“O Brasil quer mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar. Mudar para conquistar
o desenvolvimento econômico que hoje não temos e a justiça social que tanto
almejamos. Há em nosso país uma poderosa vontade popular de encerrar o atual
ciclo econômico e político.
Se em algum momento, ao longo dos anos 90, o atual modelo conseguiu
despertar esperanças de progresso econômico e social, hoje a decepção com os
seus resultados é enorme. Oito anos depois, o povo brasileiro faz o balanço e
verifica que as promessas fundamentais foram descumpridas e as esperanças
frustadas.
Nosso povo constata com pesar e indignação que a economia não cresceu e está
muito mais vulnerável, a soberania do país ficou em grande parte comprometida, a
corrupção continua alta e, principalmente, a crise social e a insegurança tornaramse
assustadoras.
O sentimento predominante em todas as classes e em todas as regiões é o de que
o atual modelo esgotou-se. Por isso, o país não pode insistir nesse caminho, sob
pena de ficar numa estagnação crônica ou até mesmo de sofrer, mais cedo ou
mais tarde, um colapso econômico, social e moral.
O mais importante, no entanto, é que essa percepção aguda do fracasso do atual
modelo não está conduzindo ao desânimo, ao negativismo, nem ao protesto
destrutivo. Ao contrário: apesar de todo o sofrimento injusto e desnecessário que é
obrigada a suportar, a população está esperançosa, acredita nas possibilidades do
país, mostra-se disposta a apoiar e a sustentar um projeto nacional alternativo,
que faça o Brasil voltar a crescer, a gerar empregos, a reduzir a criminalidade, a
resgatar nossa presença soberana e respeitada no mundo.
A sociedade está convencida de que o Brasil continua vulnerável e de que a
verdadeira estabilidade precisa ser construída por meio de corajosas e cuidadosas
mudanças que os responsáveis pelo atual modelo não querem absolutamente
fazer. A nítida preferência popular pelos candidatos de oposição que tem esse
conteúdo de superação do impasse histórico nacional em que caímos, de correção
dos rumos do país.
A crescente adesão à nossa candidatura assume cada vez mais o caráter de um
movimento em defesa do Brasil, de nossos direitos e anseios fundamentais
enquanto nação independente. Lideranças populares, intelectuais, artistas e
religiosos dos mais variados matizes ideológicos declaram espontaneamente seu
apoio a um projeto de mudança do Brasil. Prefeitos e parlamentares de partidos
não coligados com o PT anunciam seu apoio. Parcelas significativas do
empresariado vêm somar-se ao nosso projeto. Trata-se de uma vasta coalizão,
em muitos aspectos suprapartidária, que busca abrir novos horizontes para o país.
O povo brasileiro quer mudar para valer. Recusa qualquer forma de continuísmo,
seja ele assumido ou mascarado. Quer trilhar o caminho da redução de nossa
vulnerabilidade externa pelo esforço conjugado de exportar mais e de criar um
amplo mercado interno de consumo de massas. Quer abrir o caminho de combinar
o incremento da atividade econômica com políticas sociais consistentes e
criativas. O caminho das reformas estruturais que de fato democratizem e
modernizem o país, tornando-o mais justo, eficiente e, ao mesmo tempo, mais
competitivo no mercado internacional. O caminho da reforma tributária, que
desonere a produção. Da reforma agrária que assegure a paz no campo. Da
redução de nossas carências energéticas e de nosso déficit habitacional. Da
reforma previdenciária, da reforma trabalhista e de programas prioritários contra a
fome e a insegurança pública.
O PT e seus parceiros têm plena consciência de que a superação do atual
modelo, reclamada enfaticamente pela sociedade, não se fará num passe de
mágica, de um dia par ao outro. Não há milagres na vida de um povo e de um
país.
