Coluna Destak – Ah Lula… Sei lá! Mil coisas…

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Texto original
Ah, Lula… Sei lá! Mil coisas…
Um amigo meu estava na USP quando o Sarney chegou lá no Planalto. Apesar de não ir muito com o bigode do presidente partiram em caravana para Brasília, este meu amigo e mais alguns amigos dele, para saudar a re-democratização em pleno planalto central. Tinha tanta coisa acontecendo naquele momento no país e no mundo que a trupe resolveu sintetizar todo aquele imbróglio numa faixa: Ah, Sarney… Sei lá! Mil coisas…
Peguei emprestado o bordão. Queria falar algumas coisas para o Lula e veio muito mais que podia escrever. Tem tanta coisa, não é? Por onde poderia começar? E pior: onde colocaria um ponto final? Cartas sentimentais são assim mesmo. Se não põe fim não tem.
Bateu essa vontade danada de falar algumas coisas para o presidente Luiz Inácio quando voltei do trabalho dia desses. Estava de ônibus descendo a Faria Lima embaixo de uma chuva daquelas. Eu estava meio melancólico e muito cansado. Olhei para o lado e vi na cara de todos um cansaço semelhante; algo como resignação. Pouco brilho.
Pensei: que diacho! A vida é isso? Estar vivo é isso? Era para ser assim? Ruas esburacadas, salário pouco, violência demais, criança na rua e idosos também? Pouco afeto? Me solidarizo com você leitor. Nossa cidade é brutal demais, destroça e quebra qualquer sonho entre dois semáforos quaisquer. Tem pouca beleza. Conseguimos até a blasfêmia de deixar vertical o horizonte. O sol escapa entre os prédios em intervalos curtos que nem aquecem direito o rosto. O tempo entre o vermelho e o verde demora demais por aqui. Mas que diacho!
Parei e pensei de novo: mas que diacho, para isso que deus inventou a política. É através da política que podemos mudar a cidade, o país, o mundo; e, principalmente, nós mesmos. Ninguém muda sozinho, isso é uma mentira. O individualismo atual só faz crer num absurdo. Só se muda no mundo, e o espaço vazio é uma ilusão. Pois bem, me animei!, então vamos à política!
Foi aí que veio o Lula na cabeça. Tinha tanto sonho nele, tanta esperança de um país melhor. Pensei em fazer a revolução naquele momento, largar tudo e começar a gritar no ônibus palavras de ordem. Só que veio um solavanco, algum buraco. Caí na real. Olhei para o lado e pensei: esse gordinho de bigode, camisa aberta até o penúltimo botão, faria a revolução? Pensei que não.
Tem certos dias em que penso em minha gente, e confesso: não sei mais o que pensar. Parei e pensei em mim. Pensei no que tenho e no que sou. Sorri de lado. Ainda cansado. Sei que é pouco, talvez você nem perceba, mas poder escrever e publicar é um privilégio sem tamanho. Dialogo com você; imaginário. Me sinto menos só, e sozinho – como disse – não se muda nada.
Pensei em dizer algo para o Lula, mas voltou algo solto no ar. Ah, Lula… Sei lá! Mil coisas…
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Quem escreveu algo sobre isso, ainda que não só sobre isso, foi o Veríssimo, na entrevista que a Caros Amigos fez com ele, nesse mês de janeiro. Aliás, a entrevista está ótima, vale muito a pena! Ele fala que o Lula não faz um governo de esquerda — e isso perturba a esquerda –, mas que faz coisas que dão certo –o que perturba sobremaneira a direita. Além disso, ele ainda tem apoio popular, o que é surpreendente, nessa altura do jogo político. E não era possível crer que Lula, sozinho, faria tudo o que precisa ser feito. Se ele não jogasse o jogo, não estaria na Presidência, hoje. E o jogo, infelizmente, significa fazer vista super grossa para a corrupção (ainda que eu, pessoalmente, discorde totalmente disso). Por isso, eu queria o Suplicy ou a Dilma para presidente.