecis, então, é praticamente impossível. Eu tento, com o pouco de disciplina que me habita, mas é tremendamente difícil.
*
Eu queria ter um blog que indicasse tipos de rímel, truques de aplicação da sombra, que ensinasse as orações para abertura de caminhos, desse liçõezinhas de moral vazias e bem longas sobre a importância do pensamento positivo, da limpeza das energias e dos males do fumo, e que debatesse se ele vai ou não ligar.
*
Mas eu só posso usar rímel de debilóide, como o que a Nanda me deu (oi Nanda). E nos outros itens sou ainda mais ignorante e inábil.
*
Esta minha incapacidade em ser…. – eu ia dizer gentil, alto astral, uhu, mulheríssima e meiga, mas na verdade a palavra é normal – não é legal.
*
Legal é uma palavra tão idiota. Alexandre, quando ouvia algo ser chamado de bacana, sempre dizia “tudo que é legal, é também bacana”, querendo dizer que, deus, são os adjetivos mais babacas do mundo. Depois de interessante.
*
Interessante é o campeão da babaquice.
*
Interessante, ao fim e ao cabo, não quer dizer nada.
*
“E aí, o que foi que você achou?” “Ah, interessante.”
*
Sem Alexandre, volto a ser o tipinho raso de antes.
*Mrs Dalloway, V. Woolf
e, na foto, meu velho, em Sintra, mais ou menos em 1993, declarava que não daria nem mais um passo ladeira acima, hahaha.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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15/04/2009 - 10:37

Ele se lembrava da mão seca e magra da mãe envolvendo sua, enquanto todos eles cantavam.
“Andiamo in Merica
Andiamo a raccoglicre caffé
Andiamo in Merica…”
No porão do navio, sentadinho ao lado das caldeiras, sentindo a conhecida dor da fome, ele não podia saber mesmo de muita coisa. Ele era só um menino. Gostava de ir ao depósito de bagagens com os irmãos para brincar de esconder. Gostava de ouvir as conversas que a tripulação francesa do navio falava naquela língua esquisita. E gostava de cantar de mão dada com a mamãe, mesmo no porão quente, mesmo com fome.
Parecia que numa outra vida ele podia correr e se sujar de terra e falar com o cachorro. O cachorro! O cachorro ficara para trás, claro. Papai disse que o navio não permitia e o cachorro tinha ficado com a Tia Renata.
O que ele não sabia é que ele ia para um país que não tinha mais rei. E nem escravidão. E que com o fim da escravidão e a concentração da mão de obra nas cidades, o país tinha que importar trabalhadores para cuidar do café.
Ele não sabia que sua família estava sendo levada ao Brasil já contratada por um fazendeiro. Mesmo seu pai que tratara com o agente da imigração não estava exatamente por dentro da transação.
O Brasil cedera às pressões inglesas e interrompera a corrente migratória africada que o abastecia de mão de obra escrava, a escravidão estava com os dias contados. Para a economia brasileira isso era um desafio. Os grandes proprietários do sudeste do Brasil plantavam café e obtinham muito lucro com isso. Era esse lucro que ajudava a balança comercial a manter-se equilibrada. Assim, era fundamental que a mão-de-obra escrava fosse substituída com um mínimo de gastos.
Era necessário que os fazendeiros encontrassem um jeito de manter suas plantações produtivas num sistema que mesclasse a colonização feita pelo estado (desde a primeira metade do século XIX, o governo vinha dando terras no sul do país para imigrantes. Remonta daí a grande colonização alemã e italiana para aquela parte do Brasil).
Bão, na prática, o que se começou a fazer foi um lance chamado “contrato para introdução de imigrantes”, realizado entre o governo e sociedades comerciais particulares.
