A política dos 100 pontos
A decisão de corte em 100 pontos base da taxa Selic, anunciada ontem pelo COPOM e dentro da nossa expectativa, foi amplamente usada pelo governo para atingir mais de um objetivo simultâneo. Um verdadeiro circo foi aramado para o BC começar o afrouxamento monetário, com direito até a churrasco promovido por sindicalistas em frente a sede da instituição em Brasília. Antes de continuar, vamos à nota divulgada.
“Brasília – Avaliando as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, neste momento, reduzir a taxa Selic para 12,75% a.a., sem viés, por cinco votos a favor e três votos pela redução da taxa Selic em 0,75 p.b. Com isso, o Comitê inicia um processo de flexibilização da política monetária realizando de imediato parte relevante do movimento da taxa básica de juros, sem prejuízo para o cumprimento da meta para a inflação.”
Fora o tom lacônico típico desse comunicado, chama atenção alguns pontos. O primeiro é a decisão não unânime pelo corte de 100 pontos. Com o colegiado rachado em 5 contra 3, o BC indica ao mercado que pode fazer um afrouxamento mais gradual. A nota segue no tom precavido e afirma que “parte relevante” da queda da Selic já foi feito.
Cabe perguntar por que tanta cautela por parte do BC.
Neste mesmo Comentário Diário de ontem deixamos claro que não compartilhamos da visão equivocada que a redução simples da taxa Selic pode, per se, reequilibrar os agregados econômicos no mesmo ponto anterior; onde renda, emprego, câmbio e investimento estavam num nível adequado. Muitos economistas, políticos e sindicalistas tentam vender a idéia vulgar que o simples corte pode operar milagres. Isso é desonesto e transmite uma falsa idéia a população e aos trabalhadores.
Estamos enfrentando, e vamos enfrentar, uma desaceleração econômica vigorosa no Brasil e não há como escapar disso no curto prazo. Acreditamos, no entanto, que há espaço para a queda da taxa de juros em 2009. Porém, centrar todas as atenções econômicas neste único indicador seria miopia e um sério equívoco.
O governo usou o corte para atender um clamor popular e valorizou ao máximo o momento. Sindicalistas paralisaram avenidas no país, e, após o corte, grandes bancos anunciaram imediatamente a redução nos empréstimos à pessoa física. Tudo junto, para ter o efeito máximo do corte.
Era muito claro que haveria um corte na taxa Selic; mas da forma que foi anunciada o corte parece maior do que foi (e uma vitória da FIESP e dos Sindicatos), e ao mesmo tempo um corte menor, com tantos “senões” por parte do BC. Agradou a gregos e troianos.
O desemprego no Brasil recuou em dezembro segundo o IBGE e fechou dezembro em 6,8%, o menor dado da série.
No entanto, não devemos nos iludir com este resultado. Como bem apontou os números do CAGED a queda nos postos de trabalho está em andamento.
Na Europa os Pedidos da Indústria caíram drasticamente em termos anuais e fecham novembro com uma queda de 26,2% . Não há dúvidas que o Velho Continente está em forte desaceleração.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: churrasco, política, Selic


