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Arquivo de dezembro, 2008

26/12/2008 - 07:32

Entre mortos e feridos

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A gata natalina da Carol

Querida Lígia:
Estou aqui. E sobrevivi, claro. Sempre sobrevivo, Lígia, você sabe. De um jeito ou de outro. Deve ter barata no meu DNA, não é possível. Já posso me ver, depois da Grande Guerra Nuclear, abobada e meio cegueta, vagando sozinha entre as pilhas de entulho. Você riu, né? Adoro fazer você rir. Do nosso pessoal, entre mortos e feridos, todos parecem ter se salvado também (mesmo achando esse ditado uma idiotice – se houve algum morto, como todos podem ter se salvado? – uso e adoro). A Cé encontrou com todo mundo que ela odeia (essa parece ser uma das especialidades do Natal, Lígia, botar a gente em contato com os parentes mais nojentos que nós temos) e, para se fazer um agradinho, mergulhou no bolo de nozes. Fez ela muito bem. A Carol, na França, com aquele maridinho amado, comeu casquinha de siri, riu e namorou. A gente respira fundo e tenta não odiar a Carol. A Gi foi pra casa do irmão e ficou firme. A Anna Bárbara passou um Natal não-natalino com a família bonita que tem, numa clara demonstração de bom senso. Adoro a Anna Bárbara e você ficaria louca com ela. A Rose ficou quieta na torre, nem passou pela sala, de camisola, para fazer pratinho, olha que santa? A Dani P., que não gosta de Natal, participou da encenação, cumpriu o papel dela no lenga-lenga e sonhou com um Natal diferente. Ah, Lígia, eu também. Também sonhei.  A Katia, pessoa de bom coração, encheu a sala dela de balões depois que as crianças foram dormir (vivo encantada com as tradições de cada família), acreditou em Papai Noel a cada minuto e foi a pessoa boa que ela sempre é. A Nanda passou quietinha, em casa, a Nenéia  passou na casa dos outros, mas também quietinha, pra não fazer marola. A Nenéia não é nada boba. A Ângela acordou de ressaca. A Margot se emocionou com as coisas pequenas, a Laura Andreia se comportou e esperou passar, a Ludmyla – que não passava o Natal em casa há cinco anos – ficou com a mãe e viu filmes na tevê, a Paula Clarice já sabia exatamente como ia ser mas se divertiu mesmo assim. Quem mais, Lígia? Ah, a Anunciação viu o pai, de 90 anos, abrir os presentes com felicidade de menino e se emocionou muitíssimo. Nossa Silvinha, que já havia providenciado Papai Noel particular para a Isa (a Isa está enorme, você iria desmaiar de susto), depois, com a família toda, jantou a comida maravilhosa da dona Leda. O Elísio, o Otávio e o Rui passaram dormindo, meus meninos sabidos. A Maloca passou com as irmãs e a Mãe e os muitos sobrinhos, sobrinhos-netos e vizinhos da irmã, entre jogos de tômbola e truco, entre javali e carneiro assado, entre as promessas de 2009. A Mari passou sozinha e bem consigo mesma, o Claudinho passou só e na melhor companhia do mundo (ele tem me escrito tão lindo, Lígia). A Catarina, para quem o Natal tem a ver com Jesus e não com presentes e Papai Noel, foi a duas missas e depois foi para casa e rezou até dormir. A Alline passou feliz, entre as tradições da família do marido. O Gigio, aquele amado, até que gosta de Natal e Ano-Novo, mas declarou que nem sempre participa, o que eu achei sensacional. A Ana descobriu, de novo, como são maravilhosos os filhos que ela tem. A Isa, depois de muitos anos, passou com os pais, bebeu vinho tinto e se calou, não para deixar de  arrumar confusão, mas porque ela sabe que só nos atinge o que permitimos que nos alcance. Eu, que não sou e nem nunca serei tão sábia quanto a Isa, me deixei ser atingida, ah, Lígia, eu me deixei pegar. E um alvo do meu tamanho, vamos combinar, é difícil de errar. Eu me deixei ser alvejada e, também por isso, passei uma véspera de Natal pequena e quieta. E muito, muito triste, ainda que… bem. Eu estava triste, mas estava bem, dá pra entender, Lígia? Pensei demais em você, nos Natais que nunca tivemos, pensei em Alexandre, em todos os Natais que tivemos, em todos os que nunca teremos, pensei nas minhas escolhas, todas, todas elas, que me trouxeram até aqui e nos meus mecanismos de sobrevivência. Só pensei, né, Lígia, minha especialidade, muitos pensamentos (todos tortos), pouca ação. Chorei um pouco, abracei o cachorro, à meia-noite desejei feliz natal para a Silvana pelo msn, ela que, em Porto Alegre, parece estar (quase) nas mesmas condições de temperatura e pressão que eu. Dormi depois, um sono curto, sem sonhos, quase sem ar, um sono que você costumava chamar de “instante”, lembra,quando você me ligava e dizia “Fal, eu dormi um instante”.

E foi isso, Lígia. Lamentei demais você não estar aqui, Alexandre não estar aqui. Lamentei estar aqui.
Sigo amando você, pensando e sonhando com você, com os Natais que nunca tivemos, os Natais que eu nunca terei.
eu

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: , , , , , , , ,
24/12/2008 - 08:55

Natal: um pequeno manual de sobrevivência

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Os gatos da Telinha no Natal

Talvez seja só pelas crianças. Talvez seja para fazer sua cara metade feliz. Talvez seja porque você gosta, diabos, você tem o direito de gostar! Mas o fato é que, hoje, por todos os cantos da Terra, famílias se reunirão em torno de pinheiros enfeitados, mesas entulhadas com o melhor que cada um pode oferecer, cunhadas mazinhas e primos com a cara cheia para celebrar o nascimento de Jesus, a esperança ou, simplesmente, o peru recheado de farofa doce da tia Lalá, que é divinal.
Mas, se o convívio familiar já é algo cheio de truques e manhas, o convívio familiar num ambiente lotado, tenso, cheio de crianças berrando e velhas mágoas aflorando, é uma das situações mais perigosas que se pode enfrentar. Assim sendo, leitorinho querido, leitorinha adorada, respire fundo. A véspera de Natal e o almoço do dia 25 podem, mesmo, ser fonte de atritos familiares. Mas podem também não ser. Abaixo, regras simples para que a contagem de corpos seja baixa no dia 26.

