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Arquivo de março, 2009

31/03/2009 - 11:10

Sobre medidas e termômetros.

O mundo tem vivido de sobressalto em sobressalto, e de pacote em pacote. Neste período de exceção, onde a interferência política manda até demitir presidente de gigantes industriais – como foi o ocaso do presidente mundial da GM ontem – o investidor comum, e a população de forma geral, ficam perdidos no tiroteio teórico e retórico.

Semana passada, ao ser anunciado o detalhamento do plano do Tesouro norte-americano para a compra dos ativos tóxicos aninhados nos balanços bancários, sugerimos como termômetro da crise o CDS (Credit Deposit Swap) do gigante financeiro Citi. O CDS serve de proxi para sabermos o custo de captação de recursos pelo banco, e, em grande medida, mede a aversão ao risco que os agentes têm em relação àquela instituição. O CDS é, grosso modo, quanto uma instituição tem que pagar a mais (em pontos base) em relação ao ativo livre de risco.

Vemos no gráfico abaixo que há uma relação inversa entre o preço das ações do banco e seu custo de captação,; o que faz muito sentido uma vez que, com maior custo de captação de recursos (a matéria prima por excelência de um banco), o lucro daquela empresa deve ser menor.

Apesar do esforço do governo Obama em tornar mais claro e eficiente possível o plano de salvamento do sistema bancário (que, diga-se de passagem, é a versão final do Plano Paulson), os eventos na economia se sobrepõe, e dificilmente há como isolar as variáveis e tratá-las uma-a-uma. Ontem, por conta das notícias ruins vindas da GM, o Citi viu seu CDS disparar ao nível mais alto já registrado, fechando o dia em 633,60 contra uma média pré-crise de 13,51.

Isto aponta que, apesar de agir no sentido certo, o plano de ação da administração Obama ainda passará por um verdadeiro este de estresse, numa curiosa reversão de papéis.

Prova da demanda desacelerada é a inflação declinante no Velho Continente. Após um período de alta significativa por conta de commodities no lato da bolha, o movimento se inverte de um lado via commodities em queda e salário em queda também. A inflação estimada para março ficou em míseros 0,6% ao ano (9 meses atrás a inflação anual era de 4%).

No Brasil as medidas do governo continuam no sentido anti-cíclico, como aponta o fluxo de caixa do orçamento federal. Segundo os dados divulgados hoje a média nos últimos 12 meses (linha verde) já reverteu a tendência de alta registrada, e, por conta do PIB em queda – deteriorando a arrecadação – e os gastos com incentivos variados – o último foi o corte do IPI –, temos uma reorientação do gasto público.

A Relação Dívida PIB ainda continua comportada e fecha fevereiro em 37%, uma ligeira alta em relação à janeiro que ficou em 36,6% (vale lembrar que esta relação já chegou à 56% em 2002). Porém, toda atenção é pouca quando se trata de política fiscal. O Brasil já sofreu demais, e pagou caro demais, para colocar em ordem as contas. Usar este “cacife” mercê atenção redobrada.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
30/03/2009 - 09:55

Relatório BC: Inflação 2009 rigorosamente na meta.

Foi divulgado na manhã de hoje o Relatório Trimestral de Inflação, a publicação mais importante do BC no que tange o estado geral da economia brasileira. O relatório, um calhamaço de 172 páginas, abrange praticamente todos os aspectos relevantes da economia doméstica e externa, com o objetivo de fornecer subsídio à condução da política monetária do governo. Vale lembrar que este é o primeiro relatório pós PIB do 4° trimestre, que apresentou queda substancial. Segue abaixo um resumo tópico do Sumário Executivo:

