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Arquivo de janeiro, 2009

30/01/2009 - 04:09

O sentimento dum ocidental (ou O livro que eu quero ler II)

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Eu sei, eu sei. Posso até ver os e-mails do Cláudio Luiz e do Rui na minha caixa postal, dizendo que, se eu falar de um livro por vez, nossa lista dos livros de 2009 não acabará nunca. Mas o que é que eu posso fazer, se dois leitores da coluna, a Ana Miranda e o Antônio Luiz, disseram que, em 2009, vão descobrir Cesário Verde?

Eu amo o Cesário Verde.

*

Cada palavra que ele nos deu em sua curta vida (e nem foram tantas palavras assim) é preciosa.

*

Cesário Verde foi um cara muito sério. E um escritor daqueles que só o maravilhoso século XIX poderia ter nos dado.

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Como ele viveu e morreu no século XIX, como escreveu entre 1873 e 1886, temos a mania de enquadrá-lo como realista. Mas ele foi mais que um realista. Ele foi um poeta apaixonado e viceral e, mesmo assim, cínico.

*

Ele olhava o mundo dele com olhos generosos, ainda que sofridos e com muita largueza (foi Dostoiévski, dentre outros, quem disse “Aquele que fala sobre sua aldeia, fala sobre o mundo todo”). Talvez por ser um agricultor, Cesário Verde não fazia uma poesinhazinha confinada e petitica, sua poesia é de grandes espaços, de céu azul, e mesmo quando fala de morte, de tuberculose ou das incertezas da vida, é poesia para ser lida em voz alta, com grandes gestos e teatros. Toda essa amplidão, permitiu a Cesário Verde transitar pelo Realismo, e ir e vir sem cerimônia ou amarras, pelo Parnasianismo e pelo Romantismo, pelo Naturalismo, pelo Impressionismo e ainda, pasmem as senhoras e os senhores, esse cara botou os pezinhos no lago do Expressionismo e do Surrealismo antes, muito antes, que nós começassemos a derreter relógios e deformar fantasias.

*

Alguém aí falou em Modernismo? Ele chegou antes, ele provou que a literatura, e porque não falar na arte e na vida, não estavam assim tão arrumadinhas em camadas de bolo, imóveis e sagradas.

*

Cesário Verde não tem pudores, nem para o amor, nem para a dor, e juro que não estou tentando rimar, nem para o humor.

*

Ele era mesmo um cara amargo e sofrido, com uma vida difícil, de muito trabalho… ele pensava demais – e Deus sabe, a vida não é nada fácil para os que pensam. Mas ele se valia do humor e da ironia e ria de si mesmo, de seu tempo, de sua época e de todos os clichês.

*

Cesário Verde nasceu em 1855. O pai dele era um burguês do século XIX: tinha uma loja de ferragens, uma quinta produtiva e filhos para tocar os negócios. Cesário Verde está à frente da loja da família. E está nos campos colhendo frutas e, suando sob o sol (a natureza de Cesário Verde não é feita de esquilinhos gorduchos e fadinhas da primavera, ainda que ela fosse mais limpa e mais sadia que a cidade), toca o negócio e cuida dos irmãos e paga os funcionários, como gerações e gerações antes dele. Ele está no olho do furacão do século XIX, aquele século maluco e frenético, de fábricas que surgiam, do cotidiano feio e nada poético, de produção em série que começava a existir, dum mundo em larga escala que nunca havia sido visto e que nunca mais iria embora. Ele vê a miséria e as diferenças sociais, ele se frusta por não conseguir ser um grande imortador de vinho e, ao mesmo tempo, por não ser um escritor reconhecido (e o que seria do mundo da literatura sem escritores pobres de grana, pobres de fama e resmungões, eu vos pergunto), ele vê as cidades crescendo, o campo ficando cada dia mais longe, as promessas do futuro chegando, mas o passado – inclusive com com suas doenças agustiantes, como a tuberculose – segurando o passo de todo mundo e, ahá, paradoxalmente, mantendo todos a salvo. Viver no século XIX era viver em conflito e agonia (ah, Fal, e qual século foi moleza, minha filha?), estávamos quase lá, mas não estávamos realmente, e Cesário Verde, que quis ser um poeta pálido, um burguês alienado e um camponês robusto, não foi nada e foi tudo; mesmo quando não percebia, mesmo quando não era.

*

Ele morreu em 1886, de tuberculose, como deve morrer um herói do século XIX.