Será necessária uma lúcida e criteriosa transição entre o que temos hoje e aquilo
que a sociedade reivindica. O que se desfez ou se deixou de fazer em oito anos
não será compensado em oito dias. O novo modelo não poderá ser produto de
decisões unilaterais do governo, tal como ocorre hoje, nem será implementado por
decreto, de modo voluntarista. Será fruto de uma ampla negociação nacional, que
deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país, a um novo contrato social, capaz
de assegurar o crescimento com estabilidade.
Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações
do país. As recentes turbulências do mercado financeiro devem ser
compreendidas nesse contexto de fragilidade do atual modelo e de clamor popular
pela sua superação.
À parte manobras puramente especulativas, que sem dúvida existem, o que há é
uma forte preocupação do mercado financeiro com o mau desempenho da
economia e com sua fragilidade atual, gerando temores relativos à capacidade de
o país administrar sua dívida interna e externa. É o enorme endividamento público
acumulado no governo Fernando Henrique Cardoso que preocupa os investidores.
Trata-se de uma crise de confiança na situação econômica do país, cuja
responsabilidade primeira é do atual governo. Por mais que o governo insista, o
nervosismo dos mercados e a especulação dos últimos dias não nascem das
eleições.
Nascem, sim, da graves vulnerabilidades estruturais da economia apresentadas
pelo governo, de modo totalitário, como o único caminho possível para o Brasil Na
verdade, há diversos países estáveis e competitivos no mundo que adotaram
outras alternativas.
Não importa a quem a crise beneficia ou prejudica eleitoralmente, pois ela
prejudica o Brasil. O que importa é que ela precisa ser evitada, pois causará
sofrimento irreparável para a maioria da população. Para evitá-la, é preciso
compreender que a margem de manobra da política econômica no curto prazo é
pequena.
O Banco Central acumulou um conjunto de equívocos que trouxeram perdas às
aplicações financeiras de inúmeras famílias. Investidores não especulativos, que
precisam de horizontes claros, ficaram intranqüilos. E os especuladores saíram à
luz do dia, para pescar em águas turvas.
Que segurança o governo tem oferecido à sociedade brasileira? Tentou
aproveitar-se da crise para ganhar alguns votos e, mais uma vez, desqualificar as
oposições, num momento em que é necessário tranqüilidade e compromisso com
o Brasil.
Como todos os brasileiros, quero a verdade completa. Acredito que o atual
governo colocou o país novamente em um impasse. Lembrem-se todos: em 1998,
o governo, para não admitir o fracasso do seu populismo cambial, escondeu uma
informação decisiva. A de que o real estava artificialmente valorizado e de que o
país estava sujeito a um ataque especulativo de proporções inéditas.
Estamos de novo atravessando um cenário semelhante. Substituímos o populismo
cambial pela vulnerabilidade da âncora fiscal. O caminho para superar a
fragilidade das finanças públicas é aumentar e melhorar a qualidade das
exportações e promover uma substituição competitiva de importações no curto
prazo.
Aqui ganha toda a sua dimensão de uma política dirigida a valorizar o agronegócio
e a agricultura familiar. A reforma tributária, a política alfandegária, os
investimentos em infra-estrutura e as fontes de financiamento públicas devem ser
canalizadas com absoluta prioridade para gerar divisas.
Nossa política externa deve ser reorientada para esse imenso desafio de
promover nossos interesses comerciais e remover graves obstáculos impostos
pelos países mais ricos às nações em desenvolvimento.
Estamos conscientes da gravidade da crise econômica. Para resolvê-la, o PT está
disposto a dialogar com todos os segmentos da sociedade e com o próprio
governo, de modo a evitar que a crise se agrave e traga mais aflição ao povo
brasileiro.
Superando a nossa vulnerabilidade externa, poderemos reduzir de forma
sustentada a taxa de juros. Poderemos recuperar a capacidade de investimento
público tão importante para alavancar o crescimento econômico.
Esse é o melhor caminho para que os contratos sejam honrados e o país recupere
a liberdade de sua política econômica orientada para o desenvolvimento
sustentável.
