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Arquivo de fevereiro, 2009

27/02/2009 - 17:01

We few, we happy few

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Nossas aventuras, nossos encantos e encantamentos, as pessoas que carregamos conosco, quer elas saibam ou não: nossos amores. 

Aqueles que atravessam as situações conosco, as ruins e as boas, ficam marcados em nosso corações, eles simplesmente fazem parte do cenário. 

Evocada  a fase da vida que passou, lá estão os que ficaram, os que estenderam a mão, os que beijaram, os que, ombro a ombro com você, mataram dragões,  resgataram mocinhas, salvaram vilas, espantaram as bruxas. Os que passaram frio conosco. Os que dormiram em nossas camas, os que deitaram em nossos corações, nos emprestaram isqueiros, fumaram dos nossos cigarros. Aqueles que, conosco, venceram a Batalha de São Crispin e que para sempre, tenhamos ou não contato, saibamos ou não das vidas uns dos outros passados tantos e tantos anos, são nossos irmãos, nossos camaradas, ah, we few, we happy few, we band of brothers

Esta não foi uma semana fácil, não foi uma semana bonita, e ao me deparar nos últimos dias com duas situações diferentes mas iguais, dei-me conta que as situações que vivemos, você e eu, existem apenas e tão somente na cabeça de cada um. E que o sentido de cada palavra e o significado de cada gesto é particular e intransferível: eu não estou na dentro da sua cabeça e nem você está dentro da minha. O tempo passa, inexorável (apenas para usar uma palavra que nossa doce Raquel adora), nós mudamos em processos separados e o que foi e não foi, houve e não houve, aconteceu e não aconteceu, ganha novos porques, novas dores, novos gozos, reveste-se de novas cores, revela outras verdades.

Hoje é sexta-feira e convencionamos que um pequeno ciclo  acaba – se tivermos sorte, na beirada de uma taça de mojito. Que nosso ciclo recomece segunda-feira, meu querido, minha querida, que possamos pertencer a algum band of brothers (ainda que só nas nossas lembranças), mas que nossos vínculos, pelo menos alguns, pelos menos às vezes, permaneçam ou, no mínimo, possam ser resgatados quando fechamos os olhos.

Há também os que fugiram, os que traíram, os que negaram três vezes, os que não quiseram nem saber, claro, mas essa foi uma semana muito, muito longa, dolorosa e surreal – pude ver relógios derretidos, senhores espanhóis com bigodes engraçados fingindo que eram caracóis, crucificados, paisagens desoladas,  azuis incríveis e marrons aterradores  – e não quero falar sobre os que não permanecem. Não agora.

Hasta la vista, baby.

 
This story shall the good man teach his son; 
And Crispin Crispian shall ne’er go by, 
From this day to the ending of the world, 
But we in it shall be remember’d; 
We few, we happy few, we band of brothers; 
For he to-day that sheds his blood with me 
Shall be my brother; be he ne’er so vile, 
This day shall gentle his condition: 
And gentlemen in England now a-bed 
Shall think themselves accursed they were not here, 
And hold their manhoods cheap whiles any speaks 
That fought with us upon Saint Crispin’s day.

W. Shakespeare, HENRY V

¨¨ A foto é da divulgação do belíssimo filme Henrique V, feito por Kenneth Branagh.

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags:
25/02/2009 - 12:48

Coisas

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Muito me espanta esse povo dizendo que o ano começa agora, que acabou o carnaval. Engraçado, meu ano começou faz quase dois meses. Eu podia ter passado esse tempo vendo tevê sem pagar nenhuma conta, é isso? Não valeu?

*

Dos nossos leitores-acampantes, só Joãozinho deu sinal de vida. Por enquanto tá dois a um pro lobisomem.

*

Ah, o que é uma cidade bem administrada, senhor leitor. Aqui em São Paulo secou o lago de um parque importante, o lago do Parque da Aclimação. Entenda, não é que o nível da água diminuiu, simplesmente. Secou. Ou ’secô’, escolha. Simples assim. Laminha no fundo. E agora, claro, funcionários competentes de não menos competentes orgãos públicos, discutinho de quem foi a culpa. E os peixinhos lá fundo lamoso, mortinhos da silva. E as aves, dizem moradores, também. Espetáculo.

