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19/02/2009 - 11:15

Transferência de renda.

Tem sido tema de intenso debate acadêmico, e amplificado pela mídia em geral, as origens e soluções para a atual crise econômica. Boa parte dos economistas jogou na vala comum de 29 a origem deste qüiproquó financeiro que começou em casa e terminou na rua.  Já na ponta inversa – a da solução – ressuscitaram Sir Keynes com os restos do século 20; numa mistura exótica de nacional desenvolvimentismo aliado com tecnologia da informação. Um verdadeiro Frankstein (há quem chame esse tipo de neo-keynesiano de hidráulico, o mais puro senso de humor britânico).

 

O presidente Barak Obama deu um passo correto ontem, e acrescentou alguns decibéis na já acalorada discussão econômica, ao anunciar que vai destinar US$ 275 bilhões do mega pacote para ajudar os mutuários norte-americanos à pagar suas prestações. Até então, sob a administração Bush, o remédio era apenas um anti-termal para combater a febre crônica no sistema financeiro. Rios de dinheiro foram jogados de para-queda aqui e acolá na tentativa de apagar os incêndios pontuais.

 

Agora não. Obama e Timothy Geithner vão à raiz do problema: a deterioração do mercado imobiliário. Vemos todos os meses os preços dos imóveis despencarem sob a pressão da demanda reduzida e da oferta em alta, e esse quadro fez que os ativos lastreados nestes imóveis perdessem valor. Se a situação imobiliária não melhorar não há dinheiro que chegue para estancar o incêndio financeiro, e tanta liquidez vai permanecer nos cofres dos bancos incendiados não congelada, mas em vapor.

 

Em alguma medida Obama está indo além do óbvio e fazendo um gigantesco pacote de transferência de renda dos ricos para a classe média norte-americana. Além destes US$ 275 bilhões, outros US$ 300 bilhões estão em pauta via corte de impostos para as famílias e pequenos negócios. Este movimento – de transferência de renda – busca equilibrar as forças na sociedade norte-americana. Na década de 90 e início de século XXI, rendimentos financeiros ganharam força através de derivativos exóticos gerando uma acumulação de renda acentuada e, como vemos hoje, suicida. O pacote aos mutuário e à classe-média pode reorganizar as forças nesse sentido, e Obama é o homem certo na hora certa para fazer isso.

 

O plano é bom e correto, ma não é imediato nem dramático. É lento e gradual, e por isso mesmo – na nossa opinião – é que vai funcionar. Só espero que tenhamos todo esse tempo. Fantasmas do nacionalismo estão saindo da tumba, e em poucos momentos da história foi tão fácil ser populista. Isto sim é um perigo de fato.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , ,

1 comentário para “Transferência de renda.”

  1. Heitor disse:

    Perfeito, André.
    Se a queda no preço dos imóveis é a base do problema, colocar dinheiro nas mãos de seus proprietários ou mutuários pode impedir que os preços , pelo menos, continuem caindo o que talvez permita enxergar o fundo do poço. De quebra, um tapa na cara de Wall Street e seus executivos, no mínimo irresponsáveis. Junto com a limitação para a remuneração deles no comando das grandes empresas, parece que Obama está mesmo decidido a atacar o problema de frente. Estes dirigentes não merecem mesmo ganhar o que ganharam até agora, pois se o pacote funcionar – e eu espero que funcione – ficará demonstrado que a solução é mais barata e funcional do que por dinheiro em empresas dirigidas por alienados. Além de tentar equilibrar as forças na sociedade americana, Obama deixa claro para quem está governando. Acredito que enquanto ele estiver lidando com questões internas, sairá sempre bem. Quanto ao front externo, aí o buraco é mais embaixo.

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