O governo vendia licenças aos fazendeiros e assim eles tinham autorização para trazer trabalhadores de outros países de navio. O governo insistia que os fazendeiros deveriam deixar claro para seus trabalhadores quais suas obrigações e que o governo brasileiro nada tinha a ver com tal viagem e que, por isso, os imigrantes nada deveriam esperar dos órgãos governamentais.
Depoism surgiriam leis aperfeiçoando o sistema. Os imigrates teriam direito a estadia gratuita de oito dias na “Hospedaria dos Imigrantes” e transporte gratuito em todas as estradas de ferro e navios, até que estivessem definitvamente instalados em seus novos empregos.
A imigração era um bom negócio para todo mundo – menos para os imigrantes.
O fazendeiro recebia uma mão-de-obra baratíssima, quase sem direitos, sempre à disposição e que, através de cláusulas contratuais ardilosas, ficava ligada à fazenda num regime de semi-escravidão. O que acontecia, e que os agentes de imigração não deixavam claro ao recrutar camponeses nos campos italianos, é que os contratos rezavam que, uma vez em solo brasileiro, uma vez instalados e trabalhando nas fazendas, os imigrantes deveriam “pagar” ao fazendeiro, por todas as despesas que ele tivera ao traze-los: passagens, estadia, documentação. Até a comida e, as roupas e os objetos de trabalho dos italianos nas lavouras paulistas, pás, enxadas, peneiras, machados, etc., vinham das vendinhas das próprias fazendas. Ou seja, o trabalhador estava sempre, e cada vez mais, endividado, devendo para o dono da fazenda.
O estado também ganhava com a imigração. Além do ganho óbvio, ou seja, da manutenção das lavouras, que geravam lucro para o governo através de impostos, ainda havia as licenças e taxas pagas pelos fazendeiros por cada um dos imigrantes.
Entorpecido de fome, de medo e de ansiedade, Affonso não sabia de nada disso e nem queria saber. Ele não sabia que poucos dias o separavam do Porto de Santos, onde ele iria ver e ouvir a maior confusão de sua vida, os gritos, os sotaques, os negros (ele nunca havia visto um negro!), os carros de passeio, o barracão da inspeção sanitária onde as roupas de todos seriam fervidas, a viagem de trem até Campinas, de carroça até a fazenda. Ele era um menino pequeno, de seis anos e tudo isso estava muito longe. E mais longe ainda estavam os quase 15 anos que ele, os irmãos e os pais teriam no eito, presos ao cabo da enxada e a caderneta de dívidas, a ida para São Paulo aos 20 anos com documentos novinhos, a alfabetização, a moça espanhola de olhos azuis, o filho doutor, a filha música, os netos, a neta preferida, as pescarias, as casas que ele iria construir, o dinheiro sagrado das corridas de cavalo, o…
Isso tudo estava muito longe e era muita coisa para um menino pequeno.
A única coisa real para ele agora era a mão morena que envolvia a sua, sua cabeça encostada no peito magro e a voz baixinha.
“Andiamo in Merica
Andiamo a raccoglicre caffé
Andiamo in Merica…”
(sonhei com meu avô Affonso hoje, um menino das fazendas de café)
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria
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13/04/2009 - 13:42

Baco não é a personificação da Terra como deusa, essa é Gaia, mas Baco não sabe disso.
Baco não vive nas zonas litorâneas como as aves aquáticas.
Baco não é um arquipélago com vários vulcões ativos.
Baco não é o Senhor dos Exércitos.
Baco não é o Senhor do Castelo.
Baco não se situa numa posição excêntrica, próxima ao braço chamado Quilha-Órion-Cisne. Esse é o Sol, mas Baco não sabe disso.
Baco não acreditou, desde sempre, na tese do heliocentrismo.
A carreira literária de Baco não começou em 1909.
Baco não fez parte dos Estados Pontifícios.
Baco não é um mamífero marsupial da Austrália.
Baco não foi nomeado presidente da Câmara dos Deputados.
Baco não se inspirou no idealismo de Platão, nem no realismo de Aristóteles.
