Grau de Investimento faz um ano.
Hoje faz um ano que o Brasil recebeu Grau de Investimento pela agência Standard & Poor´s. Nesse meio tempo sabemos a montanha russa que foi a bolsa brasileira (veja gráfico abaixo) e o furacão que varreu as economias mundiais, mexendo com os cenários e transformando tudo ao redor, nos jogando num mundo novo que ainda não sabemos ao certo onde vai dar.
Vendo o gráfico acima temos a incômoda sensação de que ainda não aproveitamos este Grau de Investimento da forma que gostaríamos. Afinal, pouco depois de ser concedido o mundo derreteu sob nossos pés, jogando tudo na vala comum da desconfiança generalizada.
O ano passado foi um ano difícil, muito difícil. O saldo da posição de estrangeiros derreteu em 2008, atingindo a marca histórica de R$ 24 bilhões a menos na bolsa e dando o tom do tamanho da aversão ao risco por parte deste tipo de investidor. E não é por menos; ao enfrentar sérios problemas nas suas matrizes os gestores de recursos resolveram simplesmente se desfazer dos papéis em bolsa e abocanhar os lucros, numa tentativa desesperada de minimizar os prejuízos nos seus países de origem.
Porém os ventos estão mudando e o Brasil volta a apresentar seu antigo brilho. Podemos ver isso na volta do estrangeiro ao país.
Qual o motivo deste repentino otimismo com a bolsa brasileira? Em grande medida é uma questão de perspectiva. O Brasil visto por quem está sentado numa cadeira em Nova York, ou em Londres, está cada vez mais atraente. Em termos relativos estamos “muito bem na foto”. As projeções da maioria dos economistas apontam para isso. Nós acreditamos que o país vai recuar o PIB em 2009 em 0,75%. Já o FMI imagina um tombo maior, de -1,3%.
Vamos supor que o PIB brasileiro caia 1% em 2009. Isto não é de forma alguma uma má notícia. Se o Brasil produzir em 2009 apenas 1% a menos dos bens e serviços que produziu em 2008 não será um mal resultado. Afinal, estamos atravessando uma das maiores crises desde os anos 30, e não seria de todo ruim este resultado.
No entanto, melhor que isso (cair apenas 1%, no exemplo), é ver que as principais economias vão cair ainda mais. Peguemos como parâmetro as projeções do FMI para algumas economias selecionadas.
Vemos que a expectativa do fundo é que o Brasil caia menos que estas economias e que desacelere na mesma proporção do mundo em 2009. Mais importante ainda: o Fundo vê nosso crescimento, a partir de 2010, constantemente positivo e crescente. Este tipo de informação faz os olhos dos investidores estrangeiros brilharem com o cenário e a perspectiva de ganhos futuros crescentes. Não à toa parte destes recursos estão voltando à bolsa brasileira; que em 2009 já registra alta de 27% em Reais, e 34% em Dólar. Este movimento de antecipação visa capturar os ganhos futuros esperados no país.
O Risco País apesar de alto foi o que menos estressou durante a tormenta de 2008. Podemos ver no gráfico abaixo a evolução do risco de alguns países emergentes (medido em CDS).
Os motivos de tanto bom humor com o país é a soma de diversos fatores, às vezes de difícil mensuração. Entre eles estão estabilidade democrática, ambiente empresarial saudável, respeito contratual, e por aí vai. Podemos apontar outros elementos mais objetivos para este movimento. O comércio mundial nos últimos anos foi particularmente benéfico com o país. A demanda mundial, em especial a chinesa, permitiu que nosso BC adotasse uma estratégia de acúmulo de reservas internacionais (que hoje estão em US$ 200 bilhões) que serve de colchão para eventuais choques externos. Fosse em outro tempo teríamos estourado nossas contas externas na esteira da aversão ao risco e teríamos – de novo – que ir ao FMI pedir recursos para fechar as contas. E pensar que hoje somos credores do Fundo… Além do mais praticamente zeramos o passivo externo do governo, gerando mais um ponto favorável ao país neste momento de crise.
Outro ponto importantíssimo é a sanidade fiscal adquirida; este sim um dos principais parâmetros observados pelas agências classificadoras de risco uma vez que dá a medida de solvência do país. A relação vem declinando consistentemente nos últimos anos demonstrando, mais uma vez, a conjunção de PIB crescente e uma estratégia consciente do governo federal. Hoje saiu a relação subiu para 37,6%. Não podemos perder esta evolução de vista, é nosso calcanhar de Aqules.
O Brasil não está descolado do mundo de forma alguma, mas temos nos beneficiado de uma conjuntura muito especial de fatores. Veja por exemplo o saldo comercial brasileiro. O superávit vem aumentando na combinação da queda das exportações e da queda – ainda maior – nas importações. O resultado líquido é positivo, mas o fundamento é negativo. Este tipo de situação verifica-se em outros exemplos e deixa claro a situação muito especial que vivemos.
Existe a possibilidade de outra agência nos conceder mais um título de Grau e Investimento, o que faria um enorme bem ao mercado de ações brasileiro e, em última análise, às empresas brasileiras. Seria a confirmação do momento positivo e do novo estado da arte da economia brasileira.
O que temos que ter em mente é que nunca voltaremos para a mesma situação de antes da crise. O que temos agora é que pensar uma “fuga para frente”, onde o Brasil vai conquistar cada vez mais espaço na economia mundial. É uma oportunidade única que é o acúmulo de anos de trabalho e de uma situação nova. Tal qual 1930 temos agora uma chance de avançar mais, e agora como muito mais qualidade e responsabilidade. Este novo lugar irá exigir dos brasileiros, e do governo, uma nova atitude onde as formas usuais não vão dar conta dos novos desafios. Inovação e aplicação nunca foi tão importante.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: dívida PIB, grau de investimento, muita sorte, sorte




