Acontece que eu não gostava da Ana Terra. Sim, Ana Terra, a matriarca da maravilhosa trilogia de Erico Verissimo, O tempo e o vento. Ganhei o primeiro volume de O tempo e o vento aos doze anos. Dado por uma mãe que não tinha nenhuma fé religiosa, cujas crenças políticas começavam a desbotar e que só acreditava, de coração, na salvação através da arte.
Essa era uma mãe que lia para os filhos O apanhador no campo de centeio e Mulherzinhas. Eu devia ter uns nove anos e meu irmãozinho Pedrão, uns sete. Pouco depois, nossa hora de dormir começava com Rumo à estação Finlândia. Yeah.
A filosofia da velha era simples e, passados trinta anos (trinta anos, mamãe) ainda acho certíssima: se eles não gostarem é porque não estão prontos. Então, ela lia. Ou nos dava para ler. Se a gente não gostava, ela não obrigava, ela dava outro livro, até acertar. Isso aliado ao seu colo macio – disponível quase que exclusivamente na hora da leitura – e aliado ao fato de livros serem encarados como privilégio a ser conquistado além casa, criou dois leitores dementes, ávidos, furiosos, arrombadores de cartão de crédito em livrarias e sebos vida afora, para todo o sempre, amém.
Mas, opa, tergiversei.
Enfim, ganhei O tempo e o vento e comecei a ler.
E detestei. Não entendi nada daquele começo, do Liroca na torre. Depois veio a parte dos padres, da Missão, aquilo me deu no saco. E depois veio a Ana Terra. Eu tinha era nojo da Ana Terra. Nojo. A Ana Terra virou o símbolo máximo de toda a opressão que eu, mártir da causa, sofria daquela mãe déspota e autoritária. Ai, adolescente é um saco, meu bom Deus.
Mas os anos passaram, fiquei mais velha e – cof cof cof – mais sábia.
E, num momento de ócio, peguei no O tempo e o vento. Pra nunca mais largar. Nunca mais.
E o que foi que eu mais amei?
Sim, a Ana Terra. E o Capitão Rodrigo e a velha Bibiana e mais ainda, o Toríbio.
Mas antes e além, como sempre fiz, amei o narrador, o cara que torna a história possível para mim.
Tudo nesta vida começa pelo narrador. O narrador traz todo o mundo psicológico da Ana pro leitor, assim, de bandeja. Seus gostos e seus medos, a secura e a doçura dos seus pensamentos, tudo que ela quer, tudo que ela teme. No último livro da trilogia a gente entende o porquê do carinho do narrador com todo mundo do livro, mas a esta altura a gente só comove com o gostar que ele tem. Esse narrador do Verissimo ama todas as personagens, mesmo as más, mesmo as que erram. E é tão lindo ver como o narrador ama a Ana e entende a Ana e o pai da Ana e a mãe dela. O narrador entende o lado de todo mundo e torce por todo mundo, sem ficar dividido ou ser dúbio em nenhum momento.
É um dos mais maravilhosos narradores da história da literatura, de todos os tempos, em todos os lugares. O narrador do O tempo e o vento pega a todos, autor, personagens e leitores pela mão, e pela mão ele nos leva pra lá e pra cá, como um amigo que na hora da aflição ou da dor te diz ‘Vamos fumar lá fora?’. O narrador do Verissimo vive me levando para fumar lá fora.
A descrição que ele faz do lugar, das coisas e das gentes é deliciosa.
Ele descreve o lugar e você que ir para lá. Já. ‘Por favor’, diz você para o narrador, ‘me leva daqui’. A rudeza do lugar só se equipara à beleza do lugar, os verdes do Veríssimo me invadem desde sempre, as pedras, o riacho, a Ana lavando a roupa e cantando, a água limpinha, gelada, onde ela pode se olhar e se perguntar se é bonita, se é bonita. Você se encanta pelas pessoas, por sua rudeza, por sua força, pela coragem que cada um deles têm, por essa força que só um clã pode trazer. Os Terra permanecem juntos, trabalham juntos, vivem aquela vida dura e incerta juntos e juntos cuidam uns dos outros.
E isso é extremamente atraente para nós, que mesmo na década de 40, ou principalmente lá (afinal a Segunda Guerra tinha acabado e só deus poderia saber que espécie de horror nos esperava então… Ainda que não exatamente em nossas casas, a mudança estava no ar, como sempre está quando uma guerra acaba… As guerras, mesmo as psicológicas, mudam nosso mundo – vencedores ou vencidos – todas as vezes e para sempre), precisamos de segurança, dos velhos e bons valores familiares no volume máximo, pais autoritários, mamãe submissas, filhos já adultos e ainda obedientes, trabalho duro, remissão de pecados, todo mundo da cama (ou, no caso dos Terras, da esteira) para o trabalho e do trabalho para casa e aiaiai.
Não é a toa que depois da Segunda Grande Guerra vieram os anos 50, suas cinturinhas de vespa, móveis pé de palito, homens sabichões usando ternos com ombreiras enoooormes (e, se você se lembrar bem, quem usava ombreiras enormes nos anos 40 eram as mulheres, claro, os homens estavam na guerra, alguém tinha que tomar conta da casa, travestir-se tanto quanto fosse possível, com todos os símbolos da autoridade masculina… lembra, aqueles tailleurs de corte militar?) e mulheres, que ainda de cabelos curtos, tinham estrogênio em doses cavalares, exemplos de doce domesticidade. Escapismo no grau máximo, vamos pensar na vida e no mundo depois.
E já que eu estou aqui, mais uma coisa: nós já entramos na Segunda Guerra precisando desesperadamente dum escapismozim. A “guerra para acabar com todas as guerras”, a primeira Guerra Mundial, falhara miseravelmente em seu intento, estávamos em guerra, blé, outra vez… não dá pra estranhar que roliúde tenha vividos seus anos doirados durante a Segunda Guerra Mundial… há que ser muito bom em musicais para fazer todo um planeta esquecer das promessas que ele mesmo fez. Assim, entramos na Guerra ávidos por escapismo, e nos atiramos no cinema, saímos da guerra dementes por escapismo, e mergulhamos na década mais escapista, sensacional, adiadora-da-vida-lá-fora que o século XX conheceu. Que qualquer século conheceu.