Para Baco, a arte não é uma virtude do intelecto prático, umhábito de ordem intelectual que consiste em imprimir uma idéia a determinada matéria. Ou seja, Baco discorda dos escolásticos e nem sabe disso.
Baco não sabe que Kant concebia o juízo estético como resultado do livre jogo do intelecto e da imaginação e não como produto do intelecto, ou seja, da capacidade humana de formar conceitos, nem como produto de intuição sensível.
Baco não é um dos sete sacramentos da Igreja Católica.
Baco não é uma das quatro narrações da Última Ceia que constam do Novo Testamento.
Baco não é apaixonadamente interessado por novas idéias e conceitos sobre a incorporação dos procedimentos das ciências exatas à análise matemática.
Baco não abriu novas perspectivas para o melhor conhecimento do mundo antigo.
Baco não é endêmico de ilhas oceânicas.
Baco não é perito em reconstrução facial.
Baco não estabeleceu extensos domínios na China, Índia, Sri Lanka, Sumatra e Ilhas Moluscas.
Baco não tem um sorriso que diz tudo.
Baco não costeou a África nem dominou o comércio de especiarias.
Baco não é uma capitania de acesso estratégico.
Baco não tem sua dureza aumentada por elementos de ligação como cobre, antimônio, bismuto, cádmio e prata.
Baco não é uma doutrina médico-jurídica alvo de controvérsia em muitos países.
Baco não é um dos doze apóstolos.
Baco não representa um novo enfoque econômico.
Baco não exercita o músculo da alma.
Baco não emprega a escala diatônica usual, de sete notas, elaborada a partir dos modos gregos.
Baco não dividiu em nove áreas as manifestações musicais folclóricas do Brasil.
Baco não é um procedimento que permite que se conclua sobre a disposição estratégica de tropas e equipamentos militares.
Baco não busca refinamento e elegância da linguagem.
Baco, em sua trajetória pessoal, não registrou inegável amadurecimento intelectual.
Baco, por suas idéias, não poderia ser definido como uma personalidade renascentista.
Baco não consta da tabela periódica.
Baco não é autor de obras-primas da literatura dramática francesa.
Baco nunca teve sua frota de navios afundada.
Baco não tem projetos para o futuro.
Baco não foi um dos mais expressivos representantes da democracia cristã.
Baco não participou da guerra de libertação contra Napoleão.
Baco não crê num Estado centralizado e eficiente, saneado e bem equipado.
Farinha pouca, o pirão de Baco primeiro.
Baco não é um excelente paisagista.
Baco não entende nada sobre a unificação alemã.
Baco não pratica uma hábil política diplomática.
Baco não mandou construir o palácio de Sans-Souci, de estilo rococó francês.
Aliás, Baco nem sabe o que é o estilo rococó francês.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
Tags: Aristóteles, Austrália, Baco, Estados Pontifícios, Gaia, heliocentrismo, intelecto prático, Kant, marsupial, Platão, Quilha-Órion-Cisne, rococó, Sans-Souci, Sol, unificação alemã, zonas litorâneas
10/04/2009 - 13:55

Na hora de ir embora ele passou a mão no cabelo dela e murmurou um “Fica bem” desajeitado. Ela achou bonitinho, porque “fica bem” é uma forma de despedida que ela aprendeu com a mãe dela, e que ele começou a falar de tanto ouví-la. Ainda com o jeito de despedida da sua mãe, ela respondeu “Fica bem você também”. Deu ré no carro e foi embora. Mas ela não ficou nada bem e dirigiu pelas Marginais durante duas horas antes de voltar para casa.
*
Ajoelhado ao lado da cama, nu e com os braços abertos, o Marcos dubla a mais engraçada música sertaneja que eu já ouvi na vida. Uma música que fala sobre vinhos, reconciliações e camisolas pretas. Ele dubla com uma carinha séria, sentida, concentrado que me faz dar gargalhadas altas e gostosas. Escorrego para dentro do abraço dele sem nem conseguir lembrar da última vez que me senti assim, tão relaxada e feliz.