Ninguém precisa me ensinar a importância do controle da inflação. Iniciei minha
vida sindical indignado com o processo de corrosão do poder de comprar dos
salários dos trabalhadores.
Quero agora reafirmar esse compromisso histórico com o combate à inflação, mas
acompanhado do crescimento, da geração de empregos e da distribuição de
renda, construindo um Brasil mais solidário e fraterno, um Brasil de todos.
A volta do crescimento é o único remédio para impedir que se perpetue um círculo
vicioso entre metas de inflação baixas, juro alto, oscilação cambial brusca e
aumento da dívida pública.
O atual governo estabeleceu um equilíbrio fiscal precário no país, criando
dificuldades para a retomada do crescimento. Com a política de sobrevalorização
artificial de nossa moeda no primeiro mandato e com a ausência de políticas
industriais de estímulo à capacidade produtiva, o governo não trabalhou como
podia para aumentar a competitividade da economia.
Exemplo maior foi o fracasso na construção e aprovação de uma reforma tributária
que banisse o caráter regressivo e cumulativo dos impostos, fardo insuportável
para o setor produtivo e para a exportação brasileira.
A questão de fundo é que, para nós, o equilíbrio fiscal não é um fim, mas um meio.
Queremos equilíbrio fiscal para crescer e não apenas para prestar contas aos
nossos credores.
Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a
dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar
os seus compromissos.
Mas é preciso insistir: só a volta do crescimento pode levar o país a contar com
um equilíbrio fiscal consistente e duradouro. A estabilidade, o controle das contas
públicas e da inflação são hoje um patrimônio de todos os brasileiros. Não são um
bem exclusivo do atual governo, pois foram obtidos com uma grande carga de
sacrifícios, especialmente dos mais necessitados.
O desenvolvimento de nosso imenso mercado pode revitalizar e impulsionar o
conjunto da economia, ampliando de forma decisiva o espaço da pequena e da
microempresa, oferecendo ainda bases sólidas par ampliar as exportações. Para
esse fim, é fundamentar a criação de uma Secretaria Extraordinária de Comércio
Exterior, diretamente vinculada à Presidência da República.
Há outro caminho possível. É o caminho do crescimento econômico com
estabilidade e responsabilidade social. As mudanças que forem necessárias serão
feitas democraticamente, dentro dos marcos institucionais. Vamos ordenar as
contas públicas e mantê-las sob controle. Mas, acima de tudo, vamos fazer um
Compromisso pela Produção, pelo emprego e por justiça social.
O que nos move é a certeza de que o Brasil é bem maior que todas as crises. O
país não suporta mais conviver com a idéia de uma terceira década perdidas. O
Brasil precisa navegar no mar aberto do desenvolvimento econômico e social. É
com essa convicção que chamo todos os que querem o bem do Brasil a se unirem
em torno de um programa de mudanças corajosas e responsáveis.
Luiz Inácio Lula da Silva
São Paulo, 22 de junho de 2002″
“Não acredite em tudo que você ouve no rádio”, alertava o protagonista de Cidadão Kane logo no início do clássico do cineasta Orson Welles. Ele sabia muito bem o que estava dizendo. Welles já havia deixado os Estados Unidos em pânico com a transmissão radiofônica de uma suposta invasão de marcianos, na verdade uma paródia baseada no livro A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells.
Mas, como dizia o filósofo Moreira da Silva, “malandro é malandro, mané é mané”. Quase 70 anos depois da famosa brincadeira de Welles, há quem continue a cair nesse tipo de “pegadinha”. A última vítima foi o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM). Em discurso contundente e preocupado, o parlamentar alertou os colegas de Senado e o País das más intenções da empresa Arkhos Biotech, do setor farmacêutico. A companhia, relatou Virgílio, havia lançado campanha para privatizar a Amazônia.