1) Se a festa for na sua casa, seja magnânimo. Não importa se você está recebendo porque ama o Natal ou porque foi obrigado pelas circunstâncias – sejam elas quais forem: se você topou, topou. Trate todo mundo bem, sorria, tolere. Tenha a certeza de ter tipos variados de comida para os alérgicos, os vegetarianos, os intolerantes à lactose e toda essa chusma de… enfim, pessoas variadas que compõe o mundo hoje em dia (note que eu ia dizer “e toda essa chusma de chatos que nos assolam”, mas eu sou politicamente correta, certo?). Sim, eu sei, num mundo ideal, composto de pessoas ideais, o cara come o que tiver ou finge que come, tentando não se tornar um fardo para a anfitriã. Mas nos tempos que correm, onde agressividade, assertividade e falta de educação tornaram-se uma coisa só, virou coisa bonita o nhenhenhem e adultos barbados que fazem birra na frente de seus pratinhos, como se três anos de idade tivessem. Cozinhe uns legumes sem sal e um frango bem bestinha presse povo e jure por Deus (fazendo figa com a mão nas costas) que, ah sim, é tudo orgânico, claro.
2) É, as crianças vão gritar, correr, bater umas nas outras, roubar brinquedos umas das outras e, se sua festa for como algumas que já freqüentei, vomitar umas nas outras. Mentalize coisas boas, tenha paciência, não respire fundo e pegue o pano de chão. É Natal, é Natal. Ah, e controle o seu pequeno Átila, o huno, o máximo que puder.
3) Seu marido é um amor, sua mulher é uma deusa, mas a família da criatura é formada de mutantes? Escuta, você tinha que ter checado isso antes de casar. Agora é ligeiramente tarde. Dia 24 de dezembro não é dia de profundas análises sobre “eu entendi porque você virou isso, olha só quem te criou”. Não faça isso. Não faça. Você casou, güenta firme. Vai lá, sorria, troque presentes, elogie os penteados assustadores e as crianças horrorosas (seu filho escapou da maldição genética e é lindo, claro, afinal de contas ele puxou à sua família).
4) Se a festa for em casa alheia, comporte-se como você gostaria que esse bando de selvagens se comportasse na sua casa. Noutras palavras, coma e cale a boca. Em casa, mais tarde, você come um sanduíche. E elogie.
5) Vou dar um conselho que eu acho dificílimo de seguir: não fale mal dos ausentes. Especialmente quando estou brava com alguém, acho difícil manter minha boca fechada. Então, entendo seu desejo de meter o pau no Primo Jambão, aquele sacaneta. Mas resista. Porque é líquido e certo que o primo Jambão vai ser informado que foi assunto na festa, tem sempre algum nojento disposto a contar para ele o que foi que você disse quando ele não estava lá. Fofocar sobre parente ausente é uma das coisas mais deliciosas de Deus, mas resista. Acredite, a vida familiar não precisa de nenhuma ajuda para azedar.
6) Fuja à tentação demoníaca, também, de entrar em qualquer tipo de bate-boca durante a festa.  Quem foi, quem não foi, seu filho vomitou no meu de propósito, você não trouxe a comida combinada, você falou mal de mim ano passado (haha). Não caia nessa. Sorria muito, conte casos engraçados sobre pessoas que ninguém ali conhece, sorria de novo, tome mais uma vodca. Velhas feridas, antigos ressentimentos, verdades inconfessáveis? Isso é material para o divã do seu terapeuta.

Rafaela de Natal

7) Não dê, e eu jamais poderei ser enfática o suficiente sobre isso, não dê em cima de parente nenhum, jamais, especialmente se ele for casado, especialmente se você também for. Pelo amor de Deus. Um passo em falso com o primo Jambão (que esse ano resolveu ir de última hora e que até nem é tão mau assim) na área de serviço, jamais será perdoado, esquecido ou digerido. E ano que vem vão falar mal de você, tenha certeza.
8) Um pedido pessoal: resista, e não fale de doenças, cirurgias, cistos, drenos. Nunca. Ninguém quer saber que remédios você toma, como foram seus exames, de que cor é sua urina. Não fale das suas doenças, não pergunte sobre as doenças alheias.
9) Se a festa é na sua casa, não banque a vítima contando quantas horas você ficou de pé, sofrendo em silêncio, no caixa do supermercado, como foi tudo caro, difícil de fazer, impossível de achar; como você se esforçou e sofreu para alimentar um bando de ingratos. Faça de coração, sorria e me sirva mais um pouco de arroz de lula. Deixar todo mundo culpado não vai facilitar nossa digestão.
10) Pense, concentrado, que é só uma vez por ano. Que, com aquelas pessoas, para o bem e para o mal, você tem algum tipo de ligação – vocês dividem histórias, pessoas, fatos, passado e futuro. Acredite que nem tudo ali gira em torno de você. Pense que ninguém é perfeito. Não, não, nem você. Lembre que nem todos fazemos de nossas vidas o que estávamos destinados a fazer, que nem todos são felizes, que nem todos são malvados, que nem todos agem pensando só no seu mal, que nem todos agem só para magoar você – a maioria das pessoas, a maioria do tempo, nem lembra que você existe. Com isso em mente, tente se divertir de verdade. Tente conversar com aquelas pessoas e realmente estabelecer algum tipo de conexão. Tente. Não pode ser assim tão ruim. Ou pode, sei lá. Mas é só uma noite. Passa rápido. Feliz Natal.

As luzes de Natal com a Nanda

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: ,
19/12/2008 - 15:07

Filmes. Filmes de Natal.