*

Tou lendo aqui que devido à falta generalizada de pagamento, mais de 100 mil carros foram retomados em todo Brasil. Rá. É por isso que eu amo Torresmo. Tem 11 anos e tá cheio de problemas (se bem que no caso de Torresmo, são ‘poblemas’), mas leitorzinho de ressaca, tá pago. Amém.

*

Minha mãe, com quem eu vivo desde que fiquei viúva, tem rodinha nos pés. Ela não para em casa. Aproveitando o carnaval, está na praia desde sexta-feira. E em verdade vos digo: não sirvo pra morar sozinha, leitor. Eu não sirvo.

*

E essa mulherada que dá entrevista enumerando de quem já levou cantada? Tem certas coisas que a gente tem que esconder, não por pudor, mas por vergonha mesmo. Nem toda cantada é de sair por aí anunciando, viu?

*

Minha doce Carla San, carioca dos quatro costados, comemora o renascimento do carnaval de rua no Rio.  Depois, elogiou a Banda de Ipanema pela alegria e a si mesma, dizendo que sua feijoada está imbatível. O pessoal da lan do Cebola também havia mencionado o carnaval de rua do Rio, Carla. E eu vou contar preles da sua feijoada.

*

E a camarada Ângela me chama a atenção para manchetes de jornal anunciando que hoje saberemos o vencedor do desfile de escolas de samba do Rio. “E isso lá é motivo pra manchete?” – espuma a lindíssima – “Oooh, jura? Desde o tempo do Carlos Imperial e da forma de gelo com alavanca de alumínio a gente fica sabendo na quarta de cinzas, meu Deus!”. Tá certíssima.

*

Ah, leitor, eu jamais serviria pra redatora de coluna de fofoca, viu? O povo me conta as coisas e eu esqueço, tomaticamente.

 

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/02/2009 - 14:56

Carnaval, desengano

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Quase carnaval. João, Lucinha e Fátima são três leitores que não se conhecem, mas que encontram-se unidos pelo signo da roubada: vão acampar neste carnaval. Eu expliquei que água encanada e cama seca são direitos que conquistamos e cuja tradição devemos manter viva neste conturbado século XXI, mas essa juventude revortosa não me obedece. Assim sendo, eles vão acampar, mesmo eu tendo explicado que, presinhos em barracas, eles serão alvos fáceis para o lobisomem e aqueles poupados pelo ataque do lobisomem, serão pegos no dia seginte pelo tarado da machadinha. Só quero ver.

*

É quase carnaval e o calor me acachapa, meu ouvido dói, as pontas dos meus dedos – cujas unhas roí impiedosamente – latejam, e eu só queria um ar condicionado. Tou quase indo dormir num motel, sério mesmo.

*

As palavras mais perigosas do nosso idioma são “na hora pareceu uma boa idéia”.

*

E as mais doces? “Segue cheque anexo”.

*

De vez em quando você lê umas coisas que… você respira fundo, deleta e segue em frente, bem magoado, com uma dozinha fininha, mas é bom que doa, é bom, assim quem sabe você aprende a não misturar as áreas diferentes da sua vida. A vida é setorizada porque tem mesmo que ser. Amigo aqui, trabalho ali, famiília acolá. Às vezes por ingenuidade, às vezes por soberba, você mistura tudo. Não dá certo, vá por mim. Sou péssima pra dar conselho sobre isso, tenho essa mania kamicaze de juntar amigos e família, amigos e trabalho, amigos dum grupo com amigos do outro e no final sempre me estabaco.

*

Perdi, durante muitos anos um amigo, uma das pessoas que mais amei na vida, também por ter trabalhado com ele – não só por isso, mas também. Às vezes acho que nós podemos nos reencontrar nalgum ponto do caminho, acho que conseguimos, mas foi um desperdício burro de mais de 10 anos.

*

Sou useira e vezeira em entregar uma amiga para a outra, até que, no final, elas passam o sábado juntas e eu fico em casa sozinha vendo tevê.

*

E tenho respirado usando o diagragma e soltando o ar em oito tempos, porque estou prestes a, depois do desaforo, mandar outro amigo ir procurar a turma dele – que ao que tudo indica não é a minha – porque misturei de novo amizade com outros setores da vida.

*

As pessoas não se cansam de me chamar de ‘agregadora’ e dizem ‘você me deu fulano e fulana’, achando mesmo que isso é um elogio. Mas não é uma qualidade, entende leitor, essa minha mania é agregar é só mais uma das minhas facetas inacreditavelmente auto-destrutivas.

