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Arquivo de junho, 2008

22/06/2008 - 17:20

Coluna Destak: O edificio London

Queridas, queridos e achegados.

Chega mais nêgo.

Hoje dei o braço. Depois de um esforço mesopotâmico, a lá Macaco Simão by the way, não consegui mais fugir: vou falar do caso Isabella. Se bem que falo de um personagem secundário que ficou longe dos holofotes, mas bem embaixo do nariz de todos.

Na verdade ficou bem na cara de todo mundo e só não viu quem não quis.

Sei lá se foi o Nardoni e a Madrasta que mataram a pobre Isabella. Isso só uma investigação bem feita pode dizer. Mas desconfio, cá eu com meus botões, que sei quem foi o verdadeiro vilão do causo todo: foi o Edifício London!

(Pãnã…. música de suspense)

Para entender, ou não, leia a coluna anexa; tanto o original quanto a foto-cópia.

Beijos, abraços e cafunés.
André Perfeito

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Original

O Edifício London

Este texto ficou esperando de canto algum tempo. Não por menos; contra a fúria popular só muita cautela. Por outro lado o texto demorou também para ser pensado, gestado e colocado na rua. É uma idéia difícil.

Agora que o assunto esfriou me sinto a vontade para falar de Isabella. Da pobre Isabella. O ocaso dela mexeu comigo; menos pela comoção que tomou feito frenesi a população. Não. Nada disso. O que mexeu comigo foram outros detalhes, outros por menores.

O primeiro é esse: a pobre menina Isabella não é pobre. Claro, também não é rica, mas de pobre admitamos: não tem muito. Ela é fruto de uma classe média bem nascida, branca, de pais brancos, num país de mulatos e de gente muito pobre. São elite, enfim. A comoção por Isabella só chegou aonde chegou por conta disso: ela é ideal. Ela vivia num mundo onde a violência não poderia chegar, pois é o melhor que o Brasil pode produzir e que é a aspiração de toda a população: chegar à classe-média. A massa se revoltou porque os Nardoni nunca poderiam ter cometido este crime, eles já estavam lá. Eles eram a classe-média. Como alguém com tanto, casa, carro, dentista, comida, poderia fazer aquilo? Tiveram tudo, poxa! Eles não podem fazer isso contra uma criança. Ainda mais com a pobre Isabella.

Neste país a classe-média não vai ao paraíso, ela é o paraíso. Olhe agora para o lado: tanto carro né? E em cada um só um, dois no máximo. E olha que são no mínimo cinco lugares por carro. Quer maior luxo que este? Espaço num lugar apertado? Divino…

Vou arriscar aqui meu pescoço, mas vale a pena. Eu acho que quem matou a Isabella não foi a madrasta nem o pai (o que ainda não foi comprovado, é bom frisar): foi o Edifício London. Não sei se você reparou, mas durante todo o caso Isabella o Edifício London adquiriu status de personagem, impresso e comentado por toda a mídia. Sempre que um repórter aparecia lá estava ele. O Edifício London! Essa coisa virou gente, pensei. Voltando: essa classe média idealizada pelos pobres vive num inferno pior que a pobreza generalizada. Num lugar onde a solidariedade não existe mais, a competição se impõe e onde ter é mais que ser sim. O pior que esta classe-média a prestação não percebe a própria miséria, sua deselegância. Compra títulos de nobreza que nem jeca-tatus de outrora: moramos em edifícios London, Chateau de Nhém-nhém-nhém, Maison Frufru e por aí vai. Somos destituídos até do bom senso e do bom gosto (aqui bem entendido).

Enfim: neste clima de deserto a classe-média vai enlouquecendo pouco a pouco entre 30 vezes sem juros, sem entrada e sem saída. Para mim os Nardoni foram vítimas desta vida menor e morreram bem antes da morte de Isabella. Para mim quem matou a todos foi o Edifício London. Talvez você (e eu) seja a próxima vítima.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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