
Nico Puig será Filinto, um sociopata torturador em "Amor e Revolução", do SBT
O Canal Viva tem alterado a rotina de alguns atores. Nico Puig, por exemplo, agora só dorme depois que o capítulo de “Sex Appeal”, minissérie que o revelou para o grande público na Globo termina. Exibida originalmente em 1993, a produção foi o ponto de partida de grandes estrelas da TV, como Camila Pitanga, Carolina Dieckmann, Danielle Winits e Luana Piovani. Também foi ela a responsável por arremessar Nico Puig e Felipe Folgosi ao posto de protagonistas da inesquecível novela “Olho no Olho”, na qual viviam rivais que disparavam laser pelos olhos e disputavam o amor de Patrícia de Sabrit. A atriz, aliás, voltará a contracenar com Nico em “Amor e Revolução”, trama do SBT que deve estrear em abril. No folhetim escrito por Tiago Santiago, o ator dará vida a Filinto, um major do exército com comportamento de sociopata que tortura não somente os que se posicionam contra a ditadura, como também a própria mulher. Para compor o papel, Nico foi longe. “Viajei até Cartagena para conhecer o Museu da Tortura, conversei com militares, pesquisei sobre o período em filmes e livros”, conta ele, que, além de atuar, se revela um aficcionado por decoração e ainda se dedica ao container housing. “O escritório de meu apartamento fica dentro de um container”, diz. Boa-praça, Nico conversou com a coluna.
IG: Como é reencontrar Patrícia de Sabrit?
NICO PUIG: É incrível. Patrícia é uma irmã querida e uma amiga de muitos anos. Ela foi minha namorada dos tempos de adolescência, antes mesmo de fazermos “Olho no Olho”, fizemos uma peça juntos quando éramos novinhos. Hoje a gente ri desses tempos. E estou muito feliz por ela, pelo casamento, pelo filho, pela família que ela construiu. É uma grande satisfação trabalhar com ela.
IG: Muita gente ainda te para na rua pra falar de “Olho no Olho”?
NICO PUIG: Muitas pessoas ainda fazem referência à novela. Acho que a lembrança é forte porque eu vivia um vilão, que entrava na trama para tumultuar. Mas também tem muita gente que lembra de “Sex Appeal”. Agora que está reprisando no Viva, então, muitos entram em contato. São trabalhos marcantes. Também me param na rua para falar de “A Pequena Travessa” ou “Maria Esperança”, que fiz no SBT. Dizem que torceram para que meu personagem, que era paralítico, ficasse com a mocinha no final. Acho que isso varia com a referência da época. Os mais jovens não lembram tanto de “Sex Appeal”, por exemplo.
IG: “Sex Appeal” revelou muita gente que está trabalhando até hoje. Ainda mantém contato com estas pessoas?
NICO PUIG: Tenho muitos amigos daquela época. Alguns se afastaram um pouco, claro, porque tinha menos intimidade. A minissérie revelou mesmo muita gente boa, mas eu já trabalhava há um tempo naquela época. Comecei bem antes, apresentei o “Revistinha”, que era um programa ao vivo na TV Cultura, fiz mais de 150 campanhas… Aliás, fui o primeiro ator a fazer campanha de prevenção a Aids no Brasil. Mas acho que posso dizer, sim, que “Sex Appeal” também foi um start de projeção. Me tornei mais conhecido por causa dela.
IG: Sente saudades daquela época?
NICO PUIG: Não sou muito saudoso, não. Já fui mais saudoso, mas, depois que me separei, passei a viver mais o presente. Hoje olho com distanciamento, mas, é claro, é muito legal ver cenas daquela época. Quando fiz “Sex Appeal”, tinha 18, 19 anos. Hoje já estou com 38.

O ator em 1993, num bastidor de "Sex Appeal", com Bel Kutner
IG: Falando do seu presente, então, como tem sido gravar “Amor e Revolução”?
NICO PUIG: Recebi um grande presente do Tiago Santiago. Filinto é um personagem muito rico e multifacetado. O fato de ele ser um sociopata é só um detalhe. É um homem que tortura até a própria mulher.Tiago tem uma forma de escrever que é muito prazerosa para o ator.
