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06/03/2009 - 12:48

Brasil: guardando a fantasia.

Acabado o carnaval o ano começa por aqui, e pelo visto a quarta-feira de cinzas terminou foi hoje com o anúncio da Produção Industrial no país. Os economistas, que de forma geral viam no ciclo de estoques a razão fundamental do desaquecimento econômico no fim de 2008, viram a produção em janeiro apresentar um resultado pífio. A expectativa era de uma alta de 10% em média na variação mensal, no entanto, o resultado veio em 2,3%. No ano a queda é de 17,23%.

O governo vai ter que mudar a fantasia e trabalhar de forma mais coesa no campo econômico. Já foi objeto deste Comentário Diário o descompasso entre a política monetária e fiscal no governo Lula. Se de um lado há expansão de gastos via PAC e liberação de compulsórios – por exemplo –, do outro as taxas de juros continuam abusivamente altas, e a cada nova queda nas taxas básicas do mundo a nossa fica ainda mais alta relativamente (vide os cortes na Inglaterra, Europa, Japão, EUA, Chile…).

 

A solução encontrada pelo BC para “dar alívio” à economia é praticar uma espécie de regime de câmbios múltiplos. Todos nós lembramos a época onde havia no país várias taxas de câmbio; uma para exportadores, outra para turismo, outra para importação de bens de capital, e por aí vai (ainda resiste entre nós o charmoso e sinistro câmbio paralelo). O BC pratica coisa semelhante abrindo tantas exceções às condições de crédito. Existe uma política para pequenos bancos, outra para exportadores via ACC, outra ainda para dívida externa do setor privado – que, diga-se de passagem, é maior que a pública e com a explosão do câmbio transmitiu o estresse financeiro para dentro da blindagem brasileira. Todas em regime extraordinário, dada a crise mundial em plena potência.

 

O governo reclama amiúde do alto spread bancário praticado pelo sistema financeiro. No entanto, pensando pela lógica de um tesoureiro de banco, realmente o spread deve aumentar. O risco de emprestar aumentou consideravelmente nos últimos meses dado a deterioração nas condições econômicas e não seria sensato considerar o mesmo risco de antes da crise com o período de crise.

 

Não é uma questão moral, muito menos de simples concorrência (como o ministro Guido Mantega deu a entender ao autorizar que a CEF praticasse juros menores). Não podemos esquecer, como muitos gostam de não lembrar, que um banco é uma empresa, e que uma empresa visa lucro. Esperar que estes ajam “contra o patrimônio” é equivocado e ingênuo. Se o BC praticar uma política de juros menores, ou indicasse isso de forma clara, além de diminuir o custo de oportunidade do dinheiro – que, grosso modo é a Selic – ele estaria melhorando as expectativas sobre os desdobramentos futuros do nível de atividade no Brasil, gerando assim um alívio sobre o spread.

 

Neste sentido, e tendo em mente uma inflação comportada por conta da deflação mundial, acreditamos num corte de 150 pontos base na próxima reunião do COPOM, levando a taxa à 11,25. Nosso cenário considera uma queda no PIB do 4° trimestre de 2008 de 2,18%, e o PIB de 2009 fechando em -0,20%. Vale lembrar que o PIB do 4° trimestre vai ser divulgado no primeiro dia de reunião do colegiado do COPOM. Se confirmado este resultado horrível no produto, imagine a pressão na ante-sala do BC (na reunião anterior teve até churrasco na frente da sede do BC patrocinada por sindicatos). O presidente Lula fatalmente vai enviar recados ao BC. E ele faz isso geralmente pelo correio elegante da imprensa, através de uma nota aqui, um depoimento acolá e assim vai.

 

Enquanto isso o mundo segue ao pé da letra o script do Credit Crunch. Nos EUA o desemprego sobe para 8,1%, maior que a anterior de 7,6%, e ainda acima da expectativa de 7,9% do mercado.

 

 

 

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , ,

3 comentários para “Brasil: guardando a fantasia.”

  1. Rubens possati disse:

    Falar depois do fato até eu.economista quando vira analista é POBREMA>

  2. André Perfeito disse:

    Meu call de queda de 150 pontos base e de queda no PIB é de 9 de fevereiro.

  3. [...] e fiscal no governo Lula. Se de um lado há expansão de gastos via … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

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