Um péssimo negócio.
Muito se tem falado do sistema financeiro mundial, em particular do combalido sistema norte-americano. O que foi que aconteceu? Se não me falha a memória, até bem pouco tempo atrás estes mesmos bancos mandavam e desmandavam no mundo, fazendo soar como mantra seus postulados diretamente de Wall Street. E pior: até agora centena de bilhões de dólares foram jogados na areia movediça financeira, na esperança de tentar dar solidez ao terreno que afunda sob o olhar assustado de toda a banca.
As origens do mal estar financeiro é bem conhecido agora: anos de juros oficiais baixos, legislação leniente e o gigante chinês – que caminhava à passos largos rumo ao seu lugar a sombra –, induziram a criação de derivativos financeiros para lá de exóticos que, com as vistas grossas das agências de classificação de risco, espalharam feito erva daninha nos balanços dos bancos, misturando alhos com bugalhos e tendo como resultado a falência moral e financeira de instituições seculares. É verdade; muita gente enriqueceu neste episódio, porém o resultado sistêmico não poderia ser pior. O capitalismo, como sabemos, é um animal feroz em busca de lucro, e na sua ânsia pela maior taxa de retorno, acaba fazendo coisas muito idiotas tal qual deixar correr solto o sistema financeiro.
Não cabe aqui criticar e apontar os responsáveis; afinal muita gente ganhou com isso, inclusive o Brasil que viu as exportações crescerem em preço e quantidade num mundo de crédito fácil e consumo turbinado. Durou pouco, mas fomos felizes (sic).
Fica uma incômoda pergunta no ar. Quando a sangria vai parar, e os mercados possam voltar a respirar aliviados? Quando digo mercados não me refiro somente ao acionário não, digo de tudo: de alfinetes a aviões a jato, passando por brinquedos e revistas. Tudo.
Vale apena uma pequena pausa, necessária aos pingos nos is. O que é o sistema financeiro? Grosso modo é o conjunto de instituições que são autorizadas a receber depósitos monetários de terceiros, e repassá-los para quem precise. Neste processo os bancos criam moeda através do multiplicador bancário e dão agilidade e eficiência a circulação do dinheiro na sociedade através da sua rede de agências e dos setores de inteligência (análise de crédito por exemplo). Os bancos são peça fundamental da própria moeda moderna; sem eles – os bancos – a moeda não existiria.
Voltemos à crise e à pergunta. Até quando? De forma bem simplista eu diria seis, sete meses. Por quê? Porque esse foi o prazo dado pelo governo Obama para as instituições financeiras se re-capitalizarem após o famigerado Teste de Estresse. Depois disso, ou elas fecham ou são estatizadas.
Vem outra pergunta à mente. Será que os gigantes financeiros vão conseguir se re-capitalizar neste período? Duvido muito. Fatalmente o destino dessas instituições será o guarda-chuva governamental pelos próximos três anos.
A verdade é que ser dono de banco é um péssimo negócio hoje em dia. Bem, pelo menos nos países industrializados. Além de terem problemas sérios nos seus balanços, com boa parte dos recebíveis lastreados numa massa falida que incluem imóveis cujos preços despencam na esteira da deflação mundial, eles têm em mãos um problema operacional muito sério.
Banco obtém lucro através de empréstimos, correto? São eles que concentram os recursos e informações necessárias para a atividade de “emprestar dinheiro”. No entanto, este negócio de emprestar dinheiro é terrivelmente custoso nesses dias de crise de confiança generalizada. De um lado, o risco de emprestar à iniciativa privada (empresas e famílias) se tornou extremamente alto. A chance de quem lhe deve não lhe pague aumentou consideravelmente, e por conta disso o crédito encareceu, fazendo a demanda pelo mesmo diminuir. Afinal, qual empresa vai investir num momento que nem este de PIB em queda livre, ou que cidadão vai querer redecorar sua casa quando seu emprego está sob ameaça diária? O crédito secou e a demanda por este também.
Pois bem. Do lado da iniciativa privada vimos que não é um bom negócio um banco. Quem sabe emprestar para o governo seja uma boa; afinal o governo quer ajudar o sistema financeiro, não? Só que aí é que são elas. Os Bancos Centrais no mundo inteiro baixaram à zero suas taxas básicas por dois motivos: num primeiro momento para evitar a quebra generalizada dos bancos (tornando mais baixo o custo de oportunidade entre-bancos, afinal banco também pega dinheiro emprestado), e, num segundo momento, para tentar destravar o dinheiro que está empoçado nas tesourarias dos bancos.
Ter um banco hoje é uma péssima idéia. Voltando ao início, e aos seis a sete meses para re-capitalizar o sistema. Quem vai querer emprestar dinheiro para um negócio que não tem virtualmente fonte de receita? Respondo: ninguém. Nem um banco emprestaria para um outro banco, como de fato está ocorrendo. Porém, o sistema financeiro “vende” uma mercadoria que é valiosa demais para parar de ser produzida. Por isso que acredito que grandes bancos vão ser estatizados, custe o que custar. Num momento que nem este, dinheiro não é o mais importante.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: dinheiro não é o problema, sistema financeiro, vale quanto pesa