*

Eu junto os outros para permancer só.

*

Enfim, leitorzinho, burro velho não pega marcha.

*

A Joleana, além de se borrifar com água termal sempre que algum infiel fala bobagens em péssimo português, ainda por cima deu de tomar milk shake de limão com chocolate pelo aí. Insuportável.

*

Tempo houve em que o carnaval era meu feriado preferido: ficava em casa com meu amor e meus bichinhos e não botava o pé na rua nem que o prédio pegasse fogo. Bom final de semana de feriado, leitor, mas lembre-se: segunda-feira estamos aqui.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/02/2009 - 14:18

Fly me to the moon

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Em São Paulo a grande discussão é se a rua Amauri, rua que concentra escritórios, lojas e restaurantes que servem à camada mais rica da camada mais rica da camada mais rica da cidade, deve ou não constar do trajeto de ônibus urbanos – você sabe quais, leitor adorado, leitora toda-boa, aqueles que levam os pobres pra lá e pra cá. Ah, sim, discute-se a segregação, afinal de contas, quem é que quer ficar parado detrás do volante do Bentley esperando tiazinha pobre e cheia de sacola subir no coletivo? Certo. Urge que nossos companheiros da rua Amauri leiam o que puderam sobre um treco chamado Revolução Francesa, leitor bonito, leitora simpática. Esse povo tão chique, tão bem vestido, de cabelo tão assentado (cabelo de rico, leitor, eu já disse isso, assenta que é uma beleza), devia ter passado mais tempo com a cara enfiada no livro e menos tempo com a cara enfiada na agulha do botox. Eu não sou socialista e nem democrática, Deus por minha testemunha, mas sou esperta o suficiente pra saber que esse tipo de mentalidade nunca deixa de ser punida.

*

Opa, o Stallone vai passar o carnaval no Rio? Querendo dar uma volta em São Paulo, beibe, call me, não seja tímido.

*

Graças ao bravo Rodrigo, o pneu dianteiro direito e o estepe de meu adorável carro, Torresmo, estão novamente em ordem. Notem os senhores leitores que o pneu furou e o estepe estava no chão, sim, essas coisas acontecem comigo e apenas comigo, as alegrias nunca terminam. Mas quem não tem um marido deve ter sempre um Rodrigo no mode alerta on, ele resolveu tudo. Mês que vem, assim que eu receber, novas aventuras aguardam Rodrigo, o belo, pois ele levará Torresmo para trocar o filtro do balancim da barra alternada do carburador da biela do bloco. Mais ou menos isso.  

*

Briga em jogo, no domingo aqui em São Paulo, informam a esta velha cronista as belas Vera, Fer  e  Flávia. Jogo de futebol, lógico, atividade desportiva que costuma reunir o maior número de imbecis por metro quadrado neste país. Vocês façam-me o favor. Como se não bastasse o ridículo daqueles homens velhos e de pernas peludas correndo pelos aí atrás duma bola enquanto vestem bermudas hediondas,  inda saem no braço, os marrecos. Bando de debilóide.

*

Felicidade é quando você resmunga “eu quero tomar sorvete de morango” e a sua mãe tem sorvete de morango no freezer.

*

… and let me play among the stars.

 

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/02/2009 - 09:19

bom dia

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Cotovelada na boca - e eu nem vi que ia acontecer; carro morto (na frente do caixa eletrônico; acho que foi de emoção); cachorro brigando na rua; maçaneta do quarto quebrada (mamãe ficou trancada para fora); secadora quebrada (de novo); gente que relamente não entende o termo ‘depressão clínica’ (o cara escuta o porque do meu solene não e responde que só vai “dar uma passada”); beiço de cliente; fim de sonho bobinho e infantil, mas que era meu e que, de muitas formas, era tudo o que eu tinha (eu sei que não tenho mais idade pra ser idiota, leitorinhos, eu sei). E não são nem nove da manhã. Bom dia.

*

E aí que eu ouço o presidente da república de vocês dizendo que se precisar, corta o batom da Dilma, mas não corta a grana do PAC. E eu que nem sabia que éramos nós que pagávamos o batom da Dilma, leitorinhos! Inocente eu, né?

*

Ah, o secretário do tesouro americano informa que talvez o trilhão e meio não seja suficiente pra resolver a trta nos bancos. Pra você ver, leitorinho da pele boa, leitorinha dos olhos brilhantes, que tudo na vida é questã de perspectiva. Eu, com cinquentinha, tava mais feliz que pinto no lixo.