• Queda no PIB dos países desenvolvidos deve persistir em 2009,
• PIB brasileiro deve arrefecer na margem, seguindo a trajetória mundial,
• Crise foi transmitida para o país via obstrução nos canais de crédito,
• Confiança de consumidores e do empresariado no país caiu dada a restrição da demanda doméstica,
• Crédito em baixa, vendas de automóveis em baixa (-20,2% no 4º tri),
• Investimento idem (tombo de 9,8%),
• Utilização da Capacidade Instalada em queda, denunciando queda na produção,
• Efeito da desaceleração econômica é defasada no mercado de trabalho, mas deve atingir o setor,
• Crédito teve expansão apenas no segmento direcionado, já nos recursos livres houve queda dada as incertezas mundiais e no futuro da economia,
• Bens de maior valor agregado, e dependentes de crédito para sua demanda, sofreram mais, forçando assim uma readequação dos estoques,
• Contas públicas em ordem (superávit garantido), e relação Dívida/PIB declinante,
• Utilização do PPI (Projeto Piloto de Investimentos) fora do orçamento deve ajudar ainda mais a manutenção do superávit,
• Qualidade da dívida pública melhor devido ao câmbio e ao alongamento do perfil da dívida,
• Reservas Internacionais estáveis e em patamar robusto a despeito do agravamento da crise,
• Incertezas sobre o desenvolvimento da crise global tornam difícil prever comportamento das exportações e do câmbio,
• Cenário do BC prevê condições de financiamento da Balança de Pagamentos e a redução no déficit nas Transações Correntes via ingresso de capitais na forma de IED (Investimento Estrangeiro Direto),
• Cenário de Referência do BC projeta IPCA para 2009 em 4,0%, para o 1° tri de 2010 a inflação acumulada em 12 meses é de 4,4%,
• Previsão para o PIB de 2009 cai de 3,2% para 1,2%,

Em conjunto as novas informações contidas no relatório sintetizam as mudanças ocorridas nos últimos três meses, onde a inflação desacelerou via redução da demanda (doméstica e externa), que por sua vez é subproduto da restrição generalizada do crédito mundial. Vemos neste Relatório que o BC “mudou a mão” no que toca seu cenário básico. Se antes dava-se a impressão de que a inflação era ainda um problema sério neste ano, agora vemos um BC muito mais preocupado com a desaceleração econômica doméstica e externa, e seus efeitos deletérios sobre o nível de emprego.

Para ratificar a visão baixista da inflação, foi divulgado hoje o IGP-M da FGV. O índice anterior era de 0,26% em fevereiro, o mercado previa uma deflação de 0,35% e nossa projeção apontava para uma queda ainda mais substancial: de -0,42%. No entanto, o IGP-M furou até o piso das expectativas e fechou março em queda livre de -0,74%.

A principal influencia negativa foi o IPA (Índice de Preços do Atacado) que saiu de 0,20% para -1,24%, a maior queda desde junho de 2003.

O Relatório Focus também apresentou queda generalizada nas expectativas de inflação e é a primeira vez que tanto o Agregado quanto o TOP 5 prevêem o IPCA em 2009 abaixo da meta oficial de 4,50%. Um ótimo sinal sem dúvida.

Para ler o Relatório Focus no original, acesse:
http://www4.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20090327.pdf

Fica claro que a partir de agora o BC sinaliza uma mudança no seu “modo de ver” a economia brasileira. Já vemos uma pressão forte sobre os juros no sentido de derrubá-los. Fora isso, iniciativas como o pacote para os bancos médios (cuja principal medida foi o aumento da parcela “segurada” pelo governo para R$ 20 milhões por instituição), criam um bom cenário sobre como o nosso BC deve atuar daqui para frente. Claro, se a economia mundial não azedar de vez no meio do caminho.

Para ler o Relatório Trimestral de Inflação na íntegra, acesse:
http://www.bcb.gov.br/htms/relinf/port/2009/03/ri200903P.pdf

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
27/03/2009 - 11:51

Inglaterra confirma desaceleração.

Dados do PIB divulgados na manhã de hoje reafirmam a desaceleração na ilha. A economia inglesa retraiu 2% em termos anuais no resultado do 4° trimestre de 2008, na variação trimestral a queda foi de 1,6%, ligeiramente maior que a do trimestre anterior que ficou em -1,5%.

