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26/12/2008 - 07:32

Entre mortos e feridos

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A gata natalina da Carol

Querida Lígia:
Estou aqui. E sobrevivi, claro. Sempre sobrevivo, Lígia, você sabe. De um jeito ou de outro. Deve ter barata no meu DNA, não é possível. Já posso me ver, depois da Grande Guerra Nuclear, abobada e meio cegueta, vagando sozinha entre as pilhas de entulho. Você riu, né? Adoro fazer você rir. Do nosso pessoal, entre mortos e feridos, todos parecem ter se salvado também (mesmo achando esse ditado uma idiotice – se houve algum morto, como todos podem ter se salvado? – uso e adoro). A Cé encontrou com todo mundo que ela odeia (essa parece ser uma das especialidades do Natal, Lígia, botar a gente em contato com os parentes mais nojentos que nós temos) e, para se fazer um agradinho, mergulhou no bolo de nozes. Fez ela muito bem. A Carol, na França, com aquele maridinho amado, comeu casquinha de siri, riu e namorou. A gente respira fundo e tenta não odiar a Carol. A Gi foi pra casa do irmão e ficou firme. A Anna Bárbara passou um Natal não-natalino com a família bonita que tem, numa clara demonstração de bom senso. Adoro a Anna Bárbara e você ficaria louca com ela. A Rose ficou quieta na torre, nem passou pela sala, de camisola, para fazer pratinho, olha que santa? A Dani P., que não gosta de Natal, participou da encenação, cumpriu o papel dela no lenga-lenga e sonhou com um Natal diferente. Ah, Lígia, eu também. Também sonhei.  A Katia, pessoa de bom coração, encheu a sala dela de balões depois que as crianças foram dormir (vivo encantada com as tradições de cada família), acreditou em Papai Noel a cada minuto e foi a pessoa boa que ela sempre é. A Nanda passou quietinha, em casa, a Nenéia  passou na casa dos outros, mas também quietinha, pra não fazer marola. A Nenéia não é nada boba. A Ângela acordou de ressaca. A Margot se emocionou com as coisas pequenas, a Laura Andreia se comportou e esperou passar, a Ludmyla – que não passava o Natal em casa há cinco anos – ficou com a mãe e viu filmes na tevê, a Paula Clarice já sabia exatamente como ia ser mas se divertiu mesmo assim. Quem mais, Lígia? Ah, a Anunciação viu o pai, de 90 anos, abrir os presentes com felicidade de menino e se emocionou muitíssimo. Nossa Silvinha, que já havia providenciado Papai Noel particular para a Isa (a Isa está enorme, você iria desmaiar de susto), depois, com a família toda, jantou a comida maravilhosa da dona Leda. O Elísio, o Otávio e o Rui passaram dormindo, meus meninos sabidos. A Maloca passou com as irmãs e a Mãe e os muitos sobrinhos, sobrinhos-netos e vizinhos da irmã, entre jogos de tômbola e truco, entre javali e carneiro assado, entre as promessas de 2009. A Mari passou sozinha e bem consigo mesma, o Claudinho passou só e na melhor companhia do mundo (ele tem me escrito tão lindo, Lígia). A Catarina, para quem o Natal tem a ver com Jesus e não com presentes e Papai Noel, foi a duas missas e depois foi para casa e rezou até dormir. A Alline passou feliz, entre as tradições da família do marido. O Gigio, aquele amado, até que gosta de Natal e Ano-Novo, mas declarou que nem sempre participa, o que eu achei sensacional. A Ana descobriu, de novo, como são maravilhosos os filhos que ela tem. A Isa, depois de muitos anos, passou com os pais, bebeu vinho tinto e se calou, não para deixar de  arrumar confusão, mas porque ela sabe que só nos atinge o que permitimos que nos alcance. Eu, que não sou e nem nunca serei tão sábia quanto a Isa, me deixei ser atingida, ah, Lígia, eu me deixei pegar. E um alvo do meu tamanho, vamos combinar, é difícil de errar. Eu me deixei ser alvejada e, também por isso, passei uma véspera de Natal pequena e quieta. E muito, muito triste, ainda que… bem. Eu estava triste, mas estava bem, dá pra entender, Lígia? Pensei demais em você, nos Natais que nunca tivemos, pensei em Alexandre, em todos os Natais que tivemos, em todos os que nunca teremos, pensei nas minhas escolhas, todas, todas elas, que me trouxeram até aqui e nos meus mecanismos de sobrevivência. Só pensei, né, Lígia, minha especialidade, muitos pensamentos (todos tortos), pouca ação. Chorei um pouco, abracei o cachorro, à meia-noite desejei feliz natal para a Silvana pelo msn, ela que, em Porto Alegre, parece estar (quase) nas mesmas condições de temperatura e pressão que eu. Dormi depois, um sono curto, sem sonhos, quase sem ar, um sono que você costumava chamar de “instante”, lembra,quando você me ligava e dizia “Fal, eu dormi um instante”.

E foi isso, Lígia. Lamentei demais você não estar aqui, Alexandre não estar aqui. Lamentei estar aqui.
Sigo amando você, pensando e sonhando com você, com os Natais que nunca tivemos, os Natais que eu nunca terei.
eu

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: , , , , , , , ,

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32 comentários para “Entre mortos e feridos”

  1. Gisela disse:

    Também pensei muito na Ligia! E em você! E em nós! Nossa irmandade, nosso amor de amigas eternas.
    Nâo deveria mais exisitir natal para nós que perdemos o que amamos.

