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Arquivo de outubro, 2007

31/10/2007 - 14:23

Coluna Jornal Destak – Com a mão no caneco

Mais uma coluna meio misturada de sociologia e ocultismo. Será que 2014 pode ser um momento significativo para este país? Espero que si.

O original está abaixo da coluna.

Abraços, beijos e afins
André Perfeito

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Mão no caneco

Forjar o caráter de uma nação não é tarefa simples. No mais das vezes os países passaram por dores profundas para construir o que são. Tanto são as pessoas.

Porém algo potencialmente maravilhoso está acontecendo bem em baixo dos nossos narizes. A escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014 pode ter um efeito poderoso sobre nossa auto-imagem. Olhemos o passado.

Perdemos a Copa em casa. O clima de já ganhou nos roubou a taça. Mas isso não nos destruiu nem nos paralisou. Aprendemos e fomos adiante conquistando nada mais, nada menos, que cinco vezes o caneco. Mas isso não foi suficiente. Ainda nos falta algo. É por isso que sentimos que é obrigação da seleção ganhar todas. Só que essa dor nunca vai passar porque perdemos foi no Brasil. Os brasileiros perderam. Aí um dia roubaram o caneco. Outra dor. Muita vergonha.

Só que temos que ter fé. Bola pra frente. Diziam que o Pan seria um desastre, que daria tudo errado. Taí. Não deu. Fizemos uma belíssima festa e um show em organização. Não digo que vai dar tudo certo em 2014. Já vimos que este clima de já ganhou pode tirar o caneco da mão. Também podem roubar o caneco. Mas se conseguirmos fazer uma bela Copa do Mundo, e acredito e tenho fé que iremos fazer, isso pode curar aquela dor que não tinha passado, sempre presente. Quem sabe possamos – finalmente – colocar as mãos no caneco e quem sabe nos olharmos mais de frente, sem tanto ressentimento.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/10/2007 - 14:10

2014

Estou muito feliz com este anúncio para lá de 2014. Não sei direito porque, são muitas as variáveis, mas sinto que esta copa pode ser um marco significativo. Significativo bem ao gosto de um psicólogo.

Tem tudo: paixão, razão, fé e tesão. Nossa constituição como povo, que por esses motivos que não há como sondar, elegeram o futebol como palco mitológico da nossa gente. E melhor, de boa parte do mundo menos os EUA. Que delícia isso.

Sei que soa muito a lá Darcy Ribeiro, mas aquela Roma Tropical pode pintar lá em 2014.

Abraços
André Perfeito

fica aí um aperitivo dos 10 melhores gols de 2002

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/10/2007 - 23:54

Manifesto Antropofágico

Não é a primeira, nem vai ser a última, vez que publico esse manifesto neste blog. Toda vez que leio saio fascinado. Vezes porque fico imerso no manifesto em si. Outras porque em perspectiva soa quase ingênuo o diz-me-diz do texto. Oswald tentou pensar grande e fez cinema nessas páginas.

Simplesmente fantástico.

Vai de novo.

Abraços
André Perfeito

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Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/10/2007 - 16:09

Você S.A.

Dia desses melindrei o Jabor acusando-o de comunista enrustido. Só fiz isso porque – eu cá na minha vaidade intelectual – acredito que ele realmente seja. Ou pior; desejo ardentemente que seja. Mas enfim, tanto faz como tanto fez, deixo este pricopó freudiano para minha querida analista.

Porém confesso ao público em geral: eu também sou dessa laia de uma esquerda mal amada. Tento reprimir com força o hino da Internacional Socialista que toca na minha cabeça sem parar, assoviando algum axé ou pagode que seja.

Só que as vezes não me agüento. Este mundo em que vivemos é tão mercadoria que vez por outra o absurdo me salta aos olhos.

Ontem estava folheando tranqüilamente uma revista de economia e negócios quando me deparei com uma nota singela, largada num canto de página. Lá, em poucas palavras, relatavam um novo negócio que surgiu no Chile. E o negócio é o seguinte: um fundo de investimento paga bolsa de estudos a estudantes de classe-média para que se formem em prestigiosas universidades. O estudante se compromete, em contra partida, dedicar parte dos seus rendimentos futuros ao fundo de investimentos. Segundo os administradores a rentabilidade é de 10% ao ano. O nome da empresa é Lumni, pode googar.

Ou seja: Você S.A. na veia! Sem meios termos ou tons. O ser humano realmente virou o que o capitalismo sempre desejou: CAPITAL.