Estamos entrando numa época que resultados ruins irão conviver com resultados aparentemente bons. A desaceleração econômica se faz sentir no mundo inteiro, jogando para baixo as expectativas e mostrando a “face feia” da crise que começou subprime e terminou na rua. Os dados mais longos continuarão vindo ruim, em especial PIB do 4° trimestre e dados visto na sua variação anual. No entanto, os números de margem – que apontam variações mensais – tendem a vir melhores. Durante esta semana vimos alguns exemplos disso; entre eles cito Venda de Casas Existentes e Venda de Casas Novas nos EUA. Os números vieram extremamente bons na comparação mensal, mas se visto na série longa temos a inconfortável certeza que falta muito para chegar à “normalidade”.

Estes dados mais curtos, e positivos, tendem a animar os mercados acionários, mas cautela é necessária: não é possível afirmar que haja uma tendência definida.

Na Alemanha a Inflação de Importados dá o tom do comércio mundial. A queda de 5,4% nos preços aponta que, além da retração em volume, a queda nos preços fazem seus estragos na Balança Comercial de vários países, Brasil no meio.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
26/03/2009 - 11:38

PIB nos EUA: sem mudanças.

Os dados revisados do PIB norte-americano divulgados hoje não trazem grandes novidades; a não ser que a crise é sim muito séria e atingiu a economia real. O PIB trimestral anualizado registrou uma queda de estonteantes 6,3%, o Consumo das famílias – parte relevante do PIB dos EUA, e calcanhar de Aquiles da crise de crédito farto – tombou 4,3%.

No Brasil os números do desemprego divulgados na manhã de hoje devem ser vistos com algum cuidado. Houve um aumento em relação a janeiro, e o mês de fevereiro fecha com alta de 8,5%, mas devemos ter em mente que a PEA (População Economicamente Ativa) perdeu cerca de 160 mil trabalhadores. Ou seja, parcela da população desempregada desistiu de continuar emprego e, por isso, são excluídas da pesquisa.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
25/03/2009 - 15:59

IPCA-15 surpreende.

A principal prévia da inflação oficial, o IPCA-15, rompeu todas as expectativas e registrou uma variação bem inferior a esperada. A medição anterior, em fevereiro, tinha registrado 0,63% de alta, puxada, em grande medida, pelos reajustes escolares em curso. Nossa projeção apontava para uma inflação na casa de 0,41%, o mercado estava esperando 0,29%, no entanto o índice derreteu e chega à 0,11% em março – o menor índice desde setembro de 2006.

Os principais grupos que pressionaram a inflação para baixo foi a Educação (-0,43%), e Alimentação e Bebidas (0,21%).

O IPC-FIPE foi divulgado e apresentou relativa estabilidade, oscilando de 0,25% para 0,29% (nossa projeção era de 0,25%).

Vale lembrar ao leitor que o IPC medido pela FIPE tem apuração semanal, e não deve ser comparado simplesmente com o IPCA-15.

Os índices de inflação recentemente divulgados no país, bem como as expectativas medidas pelo Relatório FOCUS, apontam para uma trajetória benigna da inflação doméstica. Este movimento reitera o cenário de desaceleração econômica e jogam mais pressão sobre o COPOM de abril no sentido de uma política monetária expansionista. É isso que apontam os juros futuros negociados. Os com vencimento mais curto, com entrega em janeiro de 2010, registram valores abaixo de 10 já há algum tempo.

Com a palavra a autoridade monetária.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/03/2009 - 12:00

Um termômetro.

O plano anunciado ontem pelo secretário do Tesouro norte-americano Timothy Geithner trouxe, sem dúvida alguma, muita euforia ao mercado. Não por menos: no geral, o plano de compra de ativos tóxicos – numa parceria pública privada – é extremamente verossímil, onde o estado arca com parte significativa do risco e o investidor é subsidiado em até 50% no aporte de capital.

