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10/12/2008 - 08:45

Haia

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Tava frio, frio mesmo em 10 de dezembro de 1920, e ela nasceu num navio.
*
“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
*
A família dela havia deixado a Ucrânia e estava indo para os Estados Unidos.
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Era 10 de dezembro
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“Eu não: quero é uma realidade inventada.”
*
Quando ela nasceu, ela era Haia Lispector, a terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector.
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“Me deram um nome e me alienaram de mim”
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Em 1922, seu pessoal vem para o Brasil. Todos os nomes mudaram, e o dela virou Clarice.
*
 ”Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”
(A Hora da Estrela)
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Em 1940 ela publica seu primeiro conto. Em 1942 ela escreve  Perto do coração selvagem.
*
“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.”
*
De 1946 a 1969 ela e Fernando Sabino se escreveram quase todo dia.
*
“Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma”
*
Ela publica Laços de Família em 1960
*
“ Fal, a Clarice foi uma escritora muito importante em minha vida. Eu tinha 17-18 anos quando li Perto do Coração Selvagem, o primeiro livro que ela escreveu. Depois li Laços de Família e A Paixão Segundo GH. Fiquei tão surpresa com o que li! Era algo novo, diferente de tudo que eu conhecia. Admirei o que ela sabia fazer com as palavras.Ela sabia usá-las de uma forma nova.Como se brincasse com elas. Eu queria saber escrever assim. Tereza”
*
Ela publica A Paixão Segundo G. H. em 1964.
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“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.”
*
A Sweet tentou a vida toda, mas nunca conseguir nada inteiro de Clarice
Lispector, “a despeito de sempre achar lindo tudo que encontrei dela pela
vida afora…”

*
Em tempos bons ou ruins, com romances sendo publicados ou não, ela nunca, nunca, nunca para de escrever contos.
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 “Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.”
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Em 14 de setembro de 1966, ela dorme com um cigarro aceso e bota fogo no quarto. Sua mão direita quase é amputada.
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Ela publica a Hora da Estrela em 1977
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Ela morre em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.
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“Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós.”
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Ao contrário de Macabéa, sua anti-heroína em A Hora da Estrela, cuja existência só é percebida nesse momento da morte, Clarice fez sentido muito antes.
*
Escreveu sempre em português, apesar de ser fluente em inglês e francês.
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A Cláudia Lyra adora e se identifica com o que ela escreve. Ela gosta mais dos contos que dos livros longos e ama os contos sobre animais.
 “Cara, mas os contos… putz… tem um, por exemplo, o de uma velhinha que não tem ninguém, que dorme de favor na casa dos outros e que é levada pra Petrópolis… sabe qual é? Gente… já li umas duzentas vezes esse conto e choro de boca aberta toda vez. E os contos em que ela fala da infância dela, de como ela era no colégio, do relacionamento dela com os filhos… ah, adoro, me emociono, choro, choro, choro.”
 *
Ela foi escritora, tradutora, repórter. Dividiu-se entre a maternidade e a escrita de contos, crônicas, literatura infantil e romances.
*
A Anna Tempesta diz que é para Clarice que ela vai quando não entende as pessoas “ou seja, quase sempre”. Para Anna, Clarice disseca almas e nos mostra o que encontrou.
*
A Renata se assustou tanto com a barata em ‘A Paixão Segundo G.H’, que demorou anos para voltar à Clarice. Mas está gostando da volta.
*
Clarice afirmava ser um mistério até para si mesma.

*
” Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e, se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.”

*

Para mim, sua vida foi mais extraordinária do que qualquer coisa que ela tenha posto no papel. Ela foi, em essência, uma transgressora, a vida toda, de quase todas as formas. Ela gostava de quem nadava contra a corrente. Ao contrário do que faz parecer essa ‘ditadura clariceana’ que nos enfiaram goela abaixo, você pode, sim, não gostar de Clarice Lispector. Mas leia antes.

*****

* as frases em negrito são de Clarice Lispector.