O argumento da Arkhos seria que os países sul-americanos simplesmente não conseguem preservar a floresta tropical, logo os ricos do mundo deveriam comprar a Amazônia no intuito de salvá-la antes que seja tarde demais. A indústria até lançou um vídeo, disponível na internet, para arregimentar mais milionários para a causa. Para assistir ao vídeo da campanha, basta acessar o site YouTube e procurar pela Arkhos Biotech ou ir direto à página virtual da empresa (www.arkhosbiotech.com).
A suposta campanha para comprar a Amazônia irritou Virgílio e outros colegas que responderam com indignação ao projeto da companhia estrangeira. A mais exaltada foi a deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC), que entrou com um requerimento na mesa diretora da Câmara a solicitar que o Ministério da Justiça descubra o responsável pelo vídeo.
Virgílio e Perpétua, como diletos representantes do povo, agiram em nome da soberania nacional, certo? Tudo bem, se a história não fosse mera ficção. Não existe nenhuma Arkhos Biotech, muito menos um projeto de privatização da Amazônia. Tudo não passou de mais um dos incontáveis chistes que circulam na rede mundial de computadores.
O senador tucano foi avisado por um jornalista dois dias depois do discurso que a empresa farmacêutica em questão não existia de verdade, mas que era apenas parte de um jogo. Em nota, Virgílio diz que reagiu com bom humor à gafe que cometeu no plenário do Senado, mas reitera que o perigo de perder a Amazônia é bem real.
Segundo um assessor do parlamentar, o mal-entendido foi gerado a partir de uma notícia publicada na Agência Amazônia de Notícias (www.agenciaamazonia.com.br),
que registrou como verdade a história. Como acontece nesse tipo de boato, as versões, à medida que eram espalhadas, ganhavam contornos mais coloridos, até desembocarem no discurso de Virgílio e nas reações indignadas no Congresso. Surpreende não ter sido feita nenhuma apuração mais séria do caso, o que demonstra a fragilidade e a qualidade das informações usadas por nossos parlamentares, algo tão ou mais preocupante que a compra da floresta tropical por grupos estrangeiros.
Após o incidente, um diretor da fabricante de bebidas AmBev, patrocinadora do jogo, entrou em contato com Virgílio e explicou do que se tratava. O tal jogo é, na verdade, uma ação de marketing da AmBev que tem como objetivo estimular a reflexão sobre a preservação ecológica no Brasil. A Arkhos Biotech é a vilã da história e o herói um biólogo chamado Miro Bittencourt, seqüestrado pela indústria farmacêutica. Para saber sobre a aventura, acesse o site www.zonaincerta.com . Lá é possível reunir as primeiras peças do mistério. Virgílio foi convidado a participar da segunda fase do jogo, quando haverá a defesa da floresta e dos interesses nacionais. O convite ainda não foi aceito formalmente, informa a assessoria do senador.
Mas que jogos são esses a envolver sites fictícios na internet, empresas de mentira e supostos seqüestros de biólogos? Eles são conhecidos como ARG, sigla em inglês para Jogos de Realidade Alternativa, grande sucesso em todo o mundo. Multinacionais têm desenvolvido campanhas de marketing baseadas em ARGs. A mais famosa é The Lost Experience, na qual os telespectadores da badalada série de tevê interagem para descobrir novas pistas do seriado. É provável que a maioria dos usuários de internet tenha visto alguma “peça” desse jogo sem ter se dado conta.
“Tudo isso é muito novo, não há formato definido, estamos testando”, comenta Rafael Kenski, autor de alguns ARGs. Ele define os jogos como uma experiência de imersão, na qual o participante é convidado a interagir com as mais diferentes mídias e plataformas em busca de respostas a um enigma.
Em português claro, é como se fosse uma enorme gincana. Só que uma gincana em que quase tudo vale e cuja duração pode atravessar meses ou anos. As pistas são colocadas nos lugares mais incomuns, seja dentro de uma garrafa na praia ou em um grafite em um muro qualquer da cidade. Os jogadores acumulam as informações e conseguem montar o panorama geral da história, até chegar à conclusão.
