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25/03/2009 - 07:55

Porta-retratos

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Na foto do porta-retratos, aí, na prateleira tá vendo?

É sim; todos daí já morreram.

 

Este gorducho louro, de olhos azuis foi substituído, dizem, por um ciclista magrelo.

Esta menina linda me amava, sabia? Morta também. Sua alma foi morar em Coimbra, e até onde se sabe, a tal alma me odeia.

Este aqui morreu praticando jogging numa avenida da cidade. Foi tolhido por um ônibus na flor da idade, a mãe dele nunca se recuperou.

Este aqui era gago, chato e bom para mim. Daí ele se tornou mau, foi embora, e, de vez em quando, assombra meus pesadelos e arrasta correntes nas minhas cicatrizes.

Esta aqui, uns dizem que morreu, outros dizem que não. Seus olhos de morta-viva sempre me dão arrepios, mas eu gosto dela, é como ter um zumbi particular.

Este, era o mais querido de todos nós. Tá vendo a cara, o sorriso? Um doce. Ele se suicidou numa clínica para doentes mentais, dia mais triste das nossas vidas. Às vezes penso que o mundo não estava preparado para ele. E ele sabia disso.

Aquele ali, no canto, era nosso cineasta. Quando morreu, um dentista gordo e feliz tomou seu lugar. É o fantasma mais agradável que eu conheço.

Este moço alto, de lindas mãos, nariz ligeiramente torto e sorriso luminoso, foi o que eu mais amei. Suicídio. Quantos suicídios, pois não? Seu fantasma volumoso, cabeludo, infeliz, agora uiva conceitos vazios quer a lua esteja cheia ou não e transmite o legado de sua maldição para as gerações futuras.

Este era um palhaço adorável, inquieto, rápido no gatilho. Morreu, claro, mas só um pouquinho. O essencial permanece. Ele pisca para mim em meus sonhos, com seus olhos castanhos. Real, assustadoramente real.

E esta menina de azul, sentada no chão? Linda, gordinha, olhos caídos. De muitas formas, a melhor dentre eles todos. Mas a pior também. A que mais ria, a que mais chorava. A mais leal, a primeira a trair. Ela amava demais, ela odiava demais. Ela não sabia nada, mas tinha todas as respostas. A mais safa, a mais tola. Grupo estranho esse, onde uma medrosa tomava todas as decisões. Ela durou pouco, muito pouco, não deixou marcas, nem deixou saudades em ninguém além de mim. Foi a primeira a morrer.

Também eu tenho sangue nas mãos

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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17 comentários para “Porta-retratos”

  1. Helena Gozzano disse:

    Meda, Fal!!
    De todos os meus fantasmas.
    beijo

    p.s.: vc escreve ma-ra-vi-lho-sa-men-te

  2. aliki disse:

    E é esse sangue a tinta da sua caneta, que lindo, arrepiante, sanguinolento texto. Trevas, paúra e beleza, mano a mano.

  3. claudia lyra disse:

    Ai, puxa, Fal… agora não dá nem pra processar essa emoção… ai, puxa…

  4. Tati disse:

    Putz, nada como nomear e traçar perfil dos nossos fantasmas.
    Beijos.

  5. isa disse:

    é enfiá-los todos no armário que lá é que é o lugar deles :-)
    Bjs

  6. Sil(via) disse:

    Ai!
    Isso foi um direto bem dado na boca no estômago…

    Te amo, lindíssima!

  7. Priscila Braga disse:

    Ahhhh, mostra a foto! Quero ver!

  8. adelson disse:

    Fal,
    Assustador como la vida loca.

  9. vera disse:

    ô, fal, que dor! bj

  10. Paula Clarice disse:

    Esse texto me deu vontade de re-reler o Minúsculos…

  11. Ana Paula disse:

    Em que momento a gente morre? Essa morte aí, que às vezes vai se fazendo devagar, a gente só percebe tanto tempo depois e aí já era, outra pessoa tomou o lugar daquela que morreu. Às vezes é de repente mesmo, a gente acorda um dia e aquele de ontem morreu. Eu tenho a impressão que a menininha de azul, sentada no chão não morreu. Ela não é do tipo que morre, sabe.
    Amei muito.

  12. Cristine disse:

    Adorei, Fal!

    Beijão!

  13. Adrina disse:

    Meus fantasmas também me assustam.

  14. katia disse:

    qto mais lenho suas coisas…
    tenho certeza…..
    preciso de um intensivao de fal…rssrmas essa foi profunda!!!!

  15. Bela disse:

    Fal, um cheirinho de CFA… uma coisa funda, fluida, mas ali, no centro da dor…a dor ritmada. O que é tão real e tão inesperada de se ler!

    Beijos mís

  16. TCO disse:

    Há momentos em que tentamos ignorar nossas fantasmas em outros tentamos derrotá-los e em outros nos conformamos em viver com eles por perto…
    Não tenho medo dos meus fantasmas, da maioria nem saudades tenho…. Me sinto uma pessoa em constante conflito entre uma pessoa extremamente bondosa, amavel e as vezes sensivel e uma pessoa que mtas vezes fui classificada com um coração de pedra…. Confesso que mtas vezes sinto falta deste meu coração de pedra mais mtas vezes não sinto não… apesar de toda dor q este coração mole me causou e vai me causar em algum momento pelo menos por um minuto fui feliz……
    Talvez tenha saudades deste fantasma o da menina simpática mais fria, insensivel que ignora todo e qlqr sofrimento……
    Mais um vez vc traz textos que nos remetem a qm somos e ao que queremos…

  17. Laís disse:

    Nossa, incrível!! Voc~e me lembra um pouco a Clarice Lispector. Escreve maravilhosamente bem.

    Beijos!

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