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Era uma infância encantada. E não, não são meus olhos, os olhos da meninazinha de tranças, que morava numa casa às margens da represa Billings, com cães enormes, cavalos lindos e lobisomem de verdade no quintal. Mesmo os adultos que nos freqüentavam na época, achavam que era um conto de fadas, pelo menos no Natal.
*
No resto do ano tínhamos lá nossos cantos escuros, nossas dores, nossas incertezas.
*
Durante a época do Natal, porém,  morávamos não na oficina, mas na casa de campo do Pai Natal (nossos livros de tecido eram escritos em português de Portugal, Papai Noel era Pai Natal para as crianças Vitiello). O comunismo da minha mãe só durava de janeiro a novembro, e em dezembro ela se transformava na mais burguesa das mãezinhas de classe média, e fazia biscoitos em formato de estrelinha, e acendia as quatro velas do advento, e decorava a casa toda numa fúria verde-e-vermelha que se mantém até hoje, ainda que o Natal não seja mais o que era, ainda que a meninazinha de tranças dela tenha virado uma velha senhora cínica, que revira os olhos e geme “Tá, mãe, pra mim qualquer coisa tá boa”.
*
Em dezembro, as caixas com enfeites, guirlandas e bolinhas, desciam, tomavam a sala toda e a arrumação começava. Minha mãe arrumava tudo sozinha. Passávamos várias tardes úmidas (com a delícia adicional de não termos nos anos 70, época abençoada, essa aberração aos olhos do Senhor chamada horário de verão. Então, a tarde virava noite e o escuro chegava na hora em que deveria mesmo chegar); ela, revirando caixas, arrumando e contando histórias; eu, sentada na enorme poltrona de camurça cinza do meu velho, tomando gemada (com uma beiradinha de conhaque, de quando em vez, não duvide), vendo minha mãe arrumar as coisas que brilhavam, cochilando (pô, conhaque!) e vendo televisão.
*
Ah, sim, fim de ano, com o comunismo diluído na corrente sanguínea, minha mãe dava uma liberadinha na tevê.
*
E o que eu via? Todos os anos, senhoras e senhores, e quem foi criança na década de 70 não me deixará mentir sozinha, Um dia de sol, de  Joseph Sargeant, feito em 1973. Sim, sim, sim, com direito ao John Denver cantando que o sunshine on my shoulders make me happy. A história era uma desgraceira: amores não correspondidos, mãe com câncer, menininha órfã e tal; mas, no final, o amor verdadeiro triunfava, a árvore da minha mamãe ficava linda, o conhaquinho me deixava balão (leitorzins, minha mãe não me embebedava – bem, não muito – não fiquem com uma idéia errada), mas o fato é que ver a reprise desse filme vagabundo e meloso, todo santo ano, era o que me colocava no clima de Natal. Tantos prazeres juntos, tantas coisas gostosas e felizes, embaladas pela voz da minha mãe,  relembravam-me que vinha por aí um mês de delícias, de promessas cumpridas, de laços de fita vermelhos, de sabonetes dentro das meias (minha mãe enchia nossas meias penduradas de sabonetes, não é fofo?). Eu amava o Natal, amava aquela família, amava aqueles cães e cavalos, e barco a remo (mesmo tendo medo dele) e o lobisomem que morava no quintal (mesmo tendo pavor dele). Eu amava aquela vida. Eu amava o Natal.
*
O mundo gira, a Lusitana roda, o Natal não é mais o que costumava ser (mas, e o que é?) e nem meu filmim vagabundo é reprisado, embora eu ainda navegue no conhaque. Mas é dezembro, eu faço pacotes coloridos para meus quatro sobrinhos que moram longe com as belas coisas compradas na loja da Sandra e, enquanto isso, pergunto aos que amo, que filme faz ou fazia por eles, o que o filme das desgracinhas fazia por mim: que filme traz o Natal até você, ainda que não fale especificamente dessa festa? Que filme embala seus sonhos natalinos, que filme bota você no clima?
*
Recebi mais de cem e-mails e recados falando sobre filmes. Somos todos encantados pela mágica que faz a fotografia – ela mesma, mágica absoluta –  ganhar vida e se mexer, mudando para sempre nosso mundo. Todos amamos filmes, todos temos nossas existências marcadas e demarcadas por eles. Vou mencionar apenas algumas das pessoas recebidas, agradecendo de coração a todo mundo que me ajudou a lembrar que o mundo, o nosso mundo, é tão maior, tão maior.
*
“A Felicidade não se compra” do Frank Capra é o clássico dos clássicos, lembrado com carinho pela Pati Linden, o Ig, pela Susana e pelo Freitas.
Para a Valentina, 8 anos, filha da Káthia, “O Expresso Polar” é o campeão, ano após ano. E pra filha da Katiane também.
“A Noviça Rebelde” leva o coração da Deh e da Carol.
Gi Jardim lembrou de um que eu amo, porque eu amo tudo que o Bill Murray faz (a Anunciação, gosto impecável, também ama): “Os Fantasmas contra-atacam”. A música do final é sensacional, né meninas?
A Pati Azevedo gosta de “A rena do nariz vermelho”, a Carolina gosta de Sobrevivendo ao Natal”.
O Francisco, que costuma passar o Natal vendo filmes, muitos filmes, lembrou de uma das melhores comédias que a W. Goldberg já fez na vida: O Sócio, de 1996. Filmão, comédia rasgada, cheia de virada e com a Whoopi impecável. Bela lembrança.
A Gi gosta do Tio Patinhas no papel de Scrooge em “Contos de Natal do Mickey”.
 *
A Iolene gosta dum monte, de Outono em Nova Iorque a Milagre na Rua 34 (que a Laura Andréia também ama muito); passando pelo “O Estranho Mundo de Jack”, lembrado por várias pessoas. Ah, e ela foi a única que se lembrou de Mensagem para você”, filme totalmente cara de Natal, né?
A Alix, que é muito chique, gosta do “Le Pere Noel est une ordure”, de 1982. “… é o máximo de filme de Natal, originalmente uma peça de teatro que podia durar de 2 a 6h conforme o entusiasmo dos atores e o delírio da platéia!”. Hum. Eu preciso ver esse.
A Tina Lopes e a Maira Tomazzi, do mesmo:  “Uma História de Natal”, porque é engraçado e leve, e faz rir ao invés de chorar.

*

O Carlão lembrou de vários, todos eles muito bons, mas de um que me é particularmente caro: “Contos de Nova Iorque”… é lindo, lindo. O Neutron e o Fabinho gostam de “Esqueceram de Mim”, sãos uns lindos, esses meninos.
*
Teve um campeão de cartas e eu vou citar apenas alguns dos que elegeram esse filme como a delícia de Natal (ao todo, ele foi citado por 73 pessoinhas na minha pesquisa): Inessa, Rosinha, Sônia, Bela, Magá, Pablo, Bia, três Denises diferentes, Silvana, Ângela, Kika, Carmem, Patrícia, Susana, Isabela, Sílvia, Carla, Simone e mais, muito mais gente, escolhe “Simplesmente Amor” como seu filme favorito de Natal, pela magia, pela beleza, pela capacidade de nos fazer sonhar, pelos encontros, pela graça, pelo humor e pelo Rodrigo Santoro de cueca.
*
E eu fico aqui, pensando que a cereja do bolo, quem tem mesmo razão, é meu amado, amado amigo Cláudio Luiz, que declara que “filme bom de Natal, Fal, é aquele que tem final feliz”.
Um beijo, queridos. Até segunda.

 

PS: Os comentários de vocês na coluna passada, sobre o que fica de 2008 estão de partir do coração

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , , , , , ,
17/12/2008 - 15:07

Conjecturas mal humoradas de final de ano

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Eu costumava implicar com a palavra ‘cidadania’. Palavra mal empregada sempre, sempre; e usada dum jeito moralista e tonto, por pessoas idem. Agora, a palavra favorita dos ignóbeis é ‘sustentável’, como bem observou minha amiga Ângela. A criatura não sabe usar, não entende, não dimensiona, mas tá que repete feito um papagaio.
*
Frio, leitores e (ah, o politicamente correto um dia teria que me arrancar uma pelinha) leitoras. Frio no Rio de Janeiro, tempinho mais fresquinho e um pouco menos abafado aqui em São Paulo… e aí? Como está?
*
Pululam receitas de simpatias, em sites e revistas, para garantir que o ano novo chegue cheio de felicidade, amor e doçura e… sei lá. Eu tenho cada vez mais certeza de que a Idade Média é aqui, agora e hoje.
*
Sapatada no presidente, né? Achei uma delícia, tomara que a moda pegue, imagina eu com este pezão, aderindo? Ia ser uma redenção. Melhor que cuspida a distância.
*
Essa gente que me cerca, um povo sarado, atlético, todo mundo entusiasmado com o final do ano e a incrível possibilidade de ir pro meio do mato acampar. Sem banheiros, água corrente, 48765 canais de tevê a cabo, internet, salgadinho sabor frutas do mar (sic)  e refrigerante sabor cola… Todas essas miudezas que tornam a civilização ocidental tão atraente. Essas criaturas nunca ouviram falar de Lobisomem e do Tarado da Machadinha, não?
*
Enquanto isso, a ONU classifica a tragédia em Santa Catarina como uma das piores do ano, no mundo todo. Daí a gente vê os caras saqueando os donativos e tem certeza, certeza disso.
*
Rola um estudo científico (se bem que nos confusos dias que correm, ‘científico’ é um termo nebuloso) que afirma que comédias românticas fazem mal para a vida afetiva. Diz que o vivente assiste, idealiza e não se acerta na vida real. Com tanto câncer pra pesquisar, jura que vale a pena gastar dinheiro nisso? Deixa a gente em paz vendo o Colin beijar a mocinha, pode ser?
*
Minha amiga Ro anda doida da vida com a tramitação da emenda constitucional que aumenta o número de vereadores: “Fal, o número mínimo passaria de 7 para 9…. tou surpresa com a quantidade de gente que só comenta sobre o marido morto da atriz viva”.
*
Final de ano também é tempo de listas. Listas. A maioria bem inútil. Lista de presentes e de compras para a ceia, listas de resoluções que jamais cumpriremos, listas dos mais destacados cidadãos desta ou daquela cidade, das melhores festas do ano, das maiores tragédias, das maiores conquistas. Mas, para você, conta pra mim, fica o que, no final das contas? O que é que você leva, de bom ou ruim, de 2008? Faça uma lista de um só item e me conte.