Porém a pergunta persiste. Vai funcionar? Em linhas gerais o que foi anunciado ontem é muito parecido com os primeiros rascunhos do Plano Paulson, secretário do Tesouro da administração Bush, e que foi duramente criticado pelo mercado. O calcanhar de Aquiles do plano é a precificação dos ativos “tóxicos”. O mercado financeiro tem como negócio-principal justamente saber dar preço aos ativos. No entanto, a engenharia financeira criou mecanismos de envelopamento de dívidas, transformando-as em produtos financeiros, e salvaguardados por agências de classificação de risco, criando um emaranhado jurídico/financeiro tão complexo que a reação dos agentes frente estes “ativos tóxicos” é de aversão: os investidores fogem disso como quem foge de veneno.

Vamos supor que o plano de Geithner seja bem sucedido e que os ativos sejam comprados por este mecanismo proposto. Porém, qual será o deságio do valor de face? E pior: qual será o impacto deste deságio no balanço dos bancos? Existe a probabilidade destes ativos tóxicos serem comprados por um valor muito menor que o inicialmente registrado. Talvez um banco tenha lançado no seu balanço estes ativos com o valor de 100, mas agora, depois da compra, eles valem apenas 20. O prejuízo será enorme e realimentará o ciclo econômico negativo, uma vez que os bancos estarão numa situação extremante fragilizada.

Seja como for, os desdobramentos deste plano ainda serão sentidos e é cedo para tecer maiores comentários. Agora é questão de tempo e trabalho duro por parte das autoridades econômicas dos EUA; o plano está posto.

O sistema financeiro norte-americano precisa reagir aos estímulos propostos, e uma boa proxy da eficiência deste plano será a percepção de risco em relação a uma das maiores casas bancárias de lá: o Citigroup. Fica como sugestão de termômetro o CDS (Credit Deposit Swap) de vencimento de cinco anos do banco norte-americano. O CDS é quanto se paga a mais (em pontos base) por um título do Citi em comparação ao título livre-de-risco, e aponta para o grau de aversão do mercado em relação a dada instituição. Antes da crise financeira o valor girava em torno de 13 a 15 pontos base, agora o CDS vale 528,27.

Se o plano for bem sucedido o CDS do Citi deverá convergir gradualmente para baixo. Claro, dificilmente chegará ao patamar antigo, mas aos poucos deve se acomodar num patamar mais comportado. Devemos olhar com atenção a evolução deste índice.

No Brasil a Conta Corrente apresentou um resultado positivo, se comparada a trajetória suposta frente aos desafios da crise internacional. O saldo é ainda fortemente negativo, e contrasta com a bonança de anos atrás.

Porém, o dado é positivo e deve ser comemorado. Soma-se a isso o resultado melhor que o esperado no Investimento Estrangeiro Direto que no mês de fevereiro chegou a 1,968 bilhão de dólar, valor 121% maior que o registrado no mesmo período do ano anterior.

Os dados do setor externo são entusiasmastes, mas não configuram ainda uma ruptura com a depreciação mundial, e com os déficits recorrentes.

Nos EUA acaba de ser divulgado o Richmond FED, um índice de nível de atividade da região de Richmond e elaborado pela sucursal do Federal Reserve da região. O índice surpreendeu e apresentou um resultado, apesar de negativo, sensivelmente melhor na margem.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/03/2009 - 11:57

O tal do pacote

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/03/2009 - 11:32

O Tesouro abre o cofre

O secretário do Tesouro norte-americano Thimoty Geithner anunciou hoje em detalhe seu plano de ação para estancar a sangria no mercado financeiro por conta dos ativos poderes gestados na esteira da bolha imobiliária. O que o Tesouro está fazendo é o detalhamento do que já foi dito pelo secretário da pasta há seis semanas.

O programa fala da metodologia, mas fala de cifras também. Basicamente ele aponta o interesse em usar entre 75 e 100 bilhões de dólares do programa TARP (Programa de Alívio de Ativos Problemáticos), o que, em conjunto com a verba já alocada para este objetivo, soma US$ 500 bilhões. Adicionalmente o tesouro aponta que pode dobrar este valor ao longo do tempo, o que faria o poder de fogo subir à estonteantes US$ 1 trilhão. Sem dúvida é uma soma impressionante.