Fiquei ruborizado com a notícia do negócio. Olhei para os lados na esperança de alguém ter lido a mesma nota largada e tivesse ruborizado também. Não vi ninguém… O problema de ser comunista, socialista, marxista ou o que seja é esse; você se sente muito só. O mundo virando geléia e se tem a impressão que só você entendeu a piada. Desesperador.

Fico cá delirando. E quando a manipulação genética estiver realmente avançada? Não é difícil imaginar o nome do negócio: GeNeCo. Consigo até ver o slogan: Garantindo um futuro melhor!

Este bem que poderia ser o press release do lançamento da empresa.

“A GeNeCo comunica, com enorme satisfação, ao mercado o início das suas atividades em âmbito global. A GeNeCo nasce da fusão de dois grandes grupos Multinacionais, a Google Holding Cayaman e os Laboratórios Pfizer, que juntaram forças para garantir tranqüilidade e um futuro melhor para toda a humanidade. Nossa visão é fornecer aos nossos clientes a tranqüilidade de uma vida planejada, sem sobre saltos ou aflições financeiras. Através de pequenas modificações genéticas estabelecemos um alto padrão de qualidade na força de trabalho, garantindo assim empregabilidade vitalícia aos nossos clientes. Nossas taxas de descontos são de apenas 4,5% da renda bruta do trabalhador/cliente, o que nos coloca como a melhor opção existente no mercado de Clonagem Laborial.”

“Se Você ainda não é cliente venha nos conhecer. Você ainda tem todo o futuro pela frente.”

“E se você é empresário conheça nossa nova linha de contadores/auditores. Uma solução simples e elegante aos seus problemas de cotroladoria interna.”

“GeNeCo – Garantindo um futuro melhor”

Será que eu estou delirando? Será que ninguém mais vê no buraco que a gente se meteu? A ignorância é uma benção, e pensar nisso faz um mal danado. Só queria ser uma pessoa melhor, não uma pessoa “ótima”.

Como eu queria que o Jabor fosse, de fato, um comunista.

André Perfeito

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/10/2007 - 18:41

Em tempos de Mostra…

Já que a mostra de cinema de são paulo está em cartaz, resolvi colocar por esta banda algumas músicas do Joy Division, banda favorita.

é só clicar.

Abçs
Perfeito

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Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/10/2007 - 18:27

Pela luz dos olhos teus – Tom e Vinícius

Sem comentários.

André Perfeito

PS: Bom fim de semena a todos!

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/10/2007 - 10:40

O tal do preço.

Certa vez disseram que o Delfin Neto tinha dito que; abre aspas: “o que dá medo em voar de avião é imaginar que todas as peças que estão lá foram as mais baratas encontradas no mercado”, fecha aspas.

O Delfin Neto, economista que é, sabe o que fala dizendo pouco. Sua frase resume bem o que é o um preço. E um preço é isso: uma relação social. Me explico.

Se as peças de um avião são as mais baratas possíveis encontradas no mercado isso quer dizer que alguém comprou barato. Se alguém compra barato é porque quer algo; geralmente lucro. E de barato em barato o preço das coisas tecem todas as relações sociais, envolvendo todos os viventes do planeta. Não todas as relações sociais, só as relações de compra e venda. Será?

Se eu vou num posto de gasolina porque lá está 20 centavos mais barato que o concorrente faço isso porque quero o barato. Mas se eu parar para pensar direito posso muito bem percorrer mentalmente o caminho atrás daquele preço. Não seria razoável imaginar que aquela gasolina é adulterada ou o posto sonegou? Claro que é razoável! Se compro o cortador de unha mais barato que existe e leio made in china no verso; batata! Mão de obra semi-escrava.

Faça um exercício da próxima vez que você for comprar algo (imagino que será nos próximos vinte minutos). Olhe para o preço e pense. Qual é a história dele? Se comprar o mais barato tudo bem. Se não comprar pode ser o maior barato…

André Perfeito

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/10/2007 - 12:38

Ficha Corrida Políticos (Trecho da versão preliminar)

Vai aí um aperitivo da matéria (na verdade este é apenas um rascunho) que preparei para a Rolling Stone Brasil; uma espécie de ficha corrida dos parlamentares e afins. Investigação ao estilo inglês.

