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10/11/2008 - 11:35

O ornitorrinco

A reunião do G-20, realizada nesse fim de semana em São Paulo com os presidentes dos Bancos Centrais e os ministros da Fazenda das 20 maiores economias do mundo, descartou a inflação como o maior problema atual e elegeu a desaceleração econômica como inimigo público número 1. O argumento básico é que a atual crise econômica (que começou imobiliária, transformou-se em financeira e é, por fim, “real”) fez o trabalho sujo do choque de juros e jogou o mundo numa espiral deflacionista, onde ativos e commodities não tem como subir.

Seria a vez de ir contra a tendência e abrir os cofres públicos para acelerar o barco que ameaça parar e anda hoje apenas da inércia dos anos passados, com parte do crescimento já contratado.

A cúpula estava amplamente favorável a essa tese e isolou as vozes dissidentes ao discurso desenvolvimentista. As exceções ao coro foram os presidentes Henrique Meirelles, do BC Brasileiro, e Jean Claude-Trichet, do BC Europeu. Ambos se mostram extremamente resistente a idéia de afrouxar a política monetária em suas economias, e acabaram criando uma política sensivelmente contraditória onde elementos expansionistas e contracionistas convivem lado-a-lado. No caso brasileiro essa mistura exótica gerou um curto circuito no interbancário quando as tesourarias dos grandes bancos pegaram os recursos compulsórios e reaplicaram na dívida pública (com os maiores juros reais do mundo civilizado), fugindo assim do objetivo primário da medida: dar liquidez aos bancos pequenos e médios via compra de suas carteiras. O presidente Lula se irritou com esse movimento, mas não há jeito, nesse caso, como em tantos outros, a lógica impera e boas ações não valem muito.

Já no Velho Continente as principais economias fizeram seus pacotes anti-cíclicos e deixaram Jean Claude falando sozinho. A Inglaterra já corrigiu sua cruzada contra-inflação e promoveu semana passada um corte profundo nos juros, surpreendendo a banca e os analistas ao apontar suas armas em outro foco.

Ontem a China socialista aprovou um pacote de peso e vai irrigar, até 2010, seu quintal com pelo menos meio trilhão de dólares. Os beneficiários? Pequenos negócios, agricultura familiar, e exportadores. O Partido Comunista Chinês sabe muito bem que se a máquina de crescimento tropeçar quem tropeça é o próprio Partido, acirrando os conflitos sociais de um país que ambiciona ser potência, mas que namora com um atraso medieval.

No Brasil essa onda pró-crescimento encontra voz no ministro Guido Mantega e em parte do primeiro escalão econômico do gabinete (Luciano Coutinho, do BNDES, Dilma Russef, Casa Civil, Paulo Nogueira Batista, representante brasileiro no FMI, entre outros). A diretoria do BC brasileiro perdeu parte da batalha e já recuou seu ímpeto na última reunião do COPOM ao não elevar mais os juros, apesar da reiterada argumentação que a inflação brasileira ainda está calcada no descolamento entre demanda e oferta domésticas.

Na ata da última reunião o COPOM externou que sua preocupação são duas: a inflação e os desequilíbrios na balança comercial. Caso a demanda continue acelerada pode pressionar os preços e reverter os saldos comerciais via importação estável e exportação em queda. Caso isso aconteça o BC se verá obrigado a queimar suas reservas apenas para fechar as contas internacionais; e isso é tudo que a diretoria da instituição não quer. Eles sabem muito bem que o Grau de Investimento concedido ao país é derivada primeira dessas reservas em moeda forte, e que essas mesmas reservas reforçam o arsenal da política monetária do BC.

Porém, na mesma ata, o BC deixa claro que o efeito da política monetária é intertemporal e que o aperto dos juros se fará sentir apenas em 2009. Em outras palavras: o BC sugere que a manutenção dos juros não é apenas tática, mas sim o fim do ciclo de aperto. Um recuo inteligente frente a maré desenvolvimentista.

O presidente Lula tem um dilema nas mãos. Ele quer que a economia brasileira esteja tinindo em 2010 (com crescimento em alta e inflação sob controle). O problema é que ele autorizou seus dois homens da economia a agirem livremente, e eles não estão falando a mesma língua. O governo corre o risco de reeditar um ornitorrinco econômico heterodoxo, numa colcha de retalhos que pode ser curta e vazada, não esquentando e nem cobrindo.

Seria mais adequado o governo afinar a política econômica. Porém a condução desse projeto é delicado; se for muito claro e forte (com anúncio em cadeia nacional e todo kit de imprensa) irá parecer um pacote, e isso será terrível para o espírito econômico nacional, revivendo os piores anos da década de 80 e 90. Se for obscuro demais ninguém irá ter uma visão clara do projeto. O presidente deveria arranjar um terceiro nome, fora do eixo Meirelles-Mantega, para conduzir isso. Caso contrário seria um desastre.

O tempo está passando e as principais economias já mexeram suas peças no tabuleiro econômico mundial. Ainda há tempo, mas não tanto para evoluir o ornitorrinco.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , ,
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