A forma de compra desses ativos tóxicos dar-se-á através do PPIP (Parceria Público-Privada de investimento). A idéia é comprar os derivativos podres e ilíquidos do sistema financeiro lastreado, em sua grande maioria, em ativos imobiliários em parceria com agentes privados no mercado financeiro. Dessa forma, presume-se, que a competição entre os agentes fará que o preço pago seja melhor precificado, uma vez que o sistema de mercado ditará o valor, o que irá gerar mais transparência no processo e tornar mais eficiente a alocação de recursos públicos.

Vale lembrar que o FED anunciou semana passada um volume expressivo para o mercado imobiliário através da irrigação praticamente irrestrita das agências imobiliárias. Esta medida visa estancar a queda livre nos preços dos imóveis que deterioram, por sua vez, os derivativos financeiros tornando-os venenosos nos balanços bancários.

Essas duas medidas em conjunto possuem forte sinergia e apresentam, enfim, as linhas gerais do plano Obama/Geithner/Bernanke. Agora não há muito mais o que fazer, a não ser esperar que o remédio faça efeito no tecido econômico. È sem dúvida uma ótima notícia, apesar da complexidade da operação. As dívidas são múltiplas e a precificação deste volume de contratos é delicada.

Para ler o press-release do Tesouro, acesse (em inglês):
http://www.treasury.gov/press/releases/tg65.htm

No Brasil a inflação esperada continua em queda. O Relatório Focus apresentou na manhã de hoje um número inferior a meta para 2009. A mediana da expectativa do Agregado, que na semana anterior estava em 4,52% para o IPCA em 2009, hoje está em 4,42%, ou seja, abaixo da meta estipulada de 4,50%.

Para ler o relatório Focus no original, acesse:
http://www4.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20090320.pdf

O IPC-S veio um pouco acima da expectativa do mercado e fecha a semana em 0,47% puxado, principalmente, pelas Frutas (1,83% para 3,72%) e pelas Hortaliças e Legumes (2,42% para 4,13%)

Para ler o informe da FGV acesse:
http://www.fgv.br/mailing/IBREMKT/arq/temporario/942996226.pdf

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/03/2009 - 10:48

Desaceleração continua.

A economia do Velho Continente continua a mostrar sinais de fraqueza. A Produção Industrial tombou 17% ao ano e deixa claro o tamanho da desarticulação econômica produzida pela crise financeira.

A desaceleração é forte e não deve se arrefecer tão breve. O Fundo Monetário Mundial (FMI) refez suas contas para o crescimento mundial e constatou que é possível uma retração de até 1% ao longo deste ano.

Previsões à parte temos sim, já no momento presente, sinais inequívocos da desaceleração econômica no mundo, Brasil no meio. Basta ver a evolução na coleta de impostos, divulgada ontem. Os dados dão conta de uma expressiva queda na arrecadação, e serve de aproximação do produto nacional.

A semana termina com dados sombrios no front econômico, mas não na Bolsa. O Ibovespa apresenta, nesta manhã de sexta-feira, uma valorização de 7,73% no ano, e de 11,02% em dólar. Já nossos pares em NY amargam um ano ruim, com queda de 15,67%.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/03/2009 - 09:52

Ata do COPOM: inflação X atividade.

Todos os olhos se voltam para o BC e para a ata do COPOM, divulgada nesse período da manhã, buscando responder uma simples pergunta: segunda os economistas do Banco Central o balanço de riscos pende mais para a inflação ou para o nível de atividade? Nosso call de fevereiro era de um corte em março de 150 pontos base na taxa básica porque víamos então uma séria retração no nível de atividade doméstica que ia além de um simples ciclo de estoques. E mais; sabíamos que dados chave (Produção Industrial e PIB) seriam divulgados na véspera da decisão da taxa. Isto tudo em conjunto nos levou a acreditar que os economistas do BC não teriam muitas opções a não ser o corte mais agressivo na SELIC e caminhar para um afrouxamento da política monetária.

