Haia
Tava frio, frio mesmo em 10 de dezembro de 1920, e ela nasceu num navio.
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“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
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A família dela havia deixado a Ucrânia e estava indo para os Estados Unidos.
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Era 10 de dezembro
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“Eu não: quero é uma realidade inventada.”
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Quando ela nasceu, ela era Haia Lispector, a terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector.
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“Me deram um nome e me alienaram de mim”
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Em 1922, seu pessoal vem para o Brasil. Todos os nomes mudaram, e o dela virou Clarice.
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”Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”
(A Hora da Estrela)
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Em 1940 ela publica seu primeiro conto. Em 1942 ela escreve Perto do coração selvagem.
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“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.”
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De 1946 a 1969 ela e Fernando Sabino se escreveram quase todo dia.
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“Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma”
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Ela publica Laços de Família em 1960
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“ Fal, a Clarice foi uma escritora muito importante em minha vida. Eu tinha 17-18 anos quando li Perto do Coração Selvagem, o primeiro livro que ela escreveu. Depois li Laços de Família e A Paixão Segundo GH. Fiquei tão surpresa com o que li! Era algo novo, diferente de tudo que eu conhecia. Admirei o que ela sabia fazer com as palavras.Ela sabia usá-las de uma forma nova.Como se brincasse com elas. Eu queria saber escrever assim. Tereza”
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Ela publica A Paixão Segundo G. H. em 1964.
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“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.”
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A Sweet tentou a vida toda, mas nunca conseguir nada inteiro de Clarice
Lispector, “a despeito de sempre achar lindo tudo que encontrei dela pela
vida afora…”
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Em tempos bons ou ruins, com romances sendo publicados ou não, ela nunca, nunca, nunca para de escrever contos.
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“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.”
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Em 14 de setembro de 1966, ela dorme com um cigarro aceso e bota fogo no quarto. Sua mão direita quase é amputada.
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Ela publica a Hora da Estrela em 1977
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Ela morre em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.
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“Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós.”
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Ao contrário de Macabéa, sua anti-heroína em A Hora da Estrela, cuja existência só é percebida nesse momento da morte, Clarice fez sentido muito antes.
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Escreveu sempre em português, apesar de ser fluente em inglês e francês.
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A Cláudia Lyra adora e se identifica com o que ela escreve. Ela gosta mais dos contos que dos livros longos e ama os contos sobre animais.
“Cara, mas os contos… putz… tem um, por exemplo, o de uma velhinha que não tem ninguém, que dorme de favor na casa dos outros e que é levada pra Petrópolis… sabe qual é? Gente… já li umas duzentas vezes esse conto e choro de boca aberta toda vez. E os contos em que ela fala da infância dela, de como ela era no colégio, do relacionamento dela com os filhos… ah, adoro, me emociono, choro, choro, choro.”
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Ela foi escritora, tradutora, repórter. Dividiu-se entre a maternidade e a escrita de contos, crônicas, literatura infantil e romances.
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A Anna Tempesta diz que é para Clarice que ela vai quando não entende as pessoas “ou seja, quase sempre”. Para Anna, Clarice disseca almas e nos mostra o que encontrou.
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A Renata se assustou tanto com a barata em ‘A Paixão Segundo G.H’, que demorou anos para voltar à Clarice. Mas está gostando da volta.
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Clarice afirmava ser um mistério até para si mesma.
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” Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e, se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.”
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Para mim, sua vida foi mais extraordinária do que qualquer coisa que ela tenha posto no papel. Ela foi, em essência, uma transgressora, a vida toda, de quase todas as formas. Ela gostava de quem nadava contra a corrente. Ao contrário do que faz parecer essa ‘ditadura clariceana’ que nos enfiaram goela abaixo, você pode, sim, não gostar de Clarice Lispector. Mas leia antes.
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* as frases em negrito são de Clarice Lispector.
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(Colaborou, e muito, a professora Silvana Ferrarri, a quem agradeço)

Acompanho a Nenéia. Vergonha de tê-la lido tão pouco, mas ainda há tempo. E somos sagitarianas quase do mesmo dia, transgressoras por natureza.
Os pequenos pedaços que li dela,gostei.Mas esse post foi o melhor que li sobre Clarice em toda a blogosfera.Tão bonito.
Brigadim pela citação.
Como a Alline, tb ñ conheci a história dela. Haia? Aliás, só sabia q ela passou a infância em Pernambuco, vc sabia? E agora me deu mais vontade de ler, como sempre. A Maça no Escuro tá ali piscando na prateleira… O problema é q Clarice é angustiada demais, acho q por isso nem sempre é fácil lê-la. Bjs.
Gosto de Clarice. Muito, muito.
Beijo
Vamos combinar assim: Clarice é incrível e não se fala mais nisso tá?
Essa mulher transformou nossa literatura com uma força extraordinária!
Excelente crônica, Fal!
Não li muita coisa da Clarice, mas lembro que li uma coletânea de crônicas (acho que é A Descoberta do Mundo), e adorei. Um dos meus contos favoritos dela é de Laços e Família (acredito que com o mesmo nome), sobre a festa de aniversário de uma avó e a reunião de toda a família. Clarice mostra bem a hipocrisia e a supoerficialidade dos laços familiares, e o ponto de vista da velha avó é um contraponto surpreendente. Muito bom!
João e Cláudia, o conto da velhinha de Petrópolis (a Margarida) chama “Viagem a Petrópois” e está no livro “A Legião estrangeira”. Informações obtidas no “Literatura Comentada” sobre a Clarice.
Alguém aí também tem ou leu essa coleção, dos anos 80? É uma boa visão geral de muitos bons autores da literatura brasileira e portuguesa, se encontrarem em algum sebo, não percam!
Abraços!
Pois é, Fal, gosto muito dos contos de Clarice. Muito mesmo.
Aproveitando a oportunidade, posso deixar um recadinho pro João P.? Posso? Então lá vai:
João, o conto se chama VIAGEM A PETRÓPOLIS e faz parte dos livro LEGIÃO ESTRANGEIRA. Beijos!!
conheci a obra de Clarice somente na faculdade e eu chorava tanto lendo G.H., porque aquilo fazia tanto sentido pra mim, num mundo tão sem sentido.
beijos, amor.
Amo Clarice!!
Qualquer literatura é assim: toca as pessoas de maneiras diferentes (ou não toca). Clarice fala ao meu coração em uma língua que eu entendo 100%.
Tem quem goste, quem não goste, mas ela é uma grande escritora.
Beijos
Muito salutares essas citações intercaladas no texto.
Clarice é minha escritora brasileira preferida. Sempre tenho um livro dela no criado-mudo.
Gostei demais dessa sua cronica, Fal.
Roselene
Obrigado, Claudia, valeu mesmo, pq tava dificil de eu encontrar esse conto.
E muuito obrigado, fal, pela disponibilidade!
Beijão pras 2.
Admiração tmb, pelo trabalho das 2!
Fal…Sou tua fã tanto quanto da Clarice…
Bjo
[...] Outra, das lindas Palavras da Fal. [...]