E eu não vou ficar aqui me estendendo sobre seu genial jeitim de fazer contraste entre campo e cidade, de falar sobre seu trabalho na lavoura, sobre sua família, sobre sua vida burguesa e pacata, sobre seu testemunho acerca o mundo que o cercava e o mundo que ele gerava em seu coração. Vou apenas lhes dar um conselho, porque nós, as velhas senhoras, temos autorização Divina pra aconselhar jovenzinhas bonitas e menininhos encantadores. Façam como o Sr. Cesário, Ana, Antônio, e procurem “sentir tudo, de todas as maneiras”. Sempre. Vai doer pra caramba, mas fiquem firmes. Ele ficou.

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , ,
28/01/2009 - 09:55

Que na carioca tem uma roleta para se jogar

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Novidades? Ah, Bamão ligou para o Presidente do Brasil. A gente sabe, ele tem que ligar até pro presidente da banda dos fuzileiros navais da Bolívia, mas a moçada deslumbra até. A turma deslumbra com qualquer coisa, deslumbra porque carrega cartão de gente quase famosa na carteira, sim, o mesmo cartão que o quase famoso distribui pra todo mundo, não ia deslumbrar com ligação do Bamão? Rá.
*
Por outro lado, é humana, né, essa necessidade de nos sentirmos exclusivos e únicos e diferentes de todo mundo (desde que não muito… é assustador ser diferente demais, eu digo). Pra que acreditar que um pobre homem exausto achou nosso nome porque segue uma lista com mais de 300 pessoas, se pudermos imaginar que ele ligou porque nos ama, ama nossa malemolência, nossas praias, nosso sol,  nosso sul – nosso céu, que tem mais estrelas…
*
O FMI, conta um jornal, prevê o pior ano desde a Segunda Guerra Mundial. Eu também, rapazes, eu também. E olha que eu nem tou falando do PIB.
*
Ah, começou o ano novo chinês, o ano do boi. O ano da vaca que é bom, ninguém quer comemorar.
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Esta semana Updike morreu, aos 76 anos. Um grande escritor. Ele teve uma boa vida, deixa obra enorme. Ele gostava do cotidianos das pessoas comuns, das pessoas que vivem um dia depois do outro, essa vida miudinha, um pouco angustiante, às vezes, desesperadora. Eu gosto tanto das letras e das histórias dele.
*
Temporada de desfiles pra tudo quanto é canto, e a televisão cobre todos, e eu – que de moda só sei a teoria, a história, acabo vendo coisiquita aqui, coisiquita acolá. E não foi que aprendi que tem moços e moças (Deus nos livre da velhice, essa coisa feia, vergonhosa,  em nossas telas só jovens ou criaturas que juram por Deus que estão nos enganando) que são pagos pra serem comentaristas de desfile. Ah, o mercado é uma coisa maravilhosa, pois não? E dentre esses doutos profissionais, eis que me deparo com mocinho cuja principal função era determinar se esta ou aquela modelo “agregava energia” a cada desfile. Sério. “Agregar energia”. Nós nos tornamos tão rasos, tão imbecis, tão absolutamente nada nalgum dado momento, ou sempre fomos assim e eu é que sou tonta demais pra perceber. Explique o conceito “agregar energia”, por favor. Não quer dizer nada. Aqui vamos nós, absolutamente dispensáveis, cada um de nós. Para usar outra frase que também não quer dizer coisa alguma e que, exatamente por isso, ilustra nossas vidas e nosso tempo, seguimos “vivendo a vida e entendendo o momento”.  Até sexta-feira, leitor.
“(…) O chefe da polícia pelo telefone, manda me avisar
Que na carioca tem uma roleta , para se jogar
O chefe da polícia pelo telefone, manda me avisar
Que na carioca tem uma roleta , para se jogar
 
Ai, ai,ai, deixa as mágoas para trás, o rapaz
Ai, ai,ai, fica triste se és capaz e verás
Ai, ai,ai, deixa as mágoas para trás, o rapaz
Ai, ai,ai, fica triste se és capaz e verás (…)”
Pelo telefone – Donga e Mauro de Almeida

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags: , ,
21/01/2009 - 13:35

Opinião

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O presidente americano que estava quase saindo se declarou “decepcionado”. “Decepcionado” por não encontrar as armas de destruição de massa que jurou que estavam lá, “decepcionado” com o clima em Washigton, “decepcionado” com o rumo que as coisas tomaram. “Decepcionado” é o termo que usamos para dar bronca no filhos, nas ocasiões em que a bronca nada mais é que ums bela chantagem emocional travestida. Muito me admira que uma pessoa que passou oito anos se desviando das balas e se eximindo de tomar a frente de qualquer coisa, venha com uma papinho paternalista destes aos 44 minitos.