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags: , , , , , , , , ,
15/12/2008 - 06:20

Toda a dor do mundo

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Toda a dor do mundo é a sua, sempre. Sempre. Porque não importam dores maiores, “tem gente pior que eu”, na hora da dor aguda, o sofrimento do outro não consola, não importa, não ameniza o seu.
*
Às vezes, você quer aquilo que o outro tem. Você não quer exatamente o que o outro tem, você quer a sensação. Porque voce já teve. E você perdeu. E você quer sentir de novo. Você quer sentir aquilo de novo. Você quer sentir aquilo de novo.
*
Invejo profundamente quem setoriza. Dia reservado para o namorado, manhã das amigas, tarde de passear com a mamãe. Adoro quem não mistura as estações. Conheci pessoas que só fiquei sabendo que tinham alguém na vida quando vi a aliança de noivado. Sou incapaz de ser tão organizada e misturo turmas, embaralho amigos, junto família e trabalho, costuro tudo num mesmo patuá e depois dedico as minhas sessões de terapia a catar os fiapos imaginários, que grudam no veludo azul-marinho.
*
Há algo de confortador no masoquista gesto de ligar para um celular que sabe-se, há muito, desligado. Você liga, ouve a gravação que diz ser impossível completar a chamada, e algo em você se aninha. Às vezes, a gravação encerra por ali o que dói; às vezes, ela cutuca mais a dor, estranhamente, oferecendo uma caixa postal que não deveria mais existir – na sua modesta opinião, afinal, para que caixa postal se a criatura não vai ligar de volta? Mas você deixa recados, longos, longos, sofridos recados.
*
Há os que acham que suas sábias palavras de conforto reverterão a dor. A forca para eles.
*
Um péssimo dia, numa péssima semana, num ano horroroso. E você desaba na cama, num choro que ultrapassa o domingo, que transborda pela nova semana, que paralisa a chuva, que alerta os gatos.
*
Há os que acham que fazendo você sofrer mais, consertarão sua dor. Fuja dessa gente. Corra para bem longe.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: , , , ,
12/12/2008 - 07:07

Devaneios aleatórios sobre arte

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“Arte não é realidade. Arte é arte.”
Pablo Picasso

Leitorzim igueano-e-fofo, prestenção: ao estudar uma civilização, seja ela qual for, nem sempre se encontram vestimentas, alfabeto, sistema decimal, cultura culinária, pensamento lógico, organização social complexa.
*
Mas sempre se encontra arte.
*
Arte.
*
Nós queremos arte, nós precisamos de arte, nós produzimos arte, nós consumimos arte.
*
Todos os povos do mundo usavam/usam adornos e faziam/fazem algum tipo, seja lá qual for, de representação gráfica.
*
Huuuuuuuum, representação gráfica. (momento Homer Simpson, leitor, perdoe)
O que é que você faz numa representação gráfica?
Você cria. Externa emoções.
Uma representação gráfica, abstrata ou não, é criação.
Você é criador.
Hum, você é Criador. O instinto artístico é universal.
*
Para a Carlota, “a arte é o que encanta a alma e os olhos, questiona os nossos paradigmas nos fazendo pensar em novas possibilidades. Nos torna melhores.”
 *
Pensa aí.
Você está lá num mundo desordenado, pouco acolhedor, agressivo.
Você é um indivíduo com limitações, que olha em volta e não entende mais da metade do que vê, ou, que Deus ajude, sente.
Ah, sim, seus sentimentos também estão desordenados, remexidos. O mundo é incrível, maravilhoso, assustador, implacável. A cada dia, você lida com o inexorável ali, bafejando na sua cara. E, como nós sabemos, ele não escova os dentes.
Você olha pra cima e só pode imaginar os motivos de tudo, que forças misteriosas movem as águas, agitam as folhas, motivam a Britney Spears a lançar mais um cd. Você caça o mamute, corre atrás do táxi, paga a fatura do VISA, reproduz sua espécie, alimenta o gato.
*
A Alix me disse que, para ela, “Arte é a liberdade de reinventar o que é, esquecer o que foi, criar o que talvez jamais seria sem esse sopro único, original. Arte é movimento: percurso torto, curvo, emaranhado entre o tempo e o espaço. Não é excursão, mas é uma viagem imperdível.”
*
Em qual momento, exatamente, você se torna um artista?
Em quanto tempo? Quando é que você passa a usar cada um dos seus recursos para produzir o resultado das suas percepções, emoções, instintos? Ou antes, quando é que vem o desejo, a vontade, vá lá, a necessidade de externar isso? Você faz isso para se expressar? Para ganhar dinheiro? Para ser notado? Para estabelecer alguma ordem no caos? É uma tentativa de explicação? É uma prece? Uma emoção incontrolável? É a reencenação da realidade, da sua realidade?
Quem é que pode dizer?
E, aliás, quem é você?
Um elegante arquiteto brasileiro radicado em Portugal, no comecinho dum novo século? Um esquimó gorducho e besuntado em óleo de baleia, no século XIX, vivendo igualzinho há 1000 anos? Um “faz-tudo” estiloso e engraçado, que nas horas vagas ensaia o “naipe” dos tamborins na bateria da Padre Miguel? Ou um habitante dos Pirineus que há 10.000, 15.000 anos, desenhava na parede de sua caverna a última caçada, ou uma caçada desejada, sem saber que, muito tempo depois, nos colocaria nesta confusão?
 *
A Tatiana escreveu uma coisa linda, linda: “Fal, aqui em casa tenho dois com alma de artista, o pai e uma das filhas. Onde a gente vê um objeto, eles vêem uma possibilidade. É bonito de ver que qualquer coisa, qualquer palavra, por mais ordinária que nos pareça, com eles pode ganhar outro significado.

