05/05/2009 - 11:57
Quem imaginava que a recuperação econômica no Brasil seria questão de tempo terá que refazer as contas e, infelizmente, adicionar um pouco mais de calma no andar da carruagem. Os dados da Produção Industrial reafirmam o desaquecimento econômico no país e reiteram nosso cenário base de PIB com desaceleração em 2009.
Além do fraco resultado na variação mensal dessazonalizada, com crescimento de apenas 0,7% (o mercado esperava o dobro disso, em 1,5%), chama atenção o resultado pífio da produção de Bens de Capital, que na mesma comparação, tombou 6,3%.

O retrocesso na produção de bens de capital foi tão sério que voltamos aos patamares de março de 2006, recuando três anos de avanço neste setor central das contas nacionais.

Este resultado, de Bens de Capital, deixa claro o tamanho da desaceleração existente num dos componentes chave da demanda doméstica: o investimento. Se de um lado o investimento foi frustrado, num primeiro momento, pelo congelamento de crédito via desconfiança generalizada; agora ele desacelera, em grande medida, por conta dos prognósticos negativos em relação à demanda futura por bens e serviços.
O resultado só não foi pior por conta dos incentivos ao setor automobilístico. Só esta rúbrica registrou alta de 7% em março contra fevereiro (dados dessazonalizados), e desde dezembro a alta é de estonteantes 56,5%. Não fosse por este estímulo anti-cíclico por parte do governo estaríamos amargando uma desaceleração de magnitude muito maior.
Este primeiro trimestre tem sido palco de dados truncados sobre os rumos da economia, tanto doméstica quanto internacional. A dúvida é: na margem estamos melhor? Ou colocado de uma forma mais noticiosa: o pior já passou? Ilustra bem este tipo de situação os dados da Balança Comercial de abril.
O saldo bateu recordes em diversas medidas de comparação e fechamos o mês com superávit de US$ 3,712 bilhões, acima de qualquer expectativa, por mais otimista que fosse.

No entanto cabe notar que a Torrente do Comércio está em queda acentuada. Isto fica óbvio ao observamos a evolução das exportações e importações.

A variação mensal as exportações subiram 4,34%, porém as importações afundaram 14,23%, o que explica este ótimo resultado do saldo. Se observarmos as variações anuais tem-se a real dimensão da contração do setor externo. As exportações caíram 12,35% e as importações estonteantes 30,12%.
Se de um lado temos a sensação de segurança no front externo, afinal saldos recorrentemente altos somados à valorização do Real frente ao Dólar (movimento que deve ser visto com atenção), do outro vemos que a queda abrupta das importações irá impor ao país um produto menor em 2009 uma vez que boa parte dos insumos e bens de capital são de origem externa.
Esta é armadilha contida nos dados econômicos neste primeiro semestre. Muitas vezes um bom sinal é por motivos adversos, o que pode concorrer para um entusiasmo equivocado. Vale ter em mente que teremos uma desaceleração econômica sim em 2009 e que alguns outros dados macroeconômicos devem apresentar piora nos próximos meses, entre eles o desemprego.
A inflação continua na sua trajetória comportada. O IPC-FIPE de abril veio em 0,31%, nossa projeção era de 0,35% contra 0,40% do mês anterior. Os destaques de queda foram o grupo Alimentação (com deflação de 0,26% contra uma alta de 0,18% no mês anterior) e Habitação (com deflação de 0,02% contra uma alta de 0,04% no mês anterior). O destaque de alta foi despesas pessoais com alta de 1,92%.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria
Tags: balança comercial, ipc-fipe, mind the gap, produção industrial
16/04/2009 - 11:51
As ações do governo para incentivar a indústria automobilística, em especial a redução do IPI, deu um gás extra às vendas no varejo no país. O índice geral dessazonalizado cresceu em fevereiro 1,5%. Em 12 meses a alta é de 3,8%.