O principal do jogo é justamente a história. Há quem diga que os ARGs são uma nova forma de narrativa em que os próprios jogadores interagem a cada novo passo. “É como se você escrevesse um livro, mas antes de terminar uma página os leitores opinassem e a alterassem”, diz Kenski.
Guilherme Coube desenvolveu o primeiro ARG da MTV Brasil (o segundo está em fase de produção) e concorda com essa visão. “É um jeito muito peculiar de contar uma história”, diz. “Não é linear nem a fonte da história está concentrada num lugar só, está toda espalhada, a ponto de você entrar em dúvida se isso faz parte ou não.” O ARG cria um universo próprio, onde se desenvolve a história, mas utiliza meios reais para contá-la.
Os limites entre realidade e ficção são estreitados. Um exemplo. Alguém pode estar checando o e-mail e, de repente, receber uma mensagem com pedido de auxílio para decifrar um enigma Maia encontrado numa pirâmide recentemente descoberta no Ceará. Se quiser entender mais sobre a misteriosa mensagem, pronto, estará no jogo. O objetivo, porém, não é ludibriar o jogador, mas instigá-lo. No caso da suposta empresa farmacêutica, Arkhos Biotech, e o plano mirabolante de comprar a Amazônia, uma simples busca em sites como o Google iria demonstrar a verdadeira origem da empresa: ficcional.
Um aspecto interessante do ARG é a possibilidade de gerar discussão em torno de pontos específicos e da trama da história. Ao longo da experiência, os participantes são convidados a resolver uma série de tarefas ou quebra-cabeças que dificilmente um jogador teria condições de decifrar sozinho. Isso leva à interação e à formação de comunidades, o que, em tese, pode estimular debates a respeito dos temas propostos.
A suposta privatização da Amazônia por uma empresa farmacêutica estrangeira gerou um sem-número de discussões acaloradas entre os participantes, e, sem dúvida, atingiu um dos objetivos dos criadores do jogo: pensar o futuro da floresta. É só ver no Orkut as comunidades criadas em torno do ARG. O tema certamente foi escolhido pela AmBev por ser atual e polêmico.
Resta uma lição do episódio: não acredite em tudo que você ouve e lê. Ou acredite, mas preste bem atenção antes de tomar uma atitude.
Meti-me numa encrenca das boas. Dessas que só acreditava existir em filmes de detetive, ou em conspirações internacionais. Uma breve introdução. Lembram do Roberto? O Jefferson? Então. Quando estourou a crise chamada de mensalão fiquei fascinado pela figura do parlamentar. E quem não ficou? O Brasil inteiro congelou na frente da TV esperando algo que ninguém sabia o que era. Alguns esperavam a verdade, outros mais mentiras; e eu não esperava nada, mas sentia falta de tudo. Roberto Jefferson surgiu para mim como uma esfinge: decifra-me, ou devoro-te! Sussurrou.
Era um apelo irresistível, não me controlei. Entrei na Internet, acessei o google e digitei: Endereço, Roberto, Jefferson, Brasília. O endereço pipocou na tela. Abri o Word e escrevi: deputado, meu nome é André Perfeito, o senhor quer falar muito sobre a política brasileira e eu quero ouvir muito sobre isso, gostaria de gravar uma entrevista sobre suas denúncias . Na época existia aquela onda sobre as aulas de canto que ele freqëntava. Então baixei algumas óperas na internet e na faixa do Poderoso Chefão gravei minha voz por cima, dizendo: deputado, meu nome é André Perfeito…
No dia seguinte mandei via Sedex o malote ao endereço mencionado. Não tinha muitas esperanças de respostas, mas minha obsessão com a crise era tanta que nem me importei. Mas o impensado aconteceu, recebi um e-mail do deputado mostrando interesse no projeto. Não pestanejei, me mandei para Brasília com a Marina Veiga, colega de faculdade, com pouco dinheiro e uma câmera digital emprestada. Desde então venho gravando entrevistas com políticos sobre o seguinte tema: como se faz política no Brasil? Nestes tempos de internet banda larga e permuta de publicidade, resolvi montar o blog do projeto: www.ohomemvertical.blogspot.com
Só que quanto mais eu sei, quanto mais eu pergunto sempre me falta mais. Os depoimentos até então me levam cada vez mais para um beco sem saída, e no final do beco mais uma saída para outro beco sem saída. Vou expor aqui algumas passagens na esperança de conseguir alguma resposta.
