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06/05/2009 - 16:18

Sobre previsões e previsibilidades.

Se alguém dissesse, no início do ano, que a bolsa brasileira estaria em 51 mil pontos no começo de maio, fatalmente este sujeito estaria condenado ao descrédito público. Afinal, no começo do ano o cenário era para lá de sombrio: o PIB norte-americano havia derretido mais de 6% no ano, o nosso PIB também havia amargado um tombo de 3,6% no trimestre e Obama era apenas uma promessa no horizonte. Tudo estava carregado com uma pesada nuvem de imprevisibilidade.

Os economistas estavam desorientados (e em grande medida ainda estão) naquele início de ano. Os modelos simplesmente se tornaram obsoletos da noite para o dia, reduzindo a capacidade de previsão à praticamente zero. O motivo deste desarme é simples.

Os economistas se valem do instrumental estatístico e aplicam isto às variáveis econômicas, é isto que chamamos de econometria. Resumindo a questão de forma sumária o que nós fazemos é simplesmente assumir que o que foi continuará sendo. Extrapolamos para o futuro o que nos pareceu constante no passado. Porém, a crise criou um evento novo e de proporções gigantescas, que fez uma quebra estrutural nas séries observadas. O que foi explica pouco sobre o que vai ser.

Esta divagação se faz necessária para deixar claro para o leitor deste relatório que, sob qualquer hipótese, os números que apresentamos estão sob constante revisão. Simplesmente não existem informações suficientes para determinar alguma tendência clara sobre os eventos dos próximos meses.

Exemplo disso é nossa projeção para o PIB brasileiro. Nosso modelo base pondera o PIB sendo função da Produção Industrial e das Vendas no Varejo. As vantagens desta abordagem são muitas: além de serem metodologicamente coesos (todos são elaborados pelo IBGE), reduzir o número de variáveis ao mínimo possível evita erros e sobreposições desnecessárias. Em econometria menos é mais.

Tendo em mãos os dados da Produção Industrial divulgados ontem, temos um quadro mais preciso da situação da economia neste primeiro trimestre. Nossa projeção aponta para uma queda de 0,70% o PIB do primeiro trimestre e, no ano, uma retração de 1,20%.

Nossa expectativa é que o a economia comece a reagir já no segundo semestre, apresentando um crescimento de 0,50 e sendo seguido de mais dois de 0,80. Contribui sobremaneira para esta queda no PIB a evolução esperada do componente Investimento. Como apontou os dados de ontem a produção de Bens de Capital retraiu no mês 6,3% (dados dessazonalizados) o que deve jogar fortemente para baixo o componente Investimento.

Por sua vez o mercado acionário tenta dar preço e capturar uma possível retomada. Este processo nos parece ter sido exagerado no início deste ano. Em 2009 a Bovespa subiu 36% em Reais, e estonteantes 49% em Dólar. Nosso Departamento de Análise acredita que devemos fechar 2009 com 55 mil pontos. Em outras palavras: ao longo do ano fatalmente a bolsa deve recuar e devolver parte destes ganhos.

Nos parece otimismo em excesso alguns movimentos recentes na bolsa. Fora o anedótico episódio na Bolsa norte-americana, que no dia que foi divulgado o PIB do 1° tri de 2009 em queda livre de 6,1%, ficou animado com a alta de 2,2% no Consumo Pessoal, outros movimentos seguem a mesma lógica naíve.

Hoje aconteceu algo parecido. Foram divulgados o número de corte de vagas pela ADP nos EUA. O anterior tinha dado conta de 708 mil vagas a menos por lá. A expectativa era que mais 650 mil americanos seguissem o mesmo destino. No entanto, “apenas” 490 mil foram cortadas e isso animou os mercados no período da manhã. Quando se vê o gráfico, e não as expectativas, se tem noção do tamanho da deterioração no mercado de trabalho por lá.

Esta notícia, equivocadamente boa (desde fevereiro do ano passado 5.260.000 vagas foram cortadas), tira o foco de algo muito mais relevante. Amanhã será divulgado o Teste de Estresse nos EUA sobre a situação dos principais bancos. Existe a expectativa que algumas instituições precisem se capitalizar de forma adequada para passar nos piores cenários construídos. Vamos supor que, por exemplo, o Citi precise reforçar o caixa. O CDS daquela instituição – que aponta o custo de captação para aquele banco – está em patamares altíssimos, tornando esta geração de caixa extremamente penosa.

Logo, se de fato o gigante financeiro norte-americano precisar de caixa, teremos um problema sério nas mãos.

Existem sinais de melhora efetiva na economia mundial, e em particular para o Brasil? Claro que há. Entre eles citamos a evolução das commodities. Elas praticamente voltaram aos preços de um ano atrás, como mostra o gráfico. Isto sugere que a situação econômica – via Balança Comercial –, e a Bolsa – via produtores de commodities – pode melhorar.

Mas isto é apenas mais uma previsão, e como vimos a previsibilidade anda em baixa.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,

2 comentários para “Sobre previsões e previsibilidades.”

  1. Ademário disse:

    Excelente texto.
    Poucas vezes vi tão clara a exposição das limitações e forças da estatística. Pois se, por um lado, ela não permite prever em momentos conturbados, por outro lado ela sobeja em mercados estáveis. Parabéns também pelo texto contido e adequado, sem oba-oba ou pessimismo exagerado. Sua coluna está se tornando obrigatória.
    Abraços,
    Ademário

  2. André Perfeito disse:

    Ademário.

    Obrigado. Acredito que o melhor que a gente pode fazer é deixar claro os limites da teoria. Só assim quem lê, e quem fala, se entende.

    Abs.

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