*
Tomei coragem e terminei o namoro. Ele era muito doce, não e entenda mal. E eu realmente gostava muito dele. Mas ele tinha essa mania: discutia a relação, com todos os seus prós e contras em qualquer lugar, na frente de qualquer um. A mãe dele sabia de cada uma de nossas brigas, o cara da avícola ficou sabendo que eu só durmo de janela aberta e, meu Deus, a tia que guarda os carros na rua da feira foi informada que eu detesto camisinha. Tive que acabar com o namoro, entendeu? Cacete, aquilo não era um relacionamento a dois, era um filme do Arnaldo Jabor.
*
- Sabe o que você precisa, Manuela? Encarar sua mãe de frente, sem amarras, mostrar para ela que você cresceu e não tem medos de conflitos!
- Belo conselho, vindo de um homem que só fala com a própria mãe duas vezes por ano, pelo telefone e depois que desliga, fica três horas em posição fetal!
- Já disse que não é posição fetal e sim uma posição hindu de relaxamento.
- Abraçado num cobertorzinho de bichinhos, Renato?
*
A Adriana me chama:
- Bi, vem aqui ouvir o que o Washington tem para contar.
- Devo levar o meu bloco de notas?
- Não, Fofa, traz um lencinho.
*
Mesa do Valtão:
- Quem foi que disse que “o casamento é a única aventura ao alcance dos covardes”, Valtão?
- Meu pai.
- Pára de beber e responde, Valtão, tou falando sério, poxa.
- Eu também, Luiz.
*
A Cláudia foi a um cartório reconhecer firma:
- Lindíssima, sabe o que eu descobri lá? Custa quatrocentos e cinquenta reis para casar! Linda, que absurdo!
- Nossa, Clau, como é caro, porque será que custa tanto?
- Ah, eu li no quadro de avisos. É para a papelada e a tal da “diligência”… que deve servir para descobrir se o “Bagulho” já não tem família, né, lindíssima? Sabe como é que são os “Bagulhos”.
*
Mesa do Valtão, quarenta minutos depois:
- Você é muito pessimista, Valtão. Olha o exemplo do Beto e da Paola. Eles se amam!
- Claro, né, Luiz, eles ainda não se conhecem bem!
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
Tags: drops
08/04/2009 - 17:25
— O futuro — dizia meu velho e saudoso pai plagiando Paul Valery —, não é mais o que costumava ser.
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Mas papai tinha razão (“Como sempre”, assopra o fantasma dele, que eu espanto agitando o lenço). O futuro nunca é o que esperamos, o que queremos, o que projetamos.
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É da natureza do futuro nos surpreender, para o bem e para o mal(“Mais para o mal”, sussurra o fantasma, insistente).
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Medo do futuro. Do que seremos. Do que faremos com nós mesmo, com os outros, com nossa história.
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When I was just a little girl/I asked my mother what will I be?/Will I be pretty, will I be rich?/That’s what she said to me/Que sera, sera/What ever will be will be/the future’s not ours to see/Que sera, sera/ What will be, will be. (Jay Livingston e Ray Evans).
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Medo da biografia. Da nossa.
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Medo do ridículo, por que não?
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Mas daí, falando em medo, o Nelsinho, que é um cara sábio – e prático – diz que no meio do zilhão de Pensei sobre futuro, lembrei de zilhões de frases feitas, a certeza é que o futuro é uma incógnita “Vivamos tudo, todo dia, até nos preparar para ele”. Eu gosto disso. Sou medrosa demais pra por em prática, mas gosto da idéia.
*
O velho e bom Gladstone (olha a intima?) disse que o futuro está do nosso lado. Sei não. E de qualquer maneira, ele disse isso em 1866, de modos que seja lá de lado o futuro estivesse, já deve ter mudado de idéia.
