Transferência de renda.
Tem sido tema de intenso debate acadêmico, e amplificado pela mídia em geral, as origens e soluções para a atual crise econômica. Boa parte dos economistas jogou na vala comum de 29 a origem deste qüiproquó financeiro que começou em casa e terminou na rua. Já na ponta inversa – a da solução – ressuscitaram Sir Keynes com os restos do século 20; numa mistura exótica de nacional desenvolvimentismo aliado com tecnologia da informação. Um verdadeiro Frankstein (há quem chame esse tipo de neo-keynesiano de hidráulico, o mais puro senso de humor britânico).
O presidente Barak Obama deu um passo correto ontem, e acrescentou alguns decibéis na já acalorada discussão econômica, ao anunciar que vai destinar US$ 275 bilhões do mega pacote para ajudar os mutuários norte-americanos à pagar suas prestações. Até então, sob a administração Bush, o remédio era apenas um anti-termal para combater a febre crônica no sistema financeiro. Rios de dinheiro foram jogados de para-queda aqui e acolá na tentativa de apagar os incêndios pontuais.
Agora não. Obama e Timothy Geithner vão à raiz do problema: a deterioração do mercado imobiliário. Vemos todos os meses os preços dos imóveis despencarem sob a pressão da demanda reduzida e da oferta em alta, e esse quadro fez que os ativos lastreados nestes imóveis perdessem valor. Se a situação imobiliária não melhorar não há dinheiro que chegue para estancar o incêndio financeiro, e tanta liquidez vai permanecer nos cofres dos bancos incendiados não congelada, mas em vapor.
Em alguma medida Obama está indo além do óbvio e fazendo um gigantesco pacote de transferência de renda dos ricos para a classe média norte-americana. Além destes US$ 275 bilhões, outros US$ 300 bilhões estão em pauta via corte de impostos para as famílias e pequenos negócios. Este movimento – de transferência de renda – busca equilibrar as forças na sociedade norte-americana. Na década de 90 e início de século XXI, rendimentos financeiros ganharam força através de derivativos exóticos gerando uma acumulação de renda acentuada e, como vemos hoje, suicida. O pacote aos mutuário e à classe-média pode reorganizar as forças nesse sentido, e Obama é o homem certo na hora certa para fazer isso.
O plano é bom e correto, ma não é imediato nem dramático. É lento e gradual, e por isso mesmo – na nossa opinião – é que vai funcionar. Só espero que tenhamos todo esse tempo. Fantasmas do nacionalismo estão saindo da tumba, e em poucos momentos da história foi tão fácil ser populista. Isto sim é um perigo de fato.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: Barak Obama, bolsa-família, EUA, Greenspan chora