We few, we happy few

Nossas aventuras, nossos encantos e encantamentos, as pessoas que carregamos conosco, quer elas saibam ou não: nossos amores.
Aqueles que atravessam as situações conosco, as ruins e as boas, ficam marcados em nosso corações, eles simplesmente fazem parte do cenário.
Evocada a fase da vida que passou, lá estão os que ficaram, os que estenderam a mão, os que beijaram, os que, ombro a ombro com você, mataram dragões, resgataram mocinhas, salvaram vilas, espantaram as bruxas. Os que passaram frio conosco. Os que dormiram em nossas camas, os que deitaram em nossos corações, nos emprestaram isqueiros, fumaram dos nossos cigarros. Aqueles que, conosco, venceram a Batalha de São Crispin e que para sempre, tenhamos ou não contato, saibamos ou não das vidas uns dos outros passados tantos e tantos anos, são nossos irmãos, nossos camaradas, ah, we few, we happy few, we band of brothers.
Esta não foi uma semana fácil, não foi uma semana bonita, e ao me deparar nos últimos dias com duas situações diferentes mas iguais, dei-me conta que as situações que vivemos, você e eu, existem apenas e tão somente na cabeça de cada um. E que o sentido de cada palavra e o significado de cada gesto é particular e intransferível: eu não estou na dentro da sua cabeça e nem você está dentro da minha. O tempo passa, inexorável (apenas para usar uma palavra que nossa doce Raquel adora), nós mudamos em processos separados e o que foi e não foi, houve e não houve, aconteceu e não aconteceu, ganha novos porques, novas dores, novos gozos, reveste-se de novas cores, revela outras verdades.
Hoje é sexta-feira e convencionamos que um pequeno ciclo acaba – se tivermos sorte, na beirada de uma taça de mojito. Que nosso ciclo recomece segunda-feira, meu querido, minha querida, que possamos pertencer a algum band of brothers (ainda que só nas nossas lembranças), mas que nossos vínculos, pelo menos alguns, pelos menos às vezes, permaneçam ou, no mínimo, possam ser resgatados quando fechamos os olhos.
Há também os que fugiram, os que traíram, os que negaram três vezes, os que não quiseram nem saber, claro, mas essa foi uma semana muito, muito longa, dolorosa e surreal – pude ver relógios derretidos, senhores espanhóis com bigodes engraçados fingindo que eram caracóis, crucificados, paisagens desoladas, azuis incríveis e marrons aterradores – e não quero falar sobre os que não permanecem. Não agora.
Hasta la vista, baby.
This story shall the good man teach his son;
And Crispin Crispian shall ne’er go by,
From this day to the ending of the world,
But we in it shall be remember’d;
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne’er so vile,
This day shall gentle his condition:
And gentlemen in England now a-bed
Shall think themselves accursed they were not here,
And hold their manhoods cheap whiles any speaks
That fought with us upon Saint Crispin’s day.
W. Shakespeare, HENRY V
¨¨ A foto é da divulgação do belíssimo filme Henrique V, feito por Kenneth Branagh.
