Não é justo

Há, claro, os que nos amam. São os caras que vão sofrer ao nos ver sofrendo. São os caras que dizem “se eu pudesse, tirava a sua dor com a mão” (acho linda essa expressão). São os caras que nos pegam no colo e nos levam pra jantar no indiano e no português e nos levam ao cinema e para passear de carro e mandam e-mails engraçados e doces sobre a deles com amizade com Caetano Veloso e trazem filmes pra nossa casa pra ver conosco, pezinhos enrolados nos nossos, tigela de pipoca. Talvez eles não entendam a nossa dor, nem sua profundidade, nem seu sentido, nem porque dura tanto e nem nada, mas eles nos amam, ponto.
Há os que já passaram pelo que passamos. Eles entendem. Às vezes eles nos amam, às vezes não. Mas esses caras tem um mover de cabeça solidário, ele estendem. Eles já estiveram aqui onde estamos. Os conselhos deles geralmente são os melhores e seus abraços são os que nos tomam por inteiro, porque eles sabem.
Há os que, nos amando ou não, acham um saco. Toda essa dor, todo esse nhenhenhem, lágrimas, lencinhos, fungadelas. Eles não tem paciência, eles não entendem o porque de tanta onda, eles acham que deveríamos botar uma roupa bonita ir ao show do Rio Negro e Solimões com eles.
Mas há outros. Há os que ao se depararem com a nossa dor, tem a própria dor revelada. A dorzinha deles tão adormecida, soterrada por caixas de picles e cadeiras de praia, por revistas velhas e entulho da última reforma, fareja a nossa dor, tão clara, arejada, revelada. E jogando longe tudo o que cobria, exige o que é dela, urra, atira vasos na parede. Faz o que toda dor deveria fazer, ela dói. E o dono dessa dor, desamparado e surpreso, inevitavelmente vai se voltar contra nós. Nós, que com nossa dor, despertamos a dele. Nós, que com nossos horrores particulares, acabamos por jogá-lo no abismo. E ele fica doido da vida. Vem para cima de nós, o dono dessa dor recém-desperta, nós o angustiamos. Nós o deixamos num estado que ele chama de “desarmonioso”. A culpa é nossa e não dele, que soterrou o próprio sofrimento. É nossa dor que o ‘deixa mal’, não a dor dele, trancada num porão frio e úmido, há tanto, tanto tempo. Como é que ousamos sofrer em público? Chorar com a boca quadrada no meio da rua, ficar com os olhos marejados na frente de vendedores, mostrar fotos dos que se foram para o gerente do banco, quando ele, modesto, limpo, cumpridor de deus deveres e mantenedor da ordem e da lei, passou todo esse tempo quieto, controlado, cuspindo frases prontas do picaretíssimo mundo motivacional, lendo Lya Luft, divulgando power-points inspiracionais e tecendo conceitos incrivelmente vazios sobre a vida e suas filosofias? Nossa falta de limites, nossa declaração pública sobre a vida e seus estados, nossa absoluta falta de pundonor frente ao que dilacera, altera o parco equilibilío, o frágil equilíbrio, o nada-equilíbrio no qual vive há tanto tempo nosso amigo. E assim, a miséria da vida dele vem à tona, junto com seus medos, sua falta de capacidade para tomar decisões, seus pudores – coisas aliás, comuns a todos, todos, todos nós, mas ah, as dele estavam tão bem trancadinhas. E nós, com nossa dor, não tínhamos o direito de cutucar nada disso. ‘Não é justo! Eu não queria voltar a sentir tudo isso! Eu odeio vocês’, ele brada. Coberto de razão.
“Conclusão: a própria dor deve ter sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor.”
Paulo Mendes Campos

Obrigada. Amiga.
BEIJO
essas pessoas deveriam comprar apenas roupa, trecos. bijuteria. qq coisa. Mas livros não. nem deveriam ver filmes… nem consultar a net. essas pessoas deveriam viver numa redoma. isso, numa redoma, da zara!
o povo é que sabe… o pior cego tralálá…
Bjs
Ufa!
Também amo a expressão “se eu pudesse, tirava a sua dor com a mão”. E como seria bom se isso fosse possível, né? Como não é, o que nos resta – a nós que te amamos tanto – é sonhar e esperar por dias melhores, sempre. Lindo – como sempre – o teu texto.
