Os dois lados da moeda.
A desaceleração econômica é um fato corrente nestes últimos meses e, apesar de melhoras marginais, estamos ainda longe de qualquer volta à um período pré-estouro da bolha imobiliária. Podemos ver este fenômeno se manifestar de formas diversas; na produção industrial, nas vendas no varejo ou mesmo no nível de emprego.
A Produção Industrial da Inglaterra divulgada hoje, por exemplo, faz coro com esta leitura de queda econômica. Veio melhor que as expectativas de mercado, mas isto não quer dizer – de forma alguma – que estas expectativas eram boas. A produção inglesa retrocedeu 12,4% ao ano e reforça os sinais já emitidos anteriormente pela economia da ilha.
Existem várias formas de “medir o pulso” da economia mundial, mas hoje uma feliz coincidência de agendas econômicas nos brindou com um sinal claro do desaquecimento mundial. Estamos nos referindo à evolução do comércio mundial, tema especialmente sensível à economia brasileira.
Foram divulgados os resultados das Balanças Comerciais dos EUA e da China, os dois lados da moeda global e fiéis depositários da esperança na recuperação econômica mundial. O resultado é simétrico e esperado: diminuição do déficit de um em compasso com a diminuição do superávit do outro, ambos convergindo para o zero do nível.
Numa perspectiva de longo prazo poderia se argumentar que a diminuição do déficit comercial norte-americano é algo saudável, uma vez que traz sanidade às contas públicas daquele país. Porém este argumento ignora que o mundo desde o pós-guerra é calcado na demanda norte-americana por bens e serviços, e mudar este fluxo da circulação mundial é algo novo e que deve ser pensado em perspectiva, ponderando entre outras coisas o papel do dólar como moeda mundial, tema que está em voga nos círculos acadêmicos (de forma escancarada ou não).
Do lado chinês podemos ver na queda do superávit uma situação duplamente perigosa. Mostra que o motor do mundo na última década desacelerou, e – ainda pior – saldos comerciais chineses menores representam um impacto futuro para o financiamento da dívida norte-americana que, apesar da redução do déficit comercial, está em franca expansão por conta da política fiscal expansionista (hoje, às 15:00, será divulgado o orçamento norte-americano e mais recordes de gastos são esperados).
No que concerne propriamente ao nosso quintal, nos preocupa a evolução das importações chinesas, uma vez que o gigante asiático caminha à passos largos para se tornar nosso principal cliente. As importações daquele país recuaram 23% em 12 meses, acendendo a luz amarela no nosso setor externo (que por uma combinação preciosa de exportações com leve recuperação, e importação em declínio, apresenta bem-vindos saldos positivos).
Alguns economistas externaram nos últimos meses a expectativa que a economia chinesa em aceleração poderia aliviar a situação brasileira no curto e médio prazo, fazendo barreira à tsunami mundial. Esta leitura precisa ainda de confirmação mais profunda dos dados econômicos e não devemos imaginar que estamos insulados da tormenta econômica. Seria naíve da nossa parte nos entregarmos ao otimismo neste momento.
É bem verdade que o Brasil está numa situação atípica; onde gozamos de uma situação externa relativamente confortável (reservas em alta, superávit comercial e, agora, o Real que volta a se valorizar), e interna tranqüila (inflação sob controle e com perspectiva de quedas continuadas na taxa de juros básica, o que reforça uma expectativa de crescimento no médio prazo).
Porém o jogo das superpotências ainda está em andamento e o casamento deste déficit e deste superávit é uma relação delicada e ainda indefinida. Só esperamos que ambos os lados da moeda não caiam, ao mesmo tempo, com a face para baixo.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: cara coroa, china, EUA, moeda




E daí que mais gastos são esperados?! O mundo está correndo risco de deflação e não de inflação!? O que o governo americano deveria fazer? aumentar a taxa de juros!?