Abs
André Watson Perfeito

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Quando o Ricardo Cruz, editor-chefe da Rolling Stone, me pediu para fazer um levantamento de casos de corrupção envolvendo parlamentares desde o Mensalão – meados de 2005 – até hoje, pensei: tô na lama. Não por menos; puxando de memória ali no ato lembrei de uma dezena por baixo. Certamente o volume seria gigantesco, o que foi confirmado nas pesquisas preliminares desta matéria. A ficha corrida dos parlamentares extrapola qualquer bom senso; tem de tudo: corrupção ativa, passiva, peculato, assassinato, apropriação indébita, extorsão, e um tanto mais de nomes elegantemente técnicos para descrever o antigo ato de furtar.

Bem, mãos à obra. Comecei fazendo o levantamento em hemerotecas e arquivos de grandes jornais, certamente ali estariam as primeiras pistas deste sinistro inventário. Batata!, diria Nelson Rodrigues. Na primeira consulta que fiz mais de mil referências com a busca corrupção + parlamentar. Tô na lama, pensei de novo. Separar notícia por notícia, caso por caso seria a 13° tarefa de Hércules, mas enfim…

Ao longo do processo de tabelar causo a causo me dei conta que a tarefa era virtualmente impossível, nem tanto pela quantidade de sinistros dos senhores de Brasília, mas por um motivo realmente muito simples; o tempo médio de um processo ser transitado e julgado neste país é de oito anos segundo algumas fontes. Já que minha janela de investigação era de dois anos a maioria absoluta, só para não dizer 99,9%, dos casos simplesmente não haviam sido julgados. Não achei um indicador preciso, mas desconfio que no caso de parlamentares e seus foros especialíssimos a média deva ser bem superior que os oito anos.

Os motivos desta lentidão são muitos, entre todos o que salta aos olhos de especialistas é o gerenciamento das toneladas de papéis dos autos. Kafka ficaria de queixo caído com o submundo dos tribunais brasileiros onde pilhas e mais pilhas de papéis se aglomeram numa cena surreal. A justiça brasileira está informatizando seus tribunais na tentativa de evitar tempo perdido amparada na lei 11.419 de 2006 que dispõe sobre o assunto e dá outras providências.

Porém seria fácil se fosse só papelada nosso problema de justiça. Colaboram para a morosidade do judiciário uns tantos outros motivos, entre eles a existência do foro privilegiado para servidores e políticos, o uso excessivo de hábeas corpus, a quantidade de apelações e a prescrição de casos. Claro que todos estes mecanismos servem para garantir o amplo direito de defesa, mas convenhamos, já passou do limite.

Caso exemplar desse emaranhado de salvaguardas é a investigação do desvio de recursos na construção do Complexo Ayrton Senna na gestão de Paulo Maluf. O caso corria na justiça comum mas foi transferida para Supremo Tribunal Federal pois Maluf havia conquistado uma vaga como Deputado Federal por São Paulo. Além disso ele acaba de completar 70 anos, o que faz o tempo de prescrição cair pela metade. Em resumo: fez-se a lei e o caso foi arquivado. O processo voltou para a primeira instância já que há outros envolvidos sem foro privilegiado. O Ministério Público Estadual paulista estima em R$ 5,8 milhões o desfalque.

Entre os poucos casos de corrupção transitados julgados e onde o réu acabou atrás das grades está a fraude do INSS de São João de Meriti, na baixada fluminense. Na década de 90 uma quadrilha desviou cerca de R$ 600 milhões dos cofres públicos pagando de forma fraudulenta indenizações por acidentes de trabalho. A mais famosa do grupo é a então advogada Jorgina de Freitas que foi condenada juntamente com mais outros 44 da trupe. Eles pegaram em média 14 anos de prisão, no entanto menos de 15% do rombo retornou aos cofres públicos. No início deste ano Jorgina conquistou o direito ao regime semi-aberto já que cumpriu oito dos quatorze anos da pena. Ela foi transferida do Presídio Talavera Bruce para a Penitenciária Joaquim Ferreira de Souza. Tudo dentro da lei, e dos conformes.

Voltando a ficha corrida. Como poderia fazer este levantamento se de fato não há nada de fato contra esses políticos? Existem muitas acusações, indícios e até gravações de ilícito explícito, mas isso não se configura de fato nenhuma verdade. No caso do Mensalão, por exemplo, só agora que o caso chegou no Supremo para ver se vai ser acatado ou não. Como poderia separar o joio do trigo e evitar alguma barberagem jornalística, sem contar em possíveis processos?

