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28/09/2008 - 07:02

O Tibet não é tudo isso (por SLAVOJ ZIZEK)

*E se aqueles que se preocupam com a falta de democracia na China estiverem
na realidade preocupados com o desenvolvimento acelerado do país?

*As notícias publicadas em toda a mídia nos impõem uma imagem determinada
que é mais ou menos como segue. A República Popular da China, que, nos idos
de 1949, ocupou ilegalmente o Tibete, durante décadas promoveu a destruição
brutal e sistemática não apenas da religião tibetana, mas também da própria
identidade dos tibetanos como povo livre. Os protestos recentes do povo
tibetano contra a ocupação chinesa foram novamente sufocados com força
policial e militar bruta.Como a China está organizando os Jogos Olímpicos de
2008, é dever de todos nós que amamos a democracia e a liberdade
pressionarmos a China para devolver aos tibetanos aquilo que ela lhes
roubou; não se pode permitir que um país que possui um histórico tão
deficiente em matéria de direitos humanos passe uma mão de cal sobre sua
imagem com a ajuda do nobre espetáculo olímpico.O que farão nossos governos?
Vão ceder ao pragmatismo econômico, como de costume, ou encontrarão a força
necessária para colocar nossos mais elevados valores éticos e políticos
acima dos interesses econômicos de curto prazo?Embora a atividade chinesa no
Tibete sem dúvida tenha incluído muitos atos de destruição e terror
assassino, existem muitos aspectos dela que destoam dessa imagem simplista
de “mocinhos versus vilões”.Enumero, a seguir, nove pontos a serem mantidos
em mente por qualquer pessoa que faça um julgamento sobre os fatos recentes
no Tibete.

*Poder protetor*
1) Não é fato que até 1949 o Tibete era um país independente, que então foi
repentinamente ocupado pela China. A história das relações entre eles é
longa e complexa, e em muitos momentos a China exerceu o papel de poder
protetor. O próprio termo “dalai-lama” é testemunho dessa interação: reúne o
“dalai” (oceano) mongol e o “bla-ma” tibetano.

2) Antes de 1949, o Tibete não era nenhum Xangri-Lá, mas um país dotado de
feudalismo extremamente rígido, miséria (a expectativa média de vida pouco
passava dos 30 anos), corrupção endêmica e guerras civis (sendo que a
última, entre duas facções monásticas, ocorreu em 1948, quando o Exército
Vermelho já batia às portas do país).
Por temer a insatisfação social e a desintegração, a elite governante
proibia o desenvolvimento de qualquer tipo de indústria, de modo que cada
pedaço de metal usado tinha que ser importado da Índia.Mas isso não impedia
a elite de enviar seus filhos para estudar em escolas britânicas na Índia e
transferir seus ativos financeiros a bancos britânicos, também na Índia.

3) A Revolução Cultural que devastou os mosteiros tibetanos na década de
1960 não foi simplesmente “importada” dos chineses: na época da Revolução
Cultural, menos de cem guardas vermelhos foram ao Tibete, de modo que as
turbas de jovens que queimaram mosteiros foram compostas quase
exclusivamente de tibetanos.

4) No início dos anos 1950, começou um longo, sistemático e substancial
envolvimento da CIA na incitação de distúrbios anti-China no Tibete, de modo
que o receio chinês de tentativas externas de desestabilizar o Tibete não
era, de modo algum, “irracional”.

5) Como demonstram as imagens veiculadas pela TV, o que está acontecendo
agora nas regiões tibetanas já não é mais um protesto “espiritual” pacífico
de monges (como o que aconteceu em Mianmar um ano atrás), mas (também)
bandos de pessoas matando imigrantes chineses comuns e incendiando suas
lojas. Logo, devemos avaliar os protestos tibetanos segundo os mesmos
critérios com os quais julgamos outras manifestações violentas: se tibetanos
podem atacar imigrantes chineses em seu próprio país, por que os palestinos
não podem fazer o mesmo com colonos israelenses na Cisjordânia?

6) É fato que a China fez grandes investimentos no desenvolvimento econômico
do Tibete e em sua infra-estrutura, educação, saúde etc. Para explicar em
termos simples: apesar de toda a opressão inegável, nunca, em toda sua
história, os tibetanos medianos desfrutaram de um padrão de vida comparável
ao que têm hoje.

7) Nos últimos anos, a China vem mudando sua estratégia no Tibete: a
religião despida de política hoje é tolerada e mesmo apoiada. Mais do que na
pura e simples coação militar.Em suma, o que escondem as imagens veiculadas
pela mídia de soldados e policiais chineses brutais espalhando o terror
entre monges budistas é a muito mais eficaz transformação socioeconômica em
estilo americano: dentro de uma ou duas décadas, os tibetanos estarão
reduzidos à situação dos indígenas americanos nos EUA.