*

Eu não consigo entender toda a discussão envolvendo a vida alheia – especialmente a dos artistas (note meu sotaque de Dois Córregos ao dizer ‘artistas’, leitor ) – na linha “bebe”, “não bebe”, “dá”, “não dá”, “é”, “não é”. O que nos importa, no fim, é a obra do cara. O livro, a música, a atuação. É bom? E quando eu pergunto se é bom, o que eu quero saber é: fala ao seu coração. Se falar ao seu coração, é bom para você. Se não falar ao seu coração, não é bom para você. E estamos conversados.

*

O presidente americano que entra, não se engane, não é “um de nós”, seja lá o que “um de nós” signifique. Ele é um presidente americano. Que vai cuidar e se preocupar – assim esperam seus eleitores – com o povo e o país americano. Com a economia americana. E sua política externa…. bem, vamos torcer. Mas sem bandeirinhas nas janelas e olhinhos turvos d’água, é um presidente americano, não o  primo Jambão sendo eleito síndico.

*

Como não tenho filhos, não posso escrever muito sobre o assunto. Acabo sempre sendo agredida por mãezinhas que na minha caixa postal vociferam: “Você não tem filhos, não entende nada sobre isso!”. De modos que espero ardentemente que alguém que os tenha escreva longamente sobre essas crianças dominadoras, que simplesmente dominam a casa, os pais, os avós, monopolizam a tevê, só comem o que querem e na hora que bem entendem (e nunca à mesa), berram com a empregada e não cumprimentam ou se despedem das visitas. Alguém fale sobre esse fenômeno, porque se eu falar sou apedrejada.

*

Pagou o IPVA, criança? Dá vontade de jogar o carro dum barranco, não dá?

*

O moço aqui na minha tevê, em importante e metido programa jornalísico, acaba de dizer que o sei lá eu o que “é importante na sociedade atual contemporânea na qual a gente vive hoje”. Eu não diria melhor, querido.

*

Passei a semana que passou constatando o óbvio, leitor igueano atento, leitora igueana sabida.  Bão, depois de quase dois meses, o leitor já percebeu que eu vivo constatando o óbvio, né, o  que muito diz sobre a minha cabecinha de melao. Mas enfim, leitor, o óbvio da vez foi constatar que as pessoinhas não se juntam por acaso. Noutras palavras? Uma vez é coincidência. Várias vezes vira estilo de vida. De modos que, se o estilo de vida da pessoa não casa com o seu, afaste-se. Sem briga, sem choro, sem bate boca. Levante a barra do seu vestidão do século XIX e saia sem fazer alarde. Dói? Dói como o diabo, mas ninguém disse que seria fácil.

*

Meu amado Alexandre dizia: “Bibi, esse negócio de dar murro em ponta de faca tem limites, minha linda”.

*

Na ilusão de que estaria sempre calçada, leitor, sua cronista favoria paga duas mensalidades de servidores à internet.  Pois ficou a pé no mesmo dia, quase que na mesma hora. Uma usa fio, outra não usa, uma serve ao PC outra ao laptop e nenhuma das duas funciona. Isso é vida? – eu pergunto. Não, não é, responte meu gato Bolívar, que é peludinho, lindo, vesgo e mau. Muito mau.

*

Assisti a uma discussão muito feia essa semana, dramática, gritos, cobranças. Só assisti, calhou deu estar na sala no exato momento da explosão, eu não tinha nada a ver com tudo aquilo, fui apenas expectadora. E a discussão acabou dum jeito sensacional: lá pelas tantas uma das partes falou, falou, falou e a outra encerrou o assunto dizendo baixinho “Ah, que bom que você tem uma opinião”. Adorei. Que bom que temos opiniões, né, vou usar essa frase para todo o sempre, amém: que bom que você tem uma opinião.

*

“Luzia abriu o leque e começou a abanar-se serenamente.
- Vosmecê não acha, doutor – perguntou ela – que ser bom ou mau é uma questão de mais ou menos coragem?”