Geralmente denúncias publicadas na mídia sobre corrupção acabam se transformando em inquéritos e, dependendo das condições de temperatura e pressão política, numa CPI. Para mostrar a extensão da corrupção e sua complexidade operacional um bom exemplo é o caso da Máfia das Ambulâncias, também conhecida como Sanguessugas. O esquema era simples: parlamentares faziam emendas no orçamento demandando ambulâncias para x ou y município. Através de uma empresa, a Planam do empresário Luiz Antônio Vedoin, o dinheiro das ambulâncias superfaturadas era desviado para o bolso dos envolvidos. O que é incrível em todos os casos que apuramos é a simplicidade dos esquemas, simplesmente metem a mão na grana. Não é nada muito sofisticado. No caso em questão, até o início do ano, há 84 inquéritos correndo no STF e 33 indiciados pela PF. Destes 33 nenhum se reelegeu no último pleito, logo serão investigados pela justiça comum, mas dos 51 inquéritos restantes há políticos reeleitos. No caso das ambulâncias há um fato interessante, envolve diversas esferas políticas (deputados federais e prefeitos). Isto mostra por si só a extensão da praga da corrupção neste solo tropical.

Para manter minimamente algum rigor, e fugir do diz-que-me-diz, resolvi investigar as operações da Polícia Federal. Por dois motivos: o primeiro é que toda investigação da PF é previamente autorizada por algum juiz, logo há de fato provas suficientes para iniciar uma investigação, e segundo porque a Polícia Federal simplesmente seqüestrou a atenção do Brasil com suas investidas contra o crime organizado. Desde 2004 até hoje foram noticiadas 221 operações especiais contra os mais variados delitos, de tráfico de drogas, passando por corrupção, crimes contra a natureza, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro.

Uma operação em especial chama atenção por conta da ampla participação de uma casa legislativa, além do executivo e do judiciário no estorno do dinheiro público. É a Operação Dominó que descobriu em Rondônia uma mega operação de corrupção. Dos 24 deputados da assembléia apenas um não participava do esquema segundo a PF. Os outros 23, incluindo o Presidente da casa, foram acusados de criar uma folha de funcionários paralela, só com laranjas, e embolsavam seus rendimentos. Como se isso já não fosse suficiente ainda faziam empréstimos consignados em nome dos laranjas. Mas não pára por aí: o vice-presidente do tribunal de contas e um desembargador davam proteção a quadrilha. O rombo estimado foi de R$ 70 milhões.

Os valores são altos, os envolvidos muitos, os punidos bem poucos. Mas como mensurar o tamanho da encrenca? Isso é possível? Segundo Cláudio Abramo da Transparência Brasil todas as formas de medir a corrupção são metodologicamente frágeis, afinal corrupção é algo secreto, velado. No entanto a FIESP (Federação das Indústrias de São Paulo) fez uma estimativa para o ano de 2005 e chegou na inacreditável cifra de R$ 26,2 bilhões, cerca de 1,35% do PIB daquele ano, o que daria para comprar cerca de dois milhões duzentas e setenta e cinco mil quatrocentos e cinqüenta e uma garrafas do vinho Romane Conti, safra 1995. Nesta conta pondera-se também a perda econômica devido as instabilidades no mundo dos negócios devido a corrupção.

Para Abramo a corrupção se combate evitando que haja as condições objetivas para que ela aconteça. Para estancar esse mal somente com o aumento da fiscalização e reconduzindo a máquina estatal para práticas mais seguras e transparentes. A origem da corrupção para ele não é de fundo moral, mas sim um casamento de interesses entre o corruptor e o corrupto. Aponta como muito mais perigoso para os cofres públicos a existência de cargos comissionados que ficam ao bel prazer do governante para fazer suas barganhas eleitorais, do que o esquema que se verificou no caso dos sanguessugas, via emendas no orçamento da União. A emenda em orçamento é legítima, lembra Abramo, é dever do parlamentar levar as reivindicações da sua região para o congresso. No sentido de dar mais transparência a administração pública e no combate de corrupção a Transparência Brasil tem duas iniciativas de peso na Internet. Um é o site Deu no Jornal onde a ONG agrupa todas as notícias que saíram sobre corrupção no Brasil desde 2004. Pode-se assim acompanhar o desenvolvimento de um caso específico com muita facilidade. Outra ótima iniciativa é o site Assistente Licitações que em parceria com o Tribunal de Contas de Santa Catarina disponibilizou na internet alguns dados dos municípios. Lá é possível saber, por exemplo, qual foi a quantidade média comprada de cimento por habitante pelo município (em 2005 o município de Peritiba havia consumido 43,5 quilos por munícipe, o maior consumo per capta daquele ano). Isto pode ser um indicativo de má gestão, ou coisa pior. É nesse sentido de fiscalização, transparência e cobrança que pode ser combatida a corrupção. Para acessar estes sites entre na página da Transparência Brasil em www.transparencia.org.br