Parece que os comunistas chineses finalmente entenderam a lição: de que vale
o poder opressor de polícias secretas, campos e guardas vermelhos destruindo
monumentos antigos, comparado ao poder do capitalismo sem freios, quando se
trata de enfraquecer todas as relações sociais tradicionais?
**
*Ideologia “new age”*

8) Uma das principais razões por que tantas pessoas no Ocidente tomam parte
nos protestos contra a China é de natureza ideológica: o budismo tibetano,
habilmente propagado pelo dalai-lama, é um dos pontos de referência da
espiritualidade hedonista “new age”, que está rapidamente se convertendo na
forma predominante de ideologia nos dias atuais.Nosso fascínio pelo Tibete o
converte numa entidade mítica sobre a qual projetamos nossos sonhos. Assim,
quando as pessoas lamentam a perda do autêntico modo de vida tibetano, não
estão, na verdade, preocupadas com os tibetanos reais.

O que querem dos tibetanos é que sejam autenticamente espirituais por nós,
em lugar de nós mesmos o sermos, para continuarmos a jogar nosso desvairado
jogo consumista.
O filósofo francês Gilles Deleuze [1925-75] escreveu: “Se você está preso no
sonho de outro, está perdido”. Os manifestantes que protestam contra a China
estão certos quando contestam o lema olímpico de Pequim, “Um mundo, um
sonho”, propondo em lugar disso “um mundo, muitos sonhos”.Mas eles devem
tomar consciência de que estão prendendo os tibetanos em seu próprio sonho,
que é apenas um entre muitos outros.

9) Para concluir, a dimensão realmente nefasta do que vem acontecendo hoje
na China está em outra parte. Diante da atual explosão do capitalismo na
China, os analistas freqüentemente indagam quando vai se impor a democracia
política, o acompanhamento político “natural” do capitalismo.Essa questão
com freqüência assume a forma de outra pergunta: até que ponto o
desenvolvimento chinês teria sido mais rápido se fosse acompanhado de
democracia política?

Mas será que isso é verdade?Numa entrevista há cerca de dois anos, [o
sociólogo] Ralf Dahrendorf vinculou a crescente desconfiança com que a
democracia vem sendo vista nos países pós-comunistas do Leste Europeu ao
fato de que, após cada mudança revolucionária, a estrada que conduz à nova
prosperidade passa por um “vale de lágrimas”.Ou seja, após o colapso do
socialismo não se pode passar diretamente para a abundância de uma economia
de mercado bem-sucedida: o sistema socialista limitado, porém real, de
bem-estar e segurança precisou ser desmontado, e esses primeiros passos são
necessariamente dolorosos.

*Vale de lágrimas*

O mesmo se aplica à Europa Ocidental, onde a passagem do Estado de Bem-Estar
Social para a nova economia global envolve renúncias dolorosas, menos
segurança e menos atendimento social garantido.

Para Dahrendorf, o problema é resumido pelo fato de que essa dolorosa
passagem pelo “vale de lágrimas” dura mais tempo que o período médio entre
eleições (democráticas), de modo que é grande a tentação de adiar as
transformações difíceis, optando por ganhos eleitorais de curto prazo. Não
surpreende que os países mais bem-sucedidos do Terceiro Mundo, em termos
econômicos (Taiwan, Coréia do Sul, Chile), tenham adotado a democracia plena
só após um período de governo autoritário.

Esse raciocínio não seria o melhor argumento em defesa do caminho chinês em
direção ao capitalismo, em oposição à via seguida pela Rússia? Seguindo o
caminho percorrido pelo Chile e a Coréia do Sul, os chineses usaram o poder
irrestrito do Estado autoritário para controlar os custos sociais da
passagem para o capitalismo, desse modo evitando o caos.Em suma, uma
combinação esdrúxula de capitalismo e governo comunista, longe de ser uma
anomalia ridícula, mostrou ser uma bênção (nem sequer) disfarçada: a China
se desenvolveu na velocidade em que o fez não apesar do governo comunista
autoritário, mas devido a ele.E se aqueles que se preocupam com a falta de
democracia na China estiverem na realidade preocupados com o desenvolvimento
acelerado da China, que faz dela a próxima superpotência global, ameaçando a
primazia do Ocidente?

Há mesmo um outro paradoxo em ação aqui: e se a prometida segunda etapa
democrática que vem após o vale de lágrimas autoritário nunca chegar?É isso,
possivelmente, que é tão perturbador na China de hoje: a idéia de que seu
capitalismo autoritário talvez não seja apenas um resquício de nosso
passado, a repetição do processo de acúmulo capitalista que se desenrolou na
Europa entre os séculos 16 e 18, mas sim um sinal do futuro.E se “a
combinação agressiva entre o chicote asiático e o mercado acionário europeu”
se mostrar economicamente mais eficiente que nosso capitalismo liberal? E se
ela assinalar que a democracia, tal como a conhecemos, não é mais condição e
motor do desenvolvimento econômico, e sim um obstáculo a ele?

***Fonte: Folha*

***SLAVOJ ZIZEK é filósofo esloveno e autor de “Um Mapa da Ideologia”
(Contraponto). Ele escreve na seção “Autores”, do Mais! . Tradução de Clara
Allain .*

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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