Entro no escritório de ACM. Lá pelas tantas da entrevista ele dispara: “… que não poderia haver escola melhor que o Senado da República. Porque nós temos bons e maus, mas o que se aprende até com os maus é muito bom.”. Congelei. O que ele queria dizer com isso? Que política é uma atividade amoral? Mais adiante ele aponta uma saída: “… a política é exercida pelos maus políticos, mas a política é uma escola fantástica para a vida.”.
E eu achando que o Roberto era misterioso.
Para conseguir entender o que o senador havia dito fiz um exercício radical. Primeiro tentei esquecer tudo o que havia aprendido na minha escola católica. Dificilmente isso iria me ajudar aqui. Segundo, por mais chocante que fossem as afirmações teria que fugir de interpretações moralistas. Achar que ACM era um mau político só me faria perder o real significado das suas palavras. Gosto de pensar essas entrevistas que faço como um documentário sobre os vilões de Gotham City. Os vilões sempre são mais complexos e sinceros que os heróis. Os heróis são de uma simplicidade rasa, e no mais das vezes seu heroísmo é puro ressentimento. Os vilões não! Suas vidas, geralmente sofridas, os levaram a conclusões muito particulares do que é estar vivo, e agem sem pudores segundo suas convicções. Quero investigar a psique destes, sem julgar seus atos. Quero entendê-los. Só assim posso me livrar da maldição da esfinge.
A dúvida não acaba: como se faz política no Brasil?
Como bem disse Roberto: “Não sou ator. Não venho aqui desempenhar o papel do herói, porque não sou. Não sou melhor do que nenhuma das senhoras. Não sou melhor do que nenhum dos senhores.”. E Raul Seixas emenda: “Eu não sou besta pra tirar onda de herói sou vacinado…”.
Reescrevo o que sinto da fala de ACM: Meu filho, viver é difícil, cheio de armadilhas e ilusões. A vida é um campo de batalha onde somente os mais fortes e aptos podem sobreviver. Um bom político, idealista ou romântico é presa fácil nessa selva tropical. No entanto não há maldade nisso. É natural essa seleção e temos que aceitar com naturalidade os desígnios da vida. A vida é assim, ponto. E não é só a política que age dessa forma, qualquer área da sua vida é assim também. No amor, na empresa, no clube… Aceite isso.
Talvez o pior seja que eu já soubesse disso.
Olho a sala ao redor, e fico petrificado. Todas as paredes tinham foto de Luis Eduardo. Numa delas, ao lado de um estante de livros, havia um busto de bronze do filho. Tive compaixão pelo senador e acredito que entendi suas palavras.
A política entristece. Todos os políticos que entrevistei são pessoas brutalizadas. Medem tudo, pensam tudo, sentem muito pouco. O Roberto Jefferson é prova disso. Na entrevista no Roda Viva, alguém perguntou: sua vida mudou depois do escândalo? Ele respondeu; perdi a espontaneidade. Não quero dizer que são insensíveis, não é isso. Seria muito simples se fossem simplesmente insensíveis. São tão humanos quanto eu ou você. Porém, como o Roberto diz – sou igual ao índio: peito aberto, faca nos dentes, machadinha na mão. Se caio, caio em pé!
