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20/04/2009 - 10:44

Uma discussão em pauta.

Nos últimos dias uma discussão tem rodado as mesas de operação do país inteiro e ocupado a mente dos gestores de renda fixa: afinal, o BC vai continuar com a política monetária expansionista e dar mais 150 pb de corte, ou vai segurar o ímpeto e cortar apenas mais 50 ou 100 pb.?

Em entrevista à um jornal de grande circulação nacional neste fim de semana, o presidente do BC, Henrique Meirelles, deu a entender que o corte será menor que o mercado precificou no contratos futuros de DI, ou seja 150. A linha geral do raciocínio é que o necessário nesse momento é que os juros ao consumo e investimento caiam, e não exatamente a Selic que deve cair. O culpado da distorção? O enorme Spread bancário. Fora isso, Meirelles pondera que existem motivos estruturais na economia brasileira que não foram exatamente sanados e trabalhar apenas com razões conjunturais seria temerário dado o enorme grau de incerteza quanto aos rumos da economia. Soma-se a isso o fato do ano que vem ser um ano eleitoral e que não seria agradável aumentar juros em pleno pleito.

Obviamente saber das opiniões do presidente do BC é relevante quando se trata de taxa de juros. No entanto, cabe aqui trazer alguns elementos para pensar – e tentar prever – a decisão do COPOM nos dias 28 e 29 de abril.

Em primeiro lugar o Spread bancário, por mais altos que seja, está no lugar. O Spread é, grosso modo, o lucro dos bancos. Neste “a mais” em cima do juro livre de risco, além do lucro do banco, está outras coisas, entre elas o risco de emprestar dinheiro. O risco de emprestar dinheiro efetivamente aumentou nos últimos meses: a economia desacelerou, o desemprego aumentou, e o câmbio disparou. Qual motivo um banco teria para diminuir o componente risco nestes tempos incertos como bem apontou Henrique Meirelles? Hoje em dia é mais arriscado emprestar dinheiro do que era há dois anos; se não diminuiu de forma mais agressiva naquela época, não seria agora que iria diminuir.

Dos outros componentes do Spread, entre eles o lucro, aí é uma questão de mercado. Há pouca competição bancária o que evita que os juros caiam de forma mais agressiva. Se houvesse no sistema financeiro uma ampla competição por correntistas, fatalmente os juros pessoais cairiam via “promoções”, ou “queima de estoque”. Porém, sabemos que não há o que fazer neste front no curto prazo, e especular sobre isso é perda de tempo.

Quanto ao fato de 2010 ser um no eleitoral isso faz pouca diferença. Claro, é impopular aumentar os juros em plena campanha, no entanto é pior ver a economia desacelerando e o governo não fazendo nada. Além do mais é fácil vender a idéia que o aumento de juros é “culpa” da crise.

O presidente Lula deu a entender de forma clara que quer ver os juros cair na ponta final, para o consumo. Tanto que até fez a troca de guardas no BB para atingir este objetivo. Essa medida foi vista com muita desconfiança pelo mercado porque, ao fim e ao cabo, representa diminuir a margem de lucro do BB, justamente porque o lucro é o único componente que o novo presidente do banco pode mexer. A única forma de conciliar o lucro atual com juros menor é com a queda da taxa básica.

Muitos argumentam que a política fiscal anti-cíclica está indo além do razoável e que seria papel do BC segurar a gastança da administração federal. Porém, o ministro Guido Mantega, da Fazenda, já mandou o recado e espera juros menores para diminuir o serviço da dívida e tirar parte do peso das contas públicas. Aumentar os juros não seguraria os gastos, mas aumentaria a necessidade de um superávit maior, coisa que já está descartada vista a recente redução da meta de superávit. Logo, seria temerário manter os juros num patamar muito alto. O mais importante é manter a relação dívida PIB declinante, e isto aparentemente está sob controle, nas palavras do próprio Meirelles (algo em torno de 37%).

Existe a questão de a poupança competir com os fundos de renda fixa por investidores, no famigerado TR mais 6%. A expectativa de que haja migração destes fundos para a poupança soa um tanto quanto inflacionada já que o presidente Lula sinalizou que vai alterar as regras da poupança, de tal sorte que continue sendo interessante para pequenos investidores, e mau negócio para a classe média para cima. Não seria sábio realocar os investimentos para um ativo que vai ter as regras alteradas em breve, e, fatalmente, por MP.

Existem pressões adicionais para que os juros caiam. Citamos aqui o Carry Trade, ou seja, a arbitragem entre taxas de juros internacionais. Hoje o risco Brasil (medido em CDS de 5 anos), está em 272, e nossa taxa de curto prazo está em 10,06. No caso da Coréia do Sul o risco país é de 273, e sua taxa curta de míseros 2,41. No caso chinês o risco está em 138, porém a taxa curta está em 0,91. Alguma coisa está fora do lugar, ou o risco país, ou a taxa de juros. Acreditamos que não é o risco que está fora do lugar.

Devemos ter em mente que a política de meta de inflação tem como razão de ser a condução da política monetária responsável para atingir uma inflação pré-estabelecida, e vemos claramente queda nos índices de inflação. Questiona-se que, em breve, será necessário aumentar as taxas de juros para dar conta da inflação por causa do volume de liquidez despejada nos mercados. A questão é que hoje a inflação está controlada, por isso não há razão da manutenção de juros tão altos. Lá na frente, se a inflação subir, basta subir os juros de novo. Talvez nem isso seja necessário. Se o BC cortar parte das facilidades que criou – entre elas compulsório menor –, isso talvez até de conta do recado. Não raramente os problemas econômicos de hoje, foram as soluções econômicas de ontem.