Há no entanto quem ache que a corrupção tem um fundo menos racional, e mais típico nessa terra. Esta é a opinião do antropólogo Roberto DaMatta, que entrevistamos no seminário Relações Institucionais e Governamentais realizado pela InterNews. Ele credita à dualidade entre patrimonialismo e republicano a origem da especificidade da nossa corrupção. Estamos como que suspensos entre duas éticas, uma da casa – pessoal -, e outra da rua – impessoal. Esta indecisão ética, ou moral, leva as raias da loucura dado que circular numa sociedade com essas características tão distintas não permite fincar o pé num comportamento comum. Este seria o fundamento do Carnaval, que traz a tona esta situação emocional limite. Esta interpretação dual é a mesma de Sérgio Buarque de Holanda, pai do Chico e grande sociólogo brasileiro. Para Sérgio a cordialidade, tão típica dos brasileiros, é justamente o que permite esta contradição ser funcional, existir. A cordialidade é antes de tudo uma estratégia para circular numa sociedade onde público e privado se confundem.

Ambos, Cláudio e Roberto, vêem com preocupação o futuro do país, mas acreditam que possa haver saída para este imbróglio que nos metemos. Conversando com eles ficou claro que o problema não é a corrupção, mas nós mesmos, brasileiros. E para nossa sorte a solução também. Lembrando o famoso Barão de Itararé, e sintetizando as duas interpretações: o Brasil é feito por nós, está na hora de desatá-los.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/10/2007 - 22:54

Inventário Bill Gates – curta-metragem

Já publiquei esse curta de minha autoria aqui no blog. Resolvi republica-lo porque estou em fase final de elaboração da minha monografia de conclusão do curso de economia da PUC/SP, e esse tema me persegue. Claro que a mono não é sobre Economia Metafísica – nunca conseguiria meu diploma – mas o tema que estou estudando é muito próximo.

A monografia é sobre trabalho produtivo e improdutivo nos Clássicos (Smith, Ricardo e Marx) e nos Neo-clássicos. Depois de feita a comparação entre ambos introduzo o conceito de Capital Humano tal qual desenvolvido recentemente.

Desconfio que os neo-clássicos tiveram que dar o braço a torcer para as teorias de valor trabalho, em contra-posição as teses de valor utilidade.

Vejam e opinem. Este vídeo foi um delírio, captado na minha câmera fotográfica digital e editado num computador qualquer. Espero que gostem.

Abs
André Perfeito

Inventário Bill Gates

Anexo 1 do livro Princípios de Economia Metafísica, por André Perfeito.

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Inventário Bill Gates

Para ilustrar com mais clareza a subsunção real do Tempo de Vida pelo Capital, proponho o seguinte exemplo, e exercício de imaginação.

Peguemos o Bill Gates. Ele, até onde consta minha lista da Forbes, figura no topo da lista dos endinheirados do planeta. Sendo o homem mais rico do planeta faço a seguir um inventário fictício de seus bens e serviços, e registro que o faço com um viés conservador na estimativa.

Pois bem, o Bill Gates é o homem mais rico do mundo.

É razoável supor que o homem mais rico do mundo possua pelo menos três mansões; uma na cidade, outra de campo e outra de praia, e todas elas – sendo modesto – de pelo menos 700 m² de área construída. Também é razoável supor que cada uma dessas casas, desculpe…, mansões, tenham pelo menos cinco suítes, e que cada suíte uma TV de Plasma. Cada suíte uma cama king-size, além de criado-mudo, tapetes, lâmpadas, armários, roupa de cama (cobertores, travesseiros, lençóis e fronhas), fora a tinta da parede e as obras de arte penduradas (quadros com paisagens inglesas de caça a raposa e fotos de família).