Érico Verissimo
O Tempo E O Vento – O Continente (O Sobrado – IV/parte 7)

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão, força na subida Tags: ,
16/01/2009 - 00:31

Cinturinha de Pilão I

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       Pode ser a fase que estou vivendo. Pode ser que meu medo do ‘mundo dos adultos’ me empurre na direção de um passado que acho que foi mais bonito do que o meu futuro será (eu só acho, porque no caso específico desse passado, eu não era nem um projeto). Ou pode ser que eu, pura e simplesmente, esteja ficando velha. Mais velha, dirão alguns. Mas, Deus, se é para fugir, por que não fugir para os anos 50? E existe década melhor, fase melhor, mundo melhor?
*
Eu sei, leitorzinho chato e leitorazinha mal-humorada, eu sei que é um reducionismo brutal e abobado transformar os anos cinquenta nos tais anos dourados.  O mundo nunca foi inocente, puro, lindo ou; ai, meu Santo Antão, dourado. Então, não haveria motivo para considerar justo essa década um reduto de doçura ou felicidade. Eu sei.
*
Mas, ah, a Segunda Grande Guerra havia acabado de acabar, algumas das mulheres que participaram do esforço de guerra continuaram trabalhando fora de suas casas, tínhamos abandonado as ombreiras e os casaquinhos com corte marcial, e adotado os tecidos mais brilhantes, mais vaporosos, as cinturinhas marcadas, as saias pregueadas (aliás, ressuscitaríamos as famigeradas ombreiras na não menos famigerada década de 80, mas eu estou frágil e sofrida, não posso falar dos anos 80 hoje).
*
O mundo da década de 50 do século XX parecia seguro, um mundo que se dividia entre bons e maus, sins e nãos, comunas e capitalistas, nós e os outros. Acho que vem daí a atração que eu e tantos outros sentimos por essa década. Ainda que não fosse, porque NUNCA foi, o mundo pelo menos PARECIA seguro.
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E envolta neste climão de escapismo e negação, eu mergulho em DVD’S deliciosos, redentores, não por acaso, estrelados por Doris Day, minha favorita em qualquer década.
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Claro que nem todos os filmes dos anos 50 serviram ao escapismo alienado do qual eu falo com tanta felicidade.  E numa semana vindoura podemos falar de alguns filmes pós-guerra que botam sua mufa pra queimar, babe.
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Mas esta semana, vamos ser felizes para sempre. Vamos acreditar na virgindade da mocinha, na bondade humana, nos tradicionais valores americanos (e vamos também acreditar que somos americanos da década de 50), vamos acreditar que, com o fim da guerra, a vida vai mesmo melhorar, que os conflitos vão acabar e que o mundo se tornará um lugar mais justo, afinal de contas, o bem venceu. Os mocinhos ganharam.
*
Por favor, pegue na minha mão e acredite comigo, só mais esta semana, que nós ganhamos. E que tudo, tudo mesmo, vai ficar bem.
*
Dançando e cantando, e sendo muitíssimo bem sucedida em tudo quanto foi ramo do show bussiness da primeira metade do século XX (e parte da segunda também), Doris Day foi responsável por mais dores na virilha do que se pode imaginar. O modelo de ‘moça virtuosa’ que ela encarnou em boa parte de seus filmes, serviu de exemplo para nossas românticas mamães e para nossos putificados papais, vá por mim. Se bem que, se sua mãe for remotamente parecida com a minha, devemos ter em mente que ela serviu de modelo inalcançável, hohoho, mas mesmo assim.
*
A vida dela não foi açucarada. Foi heavy-metal. Mas ela sorria na tela, ela ainda sorri, e cantando ou não, e sorrindo sempre, e com essa cara de boa-moça-sem-pensamentos-impuros, ela nos transporta para uma realidade encantadora, cálida, ao alcance das mãos de qualquer mocinha que fosse boazinha, que andasse na linha.
*
Hei de falar mais, muito mais, sobre Doris Day, porque ela me fascina, por vários motivos.  Alguns deles, são estes aqui:

1) Ardida como pimenta (Calamity Jane), 1955, direção de David Butler, com Doris Day, Philip Carey, Paul Harvey, Chubby Johnson, Howard Keel. Calamity Jane é uma moça trabalhadora e durona do velho oeste que, ahá, apaixona-se, canta belas canções, compra um vestido, pinta a casa de cor-de-rosa e descobre que, na cozinha, será mais feliz. Eu também era mais feliz quando ficava na cozinha. Não me xingue, assista esse filme lindo sem preconceito, entre no clima. A Doris Day canta que é uma beleza.  E ah, sabia que a Calamity Jane existiu de verdade, nasceu em 1852 e se chamava Martha Jane Cannary? Menino, Palavras da Fal é cultura!
2) Um Pijama Para Dois (The Pajama Game), 1957, direção de George Abbott, com Doris Day, John Raitt, Carol Haney, Eddie Foy Jr., Reta Shaw, Barbara Nichols. Na década de 50, os Estados Unidos se estabeleceram, de uma vez por todas, como superpotência. O capitalismo é a força que nos afastará de todos os males, amém. O que vem por aí começa a se desenhar, e palavras como ‘produtividade’ ganham força nova. Nessa história (que foi um musical da Broadway), empregados de uma fábrica de pijamas são obrigados a aumentar sua carga horária e sua, ai, produtividade, quando surge, ora por quem sois, a belíssima representante do sindicato, a dona Doris Day. Stanley Donen dirigiu, dentre outros, ‘Cantando na Chuva’. Ele sabia o que estava fazendo.
3) Confidências à meia-noite (Pillow Talk), 1959, direção de  Michael Gordon, com Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall, Thelma Ritter, Nick Adams, Julia Meade. Esse é o primeiro dos três filmes que Day faz com Hudson. Não parece que foram mais? Parece, mas foram só três. Hoje em dia, a situação que eles vivem é impensável, mas tempo houve, meus filhos, em que telefone era coisa rara, complicada e cara (se bem que caro ainda é). Nesse passado distante, uma decoradora e um compositor têm que compartilhar uma linha telefônica. Entenda, eles moram em casas separadas e nunca se viram, mas por algum problema técnico, precisam dividir a linha. E se falam, e brigam e vão se conhecendo sem nunca terem se visto, veja você, décadas e décadas antes da internet.
*
Semana que vem retomamos nossa conversa sobre os livros que queremos ler. Agora, corre lá na locadora. Beijos. Bom final de semana, té segunda.
Fal

“Estou em Hollywood há tanto tempo, que quando cheguei aqui, Doris Day ainda não era virgem” – Grouxo Marx

(imagem do site: http://www.papergoodies.com/scripts/prodView.asp?idProduct=158 )

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , ,
14/01/2009 - 08:05

A mesma praça

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Os mesmos foguetes, o mesmo homem-bomba, as mesmas crises no mundo das finanças, as mesmas capas de revista idiotas (Caetano já perguntou “Quem lê tanta notícia?” e ninguém soube responder), a mesma chuva, que traz as mesmas enchentes, os mesmos-aviões-com-o-mesmo-atraso-nos-mesmos-aeroportos, o mesmo calor insuportável, a mesma espera, a mesma espera, a mesma espera. Sou só eu ou as semanas não estão mesmo passando? Não, as coisas – acredite em mim quando digo que sei – não são as mesmas, mas ao mesmo tempo são e são e são. Onde está o Ronnie Von quando precisamos dele?
*
Nada entendo de mecanismos compensatórios, mas não deixa de ser engraçado observar que a falta de atrativos (das mais diversas naturezas) de um cavalheiro, quase sempre é inversamente proporcional à certeza que ele tem que todas as mulheres do planeta estão apaixonadas por ele. Noutras palavras, o cara é chato, feio, tem mau hálito, vida pregressa complicadíssima (filhas ciumentas, ex-mulher psicopata), é velhusco, cheio de manias, desempregado e, certamente, não um Adonis, mas, uau, o que você mais o escuta dizer é ‘eu me afastei dela  porque ela estava envolvida demais’.
Hohohoho, o ser humano é divertido de observar.
*
A Zélia Gattai morreu dia 17 de maio do ano passado. E antes de ser lembrada como a grande escritora que foi ( e é, né, uma tremenda duma escritora), ela é lembrada como a mulher de Jorge Amado. Já era assim em vida. E quer saber duma? Ela nunca se incomodou. Ela adorava ser a mulher de Jorge Amado, ser reconhecida por isso. Ela nunca teve vergonha de ser companheira dele, nunca. Acho isso muito lindo.
*
Mabele e Alexandre na sala de casa.
- A melhor invenção do mundo é o celular.
- Por que, mamãe?
- Porque quando eu me esqueço de comprar alguma coisa, eu ligo pro Helenildo e ele traz.
- Então a maior invenção do mundo é o Helenildo, mamãe.
*
As eleições municipais vieram, viram, venceram e se foram (graças a Deus), mas deixaram de lembranças seus secretariados. Ah, os secretariados. Os secretariados.
*
Ela me mandou um e-mail muito doce, perguntando por que é que as mulheres fazem essas besteiras, essas escolhas absurdas, esse monte de bobagens. E eu respondi, claro, que se soubesse a resposta tava podre de rica. Nem o velho e bom pai Freud sabia, minha filha, e você quer saber? A gente fica de longe, torcendo… e lamentando, profundamente. Enquanto os outros lamentam por nós, porque nós também só fazemos burrada, como você beeeem sabe.
*
“Última Parada: 174″, o filme do Bruno Barreto ficou fora da peneira dos filmes do Oscar. O quê? Não, não vi o filme, nem sei se é bão. Mas torço. Pode ser (é, eu sei) ufanismo babaca, mas eu, que não dou a mínima pra Olimpíadas, campeonatos de tênis, e disputas disto e daquilo (meu marido Alexandre – que além de ser um doce, era um sábio – dizia “Bibi, competição é coisa pra cavalo”), sempre me pego torcendo desvairada pros filmes brasileiros, em qualquer treco que eles concorram.
*
 Constatar o óbvio é sempre assustador e decepcionante. Não deveria, né, porque, afinal, é o óbvio, meudeusdocéééééu, mas assim é que são as cousas neste reino encantado.
*
Risca é área, senhoras, e não cabe recurso.
Mantenham seus narizes limpos, nós nos vemos na sexta. Ah… vamos de Doris Day na sexta-feira? Eu preciso que os anos 50 me redimam e me salvem, mesmo que só um pouquinho.
E desculpem a não-resposta nos comentários (que mesmo sem respostinhas, são lidos e curtidos, vocês sabem disso, né?). Semana que vem, com a vida quase em ordem, retomo minha fazeção de respostas, inclusive cuidando dos comentários desta semana. Palavra.
                                                                                                                                                 