E outra… os teus gráficos vem até janeiro desse ano, e nós já estamos em maio, e muita aguá já passou por debaixo da ponte desde então ( a china por exemplo deu um puxão forte na importações nas ultimas semanas ). Se vc tivesse soltado esse artigo em fevereiro, vá lá … tirando essa crítica absurda ao gasto do governo no momento em que a crise de liquidez é o problema ( janeiro de 2009, ou seja, até onde o seu gráfico vai ).
Aliás … o que esperar do superávit chines até janeiro qdo o comércio mundial parou pela escacess de liquides?! A solução tomada pra isso foi justamente injetar dinheiro na economia, e agora o Sr. vem me criticar o gasto do governo … pior, tenta pintar isso como se fosse a origem do mal! faça-me o favor!!!
O real se valorizar é situação confortável? Gostaria de saber pra quem …
Desculpe senhor perfeito, mas ou o Sr. está desatualizado, ou está querendo fazer o leitor de idiota!
Olá Ney
O gráfico vai até abril, no eixo é que parece até janeiro, uma escolha padrão do excel quando faz gráficos. Tem razão, blame on me.
Quanto ao resto, e sua falta de modos, tenho pouco a dizer. O texto já é bastante claro. Poderia ter sido mais sintético, mas não acho meu leitor idiota, acredito na capacidade das pessoas em lerem o que digo.
O Real valorizado, como falo no texto, alivia pressões inflacionárias externas o que, por sua vez, aumenta a probabilidade de queda nos juros. E essa queda continuada nos juros será benéfico ao país.
Em relação aos déficits (fiscal e comercial) dos EUA a questão é simples: quem vai financiar o aumento dos gastos? As implicações de uma reposta à essa pergunta são enormes. Coloca em cheque atyé mesmo o padrão dólar na economia internacional.
Acredite. Não quero fazer o leitor de idiota, mas também não vou “facilitar” as coisas demais para que qualquer idiota entenda.
Como dizem por aí: para meio entendedor, boa palavra basta.
Abs
André
Pressão inflacionária agora quando o risco é de deflação?!? Interessante! Qual é a [pressão oinflacionária agora?! O aumento do imposto do cigarro?!
Quanto ao financiamento dos déficts: Como disse o diretor do Instituto economico de Munique a duas semanas ao Der Spiegel ” A solução é imprimir dinheiro “. Agora se vc acha isso uma eresia por não estar no manual do liberal seguidor do Milton Friedman … well. Financiar o aumento dos gastos agora não é o problema, ainda mais por que o Dolar contina sendo moeda internacional. Agora, se se deixar a economia deflacionar … ai meu querido … é que a porca torce o rabo!
Fora isso… e eu achei que qq idiota conseguia usar uma planilha do Exxel … talvez a microsoft devesse “facilitar” ainda mais as coisas.
Abraço
Já que você me chamou de idiota, o que deve ser típico do seu senso de humor questionável, retruco com algum bom humor britânico
Sobre o excel já reconheci o erro, se bem que não houve má fé, os dados estão lá. Enfim…
Sobre o “diretor-do-instituto-econômico-de-Munique”, seja la´quem seja, até que concordo, se bem que aspas são mais que necessárias neste tipo de afirmação, por que senão uma pessoa menos esclarecida pode achar que é só imprimir dinheiro que “nossos problemas acabaram”.
Se você soubesse minha formação como economista saberia, se caso lhe interessasse, que rezo sob outra cartilha. Se bem que vivo em pecado, flertando lá e cá com n correntes, numa orgia intelectual infernal. Coisas de um neo-libertino, nunca de um neo-liberal. Logo sua citação sobre o Friedman foi desprovida de maior profundidade a não ser deixar claro que você conhece este economista .
Concordo contigo que não há perigo de inflação (se você ler meus outros posts vai ver que tenho falado isso há algum tempo), a questão é que, tradicionalmente, altas do dólar acabam transmitindo inflação para o consumidor no país (o famoso Carry Over), e se é verdade que o momento é de deflação, não é menos verdade que o trigo – só para falar de pão – nunca mais voltou ao patamar de 2006, onde era cotado a US$ 460. Hoje está em US$ 530. Logo há aulgum risco de diminuição de renda real do trabalhador, mas esta hipótese para mim é distante.
