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31/10/2008 - 10:47

Forçando a barra.

Desde o início dessa atual crise o mundo vive uma espécie de “estado de exceção” em matéria econômica. Como já foi bem dito pelos formuladores de política econômica mundo a fora: épocas excepcionais exigem medidas excepcionais.

 

Até aí tudo bem, seria muita ingenuidade achar que o sistema por si iria sair dessa armadilha sozinho. Sem contar que foi o próprio sistema que cavou a própria cova sob o olhar leniente do estado. Agora é a vez de o estado limpar a sujeira para debaixo das contas públicas. Talvez daqui há alguns anos será a vez dessa crise surgir nos balanços públicos, mas deixemos isso para o futuro. Não é raro que os problemas econômicos de hoje foram as soluções econômicas de ontem.

 

Só que para cada problema uma solução. Não existe um remédio universal quando se trata de economia. Na verdade não existe um remédio universal para nada.

 

O caso brasileiro, no que toca esse vendaval econômico, é evidentemente diferente do que acontece nos EUA ou na Alemanha. Talvez o caso brasileiro seja mesmo único, não tendo paralelo entre os emergentes nem no mundo desenvolvido.

 

Porém, o governo erra ao receitar o mesmo remédio dos países industrializados ao Brasil. Por uma razão simples: ele está misturando políticas econômicas antigas e novas ao mesmo tempo, criando um coquetel heterodoxo que pode, em conjunto, anular o efeito inicialmente planejado.

 

O governo está colocando no mesmo caldeirão uma política monetária contracionista (antiga), e uma política monetária expansionista (nova). Quando o BC acena com a elevação na taxa básica ele promove aperto na base monetária, criando de forma artificial uma pequena recessão que teria como objetivo adequar a demanda ao nível de produto disponível no país e, evitando assim, a inflação doméstica.

 

O BC, no entanto, também afrouxa o sinto e libera parte do compulsório para irrigar o sistema financeiro que, em choque, fechou-se em si e nega-se a emprestar para a sociedade.

 

O resultado dessa combinação é um curto-circuito no coração do sistema financeiro, na tesouraria dos bancos. Como é ainda muito arriscado emprestar recursos à sociedade, os tesoureiros dos grandes bancos preferem (com toda a razão) deixar parado os recursos adicionais no caixa das suas instituições. Mas como o BC ainda pratica uma política de juros altos (e os mais altos do mundo em termos reais, vale lembrar), não é de se estranhar que esses mesmos tesoureiros resolvam devolver toda noite seus recursos à remuneração líquida e certa do BC.

 

O mal estar está gerado. O dinheiro roda em espiral no sistema e não vaza para a sociedade, ficando apenas a conta diária para o BC pagar aos bancos. Agora o BC ameaça punir os bancos que continuarem a praticar esse toma lá dá cá. Os bancos já disseram, “se o dinheiro encarecer para mim vai ficar é caro para a sociedade”. O que faz muito sentido: se um banco vive de intermediação financeira, é óbvio que se seus custos aumentem ele repasse isso para o consumidor final, que nem todas as empresas fazem.

 

Em economia não adianta forçar a barra nem enfiar goela abaixo algo. A racionalidade do sistema sempre encontrará um jeito par se equilibrar num patamar mais confortável do que o formulador gostaria.

 

Esse é o problema de receitar o mesmo remédio para pacientes diferentes. Nos EUA faz sentido inundar o sistema financeiro de dólares, a política monetária é francamente expansionista e isso inclui uma taxa básica realmente baixa (na verdade negativa).

 

Está na hora do BC sentar com o Ministério da Fazenda e organizar, de fato, um plano original para o Brasil. Caso contrário podemos ter um paciente doente nas mãos de um médico cheio de diplomas. Seria melhor algo mais simples e eficiente. Em outras palavras: foco

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , ,

2 comentários para “Forçando a barra.”

  1. marcelo nunes disse:

    Seria muito mais interessante se o BC tivesse baixado as taxas de juros. A inflação subiria um pouco, ou talvez não devido à recessão mundial. De que adianta inflação baixíssima sem emprego?
    Espero que com essas decisões equivocadas, o país não entre em recessão em 2009.

  2. André Perfeito disse:

    Olá Marcelo

    Não sei ao certo se é melhor baixar ou não a selic. A situação está tricky.

    O que me incomoda é a contradição na condução da política monetária. Isso pode ser desastroso.

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