 

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags: , , , , , ,
09/01/2009 - 08:03

O livro que eu quero ler – I

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Essa é a única lista que eu acredito, talvez porque seja a única lista que eu consigo cumprir: O livro que eu quero ler.

Todos os anos, ela está lá na minha agenda nova, no dia primeiro de janeiro e, durante o ano, ela vai sendo lentamente riscada, circulada, e flechinhas são puxadas e comentários são feitas às margens, cada um duma com uma cor de caneta, cada um num estado de espírito.

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Os e-mails e recados sobre assunto foram muitos, temos material para três colunas, o que me deixa feliz. O que vem a seguir, nessa e nas próximas duas ou três colunas de sexta-feira, são nossas listas, embaralhadas como os pezinhos que assistem o filme no domingo de tarde deveriam ficar - para que compartilhemos nossas expectativas presse ano novo, para que nos conheçamos melhor, para que uns inspirem os outros (às vezes livro é citado sem a editora que o lançou, sem o escritor que o escreveu, às vezes ou autor é citado sem a obra e sim, por uma vez pelo menos, a editora é simplesmente indicada, como quem indica um bairro para um amigo, não um restaurante específico. Esta não é uma lista acadêmica e formal – nada em mim é acadêmico e formal):

*

O João P. mandou uma lista enorme e variada, que ele fez, enquanto andava na rua, ou via tevê ou vadiava por aí, de caderninho na mão. Da lista dele me chamou a atenção que ele pretende ler Caio Fernando Abreu – Inventário de um Escritor Irremediável, de Jeanne Callegari. CFA foi um grande escritor, João, e um cara importante pra minha geração. Eu dei esse livro pra minha amiga Ana Paula recentemente, e queria que todo mundo, no mundo todo, lesse a obra dele e a biografia dele. Ele teve uma vida linda e trágica, cheia de riso e de dor, as boas vidas são assim. Além do mais, foi a irmã que indicou e, João, as irmãs tem sempre razão. :o ))). Ele também quer ler Encontro Marcado (Fernando Sabino), um livro importante, de um escritor importante pra geração da minha mãe – primeiro – e depois pra todas as gerações. Se você não leu o menino no espelho, também dele, João, leia, é lindo.

*

A Vera, que é uma delícia, quer ler pelo menos um escritor lusófono da África (eu também, Vera!); jornal, todos os dias; um livro do Nobel do ano, o DROPS (hahaha, elogio em boca própria é vitupério, mas eu não poderia resistir); minha coluna do IG; e as revistas de fofocas de celebridades, em todas as salas de espera do planeta (porque a Vera é como eu e não paga quase dez reais pra ler, de novo, que a atriz casou). Faço minha a sua lista, Verinha.

*

Para acabar, a Ana Paula, que foi quem ganhou o CFA, não faz lista de livros. Ela faz pilha mesmo. Ela acabou de ler  Sob o sol da Toscana, está no turbilhão de O tempo e o vento (de onde só sai quando terminar o último tomo do último volume, o Arquipélago) e o próximo da fila é Caio Fernando Abreu, porque ela diz que se comove toda vez que espia a dedicatória.