*
Acho que a arte é o mundo visto com olhos especiais.
*
Arte traz em si sua própria justificativa.
Arte tem a ver com prazer, arte tem a ver com expressão. Arte tem a ver com emoção. Arte tem a ver com a nossa conexão ao Divino e eu não estou falando de religião.
*
Não existe nada mais difícil de definir do que arte. Nada. E quem tem a definição de arte prontinha, na ponta da língua, sem titubear nem um cadim? Tá blefando, fuja, salve-se, salve-se.
*
Para a fofa da Gabi, arte é ver o novo no mesmo, é tudo o que se faz com o coração, é quando um sentimento se materializa.
*
Um dos homens mais brilhantes que já conheci, meu amigo Cláudio Luiz Ribeiro, certa vez me lembrou que prazer não está obrigatoriamente ligado à arte. Nem sempre é prazeroso criar uma obra de arte. Que o diga Camille Claudel. E nem sempre é prazeroso vê-la. Quem já viu a Guernica ao vivo e a cores, sabe do que eu falo. Não dá prazer. Dá medo. Dá raiva. Dá vontade de sair correndo e salvar a vida do seu filho e só dali a umas 4 quadras você se dá conta de que não tem filhos e de que roubou o filho duma turista alemã.
*
E isso tudo nós aprendemos quase nus,  20 mil anos atrás, nos Pirineus, na África Central, na França, no Peru, no Piauí, nas praias do Pacífico.
*
Nós aprendemos isso a cada dia, a cada minuto, a cada vez em que nos deparamos com o belo, mas não podemos parar para vê-lo porque a reunião já começou, porque o dentista é às onze horas, porque há que se pegar um ou dois ônibus para chegar lá e deu preguiça. Aprendemos isso em todos os momentos em que nos deparamos com o terrível, com o inexorável, com o inevitável, com o que define a nós mesmos, a nossa geração, a nossa espécie e ele nos dá dor de estômago; e pensamos em colocar tudo isso no papel mas, puff, já passou.
*
O Leo fica aflito quando entende que “todas  as palavras são limitadas e  falhas na tentativa de enclausurar uma abstração ligada a um conceito sem fim que são os sentimentos humanos em suas experiências”. O Leo é o Leo, né? A Fernanda mandou uma frase fofa: “Artista é aquele que cresceu mas não deixou de ser criança”. E a Ângela, que é marxista, disse que arte é um produto a ser consumido. Eu adoro a Ângela.
 *
Arte tem a ver com emoção.
*
Emoção de quem faz, de quem vê. Essa é a única grande certeza sobre a arte.
 
*
E com nossa evolução. Nossa tecnologia vai mudando, nossa arte vai encontrando novos veículos.
*
Você, leitor, define arte como? Conta pra mim?
*
Até a próxima semana.
Beijos
Fal

PS: explicando o nome da categoria das sextas-feiras:
“- Há um tesouro na casa ao lado!
-  Mas não há uma casa ao lado!
-  Então precisamos construir uma!”
Grouxo  Marx

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , ,
10/12/2008 - 08:45

Haia

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Tava frio, frio mesmo em 10 de dezembro de 1920, e ela nasceu num navio.
*
“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
*
A família dela havia deixado a Ucrânia e estava indo para os Estados Unidos.
*
Era 10 de dezembro
*
“Eu não: quero é uma realidade inventada.”
*
Quando ela nasceu, ela era Haia Lispector, a terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector.
*
“Me deram um nome e me alienaram de mim”
*
Em 1922, seu pessoal vem para o Brasil. Todos os nomes mudaram, e o dela virou Clarice.
*
 ”Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”
(A Hora da Estrela)
*
Em 1940 ela publica seu primeiro conto. Em 1942 ela escreve  Perto do coração selvagem.
*
“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.”
*
De 1946 a 1969 ela e Fernando Sabino se escreveram quase todo dia.
*
“Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma”
*
Ela publica Laços de Família em 1960
*
“ Fal, a Clarice foi uma escritora muito importante em minha vida. Eu tinha 17-18 anos quando li Perto do Coração Selvagem, o primeiro livro que ela escreveu. Depois li Laços de Família e A Paixão Segundo GH. Fiquei tão surpresa com o que li! Era algo novo, diferente de tudo que eu conhecia. Admirei o que ela sabia fazer com as palavras.Ela sabia usá-las de uma forma nova.Como se brincasse com elas. Eu queria saber escrever assim. Tereza”
*
Ela publica A Paixão Segundo G. H. em 1964.
*
“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.”
*
A Sweet tentou a vida toda, mas nunca conseguir nada inteiro de Clarice
Lispector, “a despeito de sempre achar lindo tudo que encontrei dela pela
vida afora…”

*
Em tempos bons ou ruins, com romances sendo publicados ou não, ela nunca, nunca, nunca para de escrever contos.
*
 “Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.”
*
Em 14 de setembro de 1966, ela dorme com um cigarro aceso e bota fogo no quarto. Sua mão direita quase é amputada.
*
Ela publica a Hora da Estrela em 1977
*
Ela morre em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.
*
“Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós.”
*
Ao contrário de Macabéa, sua anti-heroína em A Hora da Estrela, cuja existência só é percebida nesse momento da morte, Clarice fez sentido muito antes.
*
Escreveu sempre em português, apesar de ser fluente em inglês e francês.
*
A Cláudia Lyra adora e se identifica com o que ela escreve. Ela gosta mais dos contos que dos livros longos e ama os contos sobre animais.
 “Cara, mas os contos… putz… tem um, por exemplo, o de uma velhinha que não tem ninguém, que dorme de favor na casa dos outros e que é levada pra Petrópolis… sabe qual é? Gente… já li umas duzentas vezes esse conto e choro de boca aberta toda vez. E os contos em que ela fala da infância dela, de como ela era no colégio, do relacionamento dela com os filhos… ah, adoro, me emociono, choro, choro, choro.”
 *
Ela foi escritora, tradutora, repórter. Dividiu-se entre a maternidade e a escrita de contos, crônicas, literatura infantil e romances.
*
A Anna Tempesta diz que é para Clarice que ela vai quando não entende as pessoas “ou seja, quase sempre”. Para Anna, Clarice disseca almas e nos mostra o que encontrou.
*
A Renata se assustou tanto com a barata em ‘A Paixão Segundo G.H’, que demorou anos para voltar à Clarice. Mas está gostando da volta.
*
Clarice afirmava ser um mistério até para si mesma.

*
” Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e, se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.”

*

Para mim, sua vida foi mais extraordinária do que qualquer coisa que ela tenha posto no papel. Ela foi, em essência, uma transgressora, a vida toda, de quase todas as formas. Ela gostava de quem nadava contra a corrente. Ao contrário do que faz parecer essa ‘ditadura clariceana’ que nos enfiaram goela abaixo, você pode, sim, não gostar de Clarice Lispector. Mas leia antes.

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* as frases em negrito são de Clarice Lispector.

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(Colaborou, e muito, a professora Silvana Ferrarri, a quem agradeço)

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
08/12/2008 - 11:51

Pra cucuia

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para a cucuia também se vai de carro

- Bibi, o acabamento junto da parede que o cara do carpete de madeira instalou, olha, foi pra cucuia.
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- Ih, vou colocar essa sua calça na sacola do Exército da Salvação, ela já foi pra cucuia.
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- Sabe aquele emprego novo? Esquece, o projeto foi pra cucuia.
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A cucuia, a cucuia.
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Todas as minhas bonecas estão lá.
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E a maioria das tampas das minhas canetas.
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Boa parte dos meus livros também foi pra cucuia – no tempo em que eu era burra e emprestava meus livros. Agora que não empresto mais livro nenhum para ninguém, nunca mais tive um livro migrando pra cucuia.
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 Minhas fitas VHS. Foram todas pra cucuia.  Algumas pessoas queridas. Minhas cartas. Meus diários. Os sapatos que Baco roeu. Minha fuqueta cor de tijolo, roubada na porta de casa. Alguns bons namorados. Outros nem tanto. E as unhas que eu roí.
Foi tudo pra cucuia.
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Os arquivos que sumiram do seu word? Cucuia. Gatinhos que não voltam pra casa nunca mais? Cucuia. Tesouras, selos, os envelopes que você jura que estavam aqui na gaveta? Cucuia.

