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12/05/2009 - 11:45

Os dois lados da moeda.

A desaceleração econômica é um fato corrente nestes últimos meses e, apesar de melhoras marginais, estamos ainda longe de qualquer volta à um período pré-estouro da bolha imobiliária. Podemos ver este fenômeno se manifestar de formas diversas; na produção industrial, nas vendas no varejo ou mesmo no nível de emprego.

A Produção Industrial da Inglaterra divulgada hoje, por exemplo, faz coro com esta leitura de queda econômica. Veio melhor que as expectativas de mercado, mas isto não quer dizer – de forma alguma – que estas expectativas eram boas. A produção inglesa retrocedeu 12,4% ao ano e reforça os sinais já emitidos anteriormente pela economia da ilha.

Existem várias formas de “medir o pulso” da economia mundial, mas hoje uma feliz coincidência de agendas econômicas nos brindou com um sinal claro do desaquecimento mundial. Estamos nos referindo à evolução do comércio mundial, tema especialmente sensível à economia brasileira.

Foram divulgados os resultados das Balanças Comerciais dos EUA e da China, os dois lados da moeda global e fiéis depositários da esperança na recuperação econômica mundial. O resultado é simétrico e esperado: diminuição do déficit de um em compasso com a diminuição do superávit do outro, ambos convergindo para o zero do nível.

Numa perspectiva de longo prazo poderia se argumentar que a diminuição do déficit comercial norte-americano é algo saudável, uma vez que traz sanidade às contas públicas daquele país. Porém este argumento ignora que o mundo desde o pós-guerra é calcado na demanda norte-americana por bens e serviços, e mudar este fluxo da circulação mundial é algo novo e que deve ser pensado em perspectiva, ponderando entre outras coisas o papel do dólar como moeda mundial, tema que está em voga nos círculos acadêmicos (de forma escancarada ou não).

Do lado chinês podemos ver na queda do superávit uma situação duplamente perigosa. Mostra que o motor do mundo na última década desacelerou, e – ainda pior – saldos comerciais chineses menores representam um impacto futuro para o financiamento da dívida norte-americana que, apesar da redução do déficit comercial, está em franca expansão por conta da política fiscal expansionista (hoje, às 15:00, será divulgado o orçamento norte-americano e mais recordes de gastos são esperados).

No que concerne propriamente ao nosso quintal, nos preocupa a evolução das importações chinesas, uma vez que o gigante asiático caminha à passos largos para se tornar nosso principal cliente. As importações daquele país recuaram 23% em 12 meses, acendendo a luz amarela no nosso setor externo (que por uma combinação preciosa de exportações com leve recuperação, e importação em declínio, apresenta bem-vindos saldos positivos).

Alguns economistas externaram nos últimos meses a expectativa que a economia chinesa em aceleração poderia aliviar a situação brasileira no curto e médio prazo, fazendo barreira à tsunami mundial. Esta leitura precisa ainda de confirmação mais profunda dos dados econômicos e não devemos imaginar que estamos insulados da tormenta econômica. Seria naíve da nossa parte nos entregarmos ao otimismo neste momento.

É bem verdade que o Brasil está numa situação atípica; onde gozamos de uma situação externa relativamente confortável (reservas em alta, superávit comercial e, agora, o Real que volta a se valorizar), e interna tranqüila (inflação sob controle e com perspectiva de quedas continuadas na taxa de juros básica, o que reforça uma expectativa de crescimento no médio prazo).

Porém o jogo das superpotências ainda está em andamento e o casamento deste déficit e deste superávit é uma relação delicada e ainda indefinida. Só esperamos que ambos os lados da moeda não caiam, ao mesmo tempo, com a face para baixo.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , ,
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