 

Mais do que bons livros, leitorzinho igueano, eu tenho bons amigos.

Boa sexta. Bom final de semana.

Té segunda.

 

PS: Será que os livros que escolhemos para ler durante o ano tem de alguma forma a ver com o que esperamos dele? Se for assim, meu amigo Gustavo vai viver num 2009 completamente diferente do meu, porque o único item da lista dele é: “Obras completas de Carlos Zéfiro”.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/01/2009 - 06:47

Aqui

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Aqui, do apart hotel do conde Drácula onde habito, vejo a vida passar na janela, ou o mais próximo de vida que temos acá, no Beco do Piolho. E tudo bem. Tudo bem aí, leitor? Começou seu ano? Ah, mas calma, tenenos Carnaval em breve.

*

Ah, a semana. A semana, né leitor garboso, leitora simpática. O que há no mundo, além do de sempre?  Guerra. Israel mandando prender e mandando soltar. A chuva que parecia que ia parar em Santa Catarina, mas daí não parou não.  Prefeito fazendo cena. Os aeroportos deste Brasil varonil com vôos atrasados pra todos os cantos. Quando não chove, é o sol que arde. O novo acordo ortográfico dando pano pra manga.

*

Teve criacinha alemã de seis e sete anos fugindo de casa pra ir casar na África. Tou com elas e não abro. Agora que (um pouco da minha lamentável vida pessoal leitor, vamos enriquecer a coluna com detalhes sórdidos da existência de vossa bela – cof cof – cronista) eu não tenho mais grandes coisas a me prenderem do lado de fora, leitorinhos, constatei o óbvio e virei homem-sanduíche do mais abominável chavão: difícil é se livrar do que nos prende lá dentro.

*

Por isso tou com os meninos alemães: palmas pra quem consegue fugir de casa, vão em frente, meus filhos.

*

Ah, e agora para mal de meus pecados, inda ganhamos um segundinho extra, foi isso? Quer agradecer o esforço da rapaziada. Um segundo só não resolve meus problemas, mas eu estou comovida com a tentativa de vocês.

*

 

Eu nunca faço lista de resolução de ano novo, mas  listo os livros que pretendo ler ou reler durante o ano e o por que. E você? O que é que você ainda não leu, mas que não seria nada mal ler durante 2009? Conta pra mim?

*

Sigo revirando gavetas, as de verdade e as nem tanto, em busca de pistas, de lembranças, de fatos e certezas, de dores – mesmo as vãs – de mãos estendidas (só no sentido figurado, né,  imagina o horror que deve ser abrir uma gaveta e sair aquele mãozão de lá? Credo), de sins e de nãos. Minha mãe, a pessoa mais inteligente que eu conheço, diz que a consciência é um caminho sem volta. E eu, nem tão inteligente assim, nunca vou deixar de tentar fazer sentido.

A vida, leitorinhos, recomeça devagar, presos que estamos à essa absurda noção de fica tudo zerado após qualquer feriado. Vamos com calma, um passo de cada vez. Fácil não é. Mas nós seguimos.

 

 

“Deus me livre de ter medo, agora que eu já me lancei no mundo”. – Torquato Neto

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags: , ,
05/01/2009 - 00:05

Feliz Ano Novo

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Amanhã é 6 de janeiro, dia de desarrumar a árvore, guardar enfeites, colocar os cartões recebidos em pastas ( você ainda recebe cartão de Natal, leitor? Este ano eu enviei três e recebi três, também).

*

Amanhã é dia de decidir, com ou sem literatura, o que você vai querer carregar do ano passado com você.

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Amanhã é dia de você se dar conta, também sem literatura, que você não escolhe coisa nenhuma, ou quase nada, e que tudo, tudo, tudo, inclusive você, simplesmente… continua.

*

Amanhã, mais do que hoje, na minha modesta opinião, é dia de cair na real: acabou o Natal, acabaram as festas.

*

As festas que,  sei lá, foram tão boas assim? Ou o que a gente gosta mesmo é de não ter que ir trabalhar? Pergunto porque este ano, como nunca, eu ouvi “detesto isso tudo, só faço por causa das crianças”. Ah, as crianças… a gente joga tanta responsabilidade em cima delas.

*

Eu, neste Natal, caí na real, de forma inequívoca e absoluta. E bem antes do dia 6, diga-se.