*****
(Colaborou, e muito, a professora Silvana Ferrarri, a quem agradeço)

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:

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34 comentários para “Haia”

  1. Tati disse:

    Gostar ou não gostar não diminui o mérito de suas palavras escritas.
    Excelente sua crônica Fal. Isenta e cheia de emoção.
    Beijos.

  2. vera disse:

    fal, essa sua crônica está magnífica, tanto pra quem ama, quanto pra quem nao conhece, quanto pra quem odeia clarice. brilhante!
    beijos

  3. Raquel disse:

    É sim, possível não gostar de Clarice. Pra mim, o que não é possível é não gostar de você, mas a gente tem que respeitar, né? Ficou ótimo, boneca. Taí uma pessoa que a gente pode dizer, ao contrário do rato da Alice, que a vida dava um romance! ;-)

  4. Nenéia disse:

    Tenho vergonha de conhecer tão pouco sobre Clarice…
    Amor

  5. Sil(via) disse:

    Obrigada, Fal.

    Beijos pra você.

  6. Juju disse:

    eu nunca li com atenção especial, tirando um trechinho aqui e ali. não posso dizer se gosto ou nao gosto. mas vou tentar, pometo!

  7. Alline disse:

    Fal, adorei o texto. Uma mini-biografia com pedaços do que ela escreveu se descrevendo foi uma idéia fantastica.
    Eu acho Clarice chatinha, mas pouco conhecia realmente da vida dela.
    Um beijo

  8. Ju Sampaio disse:

    Ai, que bela lembrança. Ela é a “the best”, sempre. Beijo, Fal!

  9. Rita Moreira disse:

    Lindo!!!!
    Delicia de texto.
    Beijos!

  10. Perfeito. Gostando ou não de Clarice, não há como não gostar da forma como você a apresenta. Talento é talento, meus senhores, e é para poucos. E tenho dito.

  11. Anninha Sant'Anna disse:

    Sempre gostei de Clarice, e fiquei mais apaixonada depois que vi a exposição sobre ela no Museu da Língua Portuguesa, em SP. Homenagem mais que justa!

  12. flavia disse:

    Eu tive der ler “laços de familia” para o vestibular, na época eu tinha 17 aninhos e nao entendi nada ……….os tais laços…..as dores………as relacoes maes-filhas-mulheres, precisa -se ter uma certa bagagem para compreender.

  13. Gi Jardim disse:

    Quando eu não sei o que escrever, cito Clarice. Ela já foi meu alter ego. Mas meu alter ego é mutante e, às vezes, ele é Hilda Hirst. Da Clarice, amo também o batom escuro e a cara de diva hollywoodiana. Ela também é do tempo que era lindo fumar.
    “Queria que você me visse
    ou me viesse” (de um poemeu).

  14. João P. disse:

    Não conhecia muita coisa da obra dela. Nem da vida. Agora esse seu texto instigou minha curiosidade. Já achei um site de contos etc. Mas, Fal, será que vc pode me ajudar a achar esse conto da velha solitária, q a Claudia Lyra gosta, e que vc cita no texto? Não consigo encontrar.

    Beijo, João.

  15. isa disse:

    sa benção, mestra.
    bjs mis,

  16. Tina Lopes disse:

    Já adorei a Clarice, já tive medo (naquele especial da TV Cultura), já enjoei. Agora você me lembra que preciso voltar a ela. Eita, Fal danada.

  17. isa disse:

    sa benção, mestra!
    Bjs,

  18. tereza disse:

    Muito bom, Fal. Gostei de você ter falado da ditadura clariceana.Aquele mistério todo que criam em torno da Clarice também é uma chatice.
    bjs.

  19. Paula Clarice disse:

    Fal, amei teu jeito de contar coisas da Linspector. Sabe, eu conheço tao pouco dela (sejamos honestas, eu conheço é nada), mas quando eu era mais novinha eu achava o máximo meu nome e o dela terem a mesma grafia. Eu achava legitimador hahaha

  20. Luci100 disse:

    vc. é a minha (egoísta eu!) midas das palavras, sentimentos e tudo!
    bj Fal-midas!

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