iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

21/11/2008 - 17:53

A crise sem demagogias

A crise sem demagogias
Kátya Desessards, editora
A crise financeira não é um bicho de sete cabeças… o bichano sempre teve e continuará a ter uma cabeça só… enorme – por certo -… mas uma só.

A crise financeira tem criado um cenário de pessimismo – de efeito dominó – na grande maioria dos setores produtivos e de serviços no mundo interior. É fato que há uma profunda desordem nas economias de diversos países – principalmente – dos desenvolvidos, que deixaram atrelar parte de suas bases de investimentos, tanto estatal como privados, a uma pretensão de reserva de crédito com uma enorme falta de segurança de retorno. A pretensão não é apenas semântica, é de fato uma postura diante da impensada fragilidade do sistema financeiro norte-americano. Isto vinha funcionando como um tipo de especulação (mesmo não admitido pelo governo americano), onde os bancos liberavam crédito sem qualquer respaldo de retorno, pois tinham como ‘garantia’ o investimento tanto em papéis do governo como em ações das empresas do setor da construção e de outros setores afins. O problema é que bancos e grandes empresas de outros países – como Inglaterra, França, Alemanha e Japão – acreditaram também na seguridade desse ciclo do crédito imobiliário norte-americano.

Quando o personagem principal (mutuário) não pagou o crédito cedido, o mercado financeiro entrou em crise e – a partir daí – todos os setores da economia começaram a se retrair e a perceber o quanto a cedência de crédito nos EUA é frágil, sem regras definidas e atrelada a uma posição de consumo predatório. A falência do Lenhonn Brothers ainda será sentida por – pelo menos – três anos e não por ele ter sido durante quase 150 anos uma instituição histórica nos EUA, mas pelas escolhas de investimentos especulativos que fez – assim como todos os bancos de crédito norte-americanos.
E foi esta postura de descrédito na lógica da volatilidade inerente ao mercado, que a crise não pôde ser freada. Desde 2004, o sistema de crédito dos EUA vinha apresentando sinais claros de que havia problemas de retorno.
Mas apesar da fragilidade do sistema financeiro o dólar não acompanhou a mesma lógica da crise e não perdeu valor. Ao contrário, ampliou sua força de indexador de câmbio do comércio internacional.
O nível de crescimento do PIB mundial para 2009 deve apresentar – sim -desaceleração acentuada, mas há sinais de que o mundo não entrará em colapso como apregoam alguns economistas mais céticos quanto à capacidade de reação do mercado.
Partindo-se da lógica de que os países desenvolvidos continuaram a produzir e a possuir riquezas, este dinheiro terá que ir para algum lugar. E a América Latina desponta como uma possibilidade de escoamento viável e lucrativo para este dinheiro. “O Brasil será visto como um bom destino para estes investimentos”, pondera André Perfeito, economista da Gradual Corretora.
O economista avalia que o País mesmo tendo uma previsão de crescimento menor do projetado para 2009 – ficando entre 2,5% e 3% – mesmo assim, a economia interna não se encaixa na visão alarmista de desaceleração em massa. “Como no Brasil o crescimento ainda está muito galgado no consumo das famílias e nos últimos cinco anos houve duas situações que ampliaram a capacidade de compra: como aumento do salário real; e o aumento do crédito; conseqüências do aumento do emprego formal, o mercado interno brasileiro sentirá sim os reflexos da crise, mas, não perderá a sua capacidade de crescimento”, explica André Perfeito.
É fato que o crédito deve ‘minguar’ um pouco em 2009, mas é fato também que o governo brasileiro não irá permitir que haja a deflagração do efeito reverso dessa crise na economia nacional. As medidas tomadas pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, de garantir crédito – principalmente – ao setor automotivo já é um indicativo de que o Brasil está preparado para se lançar como destino para os investimentos estrangeiros, além da estabilidade nas políticas macro-econômicas. “Pode até parecer um paradoxo já que os juros ainda são altos e – ao mesmo – tempo o governo incentiva o consumo quando oferta dinheiro e crédito. Mas este cenário – mesmo antagônico – tem refletido ao mercado interno a segurança necessária de que haverá continuidade do crescimento, em escala menor, mas real ”, explica o economista da Gradual Corretora. André Perfeito pondera ainda, que se o dólar mantiver uma postura entre R$ 2,00 e R$ 2,10 (que é a previsão para 2009) “não haverá grandes oscilações na economia em geral, a desaceleração deverá ser mais homogenia sem grandes vítimas. O consumo de automóveis e de calçados – por exemplo – estará mais sensível, mas não é previsto retração em escala”.
No mercado de ações o cenário tem que ser analisado por outro viés. A realidade na Bovespa, porém, não acompanha a mesma lógica dos outros setores da economia – menos alarmistas, pois o ‘ânimo’ dos investidores ainda é muito influenciado pelo cenário internacional. É fato, contudo, que a base da primeira carteira de ações da Bovespa é formada de empresas com posições sólidas – nos mercados nacionais e internacionais – e com liquidez. O que gera dúvida sobre a real necessidade dos investidores nacionais flutuarem na mesma escala de desconfiança dos investidores das outras bolsas no mundo.
O mês de outubro foi o grande exemplo deste descompasso de cenários. As bolsas européias – por exemplo – que possuem nas suas primeiras carteiras, empresas que estão de alguma maneira sendo vitimadas diretamente pela crise – ou por possuírem ações dos bancos credores americanos ou por terem investido nas empresas do setor da construção nos Estados Unidos. A Bovespa, diferentemente, mantém em seus demais grupos de carteiras de ações, empresas de bom desempenho. “O preço do petróleo tem agido como um dos efeitos à causa do desequilíbrio e das oscilações aqui no Brasil”, salienta André Perfeito, economista da Gradual Corretora.
O ‘ânimo’ e a desconfiança do investidor é o outro efeito, esse intangível, que a Bolsa está afeta. Há uma nítida sensação, dentre vários analistas de mercado, de que a bolsa brasileira poderia se fortalecer impondo uma postura de ‘se vender’ mais caro – ou seja – definir maior peso aos cenários internos, valorizando assim com maior ênfase a sua carteira principal. Isto, porém, implica na quebra de alguns paradigmas como impetrar uma ação menos volátil à análise dos cenários interno e definir ação mais moderada dos efeitos externos. As bolsas de Nova Iorque e da Europa, mesmo em ‘queda livre’, continuam a manter sua influência internacional. O fato é que a bolsa brasileira possui – hoje – maior consistência de valor e de liquidez de suas carteiras de ações.
O ano de 2009 poderá ser o ‘divisor de águas’, se a lógica de que os países desenvolvidos terão que repensar o destino de seus investimentos, já que internamente não possuem mais tantas alternativas de expansão por possuírem níveis de infra-estrutura e capacidade produtiva chegando ao limite. Nessa lógica, o cenário para o Brasil poderá ser melhor do que se espera. Mesmo com alguns setores vitimados com a crise, a possibilidade de retorno que o Brasil possui hoje é seu maior ativo e diferencial no cenário internacional. Inclusive diante da gigante China, que não possui o nível de estrutura econômica e de organização interna que o Brasil. A questão é se o setor privado brasileiro está preparado ‘psicologicamente’ para deixar a postura de vítima ou alarmista… Pois a concorrência estrangeira no mercado doméstico será ainda mais acirrada a partir de 2009.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , ,
Voltar ao topo