Que realidade é esta que tomou conta do país? Que sinistro joguete fizemos com o Deus das Coisas Escassas? Vendemos o nosso futuro por tão pouco? Eu tenho a incomoda sensação que caímos numa trágica armadilha invocada ainda no governo Itamar: o Plano Real. Esta armadilha consiste basicamente do fetiche ao próprio plano, num jogo de espelhos endiabrado. A pergunta que eu faço é essa: qual é o plano do Real, qual é sua força motora, e em que termos se mantêm?
O Real foi implementado com o objetivo primário de estabilização de preços. “Morte ao dragão!”, era o lema entoado como mantra a partir de Brasília. O Plano, uma elegante rasteira no componente inercial da inflação e nos indexadores herdados de planos frustrados, foi executado de forma magistral, passando quase sem dor pela sociedade brasileira. Qual outro país no mundo poderia operar, num mesmo dia, com três moedas diferentes em circulação (Cruzeiro Novo, URV e Real), sem entrar em convulsão monetária?
Uma vez implementado, o Real precisava de uma âncora, que prontamente foi fornecida: o câmbio. Mas o que é uma âncora? Estamos ancorando o que? E porque é tão importante a estabilização de preços? Vou começar pela última. A estabilização de preços é importante pois a moeda é fiduciária numa economia moderna, ou seja, uma moeda que perde seu poder de realizar-se em mercadoria mensalmente, em taxas muito altas, denúncia a fragilidade do estado que lastreia essa própria moeda. Penaliza o pobre que não consegue se defender do dragão, que deveria ser combatido, numa sociedade civilizada, pelo próprio estado que, no nosso caso, perdeu a credibilidade, deixando o miserável ao deus-dará.
Estamos ancorando o que? Respondo: um estado que faz água sem parar e está a deriva, pois não encontra consistência interna nas suas contas, devido as contradições da sua própria formação. A Constituição atrapalha (engessando o orçamento), a Previdência sufoca (em parte por sua má administração, em parte pela insistência das pessoas em envelhecerem), a política desanda (por nossa pobre tradição democrática e das nossas gentilezas tradicionais); entre tantos motivos, uns concretos, outros quase esotéricos.
Agora a primeira. O que é uma âncora? Uma âncora, meu caro Watson, ancora. Simples assim. Mas, ancora o quê? E por quê? A economia capitalista é um turbilhão. Todo dia a todo segundo, vende-se, compra-se, empresta-se, revende-se, leiloa-se; enfim, um sem fim de transações acontecem simultaneamente, simulando valores de uso (ou de trabalho) em moeda. E esta moeda, como disse, é o próprio Estado garantindo a validade da transação. Já que na inflação a moeda perde seu papel, fica a cargo da âncora fixar um ponto neste mar bravio, o qual todos os agentes econômicos (empresários, trabalhadores, bancos…) têm como Norte. Não importa o que acontecer, o estado garante que ali, naquele ponto, haverá estabilidade. Com isso espera que o selvagem oceano se comporte ao estabelecido ponto estacionário.
Só que estabilidade custa caro para quem está indo a pique. O estado gastou fábulas para manter o câmbio estável, captando dólar com uma taxa suicida de juros, através de aplicações de curto prazo de “investidores” “estrangeiros”. Chegamos até a deselegância de estabelecer uma banda diagonal endógena da taxa de câmbio, pura bruxaria econômica, na tentativa desesperada de manter o porto seguro dolarizado.
Com a flexibilização do câmbio outra âncora se fez necessária. E esta é fantástica, digna de menção honrosa. Agora a âncora que dá credibilidade a moeda é o próprio índice da variação da mesma. Ou seja, a inflação é guardiã de si própria através de um índice futuro desejado dela; o famigerado inflation target.
