Uma discussão em pauta.
Nos últimos dias uma discussão tem rodado as mesas de operação do país inteiro e ocupado a mente dos gestores de renda fixa: afinal, o BC vai continuar com a política monetária expansionista e dar mais 150 pb de corte, ou vai segurar o ímpeto e cortar apenas mais 50 ou 100 pb.?
Em entrevista à um jornal de grande circulação nacional neste fim de semana, o presidente do BC, Henrique Meirelles, deu a entender que o corte será menor que o mercado precificou no contratos futuros de DI, ou seja 150. A linha geral do raciocínio é que o necessário nesse momento é que os juros ao consumo e investimento caiam, e não exatamente a Selic que deve cair. O culpado da distorção? O enorme Spread bancário. Fora isso, Meirelles pondera que existem motivos estruturais na economia brasileira que não foram exatamente sanados e trabalhar apenas com razões conjunturais seria temerário dado o enorme grau de incerteza quanto aos rumos da economia. Soma-se a isso o fato do ano que vem ser um ano eleitoral e que não seria agradável aumentar juros em pleno pleito.
Obviamente saber das opiniões do presidente do BC é relevante quando se trata de taxa de juros. No entanto, cabe aqui trazer alguns elementos para pensar – e tentar prever – a decisão do COPOM nos dias 28 e 29 de abril.
Em primeiro lugar o Spread bancário, por mais altos que seja, está no lugar. O Spread é, grosso modo, o lucro dos bancos. Neste “a mais” em cima do juro livre de risco, além do lucro do banco, está outras coisas, entre elas o risco de emprestar dinheiro. O risco de emprestar dinheiro efetivamente aumentou nos últimos meses: a economia desacelerou, o desemprego aumentou, e o câmbio disparou. Qual motivo um banco teria para diminuir o componente risco nestes tempos incertos como bem apontou Henrique Meirelles? Hoje em dia é mais arriscado emprestar dinheiro do que era há dois anos; se não diminuiu de forma mais agressiva naquela época, não seria agora que iria diminuir.
Dos outros componentes do Spread, entre eles o lucro, aí é uma questão de mercado. Há pouca competição bancária o que evita que os juros caiam de forma mais agressiva. Se houvesse no sistema financeiro uma ampla competição por correntistas, fatalmente os juros pessoais cairiam via “promoções”, ou “queima de estoque”. Porém, sabemos que não há o que fazer neste front no curto prazo, e especular sobre isso é perda de tempo.
Quanto ao fato de 2010 ser um no eleitoral isso faz pouca diferença. Claro, é impopular aumentar os juros em plena campanha, no entanto é pior ver a economia desacelerando e o governo não fazendo nada. Além do mais é fácil vender a idéia que o aumento de juros é “culpa” da crise.
O presidente Lula deu a entender de forma clara que quer ver os juros cair na ponta final, para o consumo. Tanto que até fez a troca de guardas no BB para atingir este objetivo. Essa medida foi vista com muita desconfiança pelo mercado porque, ao fim e ao cabo, representa diminuir a margem de lucro do BB, justamente porque o lucro é o único componente que o novo presidente do banco pode mexer. A única forma de conciliar o lucro atual com juros menor é com a queda da taxa básica.
Muitos argumentam que a política fiscal anti-cíclica está indo além do razoável e que seria papel do BC segurar a gastança da administração federal. Porém, o ministro Guido Mantega, da Fazenda, já mandou o recado e espera juros menores para diminuir o serviço da dívida e tirar parte do peso das contas públicas. Aumentar os juros não seguraria os gastos, mas aumentaria a necessidade de um superávit maior, coisa que já está descartada vista a recente redução da meta de superávit. Logo, seria temerário manter os juros num patamar muito alto. O mais importante é manter a relação dívida PIB declinante, e isto aparentemente está sob controle, nas palavras do próprio Meirelles (algo em torno de 37%).
Existe a questão de a poupança competir com os fundos de renda fixa por investidores, no famigerado TR mais 6%. A expectativa de que haja migração destes fundos para a poupança soa um tanto quanto inflacionada já que o presidente Lula sinalizou que vai alterar as regras da poupança, de tal sorte que continue sendo interessante para pequenos investidores, e mau negócio para a classe média para cima. Não seria sábio realocar os investimentos para um ativo que vai ter as regras alteradas em breve, e, fatalmente, por MP.
Existem pressões adicionais para que os juros caiam. Citamos aqui o Carry Trade, ou seja, a arbitragem entre taxas de juros internacionais. Hoje o risco Brasil (medido em CDS de 5 anos), está em 272, e nossa taxa de curto prazo está em 10,06. No caso da Coréia do Sul o risco país é de 273, e sua taxa curta de míseros 2,41. No caso chinês o risco está em 138, porém a taxa curta está em 0,91. Alguma coisa está fora do lugar, ou o risco país, ou a taxa de juros. Acreditamos que não é o risco que está fora do lugar.
Devemos ter em mente que a política de meta de inflação tem como razão de ser a condução da política monetária responsável para atingir uma inflação pré-estabelecida, e vemos claramente queda nos índices de inflação. Questiona-se que, em breve, será necessário aumentar as taxas de juros para dar conta da inflação por causa do volume de liquidez despejada nos mercados. A questão é que hoje a inflação está controlada, por isso não há razão da manutenção de juros tão altos. Lá na frente, se a inflação subir, basta subir os juros de novo. Talvez nem isso seja necessário. Se o BC cortar parte das facilidades que criou – entre elas compulsório menor –, isso talvez até de conta do recado. Não raramente os problemas econômicos de hoje, foram as soluções econômicas de ontem.
Como vemos são uma série de questões que estão na mesa. A decisão do BC na próxima reunião do COPOM será difícil, e cheia de significados. Vale lembrar que no dia 29 será divulgado o PIB dos EUA do primeiro trimestre de 2009 e a expectativa é de queda de 5% (anualizada). Não existe resposta certa e resposta errada quando se trata de juros básicos. Mais importante é o que se argumenta em favor daquele número; e neste caso a decisão é delicada.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: crise? que crise?, juros, meirelles, Selic