iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
12/03/2009 - 12:36

150. E agora?

Nossa previsão de corte de 150 pontos base – feita em fevereiro deste ano – infelizmente se confirmou. A deterioração da economia se deu de forma ainda mais abrupta que inicialmente previsto e confirma o furo na blindagem econômica brasileira. Durante tempo demais os formuladores de política econômica, em especial a monetária, olharam para o front errado nessa guerra e acabou deixando a crise fincar os pés por aqui através da cabeça de ponte da restrição de crédito.

Este tema já foi trabalhado de forma mais pertinente no relatório intitulado “Por trás da linha Maginot”, e encerra a visão do nosso departamento a respeito da evolução econômica recente e a possibilidade real de cortes mais agressivos nos juros.

Gostaria de me concentrar, hoje, no comunicado feito pelo BC logo após a decisão do corte. Como é de praxe o comunicado é curto, porém cheio de significado. Eis o comunicado:

“Brasília – Avaliando o cenário macroeconômico, o Copom decidiu, neste momento, reduzir a taxa Selic para 11,25% a.a., sem viés, por unanimidade. O Comitê acompanhará a evolução da trajetória prospectiva para a inflação até a sua próxima reunião, levando em conta a magnitude e a rapidez do ajuste da taxa básica de juros já implementado e seus efeitos cumulativos, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária.”

Na primeira parte o BC admite de forma clara que a desaceleração econômica impulsionou seus membros à decisão do corte mais agressivo. E vai além ao dizer que a decisão foi unânime; reforçando a preocupação do colegiado dos efeitos nefastos da queda no nível de atividade sobre a sociedade brasileira.

A segunda parte, no entanto, recua no tom. Se na primeira parte o problema era a atividade, na segunda é a inflação que concentra o foco. Porém, esta segunda frase é um tanto quanto pró-forma. Dizer que o colegiado vai acompanhar “a evolução da trajetória prospectiva para a inflação”, ou que vai levar “em conta a magnitude e a rapidez do ajuste da taxa básica de juros já implementado e seus efeitos cumulativos” é nada mais nada menos do que se espera do COPOM.

No dia seguinte de decisões importantes como esta; a mídia – principalmente impressa – faz um trabalho muito importante: a de correio elegante. Entre manchetes e reportagens acaba escapando na entrelinha algumas opiniões e recados ao mercado.

O BC tem avisado ao mercado sua preocupação com a inflação brasileira, na medida em que ela não caiu na mesma velocidade que a deterioração do PIB e que a inflação mundial. Cabem aqui alguns breves comentários.

A dinâmica dos preços no Brasil possui algumas características que distingue nosso caso de outras economias.

Em primeiro lugar boa parte dos preços são administrados e funcionam através de outra lógica que não a propriamente de mercado, não respondendo de forma imediata aos distúrbios econômicos.

Outra fonte de estresse nos preços verificada no início deste ano foi a alta, maior que a usual, de muitos itens de comportamento sazonal; em especial educação e transporte. Estes produtos são regulados por contrato e, infelizmente, o índice de preferência é o IGP-M. A justificativa é que, tendo um peso maior no IGP-M a variação dos preços ao atacado, este índice capturaria de forma mais adequada a inflação nos custos de produção.

Ora, durante o ano de 2008 vimos a explosão das commodities, um subproduto da crise financeira, que envenenou o índice. Peguemos o petróleo. Em meados de 2008 o barril chegou à US$ 140,00. No entanto, não vimos a gasolina subir um centavo se quer por aqui. O IGP-M tem uma dinâmica delicada e pode trabalhar contra em muitas oportunidades.

A inflação média do IGP-M em 2007 foi de 4,91%. Já em 2008 foi de 11,33% o que contaminou os preços neste início de ano.

A nota do BC foi tática e estratégica. Em bom português: foi uma no cravo e outra na ferradura.

Acredito que por ora a primeira parte da nota continuará sendo mais pesada que a segunda parte. A queda econômica no mundo ainda está em curso, o estresse financeiro e a decorrente aversão ao risco ainda fazem estragos; logo o crédito e o investimento não irão se regularizar nos próximos meses.

Na Alemanha a produção industrial retrocedeu 19% ao ano e reafirma o momento de desaceleração.

A próxima reunião do BC será nos dias 28 e 29 de abril e não teremos nos dias próximos nenhuma agenda econômica mais dramática no Brasil. Pode ser que haja espaço para um “otimismo inflacionário” no colegiado do COPOM, porém o cenário de desaceleração persiste no mundo e Brasil no meio.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo