Coluna Destak – Sem jeito: jeitino

Se não tem jeito: jeitinho.
Cada país tem os patrimônios que merecem. Tem uns que fazem torres, outros
obelisco, tem até quem faça arco. A gente fez um Cristo. Mas tem outros
patrimônios que não são assim de se ver feito, ali posto em aço ou pedra.
Existe um tipo de patrimônio que só é sendo, que só existe no dia-a-dia
daquele povo. Os alemães são sisudos, os franceses “desinteressados”, os
americanos muito práticos. Nós de cá somos cordiais e temos no jeitinho
nosso traço mais charmoso.
Só que como nesse país a gente também costuma não cuidar do patrimônio,
sempre largado às moscas, fizemos isso também com nosso jeitinho. Calma,
explico.
Na década de 60/70 o Brasil crescia que era uma beleza. A sociedade estava
voltada para o trabalho e São Paulo era o epicentro deste mantra: “Vambora,
vambora! Tá na hora, vambora, vambora!”. Se um policial te parasse na rua
ele perguntava enfático: cadê a carteira de trabalho? Se você tinha bem, se
não tinha amém. O trabalho era um valor comum e universal e apontava para a
população nosso caminho. Ser torneiro mecânico era fazer parte de uma elite.
E como se chegava lá? Através do curso técnico-profissionalizante.
Só que, e sempre tem um só que, o Brasil abortou este projeto. Paramos de
crescer, e pior: agora queremos crescer sem carteira. Os milhares de
brasileiros que migraram para as grandes cidades do sudeste se viram no meio
do caminho, com saudades de casa e sem trabalho numa cidade que crescia
entre favelas e mucambos. E agora José? E agora Maria? E agora?
Se não tem jeito, vai jeitinho mesmo. Essa massa se jogou nas ruas como se
aquilo fosse delas (e não é?). Usam as calçadas como espaço para vender
algo, a esquina para pegar algo, e as vagas de estacionamentos como se
fossem delas. Multiplicaram-se aos milhares este tipo de ofício: ambulante,
flanelinha, bandido e o que mais você queira colocar aí. Deixamos eles na
rua, e eles viraram rua. Público e privado se confundem numa necessidade
cotidiana por sobrevivência de toda uma população. Se a carteira de trabalho
fosse de novo um valor “eles” estariam enquadrados, tendo um espaço enfim na
sociedade, nem que seja como trabalhador ? e há muito orgulho nisso!
Este é o sentido profundo do jeitinho: sobrevivência. Mas como disse
cuidamos mal do nosso patrimônio. Este modo de ser está sendo destruído por
uma elite política/econômica que vê no jeitinho e na confusão
público/privado o salvo conduto que precisam para fazer e acontecer.
É triste, muito triste, destruírem mais este patrimônio, fazendo deles algo
que nunca foi tão do nosso povo; marca clara da resistência, orgulho e
dignidade deste povo que canta e é feliz.

Ola Andre,
seus textos são muito bons e estou ancioso para ver o filme. Te convido a acessar meu blog juma99.blog.terra.com.br
Abçs Henrique
Valeu Henrique
Depois vou ler com mais calma o Mundo Cão.
Sinta-se em casa.
Abs