Um beijo
é verdade, fal!
beiejos
Sua pontaria está cada vez melhor, Fábia. Mais um tiro entre os olhos, gafanhota, e talvez eu enxergue a vida com a sua clareza.
Ai, Bibi, e essa dor que me silencia… Dói mais ainda porque me relembra, a cada segundo, que eu enterrei tanto as minhas dores, que enterrei a mim mesma e não consigo mais me encontrar…
Te amo tanto, Bibi, mas tanto…
ah, Fabia… que fazer, heim?!
bj
Nossa. Doeu.
Preciso, Fal. E precisão é tudo nessa vida de quem lida com as palavras.
Beijos
Fal, minha mãe diz que a lágrima serve, no mínimo, pra lavar a cara.
Essa parte do texto “cuspindo frases prontas do picaretíssimo mundo motivacional, lendo Lya Luft, divulgando power-points inspiracionais e tecendo conceitos incrivelmente vazios sobre a vida e suas filosofias”
me atingiu como um soco na boca do estômago. Nem sei porque… Vou ter que pensar. Enfim, ótimo seu texto, como sempre.
Um beijo
Byo
Texto bom, texto bom! Gostaria de ter escrito.
Um beijo, menina!
É tão bom qnd se tem alguém que entenda…
Fal, ler suas palavras é sempre uma delícia!
Eu tou na categoria dos que te amam. Quer ver filme comigo e comer pipoca?
…e do pescoço pra baixo é canela, né?
Vixe!
Beijos aos montes
Bela,
a sorumbática-meditabunda
ah, Fal, sempre me emociono quando alguém consegue traduzir em palavras o que eu sinto. e lendo a coluna, lembrei de uma frase do Machado de Assis: “a única dor suportável é a dor do próximo”, é a dor que não sentimos ou que nem de longe suspeitamos que seja semelhante à nossa: essa já conhecida dor de viver num mundo que não se justifica.
beijos, amada.
Amore eu sou contra qualquer tipo de dor, qualquer coisa que fere, sejam palavras, sejam atitudes, tombo do destino, injeção… Sei que as vezes algumas coisas nos servem de lição, outras nos curam de alguma outra dor, outras só deixam cicatrizes profundas e nada trazem, apenas nos levam…
Eu prefiro aprender pelo amor, aquele que é sustentado em palavras com açúcar, de atos repletos de carinho, projetos começados juntos, embora muitos não terminados, cheiros traduzidos em lembranças, mãos que incentivam e que nos fazem fortes…aconchego…proteção.
Eu fico p. da vida porque eu não consigo entender, (talvez alguém me explique por favor), porque uma pessoa doce como você, que faz bem a tanta gente, que só merece as melhores coisas dessa vida, tem que passar por todas essas dores.
Talvez eu não suporte saber, talvez eu consiga traduzir alguma dor, mas nunca conseguiria toda essa dimensão alcançada por você, eu me solidarizo, mesmo discordando com esse tolo destino, e fico aqui pensando em como tornar um minuto que seja da sua vida mais leve…mais ameno…mais mágico…mais digno de você.
Eu sigo te lendo…sempre.
Beijo grande minha querida.
sei tudo do que voce está falando e sentindo,
nunca pude imaginar quem alguém pudesse escrever em palavras,jamais consegui. Para não o engasgar ,calei
a estória ´semelhante,que passei
Viva a alegria de ter vivido,continue criativa,e continue com a alegria que aquele que voce amou ,desejou para ti.
Bj Beth
Meu Deus, Fal!!! Cara… isso é que é precisão! Será possível que esse povo acha mesmo que powerpoint consola e/ou motiva alguém?!?!? Logo estes, que estão tão mal com suas próprias dores camufladas… tsc, tsc…
Te amo… e a gente tem filme junto pra ver, né? Quero ver “As horas” com você, NáLaura, EstherLinda, Maloca…
A sua intimidade com as palavras ajudam muitos a se reencontrarem dentro de si mesmos, mas Deus é quem dá a última palavra em nossas
vidas. Fé em DEUS é sempre uma aliada para resolver questões internas.
“A DANÇA DO AMOR E DA DOR SÓ VC PODE DANÇAR”
Que Deus te abençoe sempre.
Deise