Quem olha o dólar, e vê inflação, não sou eu: é o Banco Central da República Federativa do Brasil, que também atende pela alcunha de BC ou Bacen. Logo se o dólar cai é mais provável que aquele grupo de economistas que trabalham no BC ache adequado a Selic cair. Era simples assim o que eu queria dizer, mas pelo visto você não entendeu…
Forte abraço, e cordiais saudações.
Ney,
Na boa!!
Escassess de liquidesss não dá!! Volta para escola!!!
Os governos dos EUA e de diversos paises europeus injetam altissimos volumes de recursos para salvar os bancos e montadoras a fim de saneá-las financeiramente. Mesmo assim, a quebradeira continua, e os mais prejudicados são os empregados dessas empresas cujos ganhos não cessam parcialmente, e sim completamente. Fica então a dúvida: Será que ao invés de colocar dinheiro nesses projetos falidos, não seria mais barato e mais produtivo repassar esse dinheiro diretamente para os trabalhadores, para que desse modo possam surgir novos projetos e novas empresas mais adequadas ao novo tempo???
Olá André, congratulações pela matéria, neste momento de indefinição do rumo da crise é preciso limpar a area e encarar o x da questão, o essencial, infelizmente o que vc. demonstrou, considerando que a redução do defict dos EUA não se dá pela via do aumento das exportações, permite dizer que ainda temos muito a esperar. Enquanto isso, seria interessante obter mais informações sobre o limite do tesouro americano em emitir dólares para sanear bancos e empresas, não há risco de um solavanco inflacionário? Quanto a China é possível uma alternativa fora do dólar, o que está sendo pensado nos circulos acadêmicos quanto a uma nova moeda mundial?
Olá Dori
Existe perigo de inflação lá na frente uma vez que os EUA estão inundando o mundo de dólar? É claro que sim. Tanto é que muita gente já está especulando sobre essa possível inflação futura.
Uma vez que a economia volte a funcionar este excesso de liquidez pode se transformar em inflação. Qual a solução então? Os EUA aumentariam a taxa de juros para “enxugar” a liquidez existente.
A lógica é simples: ao aumentar os juros os agentes compram títulos públicos. O governo pega esses recursos e deixa “fora do circuito econômico”, ou seja, fica guardado no BC e fora da circulação monetária. É assim que o BC enxuga este excesso de dinheiro.
Então quer dizer que o FED vai estourar os juros em alguns anos e jogar a economia mundial num período de crescimento baixo, tal qual foi na década de 80? Nós lembramos bem do efeito terrível que o aumento na taxa de juros dos EUA fez no Brasil no período: a crise da dívida externa.
Não necessariamente o FED vai fazer isso. Se ele simplesmente retirar algumas vantagens que foram feitas ao longo dos últimos meses, o efeito seria análogo.
Não duvído que o dólar continue sendo a moeda mundial por ainda algum tempo. Simplesmente não existe moeda tão forte quanto a deles no mundo no momento (seja por conta da eficiência da sua economia, da inventividade dos seus empresários ou mesmo por conta do poderio militar).
Talvez a solução mais adequada é um meio termo, onde o FMI tenha um papel mais decisivo no fornecimento de liquidez mundial, evitando maiores traumas nas contas externas dos países menos “fortes”, e evitando assim o funcionamento da economia abaixo do pleno emprego de forma desnecessária.
Abs
Os EUA programaram um estouro de boiada nível 2 mas ele foi de nível 5 e eles não sabem como recolher os bois.
Oi Paulo Arthur …
Putz … bem que eu gostaria (rs) mas não dá tempo pq eu estou em um congresso em Lausanne na Suiça e depois tenho que ir pra Barcelona em outro …..