*

Neste Natal, minha solidão ficou patente; minha falta de rumo, também. O fato d’eu não ter uma casa e nem energia para arrumar uma gritou comigo, e nem duas garrafas de vodca foram suficientes pra lavar os cadáveres de todas as coisas que eu não fiz.

*

Amanhã é dia 6, tudo volta pro sótão, dentro e fora, enfeites e perguntas, papais-noéis de feltro e dores,  penduricalhos em forma de estrela e as respostas que não queremos ouvir.

*

Começa um novo ano (ou algo parecido, já que o Carnaval inda vem por aí), fiscal inclusive, e gente que pergunta demais, resmunga demais e chora demais incomoda, enche o saco (“Não sofra”, costumamos dizer, o sofrimento do outro tirando casquinha do nosso próprio lamento e mexendo em coisas que não queremos nem tirar o pó) atravanca o caminho, não produz (Deus nos livre de não sermos produtivos) e escangalha o oba-oba nosso de cada dia.

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Amanhã é dia 6 de janeiro. E, sem querer saber se você quer ou não, uma vida nova começa para todos. E sem querer saber se você gosta ou não disso, sua velha vida continua exatamente a mesma, os mesmo hábitos irritantes, o mesmo emprego, a mesma geladeira, o mesmo cachorro mijão, as mesmas unhas que crescem meio tortas, o mesmo passado.

Feliz ano-novo.

 

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/01/2009 - 07:36

Gutierrez

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Você já se esbudegou de comer tender, peru, lombo, pernil, farofas variadas, quindão, lula à vinagrete, churrasco, panetone… você já se acabou de beber caipirinhas, caipiroscas, cana, o vinho ordinário que seu cunhado deu, espumante vagabundo, uísque genérico e cerveja. Muita cerveja.

Você já distribuiu entre os seus entes queridos os presentinhos comprados na loja da coreana, que só vende muamba. O único presente “de verdade” que você tinha pra dar era um livro peba, um best-seller daqueles que figuram nas hediondas listas das revistas de circulação semanal. O tal livro foi embrulhado e dado pro seu sogro, pra fazer aquela moral com o cretino. O cretino quase morreu de apoplexia quando abriu o pacote e viu que era o mesmo livro que ele havia lhe dado ano passado, até com a dedicatória, olha lá.

Você já ganhou gravatas inomináveis, baciadas de meias sem personalidade e um incrível prendedor de gravatas, em formato de cavalo, do primo da sua mulher, ele mesmo um equino.

As mulheres da sua família já mergulharam naquele maldito ponche de pêssego, e assim, você já viu sua mãe de fogo, sua sogra de fogo, sua mulher e suas primas de fogo, e sua tia Dinah, também devidamente alcoolizada, se abanando com a camiseta e provando que seu tio Geraldão não tem do que se queixar.

Você já encheu o saco na festinha de confraternização da firma e chamou o Freitas, da contabilidade, de camelo. Posto que o Freitas é genro do dono e deve ser promovido à gerência em dois ou três anos, ponha as suas barbas de molho.

Você já ficou preso num engarrafamento dentro do shopping, já brigou com metade da sua família e foi ofendido pela outra metade, já chegou à conclusão (de novo) de que sua nora é uma megera e seu neto é um monstrinho, já sentiu saudade dos que se foram (certamente, se esquecendo de que eles também eram todos uns babacas), já gastou os tubos em férias, presentes e comida pros outros, já pisou em dois cocôs e inúmeros xixis feitos por “Cherry”, a poodle que sua filha pediu e ganhou de Natal, e pela qual ela jurou se responsabilizar. Hum-hum.

Você já se comoveu até as lágrimas com a peça de final de ano da escola do seu caçula, para em seguida decidir que vai matá-lo, quando descobriu que o palhaço botou um brinco no nariz.

Hoje é dia 2 de janeiro e apenas um fim de semana separa você da vida real, do trabalho, dos imbecis do trabalho, das notinhas para o contador e das contas; e você, sem saber se na segunda-feira para de fumar, faz uma dieta, começa a jogar tênis todo santo dia, como aquela gostosa da vizinha, a Dona Vera, larga a sua amante, a Samira, ou ainda, que Deus nos ajude, se pinta o cabelo de “acaju”, muda seu nome pra Gutierrez e passa a gastar todo o seu salário em cubanos e camisas de seda estampadas.

Sei lá. Mas parece que a vida do Gutierrez é bem mais divertida que a sua.

 

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: , , , ,
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