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Quando concordamos com o Chico e com o Luiz Neto e diz “Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz”, falamos do passado. E do presente, que é onde constatamos as burradas que fizemos. Mas implicamos o futuro nessa equação. Ou não?
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Tive um professor genial que dizia que fé é confiança absoluta. O caminhar pro futuro também é? Afinal, o que é que nos permite seguir,passo atrás de passo, pro desconhecido absoluto? Podemos chamar isso de fé?
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Mas se for fé (ai que horror, Silvana, a revisora das estrelas, vai me matar), é fé em que?
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“Não é fé”, acaba de me dizer o filosófico Rui, “é esperança”.
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Então, quando São Paulo fala “de esperança em esperança, esperança sempre”, era disso que ele falava?
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O Sérgio e o Lord Byron me dizem que o futuro é coisa do passado. E eles estão cobertos de razão, claro, essa confusão toda começou nalgum lugar.
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“O futuro sempre está começando agora.” (Mark Strand)
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A Clau Letti me diz que futuro é a cada momento.Hum, ela tá certa, claro, mas eu tento não pensar muito nisso, Clau.
“O futuro é o período de tempo em que prosperam nossos negócios, nossos amigos são verdadeiros e nossa felicidade segura.” (Ambrose Bierce)
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Falo, não falo, aceito ou não o emprego, escrevo aquela carta, mando aquele e-mail, tenho este bebê, embarco neste emprego, assumo o relacionamento, digo praquele velho amigo cujo novo mau-caratismo não para de me surpreender que é prele sumir? Mas e depois? E amanhã? E se eu sentir falta de um plano de previdência? De um filho? Do abraço morno daquele amigo de mãos bonitas, de risada parecida com a do meu irmão, de olhos estranhos? E se esse relacionamento se tornar um fardo? E se o emprego for uma roubada? E se? E se?
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(é do meu temperamento – e da minha experiência pregressa – nunca pensar “e se o emprego for maravilho?”, “e se aquele amigo babaca nunca me fizer falta?”, “e se o namoro for delicioso?”)
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O Ursinho, que como é de conhecimento geral, sabe de todas as coias, me falou que o futuro pode ser melhor ou pior do que imaginamos, mas igual, nunca.
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A Luanna Priscilla disse que o futuro e como uma caixinha da tretrapak, totalmente reciclável.
Amém, Lu, que assim seja.
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A Verô disse que o que vier por aí, é de responsabilidade nossa e de mais ninguém. Tim-tim, quilida.
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E o I’m evil concorda com Einsten: ele chega rápido demais.
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“Não penso nunca no futuro porque chega muito rápido.” (Albert Einstein)
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Conta bancária que não sai do negativo, tacinhas de licor da mamãe, telefonemas sem sentido algum, corte de cabelo adiado, e-mail secreto, tequila no copo verde, conta de gás atrasada, a saia laranja que não cabe, nunca coube, unhas cor de uva, correio, tendão latejando, uma promessa no gatilho, maus pensamentos o dia todo, choro no banho, chaleira de vaquinha, cereal com leite, portas batendo com estrondo, marguerita na taça azul, o elevador que não vem, o futuro que vem a toda hora.
***
Ah, mas no fim, não era nada disso que eu queria dizer do futuro. Eu ainda não sei o que eu queria dizer, o fantasma do meu pai tá atacando a geladeira e não pode me ajudar. Nem Hamlet se faz direito nessa casa. Fica pra depois, aquele vasto território inexplorado.
*
“Me interessa o futuro porque é o lugar onde vou passar o resto da minha vida.” (Woody Allen)
Os: O Paulo quando não está sob supervisão estrita da Paula fica muito engraçadinho e mandou dizer que o futuro a Deus pertence.
a imagem veio daqui:
http://www.brix.de/bibliothek/liederbuch/_images/doris_day_1.gif)
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
Tags: futuro
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