IG: Por que acha que faz tantos vilões?
NICO PUIG: Acho que tenho cara de mau, talvez não tenha uma cara muito simpática. Não correspondo ao protótipo de galã, meu jeito é meio tosco, seco, tenho maxilar grande sou orelhudo, tenho nariz grande. Engraçado que até me considero um cara doce, mas isso só quem me conhece pode dizer, né? Não vou ficar aqui vendendo meu peixe. (risos) Mas busco ser uma boa pessoa no meu dia-a-dia, tratar a todos bem.
IG: Fez pesquisa sobre o tempo de ditadura para compor seu personagem?
NICO PUIG: Tivemos um workshop no SBT, mas, além disso, tive a oportunidade de ir até Cartagena, onde visitei o Museu da Tortura. Conversei com pessoas que sofreram tortura nos tempos de ditadura e também tive contato com militares, que passaram a própria visão da história. Muitos deles tentam se eximir de culpa, dizem que não era bem assim. Engraçado que eu era muito criança nessa época, mas tenho lembrança do convívio familiar que dão uma mostra de como era viver naquele tempo: de não poder ouvir certas músicas, de algumas restrições, por exemplo. Talvez eu não tivesse a maturidade pra entender, mas hoje entendo.
IG: Acha que o Brasil está pronto para as cenas de tortura? Não tem medo que a novela seja vista apenas por causa disso?
NICO PUIG: Me considero uma ferramenta para ajudar os brasileiros a conhecer melhor a história do próprio país e assumir uma postura. Não acho que o espectador vá se chocar, não. Habitualmente a gente vê cenas tão duras nos telejornais. É necessário verem o que ocorreu para não emburrecerem, para terem conhecimento da história e poderem formar uma visão crítica com discernimento. Essa é a oportunidade de tomar conhecimento por quem lutou por nossos direitos. Os brasileiros têm de aprender a bater o pé.
IG: Você está fora da Globo há quase 15 anos. Por quê?
NICO PUIG: A Globo realmente dá uma projeção bacana, mas outras emissoras podem dar também. Comecei a carreira fora da Globo, na TV Cultura, fiz novela no SBT, com Walter Avancini, e só depois fui trabalhar na Globo. Tive um período de muito trabalho na emissora, mas fui criado em São Paulo apesar de ser carioca. Me firmei aqui e tive muitos trabalhos amarrados aqui. O fato de estar fora da Globo não significa que estou sem trabalho; sempre estou fazendo algo. E acho que as outras emissoras estão investindo em seus núcleos de dramaturgia, conseguindo boa audiência.
IG: É verdade que você se dedica também a outra profissão?
NICO PUIG: Sou conhecido como designer da lata, trabalho com reciclagem e planejamento. Às vezes acho móveis no lixão e os transformo. Gosto disso. Mas meu forte é mesmo o metal. Também faço container housing. Meu escritório, por exemplo, fica dentro de um container. É um espaço mais contemporâneo. Trabalhar com reciclagem é bom, ainda mais em tempos tão consumistas. Já fui muito consumista, mas hoje sou mais tranquilos. Se é pra consumir, que consumam mais novelas.
IG: Por fim: se arrepende de ter posado nu?
NICO PUIG: Seria retrógrado dizer que sim. Hoje, talvez pensasse três vezes. Mas na época me senti lisonjeado com o convite. Chegavam cartas na redação da revista pedindo para que eu fosse capa. E também não sou o protótipo desse tipo de publicação, malhado, forte. Sei que vendeu bem, ficou entre as três de maior sucesso da editora, mas nem cheguei a ver nas bancas. Fiz o ensaio e fui passar um tempo nos Estados Unidos. Sou a favor da liberdade de expressão e também pensei: “se não fizer agora, em 10 anos eu não faço”. Existe uma coisa chamada lei da gravidade! (risos). Os cabelos já estão ficando brancos… Acho que eternizei um bom momento.
Me siga no Twitter