Só a vendas de veículos, motos, peças e partes cresceu na variação mensal 4,55% (em janeiro o crescimento foi de 11,59%), mostrando assim que a política anti-cíclica do governo – no tocante a indústria automobilística – foi bem sucedida.

Seria exagero imaginar que este efeito positivo vá se propagar de maneira persistente ao longo do ano. A eficiência destas ações tem efeito limitado, e talvez a maior parte do remédio tenha feito seu trabalho já neste primeiro trimestre. Podemos ver no gráfico acima que a taxa de crescimento na margem diminui na venda de veículos, o que corrobora com nossa leitura.
A redução do IPI sobre uma economia que possui um dado nível de emprego e renda é diferente que em outra, onde emprego e renda são menores. O incentivo dado sobre um tecido saudável reage de uma forma positiva, sobre um tecido fragilizado perde efeito e pode até prejudicar (reduzindo além do necessário a arrecadação do Estado). Dizemos isso, pois os dados do CAGED apontam uma redução no ritmo de vagas criadas, e o dado divulgado ontem é ínfimo perto do que foi criado no mesmo período do ano passado (34.818 vagas em 2009 contra 206.556 em 2008). Abaixo a série dessazonalizada e original (observe o comportamento nitidamente sazonal).

A inflação continua em baixa no país, na esteira da desaceleração. O IGP-10 da FGV apontou deflação de 0,71%. O destaque ficou por conta do IPA (Índice de Preços no Atacado) com queda de -0,57% para -1,23%.
Para ler o relatório da FGV acesse: http://www.fgv.br/mailing/IBREMKT/dsp_arquivo.asp?arquivo=D18754F4E121BC33
A situação econômica continua a se deteriorar na Europa. Vendo os números por lá percebemos, com certo alívio e distanciamento, que a situação brasileira aos olhos de um estrangeiro é melhor em termos relativos. A Produção Industrial no Velho Continente toma, em 12 meses, 18,4%. A temperatura econômica caiu abaixo de zero por lá, no inverno recessivo via crédito congelado.
As
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria
Tags: igp-10, produção industrial, vendas no varejo
15/04/2009 - 11:35
Foi divulgada na manhã de hoje os dados da Produção Industrial nos EUA no mês de março. O resultado veio pior que a queda esperada de 0,9%, e fechou o mês com a mesma queda registrada no mês passado, em -1,5%. Na comparação entre março de 2009 versus março de 2008 o tombo é de 12,8%.

Dos grupos apurados, a maior queda se deu na indústria de Bens para Negócios (Business Equipment) com queda mensal de -2,3%. Isto aponta, em grande medida, o grau de “desinvestimento” que a economia norte-americana ainda passa. A recuperação econômica por lá ainda não está no horizonte; tanto que vimos a inflação ao consumidor (CPI) registrar deflação de 0,1%, apontando – de forma indireta – o desaquecimento econômico.
Não fosse só os dados ruins do lado da produção, ontem vimos dados do comércio virem tão ruim quanto. As Vendas no Varejo registraram queda de 1,1% em março, frustrando a expectativa de muitos economistas de uma recuperação mais vigorosa na margem nos dados da economia dos EUA.

Ao fim, e ao cabo, fica uma incômoda e persistente sensação de que o pior da crise ainda não passou quando se tem na lupa a economia real. Se de um lado é verdade que a volatilidade vem diminuindo nos mercados financeiros e que o fluxo de crédito em alguns mercados volta à normalidade, não deixa de ser verdadeiro também que ainda falta muito para “ficar bom”. Os esforços de recuperação econômica ainda estão sendo colocados em prática, e demora algum tempo até os efeitos serem sentidos no tecido econômico.
Com estes dados em mão, Produção Industrial e Vendas no Varejo, já se pode ter alguma idéia do PIB norte-americano do 1° trimestre de 2009. A expectativa não é das mais animadoras e deve furar a maioria das previsões até então elaboradas. Será divulgada uma versão preliminar do PIB dos EUA do 1°tri no dia 29 de abril, mesmo dia da decisão da taxa de juros por lá e também o mesmo dia do anúncio da taxa SELIC aqui.
Nosso call é de corte na taxa Selic de 150 pontos base – fazendo a taxa sair de 11,25 para 9,75 –, tendo em vista o nível de atividade doméstico e a inflação comportada. Soma-se a este cenário o peso simbólico da queda continuada do PIB norte-americano sobre a formulação de políticas econômicas no país.
Existe luz no fim do túnel? Na margem, ou seja, na variação mensal dos indicadores, há espaço sim para melhoras. Uma vez que a base de comparação é baixa o resultado pode aparentar melhora. Este é o caso do Empire Manufacturing, índice do nível de atividade da região de Nova York. O resultado foi bem melhor que o inicialmente projetado (esperava-se uma queda de -35, acabou se verificando uma queda de apenas -14).