A Ata divulgada hoje traz algumas considerações interessantes e ajudam a responder parte da pergunta formulada. No item “Implementação da Política Monetária”, o BC sumariza suas preocupações e expõe os motivos para sua decisão. Logo no primeiro item o BC aponta sua percepção quanto a evolução da atividade doméstica e seus efeitos sobre a demanda. Em suas palavras:

“Os dados disponíveis referentes à atividade econômica indicam que o ritmo de expansão da demanda arrefeceu consideravelmente a partir dos meses finais de 2008, em meio ao substancial e generalizado desaquecimento da atividade em outras economias, avançadas e emergentes. Por sua vez, o aumento da aversão ao risco e o aperto, inédito nas últimas décadas, das condições de liquidez prevalentes nos mercados internacionais continuam impondo ajuste no balanço de pagamentos.”

E segue – no item 19 –, ao encadear atividade com a inflação.

“O Copom avalia que a probabilidade de que pressões inflacionárias inicialmente localizadas venham a apresentar riscos para a trajetória da inflação segue diminuindo. Os sinais de substancial acomodação da demanda doméstica e de moderação de pressões sobre o mercado de fatores, ainda que permaneçam sujeitos a incertezas, devem ensejar redução do risco de repasse de pressões altistas, identificadas até o final de 2008, sobre preços no atacado (que, de resto, vêm mostrando deflação nos últimos meses) para os preços ao consumidor.”

Sobre atividade, o BC faz uma leitura ampla sobre o atual momento, como vemos no item 21:

“As perspectivas para a evolução da atividade econômica continuaram se deteriorando desde a última reunião do Copom, ainda que os dados sobre a indústria venham em parte refletindo processo de redução de estoques, que tende a se esgotar ao longo do tempo. Note-se particularmente que, diante dos efeitos da crise internacional sobre as condições financeiras internas, a contribuição do crédito para a sustentação da demanda doméstica arrefeceu de forma intensa. Adicionalmente, a intensificação da crise internacional segue exercendo influência negativa sobre a confiança dos consumidores e dos empresários. Nessas circunstâncias, o dinamismo da atividade passa a depender crescentemente da expansão da massa salarial real e dos efeitos das transferências governamentais, possivelmente incrementadas, que devem ocorrer neste ano. Note-se, por outro lado, que as influências contracionistas da crise financeira internacional sobre o dinamismo da economia doméstica e, consequentemente, sobre o contexto no qual tem atuado a política monetária, ainda que não permanentes, podem se mostrar persistentes. Essas ponderações tornam-se ainda mais relevantes quando se leva em conta que as decisões correntes de política monetária terão impactos concentrados nos trimestres à frente.”

A leitura da Ata sugere, por ora, que o colegiado do COPOM vê como minimizado o risco das pressões inflacionárias e que a atividade econômica deprimida via contração de crédito fez parte do “trabalho sujo” da política monetário contracionista.

Logo, abre-se espaço para uma política monetária mais expansionista, com reduções de juros nas próximas reuniões. O nosso Departamento Econômico prefere ainda não se manifestar sobre alguma projeção para a próxima reunião do COPOM, uma vez que estamos refazendo nossos modelos para nível de atividade e inflação sob a luz de novos dados divulgados. Além da questão propriamente técnica/econômica, temos que nos atentar sobre os desdobramentos políticos recentes para poder ter uma idéia mais aproximada das pressões que se avolumam na ante-sala do BC.

O IGP-M segue em deflação como foi esperado. Nossa projeção, revisada no início da semana, dava conta de uma queda de 0,39%. Veio, no entanto, um pouco mais alta, em -0,36%, com destaque a queda abrupta do IPA (Índice de preços do Atacado).

Para ler a ata do BC no original basta clicar abaixo:
http://www.bcb.gov.br/?COPOM141

Na disputa entre inflação e atividade no balanço de riscos do BC aparentemente houve empate. Mas esse empate soou como uma derrota da inflação.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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