Mas, o que seria de uma âncora sem uma forte corrente prendendo-a ao barco? Em ambos os casos nos valemos da poderosa corrente da taxa de juros. O Real está desvalorizando? Aumenta os juros para entrar dólar! Estamos saindo do core da meta de inflação? Manda o BC reprimir o consumo com os juros reais mais altos do planeta! E do que são feitos os elos desta épica corrente? Da nossa infindável dívida pública. Estamos tirando metal do barco para forjar a rigidez necessária a corrente, e, com isso, deixamos o casco, já furado, ainda mais frágil.
Juros são coisa futura. Presente mesmo é o Estado Brasileiro. Porém, se o barco não pára de fazer água, abrimos mão de uma consistente estabilidade por um futuro remediado. O pior é que um Estado endividado nem sempre é ruim (quem não o for, que atire a primeira pedra), ruim mesmo é endividar-se por desespero. O Brasil não investe sua dívida, ele aplica.
E este é o bizarro Plano do Real. Um plano estéril de futuro, justamente porque o futuro esta acorrentando (e acorrentado) um barco que não tem prumo nem rumo. FHC fez o milagre, mostrou o santo e deixou a penitência para Lula, que navega desacordado num barco fantasma. E la nave va.
Fui ontem na manifestação anti-bush e pró-mulher no lugar-comum da avenida-símbolo da cidade-nação do país-tropical. Manifestações anti e pró são sempre hifenizadas, ainda mais nestes tempos de política via phrasal verbs americanos (que são um dos poucos povos que ainda sabem fazer política pra valer). Recusei-me ir de galera nas caravanas laboriosamente organizadas pelos militantes tradicionais. Sempre sinto cheiro de água parada nessas agremiações, e água parada é lugar onde mosquitos proliferam os seus e suas penitências.
Ontem estava sol. O céu gigante de azul e com poucas nuvens me convidou, de novo, a sentir saudades do Oswald. Pensei como é em tudo antropofágico estas manifestações anti-globalização. É o mesmo contra o mesmo mas sempre diferente. Dialética pequena mas altamente salutar essa revolução via banda-larga, programas-piratas e contra-corporação. Uso software pirata de uma multinacional para diagramar meu manifesto impresso numa copiadora que paga menos que o razoável a trabalhadores asiáticos.
Tudo muito junto, muito ao mesmo tempo. Por isso meu Oswald e trupe no seu manifesto.
Com isso na cabeça resolvi na oportunidade da visita de Cezar à minha cercania prestar minha homenagem ao pai-de-santo fundador da antropofagia brazuca: O Bispo Sardinha. Imprimi, como descrito, algumas bobagens requentadas e algumas felipetas novas e fui ao evento ventilar o que queria. Adicional a panfletagem fui a caráter: de padre ora pois. Fui de padre, se pergunta, porque não sou bispo. Quem sabe um dia. Mas mais que padre, bispo ou cardeal o que valeu a pena foi ver entre punks, policiais, feministas, comunistas e outros quase-algo a cara de espanto ao ver um padre manifestando e colando cartazes quase cristãos (veja abaixo). Se tenho horror à algo é a caretice, e nada mais careta do que uma camisa do Che ou do Seu Madruga. Crítica fácil e estampada industrialmente por confecções com trabalho semi-escravo de bolivianos na cidade que não pára.
Fui de padre, pois bem. Perambulei e colei.
Termino esse post mais tarde. Minha analista me espera e tenho certeza que a conversa vai ser longa, praticamente uma confissão.
Vídeo da repressão policial, casualidade direta da pressão ignóbil de setores da massa esclarecida da vanguarda revolucionária estudantil. Foi triste ver isso de perto, mais uma vez a incompetência da América Católica resiste.
Sei que à você, distinto leitor, sempre um lado favorece sua visão do mundo. Pode se filiar junto aos estudantes, ou aos policiais. O que me chocou nesse caso foi o descaso de ambos com a realidade dos fatos dados. Narro minha perspectiva clerical do evento.