Como vemos são uma série de questões que estão na mesa. A decisão do BC na próxima reunião do COPOM será difícil, e cheia de significados. Vale lembrar que no dia 29 será divulgado o PIB dos EUA do primeiro trimestre de 2009 e a expectativa é de queda de 5% (anualizada). Não existe resposta certa e resposta errada quando se trata de juros básicos. Mais importante é o que se argumenta em favor daquele número; e neste caso a decisão é delicada.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , ,

6 comentários para “Uma discussão em pauta.”

  1. Rafael S. Gonçalves disse:

    Cara, meus parabéns, muito bom mesmo o post!!
    Melhor texto sobre o assunto que lí nos últimos dias!!
    Bem explicado e muito didático para quem tem apenas noções básicas de economia!!

    Parabéns!

  2. Alberto disse:

    Andre, parabens pelo seu texto, muito simples e bem explicado. Contudo gostaria de alguns comentarios sobre o atual momento em que vivemos.
    Nos brasileiros, sempre tivemos um pouco de tecnico de futebol e agora estamos virando todos economistas.
    Recentemente li alguns blogs sobre o problema do deficit primario, agora seu artigo sobre o nivel das taxas de juros e como no passado o problema era cambio fixo, antes disto o salario minimo e antes disto crescer a renda para depois dividi-la e assim por diante.
    Na verdade estamos sempre achando UM vilao para os nossos problemas, para entendermos porque o gigante continua adormecido e nao vamos a passos largos rumo ao desenvolvimento.
    Talvez ai esteja o nosso grande problema e pessoas com o poder da midia como voce, deveriam contribuir mais com suas ideias, para não ficarmos eternamente sempre tentando consertar um UNICO problema.
    Pouco se fala neste país, em termos de ideias, sobre: educação, estradas, energia e infra estrutura em geral, controle populacional para ficar apenas em alguns exemplos.
    Quando o presidente de uma empresa assume o comando da companhia, seu sucesso esta ligado as varias decisões que toma, corte de despesas, aumento de receitas, melhora de produtividade, melhora nas relações interpessoais da empresa entre outras tantas tarefas.
    É por isto que a China cresce a 10% ao ano e nos não. Eles com muitos mais problemas do que nos, atacam várias frentes ao mesmo tempo. Estão construindo a maior usina hidreletrica do mundo, estão construindo a maior cidade do mundo, tem um forte controle populacional, etc.. e nao ficam apenas pensando no tamanho da taxa de juros ou do deficit primario, etc…
    Vamos fazer um mutirão e começarmos a trabalhar em varias frentes, resolvendo todos os nossos problemas simultaneamente.

  3. kk kkkk disse:

    Artigo claro, porém tendencioso, pois o parágrafo “Há pouca competição bancária o que evita que os juros caiam de forma mais agressiva. Se houvesse no sistema financeiro uma ampla competição por correntistas, fatalmente os juros pessoais cairiam via “promoções”, ou “queima de estoque”. Porém, sabemos que não há o que fazer neste front no curto prazo, e especular sobre isso é perda de tempo.” merece maiores reflexões. Só este assunto merece vários artigos e reflexões de políticos e economistas.
    Se existe o consenso de que os juros (spead bancário, como queiram) estavam altos e continuam altos, mesmo após o risco Brasil cair seguida e consistentemente, apesar do desejo do Presidente, posso supor que é exatamente o alto juro básico (SELIC) que impede o índice de risco Brasil cair a níveis internacionais.
    Se eu fosse um investidor estrangeiro pensaria que tem algumas distorções de mercado (armadilhas legais = excesso de regulação) no Brasil para os juros não caírem.
    Bem, isto para não enveredar para uma teoria conspiratória de privilégios para os amigos do sistema, uma vez que o time do rei já foi mudado mas o sistema corrompido e que o sustenta continua corrompendo.

  4. André Perfeito disse:

    Olá KK KKKKK (espero que não seja Klux…)

    O texto não tinha interesse em falar sobre isso pois não é factível de alteração no curto-prazo, mis exatamente até quinta-feira que vem, quando o COPOM que vai anunciar a próxima taxa básica.

    Entendo sua preocupãção e concordo com seu ponto de vista. Essa discussão tem que ser feita sim.

    Abs

  5. André Perfeito disse:

    Olá Alberto

    Realmente você tem razão, elencar apenas UM “inimigo” chega até a ser infantil. Não sei os outros colunistas, mas quando falo sobre alguns assuntos assumo que outros já estão dados. Por exemplo: educação não se discute, tem que ter, tem que ser melhor e tem que ser universal.

    O diabo de esrever sobre economia é que temos que atacar uma assunto por vez, sob pena de falar muito e dizer nada caso fale de muita coisa.

    Quando se fala de juros tem sempre isso de fundo. Se o BC baixar a zero a Selic o país melhora? É óbvio que não. Não há como reestabelecer o equilíbrio anterior mudando apenas uma variável.

    Educação e infraestrutura são a peça fundamental. Agora, vai colocar isso na cabeça dos nossos congressistas e de parte do governo. Fica difícil que só….

    Forte abraço.

  6. André Perfeito disse:

    Valeu Rafael.

    A banca agradece. rsrsrsrsrs….

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