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E seu RG, três horas antes de você pegar aquele maldito avião? Cucuia, cucuia, cucuia.
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Ao contrário do que se pensa, os pés de meia perdidos não vão pra cucuia. Eles são roubados pelos aliens para ser usados usados como touquinhas. Esta coluna é cheia de fatos científicos, leitor, espero que você me dê o devido valor.
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Minha égua chamada Lia foi pra cucuia. E uma pastorzinha alemã chamada Dagmar, também.
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Minha amiga Isa não consegue se lembrar de nenhuma expressão portuguesa parecida com a cucuia. Claro que tem cucuia em Portugal, oras, tem cucuia em todo lugar, as tampas de caneta também somem por lá, é a Isa que tá com uma marcha escapando hoje.
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Nossas camisetas verde-fosforecentes da OP estão lá e o playmobil do velho oeste do meu irmão também. O coelhinho cinza e o leãozinho rosa, ambos de louça (lembra, Pedrão?) que ficavam no parapeito da janela da casa da vó estão lá na cucuia, não tenho a menor dúvida. Aliás, a velha e sua casa, com a cozinha de chão de mosaico vermelho, quintal encerado (sim, você entendeu bem, a vó encerava o quintal. Venho de uma longa linhagem de compulsivos), sala cor-de-rosa num ano, verde-água noutro e panelas de ferro, está na cucuia me esperando.
*
O Galaxi verde metálico do meu velho está na cucuia. E meu velho também. O urso de pelúcia do Alexandre e todas as bicicletas que ele teve.
*
Não é preciso morrer para ir para a cucuia, saiba você. Mas os mortos também vão pra cucuia e é por isso que lá vou encontrar todos os peixinhos dourados que já tive.
*
Minha mãe vestida de azul-turquesa num aniversário do meu irmão bem novinho e aquela vida que nos cercava, tudo pra cucuia. Minha mãe ainda está aqui, só aquela mãe vestida de turquesa foi pra cucuia, entenda.
*

Ao contrário do que pensa a minha amiga Luci, a cucuia e onde Judas perdeu as botas não são o mesmo lugar. Onde judas perdeu as botas é longe. A cucuia pode estar do seu ladinho.
*
Entenda o seguinte: se voltar, não estava na cucuia. Estava atrás da cômoda, saiu pra dar uma volta ou só tinha sumido um pouquinho: da cucuia não se volta.
*
Meus bolos de aniversário, as minhas fantasias de palhacinho? Cucuia.
*
A Telinha me disse que a primeira coisa que ela teve e que foi pra cucuia, era um anelzinho, um “anel cartier”, que ela ganhou na primeira comunhão. Ela ganhou e um belo dia ele desapareceu não se sabe como. Cucuia. Sem dúvida nenhuma. Ela também acha que na cucuia estão os cadernos de capas bonitas que a gente colecionava nos anos 70, com patinhos, cachorrinhos e textos de São Paulo (e o hino do Brasil, Tela!) na contracapa. A cucuia levou todos.
*
E da cucuia ninguém volta, entende? A cucuia é irreversível. E inevitável. Acredite, um dia você também irá para lá. Na cucuia não precisaremos de cartão de crédito, notas fiscais ou guias de plano de saúde. Também não precisaremos de dinheiro (embora nossas carteiras de plástico do Mickey estejam lá nos esperando, assim como todas as moedas de cinco centavos que já foram cunhadas).
*
Ah,  não se iluda. Ir para a cucuia é completamente diferente de baubau. Ir para a cucuia, ainda que irreversível, é ir para um exílio, muitas vezes alegre, leve. Baubau, não. Quando você pergunta a alguém o que aconteceu com um conhecido e a resposta é “Baubau”, você deve se preocupar. Baubau é destino geralmente anunciado por soturnos oncologistas ou juízes que bebem o café da manhã direto do gargalo. Baubau é péssimo, fuja do baubau.
*
Pinças. Pinças vão pra cucuia, tou pra ver coisa mais atraída pela cucuia do que pinça.
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Pra cucuia também vai minha paciência – muitas e muitas vezes – também meu amor por certas coisas e ah, a minha fé – mais vezes do que eu gostaria.
*
A cucuia não é um lugar ruim. Ou bom. A cucuia não avalia você e seus atos, ela não quer nem saber. A cucuia recebe tudo e todos, indistintamente, a cucuia não emite julgamentos, a cucuia não faz distinção entre os bons e os maus, entre cabelinhos de playmobil e de relógios de ouro, entre amor e ódio.
*
Para a cucuia já fomos diversas vezes, estamos lá para muitas pessoas, acredite:

- Que fim levou aquela sua amiga, a Fal?
- Ih, sei lá, foi pra cucuia.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
05/12/2008 - 14:19

Dez coisas que vão fazer seu final de semana mais feliz

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1- Esquece do relógio. Sim, leitorzinho macio, esqueça que horas são. Se você tem TOC como sua cronista preferida, é tarefa hercúlea, mas você vai dar conta. No Rio de Janeiro, flane sem pressa pelo Parque Lage e pelo Jardim Botânico com nossa bela leitora Anninha, ou flane pela Lapa (como recomenda uma das mulheres mais inteligentes deste país, a Monca http://duasfridas.wordpress.com). A Gi (www.loirinhamah.blogspot.com), leitora paulista, mulher de múltiplos talentos, lembra aos moradores de Sampa que não há delícia maior que passear na Lapa, chegar até a rua Vespasiano esquina com Rua Faustolo, se empanturrar “das maravilhosas empadinhas de carne seca e os kibes de Ghassan (lê-se Rássan) acompanhados de cerveja SEMPRE estupidamente gelada e por um preço mais do que justo”.  Ela também pede que a gente passeie lá pelo Pico do Jaraguá e visite o CECI – Centro Educacional de Cultura Indígena, leve crianças e cãezinhos no Parque Toronto em Pirituba, que não perca de jeito algum uma visita pelo Museu da Língua Brasileira, que tome um café no Girondino, na estação São Bento do metrô. E que suba até o último andar do prédio do Banespa e veja a cidade lá de cima. Ufa. Leitor ativo é fogo. Ande sem rumo aí, pelo bairro, pela cidade onde você estiver, com ou sem mapa ou destino, mas sem, por favor, sem hora para nada. Flane simplesmente, veja os prédios velhos, as novas caras, arrisque um churrasquinho grego com a Inara, nossa amiga mais corajosa; compre um bagulhinho no camelô de Santo Amaro com a Juliana (longe de mim incentivar ações criminosas), viva, viva e quando cansar, rume prum  cinema bacana, o Arteplex (em Botafogo) se você estiver no Rio – e de preferência, vá com a Ana Paula, que além de genial é linda de se olhar, porque é toda cor-de-rosa.