  2. Sil(via) disse:

    Meu amor, meus amores…
    Lí, eu também pensei muito em você.
    Falzinha, como é duro ter que respirar, e fundo ainda por cima.
    Te amo demais.

    Adorei as tags.

  3. Cláudia Marcanth disse:

    Fal, as festas de Natal e Ano Novo são como as estações do ano – vêm e passam. E por mais que tentemos, não dá para ignorá-las. O calor do verão, o alívio do outono, o friozinho gostoso do inverno e a promessa da primavera.

    Mal ou bem, o Natal sempre promove um reencontro, o que não é de todo mal, considerando os dias de hoje… E a passagem do ano, cheia de retrospectos, balanços, recordações melancólicas e alegres, é indispensável como catarse para o ano novo que está chegando.
    O jeito é respirar fundo e continuar vivendo!
    Muitos beijos para você, pensadora extraordinária que ilumina os pensamentos alheios!
    Cláudia.

  4. Alline disse:

    Faz assim comigo não, Fal!!!! assim vc mata a véia aqui. Me deixa viver até março, ok?

    Beijos

  5. Mariana Laura disse:

    Po, Fal! Que lindo! Obrigada! beijoca

  6. Fátima disse:

    Muitas saudades dela, Fal.
    Bjs

  7. Paula Clarice disse:

    ô, meu amor. texto dolorido. abraço, abraço. (março, amor, março)

  8. Roselene disse:

    Eu gostaria tanto de dizer que o Natal é uma festa em via de extinção… Pra que perpetuar um evento detestado por boa parte das pessoas? Que suplício! Quanto desperdício…

    Tudo de bom, Fal.

  9. isa disse:

    gostei mesmo muito. e tenho uma pena imensa de n ter conhecido a Lígia, a do sorriso lindo.
    Um beijo enorme, querida

  10. Fal, respeito alguém cujo nome …Roselene”. E mais ainda pelo fato de ela orgulhar-se dele. Eu tive traumas …coisa de colégio. Reduzi para Rose.

    Mas você deve saber quem é a sua Roselene, né? Deve ser mais alegre que eu, mais alta, amorosa, com filhos, viajada. Eu não sou a sua Roselene.
    Doravante,nomeio-me – mais ainda, pra não confundir – de Rose MP, a de sempre;

  11. ana b. disse:

    fal, flor…
    força na subida.
    bjs
    a.

  12. Tati disse:

    Passou Fal.
    Um grande beijo.

  13. anunciação disse:

    Pensei em você,mas não disse,ou melhor comecei a pensar mas,covardemente afastei o pensamento,confesso;sou fraca e covarde demais e pensar no seu natal excederia minhas poucas competências.Esse texto é muito bonito e abrangente;parece até que você estava em todos os lugares e com todos nós.Sinta-se abraçada.

  14. Kathia disse:

    Ah, Fal eu não sou boa…

  15. anunciação disse:

    Adorei a gata natalina da Carol.

  16. Marcia disse:

    Fal, eu não gosto do Natal, mas gosto de ver a felicidade das crianças, seja nos presente, ou na decoração e na própria festa. Mas não levo a data para lembrar quem eu perdi, pois não me apego em datas. Sinto dia a dia, a filha que perdi, a mãe viva que perdi. Mas acho que meu coração já empedrou pra eu sentir diferença nesta época.

  17. Sil(vana) disse:

    Tá explicado termos tanto em comum, temos o mesmo tipo de DNA. Ao menos, você sabe que não estará sozinha depois da Grande Guerra Nuclear, eu estarei lá também. Obrigada pela sua companhia, pelo seu amor, por ser quem você é.
    Beijos…

  18. Nenéia disse:

    ah Fal… março… março tá aí… não tem mais Natal, nem Ano Novo e, graças a deus, o carnaval tb já vai ter passado…
    Amor

  19. liz disse:

    Õ Fal

    Você consegue tantas coisas! Continuo dizendo, essa sua arte de escrever, de narrar a vida, de tecer, com cuidado, cada letrinha que se une à outra e outra- e vai aquecendo o coração de tanta gente!

    Você ainda vai ter belos Natais, agora sou eu que escrevo e digo: vc terá muitos e belos ( sejam tristes ou alegres) momentos para narrar e emocionar! E se emocionar! Você está viva e com todas as saudades e perdas, vc está irradiando esperança e amor. Força na peruca Fal!

  20. Carol Milady disse:

    Gente, estou aqui PASSADA de orgulho de Biscotte, also known as Ricota Maricota Mirtes Gordonildes ter aparecido na coluna da Fal, no IG !
    O Natal aqui foi de ótimo sim, mas o que eu não contei foi que como em todo Natal (e todo ano novo também, ja ja chega, aimeudeus), eu chorei um pouquinho escondida, sem querer remexer muito para não chorar ainda mais… de saudades, sempre, parece que minha vida sempre foi feita de saudades.
    Pensamos em você sempre, Fal. Que 2009 nos venha mais leve !

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