Agora, toda mansão que se preze, tem uma belíssima cozinha. Existe a geladeira, o freezer, o fogão industrial cromado, os utensílios diversos (liquidificadores, panelas, formas, batedeiras, micro-ondas, abridores automáticos de lata de sardinha além de um Jumbo-Grill George Forman). Existe a bancada de madeira para preparar os alimentos, as pias, as torneiras, as lâmpadas, o triturador de lixo, os cestos de lixo, as facas para carne, o jogo de talheres, os copos (de refrigerante, vinho, água, e os de festa etc…). Sem contar a louça com pratos para os mais variados fins e propósitos: de sopa, para jantar, para o lanche da tarde, etcetera e tal.

Na sala de estar uma lareira e os apetrechos para ela: tela protetora de fagulhas, ferros para mexer no fogo, além de lenha, é claro. Fora isso mais tapetes, quadros, lâmpadas, lustres, luminárias, a mesa de jantar em madeira de lei, a cristaleira, mais uma TV de Plasma (essa bem maior que as outras) e a aparelhagem para o home-theatre. Além dessas coisas de sala típica como patos de madeira e bustos de alce empalhado.

Saindo da sala e olhando com cuidado o entretenimento da família. Não deve faltar uma mesa de bilhar (a da cidade com feltro verde, a de praia branco e a de campo vermelha), os tacos, a mesa para carteado, as cartas, as fichas em resina plástica, aquele quadro com cachorros jogando carta e vestido de gente, vídeo games (X-Box, for sure) e computadores de última geração com monitores de 27 polegadas.

Para não exagerar na conta vamos imaginar que ele possua apenas três carros: um para cidade, outro para praia e outro para o campo. O da cidade é uma SUV BMW X5, o carro de campo é uma SUV Land Rover estendida, e o da praia é outra SUV Land Rover, mas do modelo menor, mais compacta. Também não acho exagero imaginar que o homem mais rico do mundo tenha pelo menos um jatinho particular, desses que a Embraer faz bem melhor que a Bombardier.

Não nos esquecemos dos serviços que ele consome diariamente. O almoço, o jantar, o lanche da tarde e a limpeza e manutenção das três mansões citadas.

Agora imaginemos o seguinte. Imaginemos que nosso querido Bill Gates consiga produzir, com a própria mão e com as ferramentas necessárias, tudo o que ele possui: os carros, as camas, os lençóis, as geladeiras, os freezer, os fogões, os tapetes, os quadros, as mesas, a louça, os talheres, o Jumbo Grill George Forman, a pia, o colchão king-size, os computadores, as TVs de Plasma sem contar as casas em si: obras de concreto, aço, madeira, fios de energia, encanamento, telhas, portas, azulejos e tinta. Todas de 700 m². E são três. Não se esqueça.

Vamos desconsiderar as obras de arte, aja vista que reproduzir o livro de anotações do Leonardo Da Vinci (qual o Bill Gates possui) não é tarefa fácil. Mas vamos supor que de resto ele consiga produzir todo o resto na melhor produtividade vigente.

Seria razoável imaginar que ele demoraria pelo menos 2000 anos para produzir sozinho tudo o que possui.

Mas nós sabemos que ele não viverá tudo isso. Vamos supor que nosso querido Bill Gates chega na incrível idade de 150 anos, e que de quebra fossem anos acordados, sem contar as horas que esteve dormindo.

A aritmética é simples, você já deve ter percebido.

Se subtrairmos os 2000 anos necessários para ele produzir tudo o que possui, e deduzir os 150 anos que ele viverá, veremos que ele acabou utilizando 1850 anos de vida de outras pessoas.

Caro leitor, esse é o eixo da Economia Metafísica. Não devemos considerar somente o tempo de trabalho incorporado as mercadorias como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx fizeram. O Capital é a vida morta voltando a vida toda vez que tocada pela mão de um vivente, e, além, é a vida de toda a humanidade até aqui transformada em objeto morto: mercadoria.

O capitalismo, numa perspectiva individual, é isso: ao final do dia você deve contabilizar se ganhou vida alheia para somar na sua conta, ou se perdeu para o alheio seu tempo de vida.

Esse é o sentido mais radical de guerra, e o comércio é a arena mundial deste conflito não por vida, mas pelo tempo de vida dos outros, como um constante afluxo de almas para a propriedade do Capital.

André Perfeito

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/10/2007 - 13:00

Que Jimi Hendrix que nada!

Eu quero Baden Powell.

Saravá!

Versão fantástica de Tristeza, roots mesmo.

Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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