Brincaceiras a parte… eu sou disléxico e realmente não consigo melhorar minha ortografia por mais que eu reconheça que isso é importante. Ainda bem que eu não dependo da minha ortografia pra viver e sempre tem alguem pra arrumar essas barbaridades que eu faço ( no fundo acho que vc entendeu o que eu quiz dizer… não!? )
Sr. perfeito
Eu não chamei vc de idiota … se achasse que fosse não perderia meu tempo lendo seu blog. Se for esse o caso eu posso interpretar que vc me chamou de idiota também? Não acho que seja o caso … idiota nenhum de nós dois é … eu só não concordo com a tua visão e escrevi isso de forma provocativa (se muito agressiva, desculpa … talvez meu senso de humor seja de fato questionável )
Putz … o nome do diretor do Instituto econömico de Munique eu esqueci tb … (tá … critiquei a tua imprescisão dos dados e fiz uma citação remota … mea culpa aqui tb ) … eu tenho a revista em casa. Eu posso tenta te mandar o link do der Spiegel ( mas tá em alemão
). Eu esqueci o nome do cara mesmo … mas ;e um cabeçudo aqui na alemanha. Eu te mando o nome do cara assim que voltar pra casa.
Sobre o milton Friedman eu sei o suficiente pra saber a influência que suas idéias tiveram no pensamento econômico das duas últimas décadas … e no que o mundo se transformou por causa disso. O desmantelamento do estado social europeu é fruto disso. A questão por traz da minha repulsa por Friedman é filosófica, e não técnica (já que não tenho condições de avaliar tecnicamente seus trabalhos … sou muito pequeno pra isso). O que significa competitividade? A ironia sobre essa hist;oria toda é que nos anos 80 ( e acho que também agora se pode dizer o mesmo), a única coisa que salvou a economia dos estragos criados pelo “laissez-faire”, que o Friedman tanto defendeu, foi a participação do estado na economia, que garantiu a demanda necessária pra fazer a roda girar mais uma vez.
Que os mercados se auto-regulam é lógico … o problema é decidir se eles se regulam pra um ponto aceitável … e para quem!?
Sobre o BC enxergar inflação .. sim, eles enxergam, e vc já avalisou essa preocupação mais de uma vez no seu blog. E essa teoria não me convence. Inflação é incompatível com aumento do desemprego dos meios de produção. E manter essa política cambial e de juros que o BC mantém sobre o título de controlar a inflação futura é o mesmo que matar alguém de pneumonia pra evitar que ele pegue uma gripe no futuro. E claro que alguém se beneficia dessa política, em geral Bancos e especuladores que não tem nada a ver com a economia real por assim dizer.
Não digo que a visão do BC é desonesta … e nem a sua concordância com ela. Só não concordo com a hierarquia de prioridades e escolhas filosóficas que guiam essas conclusões. Assumo sua concordância com o BC por que vc escreveu explicitamente que o Brasil vive uma situação mais confortável e citou explicitamente a apreciação do câmbio como um desses fatores. Se você não concorda com isso, por escreceu dessa maneira? Confesso que fiquei confuso com a sua resposta (embora contine assumindo a sua concordancia com a política monetária e cambial do BC).
Se a escolha é sempre entre inflação e estímulo a industria local … por que não aproveitar o momento de deflação pra criar uma base de fortalecimento da industria local? Os preços estão caindo no mundo todo … não seria agora o exato momento de deixar o câmbio desvalorizar um pouco sem botar pressão na inflação? Tal cambio não iria beneficiar nossa balança comercial?! Isso não significaria que poderiamos aumentar a capacidade de investimento no futuro ( e inclusive desonerar a atividade produtiva)? Essas são perguntas sinceras … o preço do Trigo piora pra nós … mas o de nossos produtos não melhora lá fora? Quem trabalhava na industria de sapatos brasileira hj em dia não tem emprego pra comprar trigo seja ele mais caro ou mais barato … por que perdeu o emprego. Assumindo um pouco de risco seria possivél expandir mesmo a produção de trigo no Brasil, através do desenvolvimento de tecnologias de produção para o serrado ( que já existe ) ou quem sabe um dia até para o semi-árido ( utopia?!) … mas com uma Selic de 10% e tolerancia a um spread bancário obceno quem presciza assumir risco pra ganhar dinheiro?!
Bom … espero que qq mal entendido tenha ficado pra trás.
Saudações e um forte abraço!
Ney