2 - Em Porto Alegre, nossa leitora ruiva, Pati Linden declara que você não pode ser feliz se não visitar a Casa de Cultura Mário Quintana, “um hotel onde o poeta viveu seus últimos anos (…) percorra os pavimentos que sempre têm exposições de arte até chegar ao último andar onde se deparará com uma vista deslumbrante do Rio (na verdade estuário, mas que os gaúchos se negam a chamar assim…) Guaíba. Lá, no último andar, há um simpático café, com tortinhas de delícias para alegrar a sua caminhada”. Silvana, nossa assessora para assuntos do ce cedilha, dá conta que, aos finais de semana, você deveria “fazer um chimarrão e andar à beira do Guaíba, na Av. Beira Rio ou no Gasômetro ( a “praia” que justifica o Rua da Praia, como era chamada a atual Rua dos Andradas, no centro da cidade – na verdade, ela ainda é chamada assim ), depois subir até o terraço da Usina e ver o pôr-do-sol ( segundo os porto-alegrenses, o mais lindo do mundo ), que também pode ser visto, de maneira privilegiada, no Morro da Apamecor ( no mapa, Morro Teresópolis ) e na Av. Guaíba, em Ipanema. Passear no Brique da Redenção ( feira de artesanato, antigüidades, livros, discos – de vinil mesmo – e tudo que se possa imaginar ) e aproveitar a tarde no parque, oficialmente Parque Farroupilha porém, só é chamado de Redenção, à sombra dos jacarandás e ipês.”  Para os boêmios há a Cidade Baixa, com seus bares e pubs, ora freqüentados por Lupicínio Rodrigues. Já a musa Ticcia (www.ticcia.com) manda avisar que, se sol houver, a boa do sábado é a feira orgânica na Redenção, onde ela vai para comprar suco, flores, queijo, iogurte, tomate e para causar, né, leitorzinho, que ela não é obrigada. Ela já almoça por lá , suco de bergamota e esfiha ou quibe. Aquele corpinho de passeio é mantido na base do milagre.

 3 - A leitora Isah Carvalho, fofíssima, quer que eu vá pra Amazônia comer Tucumã com Caxiri com ela. Isso sim é que é dica boa, meu leitor adorado. Alimentar vossa cronista é sempre uma boa. Se a Telinha (http://www.telinha.blogspot.com/), outra leitora fofa, ganhar na loto, Isah, ela falou que vai me sustentar, e aí você já pode me esperar no aeroporto, viu?

4 - A deliciosa jornalista sorocabana, Helena Gozzano, manda avisar que “na minha cidade tem um zoológico lindo, lindo!! Super premiado por conseguir reprodução em cativeiro e com uma equipe de educação ambiental super bacana.” (http://zoo.sorocaba.sp.gov.br/)

5 - A doce Cida Soares, leitora mineira, lamenta o fato de eu ter passado pouco tempo em Belo Horizonte (ô Cida, você deu foi sorte, eu sou uma mala, imagina me aturar o final de semana todo?), porque ela queria me levar em dois museus, olha só que dicas boas, leitor: o Museu de Artes e Ofícios, que fica no centro da cidade “num prédio lindo”. E o Museu de Inhotim, que “fica fora da cidade, mas é maravilhoso! Os jardins e prédios que abrigam as obras são maravilhosos! Não sei se você chegou a conhecer, mas dá um baita orgulho toda vez que eu vou lá”.

6 - Durma. Leitor, durma. Durma muito. Durma bem gostosim, durma antes do almoço, durma depois do almoço, durma entre uma soneca e outra, durma, durma, durma.

7 - Ah, a Pati Linden, inspiradíssima, ainda nos manda verdadeiro tratado sobre as delícias de Brasília num final de semana, contando que a bordo de um bom par de tênis, você vai andar feito um doido por Brasília e nunca vai se arrepender: “Uma caminhada pela Esplanada dos Ministérios, começando pelo Teatro Nacional Cláudio Santoro. Atravesse a rua para conhecer a Catedral. Após observar as formas da pequena igreja, que se parece com mãos elevadas aos céus, continue sua jornada percorrendo a via em frente aos ministérios até chegar ao Palácio do Itamaraty. Se puder, faça a visita guiada para conhecer os salões e as obras de arte. Atravesse a rua e tire uma foto em frente ao Supremo Tribunal Federal, percorra a Praça dos Três Poderes até chegar ao meu local de trabalho (apenas cá entre nós, beibe), o Palácio do Planalto. Abane para os guardinhas paradinhos, impávidos, e continue a maratona, pois ainda é preciso fotografar os chafarizes do prédio imponente do Ministério da Justiça”.  Depois disso tudo, ela insiste que você chame um táxi e vá para o Beirute, “para almoçar junto a uma fauna que reúne desde gays, lésbicas e simpatizantes a famílias inteiras, políticos e outros seres inomináveis”.  A Pati ainda informa que o chopp do fim de tarde é mais gostoso quando você bebe “observando as calmas águas do Lago Paranoá no Pontão do Lago Sul”. E diz também que esse dia perfeito deve acabar na Taberna Pata Negra, que serve “porções generosas de boa comida espanhola” (a favorita de vossa cronista, aliás) e que depois ainda, no Rayuela, você pode beber mais um cadim de vinho e ver o povo bonito passar. Não sei sobre você, leitor, mas eu tenho férias planejadas com a Pati, que já está inscrita na musculação, porque me carregar para o Hotel depois disso tudo é tarefa para os fortes de braço e puros de coração.

8 - Respire fundo. Essa dica é minha. Respire fundo, você pode fazer isso em qualquer lugar. Respire fundo e pela barriga. Várias vezes. Sem nada na cabeça. No começo é difícil, mas você chega lá. De pé ou sentado, deitado no tapete, na grama ou na cama, respire. Solte o ar em vários tempos, brinque de respirar.

9 - Tome banho. Eu sei que você toma banho todo dia? Ah, não? Er… desculpe. Mas enfim, tome um banho diferente no final de semana. Mais longo. Com um sabonete fresco, um shampoo bom de verdade. Acompanhado? Melhor ainda (ser viúva, leitor, é jamais esfregar as costas direito, então aproveite a companhia). Sinta a água morninha correndo, o barulhinho, a pele que desliza com o sabão. Ui.

10 - Em Maringá/PR, a dica do engraçadíssimo Carlão Pacheco (www.carlaopacheco.blogspot.com) é sensacional: “Bom, em Maringá tem bar, tem uns botecos, uns barzinhos, tem o Parque do Ingá, tem o horto florestal, tem uns barzinhos, uns bares, uns botecos, umas avenidas, umas árvores que quando chove caem por cima dos carros, tem uns bares, uns botecos, uns butiquins, tem música (sic) sertaneja em todo canto, tem motoristas que não param na faixa, por isso atropelam muita gente na faixa, tem muita gente rica que não é rica, só parece, por isso odeia a palavra SPC e outras cositas más. Ah, e tem Carlão Pacheco, que não é grande coisa mas pelo menos parou de fumar e tá cheirosinho e gostosinho e solteirinho e doido pra arrumar namorada pra compromisso sério porque dormir de conchinha sozinho é esquisito pra caramba.” Te mete, leitora amiga.