*

Eu tenho só dois neurônios, se você é leitor recente ainda não sabe disso, mas é verdade. Eles se chamam Antão e Peixoto e são um pouco… lerdos, vamos dizer assim. De modos que eu não entendo muita coisa de muita, muita coisa. Eu ouço e respeito a vontade dos outros, até porque não me resta mais nada, mas não vou fingir que entendi. Eu não entendi.

*

Ah, época de volta às aulas, os faróis da minha cidade estão lotados de calouros de rostos pintados que, munidos de alegria esfuziante, me abordam pedindo “um dinheiro pra cerveja aí, tia”. Que fofos. Querendo que eu os recompense por eles não terem feito nada além do que é a obrigação deles.

*

O João Paulo é meu amigo. Ele não bebe (pelo menos não o tempo todo), ele não fuma o cigarrinho do capeta, ele é um bom menino, bom filho, bom irmão, bom cidadão e futuro devogado. Ah, e ele não mente para velhas senhoras desiludidas da vida, para as quais muito pouco restou. Pelo contrário, ele costuma se comportar com bondade e benevolência na presença destas infelizes criaturas, nunca faltando com o respeito. Assim sendo, quero crer que a afirmação que ele me fez noite passada “A banda Calypso foi indicada para o Nobel da Paz”, tem uma explicação. Eu sei, eu tenho fé. E se houver explicação razoável, eu volto.

Até sexta-feira. Talvez.

 

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags:
06/02/2009 - 16:48

O livro que eu quero ler III

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Livros, né? A Luanna P. me escreveu pra dizer que ia ler A cabala da inveja, do Bonder, que já tava até comprado. Leu, Lu? Gostou? Escreve pra gente quando você ler? Eu só compro se você gostar. E ela disse que vai ler o Brumas de Avalon. AH, eu li os quatro, era tão menina. Depois, ao longo da vida aulta li e reli. Adoro.  Adoro essas historinhas assim, que viram saga.
*
A Sônia Griffo, que é muito da chique, disse uma coisa interessante: que durante os dois anos que estudou em Cambridge conheceu vários  indianos e que, por conta disso a curiosidade dela acreca da cultura indiana cresceu. Acjei tão lindo isso, Sônia, tão delicado você olhar em volta com atenção e querer aprender mais sobre a cultura do outro. Geralmente a gente passa pela vida sem olhar pro lado, sem tomar conhecimento de quem tá ali, ombro a ombro com gente. Tenho pensado muito nisso, Bão, a Sônia disse que queria ler Tigre Branco, de Aravind Adiga, editora Nova Fronteira. Leu, Sônia? Que tal? Esse livro está no topo da minha lista, mais um mês, um mês e meio eu compro o bichinho.
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A Rossana mandou uma lista enorme de livros, uma inveja danada.  Dezoito itens. A gente tem que amar uma criatura com esse nível de organização, caras. Da lista maravilhosa dela, um título salta aos meus olhos:  O menino do pijama listrado. Caras. Quem não leu, leia. É duro. É muito duro. NÃO dê de presente pro seu sobrinho de oito anos, não se atreva. NÃO é um livro infantil. Não é. É livro para adultinhos (embora eu já tenha visto esse livro em setor de livros infantis numa livraria muito muderrrrna e alterrrrrnativa e chique aqui em São Paulo, hahaha). É um livro duro, é uma história dura, é um mundo duro. Leia. Sério, leia. Sua lista, querida Rô, é um desbunde.
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O Weslley que ler V. Woolf. Faz ele muito bem.  Aliás, Weslley, dica da Claudia Lyra que eu prontamente, segui, a Cosac Naif tem um volume maravilhoso, capa dura, petáculo, tradução do Fróes, com mais 40 contos. Vale a pena assim, vezes mil. Enche os olhos e o coração.
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Por uma série de motivo, eu tenho pensado demais em livros. Livros que nos formam, livros que nos deformam, livros que nos completam, que nos assustam, que nos tiram da realidade ou que nos colocam no olho do furacão. Tenho pensado no que ler, como e quando ler. Tenho pensado no que escrever também. E, principalmente, no que não escrever.

Mas isso, leitorzinho adorado, é assusto proutra vez.

té segunda?

besos

Fal

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags:
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