Entre mortos e feridos

A gata natalina da Carol
Querida Lígia:
Estou aqui. E sobrevivi, claro. Sempre sobrevivo, Lígia, você sabe. De um jeito ou de outro. Deve ter barata no meu DNA, não é possível. Já posso me ver, depois da Grande Guerra Nuclear, abobada e meio cegueta, vagando sozinha entre as pilhas de entulho. Você riu, né? Adoro fazer você rir. Do nosso pessoal, entre mortos e feridos, todos parecem ter se salvado também (mesmo achando esse ditado uma idiotice – se houve algum morto, como todos podem ter se salvado? – uso e adoro). A Cé encontrou com todo mundo que ela odeia (essa parece ser uma das especialidades do Natal, Lígia, botar a gente em contato com os parentes mais nojentos que nós temos) e, para se fazer um agradinho, mergulhou no bolo de nozes. Fez ela muito bem. A Carol, na França, com aquele maridinho amado, comeu casquinha de siri, riu e namorou. A gente respira fundo e tenta não odiar a Carol. A Gi foi pra casa do irmão e ficou firme. A Anna Bárbara passou um Natal não-natalino com a família bonita que tem, numa clara demonstração de bom senso. Adoro a Anna Bárbara e você ficaria louca com ela. A Rose ficou quieta na torre, nem passou pela sala, de camisola, para fazer pratinho, olha que santa? A Dani P., que não gosta de Natal, participou da encenação, cumpriu o papel dela no lenga-lenga e sonhou com um Natal diferente. Ah, Lígia, eu também. Também sonhei. A Katia, pessoa de bom coração, encheu a sala dela de balões depois que as crianças foram dormir (vivo encantada com as tradições de cada família), acreditou em Papai Noel a cada minuto e foi a pessoa boa que ela sempre é. A Nanda passou quietinha, em casa, a Nenéia passou na casa dos outros, mas também quietinha, pra não fazer marola. A Nenéia não é nada boba. A Ângela acordou de ressaca. A Margot se emocionou com as coisas pequenas, a Laura Andreia se comportou e esperou passar, a Ludmyla – que não passava o Natal em casa há cinco anos – ficou com a mãe e viu filmes na tevê, a Paula Clarice já sabia exatamente como ia ser mas se divertiu mesmo assim. Quem mais, Lígia? Ah, a Anunciação viu o pai, de 90 anos, abrir os presentes com felicidade de menino e se emocionou muitíssimo. Nossa Silvinha, que já havia providenciado Papai Noel particular para a Isa (a Isa está enorme, você iria desmaiar de susto), depois, com a família toda, jantou a comida maravilhosa da dona Leda. O Elísio, o Otávio e o Rui passaram dormindo, meus meninos sabidos. A Maloca passou com as irmãs e a Mãe e os muitos sobrinhos, sobrinhos-netos e vizinhos da irmã, entre jogos de tômbola e truco, entre javali e carneiro assado, entre as promessas de 2009. A Mari passou sozinha e bem consigo mesma, o Claudinho passou só e na melhor companhia do mundo (ele tem me escrito tão lindo, Lígia). A Catarina, para quem o Natal tem a ver com Jesus e não com presentes e Papai Noel, foi a duas missas e depois foi para casa e rezou até dormir. A Alline passou feliz, entre as tradições da família do marido. O Gigio, aquele amado, até que gosta de Natal e Ano-Novo, mas declarou que nem sempre participa, o que eu achei sensacional. A Ana descobriu, de novo, como são maravilhosos os filhos que ela tem. A Isa, depois de muitos anos, passou com os pais, bebeu vinho tinto e se calou, não para deixar de arrumar confusão, mas porque ela sabe que só nos atinge o que permitimos que nos alcance. Eu, que não sou e nem nunca serei tão sábia quanto a Isa, me deixei ser atingida, ah, Lígia, eu me deixei pegar. E um alvo do meu tamanho, vamos combinar, é difícil de errar. Eu me deixei ser alvejada e, também por isso, passei uma véspera de Natal pequena e quieta. E muito, muito triste, ainda que… bem. Eu estava triste, mas estava bem, dá pra entender, Lígia? Pensei demais em você, nos Natais que nunca tivemos, pensei em Alexandre, em todos os Natais que tivemos, em todos os que nunca teremos, pensei nas minhas escolhas, todas, todas elas, que me trouxeram até aqui e nos meus mecanismos de sobrevivência. Só pensei, né, Lígia, minha especialidade, muitos pensamentos (todos tortos), pouca ação. Chorei um pouco, abracei o cachorro, à meia-noite desejei feliz natal para a Silvana pelo msn, ela que, em Porto Alegre, parece estar (quase) nas mesmas condições de temperatura e pressão que eu. Dormi depois, um sono curto, sem sonhos, quase sem ar, um sono que você costumava chamar de “instante”, lembra,quando você me ligava e dizia “Fal, eu dormi um instante”.
E foi isso, Lígia. Lamentei demais você não estar aqui, Alexandre não estar aqui. Lamentei estar aqui.
Sigo amando você, pensando e sonhando com você, com os Natais que nunca tivemos, os Natais que eu nunca terei.
eu

ah, fal, e eu decreto: daqui pra frente, só nos meus domínios. (o pior é que meus decretos sao uma merda). beijos, querida
Meu Natal foi uma coisa tão mais ou menos que nem acredito que já tenha passado, graças ao bom Deus. E foi tão estranho, mas tão estranho, que ao invés de eu ficar triste como em todos os anos desde a infância (porque eu não acreditava em Papai Noel, etc) eu fiquei com uma sensação de vazio que eu não sei se é melhor ou pior que a tristeza. Acho que estou mais chocada com o pesadelo que tive essa noite (Freud, cadê você) do que com todo o resto… Ainda bem que já passou,a s ainda tem a droga do ano novo.
Beijos!
E eu suspiro, tentando manter ar, até março.
Fal, amada, eu pensei muito em você e li muito você. Na ida para São Paulo e na volta a Navegantes e nunca desejei tanto que um vôo demorasse mais para que eu continuasse lendo e não precisasse descer! Adorei seu livro, amei de paixão!! Como sempre… é, eu sei, não vale, sou sua fã… mas digo mesmo assim! Beijos, te amo e um 2009 com muita saúde, só. Isso, acho, já basta, né? Parece clichê, mas tendo saúde, conseguimos tudo!
uia fia, sisqueci de dizer isto: eu não sou sábia n fia, disfarço é mt bem…
Bjs mis,
’suspiro’
abraço mais do que apertado, minha querida
Ai Fal, só você prá juntar tudo e deixar a gente com essa cara de bobo.
Beijoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo
O que eu não consegui chorar no Natal, tô chorando agora…
É …a Lígia está sempre presente.No Natal sinto o perfume de seus cookies saindo pela porta da cozinha.Aqueles que eu nunca comi, mas que com certeza, os meninos devoraram com prazer.Ela estava sempre inventando…rs… é estranho demais entender o que acontece e como acontece…
Bjos querida!
Não sobra muito a dizer depois que você diz. Seja lá qual fôr o assunto.
Eu só digo que embora esteja entre os feridos, há muitíssimos momentos em que preferia estar entre os mortos. Eles eram tão melhores que nós….
te amo
*beijo*
oi fal ! preciso muito do endereço da rosinha monkees brigado