11 - A queridíssima Maloca (http://maloquices.blogspot.com/), a leitora-com-cabelo-de-boneca, implora que em São Lourenço/MG você passeie de pedalinho com Ana Laura (http://maonakumbuka.blogspot.com/), a deusa de Caxambu (também no sul de Minas). 
Elas são loucas, leitor, loucas. Eu tenho pavor de água. Entenda, eu nado como um peixinho… ok, no meu caso, como um mamífero marinho. Daqueles grandes. Mas eu tenho medo de ficar em cima d’água, balançando. Água, ou eu tou dentro, imersa, ou fora, seca. Balançando da superfície, jamais. E Maloca também conta que, em São Paulo, poucos passeios são mais gostosos que Jardim Botânico de São Paulo (http://www.ibot.sp.gov.br/)., que “tem árvores, planta, plantinha, plantona, flores, lagos e uma trilha no meio do mato, pode sentar na grama, pode fazer piquinique, pode fotografar e filmar; só num pode jogar bola e o preço do ingresso e do estacionamento é bem baratinho”.

12 –

Joleana, leitora e fazedoura de milagres: ela fica linda no Arpoador/RJ e ainda por cima sabe os dias da semana.

13 –

 

Vítor (filho da Monca) e Ciça (filha da Cibele), curtindo em São João del Rey, MG.

14 -

 Henrique, os cabelos mais lindos de Sâo Paulo, filho da Flávia, no Parque da Previdência (km 11 da Raposo Tavares), SP/SP, num sábado de sol mas com vento  gelado.

15 -

Telinha, a que vai ganhar na loto, abalando em em Niterói.

15 - Para acabar, ainda em São Paulo, vivo fosse, meu velho e saudoso pai recomendaria um passeio sem hora pra nada pelo centrão, “Mapa na mão e a São Paulo no coração” ele dizia, e lá íamos nós, subindo a Ladeira da Memória, entrando e saindo de estações de metrô, comendo coisas inacreditáveis,  tirando fotos nas escadarias do Teatro Municipal, acariciando os gatinhos da pracinha logo ali em frente (os gatinhos sumiram de lá), com o velho o tempo todo chamando nossa atenção para a arquitetura, para o céu, para o calçamento, para os mendigos, para a vida, a vida, a vida.
***
Leitor, vai ter dica toda sexta, ainda que nem todas as colunas de sexta venham a ser só feitas de dicas. Espero a sua, do Brasil inteiro, pra que a gente possa falar menos de São Paulo e mais do mundo.

beijos descansados,

Fal

ps: Hum,  foram beeem mais de dez dicas? E leitor, quando foi que eu disse procê que eu sabia matemática?

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , ,
03/12/2008 - 12:33

Lixo Cultural

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Oi, leitor. Hoje é quarta-feira. Acho bom informar, caso você seja parecido comigo e ainda não saiba. Todos os dias eu pergunto para nossa assessora logística, Joleana – os acertos são dela, os erros são meus – que dia é hoje. E ela sempre acerta, para meu eterno espanto.
*
Essa semana, além de toda essa história dolorosa em Santa Catarina, acompanhada por autoridades estaduais e federais (confortavelmente instaladas lááááá no helicóptero), por narradores de voz melosa e equipes gigantescas de jornalismo que ficam fazendo videoclipe com a desgraça alheia; os noticiários dão conta de que, desde o dia primeiro de dezembro, começaram a valer novas regras nos tais call centers (as centrais telefônicas que deveriam nos atender e que, ao fim e ao cabo,  acabam nos levando à loucura). Parece que a partir de agora, cliente que ficar na espera, ouvindo uma daquelas musiquinhas irritantes, mais de um minuto ou for mal tratado, pode reclamar, processar e o escambau. O atendimento também terá que ser feito 24 horas por dia. Essa eu quero ver. A empresa de telefonia celular que, teoricamente, dá acesso à internet para vossa colunista vai rebolar nessa regra. Quando eu ligo lá desesperada, sem poder trabalhar direito e já passa das seis da tarde, eu espumo e choro sozinha. Ninguém me atende e quando atende, a linha “cai”, todas as vezes. Existem outras regras,  todas muito boas, para empresas de nove categorias: planos de saúde, companhias aéreas, energia elétrica, bancos, financeiras, empresas de cartão de crédito, telefonia fixa e móvel e tv por assinatura. Eu adorei isso, mas me permitam comemorar só depois que a coisa realmente começar a funcionar, sim?
*
No espaço de uma semana, três das pessoas que mais adoro perderam, cada uma delas, um amigo querido. É só aí que você se dá conta de que uma semana é muito tempo. Muito tempo.
*
Leitor igueano, sabe o que eu adoro? Eu adoro essas cantoras pop (quase sempre estrangeiras) e essas atrizes de novela (quase sempre nacionais) fazendo cara de nojinho e declarando que os filhos delas não chegam nem perto de televisão, de música com duplo sentido, de produções duvidosas, de filmes apelativos. Acho bacana. Quer dizer, todo aquele lixo nos quais elas estão ativamente envolvidas, serve para os nossos filhos. Os delas têm preceptoras, jantam vegetais orgânicos ouvindo Bach ao fundo e dormem às sete e meia da noite. Certíssimas as moçoilas, errados estamos nós.
*
E o Daniel Dantas, hum, leitor? Condenado a dez anos de prisão. Mas ele vai poder recorrer, leitor. Ele vai poder recorrer, não tema.
*
Nossa correspondente carioca, Ângela Fatorelli, informa que é grande a probabilidade do brioso e combativo time do Vasco cair. Sobre mim, leitor igueano, você vai aprender: não dou a mínima para futebol. No mundo do futebol só me interessa o Juca Kfouri, que eu acho um gatão, e aquele Trajano, que além de ser outro gatão, parece ter um temperamento meio belicoso… e Deus sabe que eu adoro homem resmungão. De resto, não dou a mínima, detesto copa do mundo, decisão de campeonato, narradores que urram imbecilidades e torcedores em geral. Mas olha, senti dó do Vasco, porque certa maldade brilhava nos olhos azuis de nossa correspondente fluminense quando ela nos deu a informação.
*
Leio, enlevada (onde foi, meu Deus? Não sei mais em qual site), que um corregedor proibiu a Justiça baiana de comprar tapetes persas. Só até aí a notícia já vale ouro em pó, mas há de se informar o preço das belezocas: 48 mil réis. Deve ser maravilhoso trabalhar num órgão público que não tem outra preocupação na vida a não ser decorar salões do cerimonial com tapetes que custam o mesmo que meu apartamento. Eu tenho inveja.
*
Corre aqui em São Paulo a deliciosa notícia que diz que os advogados vão ficar livres do rodízio de carros. Se confirmada, essa notícia por si só, vale a semana inteira.
*
Nos veremos na sexta-feira, leitor, neste mesmo bat-canal.

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags: , , , ,
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