Quase não conheço o Roberto, e tudo por culpa do Lupicínio Rodrigues. Na véspera da entrevista marcada um armário cai na cara do deputado e deixou o olho dele roxo. Como a vida não carece de ironia o motivo do acidente foi a música Nervos de Aço, cujo disco estava no armário. A secretária tentou desmarcar a entrevista mas insisti. Já estava em Brasília, mais precisamente no hall de entrada do apartamento dele. Acabou me recebendo. Quando entrei meu coração quase sai pela boca, encontro o deputado sentado no sofá com um saco enorme de gelo no rosto. Pensei: tô frito. Realmente era impossível gravar a entrevista com o olho daquele jeito. Ele sentia muita dor, mas mesmo assim batemos um papo de mais de uma hora.
Fui ao escritório dele no Rio de Janeiro. Era um prédio no centro, velho, desses que parecem escritório de detetive particular. Realmente estava em Gotham City. Ao entrar, o que eu vejo perto da porta para meu total espanto? A estatueta de um índio! E era um índio que me lembrava àqueles de tabacaria americana.
Logo no começo me disse: “… deixa falar uma coisa a você André, há muitas concessões que são feitas na política. Caixa 2 é uma concessão; é irregular, é ilegal. Não tem perdão, é irregular. Mas ela não é tão grave, o financiamento de campanha não é tão grave no caixa 2, porque o caixa 2 financia igreja, o caixa 2 financia evento esportivo, o caixa 2 financia o carnaval, as festas; tudo isso sai por fora. São recursos não declarados.”.
Então quer dizer que corruptos somos nós? Acho que ele quis dizer exatamente isso. Claro que isso faz parte da sua retórica de defesa, mas como retórica o argumento só funciona porque é muito próximo da verdade. O que ele diz tem poder porque é muito verdadeiro. É verdade sim que neste país se pratica caixa 2 indiscriminadamente por toda a sociedade. Ou por informalidade menor (a mercearia da esquina), e até em palácios neoclássicos de consumo de luxo.
Cabe dizer que nesta trama há um conflito claro: Roberto Jefferson versus José Dirceu. Fui atrás de Dirceu para saber o que este pensava daquele. O primeiro havia declarado que aquele despertava nele os instintos mais primitivos. Acreditava que Dirceu deveria sentir algo do mesmo quilate; afinal de contas Jefferson o havia arrastado para uma crise que o expulsou da vida política institucional do país até seu septuagésimo aniversário.
O que ele achava de Roberto? Ele me disse: “não acho nada, não sei porque vocês ainda falam dele.”. Mas como assim?, pensei. Nem uma gota de raiva, nem um pouco de ódio? O semblante de Dirceu estava sereno, repito. Não sei por que ele respondeu isso, ainda não decifrei. Deixo este enigma para os senhores da platéia. Só consigo pensar que a política brutaliza, entristece.
Fica a dúvida. Será que sempre fui atrás dos vilões errados? Será a esfinge está em outro lugar? Volto ao beco sem saída. Chove. Corro entre as latas de lixo e os mendigos espalhados. Atrás de mim Coringa, Pingüim, Charada e a Mulher Gato dão risadas cada vez mais altas. Vejo no fim do beco uma pessoa. Eu paro. Olho melhor até a figura focar. Eu acho que é o Sérgio Buarque de Holanda. Isso! É ele! Corro freneticamente em sua direção só pensando numa coisa; como se faz política no Brasil?
é de São Paulo. Economista, há algum tempo, e cineasta acidental. Está produzindo, filmando e editando seu 1º documentário: O Homem Vertical. O documentário…
Publicidade
Sobre o projeto
Cansei de esperar. Fui lá. Este blog registra a maior aventura da minha vida: fazer um documentário sobre como se faz política neste país, sob o prisma de uma das figuras mais impactantes dos últimos tempos; o ex-deputado Roberto Jefferson. Também publico aqui artigos meussobre economia e comportamento. Coisas bestas, mas queridas...