Vale lembrar que a melhora é da piora. Ainda está ruim, mas “menos pior” do que antes. Devemos olhar esses dados com muito cuidado e neste momento devemos nos ater aos dados mais sólidos e tradicionais para evitar erros de julgamentos. Entre estes o principal: o PIB.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria
Tags: EUA, produção industrial, Selic
02/12/2008 - 11:28
Hoje de manhã foram divulgados importantes dados sobre a economia brasileira que lançam luz definitiva sobre o atual estado econômico do país. A inflação é um problema? Vamos continuar crescendo à taxas crescentes? Agora temos mais pistas sobre os próximos meses.
Primeiro a inflação. Ontem, nesse mesmo Comentário Diário, havíamos chamado atenção ao comportamento mais “fundamental” dos juros futuros com vencimento curto (principalmente em janeiro de 2010). Argumentamos que cada vez mais esses contratos estarão sujeitos aos movimentos domésticos, e menos ligados aos temores da expectativa sinistra do futuro econômico mundial. Agora parece claro que a deflação mundial chegou ao Brasil com mais força. De um lado a deflação das commodities em plano mundial cumpre parte da queda; do outro a retração da demanda doméstica pressiona as margens. Soma-se a isso as liquidações desse Natal “em crise”, onde os comerciantes foram extremamente agressivos para manter seus volumes de venda. Nem a disparada do dólar apresenta hoje uma ameaça séria aos preços domésticos. Fosse noutro tempo, a desvalorização do Real seria motivo de pânico nos corredores do BC.
Resultado: o IPC-FIPE de novembro derreteu e atingiu 0,39%. Nossa projeção apontava para uma alta de 0,54%. Os analistas ouvidos pela Bloomberg variavam entre 0,47% e 0,60%, ou seja, nem o mais baixista projetava tão baixo. Por conta desse novo dado revisamos nossa projeção para o IPCA de novembro, que será divulgado na sexta-feira. Saímos de 0,49% e apontamos para 0,40%. O IPCA de outubro foi de 0,45%. Se confirmada nossa projeção isso representará uma queda na inflação oficial que levará cada vez mais para dentro da meta a inflação de 2008.

Já a Produção Industrial apresentou forte queda de 1,7% no mês de outubro. Em 12 meses apresenta leve alta, de 0,8%. Este dado reafirma o atual momento de desaceleração econômica. Porém, vale lembrar, que a Produção Industrial veio tão baixa, pois a base de comparação é muito alta. Tanto os meses anteriores, quanto o igual período do ano passado, foram excepcionais, logo, para vir um resultado nulo, ou mesmo negativos, é muito fácil. Fatalmente o PIB do 2º semestre de 2008 irá cair muito mais que os analistas estavam inicialmente prevendo.

Os juros futuros já reagiram a essa nova realidade e os contratos com vencimento em janeiro de 2010 já caem mais de 1,70% no início dessa manhã, sendo cotados a 13,80.
Pelo visto não há realmente mais clima algum para o BC aumentar a taxa básica na próxima reunião.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria
Tags: crise? que crise?, deflação, economia, inflação, produção industrial
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