Me concentrei junto com todos no Paraíso, extremo da Paulista, as 15 horas em ponto. A manifestação organizada e liderada pelos movimentos feministas estava a postos. Mulheres de todas as idades e classes davam à manifestação uma vibração energética, com batucada e a cor lilás (cor do movimento). Aos poucos a caravana se dirigiu conforme combinado em direção ao MASP, palco padrão das manifestações populares.
Ao longo da marcha perambulei pelos convivas evitando me fixar em qualquer bloco específico. Como disse no post anterior minhas intenções eram outras do que a manifestação organizada, por isso vôo solo.
Lá pelas tantas percebi que o grupo que liderava, das mulheres, havia chagado ao destino (MASP), e lá puxou o freio de mão a espera dos que sobravam caminhar. Lá pelos tantos vi um grupo de punks e outros exaltados invadindo a outra faixa de veículos. Pensei: vai dar merda. Pensei de novo: mas que novidade punks e outros radicais fazendo isso! Nunca tinha visto. Resolvi rezar em outra freguesia e fui direto para o vão livre do MASP. Tomar tiro de borracha só para gastar adrenalina não é comigo. Isso sublima muita energia e prefiro gastar este crédito em outra atividade.
Fui pro fundo do vão livre para fumar um cigarro e descansar um pouco as pernas. Quem não conhece essa área do MASP explico: é uma praça que a única saída é no sentido da avenida, para trás é um precipício que deságua na Av Nove de Julho. Pois bem. Na frente do MASP muitas mulheres, idosas e crianças esperavam a união dos blocos. Foi aí que a polícia de São Paulo mostrou como além de estúpida é mal preparada.
Com o intuito de reprimir a manifestação que havia perdido o controle (por conta de meia dúzia de gatos pingados) ela achou por bem pegar o manual e seguir a risca, ou seja: bomba de gás lacrimogêneo. Quando estourou as primeiras bombas aquela multidão de mulheres, senhoras e crianças correram para o fundo da praça com medo da confusão. Eu, vestido de padre, acudi uma senhora sem terra que precisava sentar. O precipício segurou a dispersão. Mas o pior ainda estava por vir. Após as bombas o genial comandante da operação jogou gás de pimenta que por ser gás flutua no ar e foi encanado pelo ar que encanava por debaixo do vão do MASP, indo em direção de quem? Das mulheres, idosas e crianças presas na beira do abismo. Adicional a esta cena dantesca tem um porém: gás pimenta não tem cor. Quando chegou ninguém viu, e quando vimos já era tarde de mais. A senhora que estava do meu lado começou a passar mal, eu não enxergava mais nada e o pânico se instalou. Afrouxei a gola da batina para tentar respirar melhor e reunir alguma visão para acudir a senhora. Peguei o pouco de água que tinha e joguei nos olhos e no rosto dela, tentando ajuda-la recobrar um pouco da mobilidade.
Foi um horror. Depois de passado o susto fiquei com muita raiva de todos ali. Policiais e estudantes. Não é possível a insensibilidade de todos com a tragédia óbvia. Os radicais que invadiram a outra faixa fizeram um ato de irresponsabilidade e egoísmo sem tamanho. Pensaram somente no próprio rabo e fuck the rest! Socialistas pra caralho! Já a polícia não tem nem a competência para verificar uma situação e arquitetar uma estratégia minimamente inteligente. Que eficiência!
Por essas e por outras que entrei no celibato. Uma manifestação que poderia ser maravilhosa, acabou um fiasco.
é de São Paulo. Economista, há algum tempo, e cineasta acidental. Está produzindo, filmando e editando seu 1º documentário: O Homem Vertical. O documentário…
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Sobre o projeto
Cansei de esperar. Fui lá. Este blog registra a maior aventura da minha vida: fazer um documentário sobre como se faz política neste país, sob o prisma de uma das figuras mais impactantes dos últimos tempos; o ex-deputado Roberto Jefferson. Também publico aqui artigos meussobre economia e comportamento. Coisas bestas, mas queridas...