O Mundial feminino acabou e a seleção já está voando de volta para casa com a medalha de prata na bagagem. Um dia depois de mais uma derrota para a Rússia na final (equipe nacional caiu diante das europeias na decisão em 2006 e nas Olimpíadas de Atenas), passados os sentimentos do momento, segue um balanço da atuação do time de Zé Roberto Guimarães no torneio.

Jaqueline, na partida final do Mundial
Fator psicológico: isso sempre aparece quando o assunto é seleção feminina. Ele não tinha sido importante ao longo do torneio, quando a seleção teve seus momentos em baixa, principalmente contra os rivais mais simples, e não demorou a se recuperar e liquidar a partida. Além disso, as brasileiras entraram com tudo nos jogos mais complicados, como contra a Itália, Alemanha e até Estados Unidos.
Entretanto, na final acho que faltou um pouco de cabeça no lugar. O Brasil sabia o que deveria fazer: jogar explorando o bloqueio russo e preparado para receber pancadas de bolas mais lentas. O time foi muito bem em dois sets, mas se abalou com a derrota no quarto e, depois, não conseguiu se recuperar. Ainda teve o erro do juiz no ataque dentro de Sheilla, que deixou o placar no 7 a 7. Na verdade, Brasil e Rússia tiveram altos e baixos na final, mas o “baixo” da seleção veio por último e elas perderam. Não considero uma amarelada ou nada assim. Perderam para quem estava melhor no momento certo e virando mais, que era a Rússia.
Zé Roberto: é um técnico que eu aprendi a admirar. Antes achava que era calmo demais, mas agora gosto muito de seu estilo. Ele foi um professor neste Mundial, ensinando para Fabíola onde ela deveria colocar a bola, vibrando, reclamando e passando a mão na cabeça em alguns erros, para não desesperar ainda mais o time. A seleção soube obedecer bem Zé Roberto, como na vitória contra a Alemanha, seguindo à risca a marcação para cima da oposta Kozuch e com as variações de jogadas pedidas pelo treinador.
Não sei ao certo o que faltou ele fazer na final… Talvez ousar e mexer no time quando começaram os erros no quarto set, afinal, a mudança na semifinal (de Jaqueline por Sassá) tinha dado ânimo novo ao time. Quem estava no banco poderia dar um novo ritmo ao time.
Erros: olhando todos os jogos do Mundial, o Brasil ficou empatado em número de jogos que errou mais e que errou menos. Foram cinco jogos com mais falhas, cinco com menos e um com o mesmo número que as rivais. Entretanto, a seleção passou a errar muito mais na reta final. Foram 34 bolas de graça nos 3 sets a 2 sobre o Japão (contra 20 das asiáticas) e 22 na derrota para a Rússia (contra 11 das europeias). Isso é resultado, principalmente, dos ataques, que pararam de cair. E esses pontos fizeram falta na final… Mais uma vez a culpa pode ser do tal fator psicológico. Você bate uma e não vira, bate outra e erra de novo… a confiança cai e a concentração também.
Recepção: foi mais um ponto crítico na seleção brasileira. Em quase todas as partidas o time teve uma queda no fundamento. E sem passe na mão, fica complicado variar jogadas, usar o meio-de-rede e se arrumar. Jaqueline, uma boa passadora, cresceu durante o campeonato, mas ainda assim, muitas bolas saíram erradas. Se não há uma Gamova no time, o jeito é passar direito para garantir toda a gama de opções no ataque.

Levantadora Fabíola
Levantamento: esse ponto está ligado ao assunto recepção/passe. Fabíola ganhou, por méritos, a posição de titular, mas foi prejudicada pelo passe quebrado em alguns momentos. E nessas horas, a bola era colocada quase sempre para a jogadora que estava à frente da levantadora. É muito mais simples levantar para frente do que para trás, e senti Fabíola insegura ao inverter a jogada. Além disso, queria mais ações de meio. Essa é uma jogada praticamente de segurança do Brasil. Basta lembramos da guinada que do time deu contra Cuba, liderado pelos ataques de Fabiana. O passe ruim dificulta, sem dúvida alguma, mas já vi levantadores, como Bruno ou Ricardinho, forçarem pelo meio mesmo com a bola afastada da rede. Faltou usar mais o meio.
Ainda assim, apóio Fabíola no time. Ela acertou mais do que errou e, como já disse diversas vezes aqui no blog, deve seguir na equipe para se entrosar cada vez mais com as atletas e com o que deseja Zé Roberto e ganhar segurança. Levantador precisa de tempo para amadurecer no time. Tanto Fabíola quanto Dani Lins estavam em seus primeiros Mundiais. Eu acho que não adianta ficar trocando toda hora. O ideal é ter as suas levantadoras e deixar que elas treinem e amadureçam no time.
Fabi e Sheilla: são duas atletas consagradas em suas posições, mas cada uma teve um caminho. A oposta foi uma das melhores jogadoras do Brasil no Japão, variando muito os ataques e ainda pontuando no bloqueio e sendo eficiente no saque. Deveria ter recebido mais bolas. Já a líbero fez lindas defesas, como a bicicleta contra o Japão ou alguns mergulhos contra a Rússia, mas falhou na recepção, o que não era comum à jogadora.

Natália assumiu posição de titular
Mari e Paula: não sei se as duas baixas na seleção teriam feito diferença no resultado final do Mundial. Natália fez um grande campeonato e Jaqueline cresceu aos poucos e correspondeu quando foi acionada por Fabíola. Mari já passou por momentos de pressão, já foi alvo do saque, como na final olímpica, e aprendeu a manter a cabeça no lugar. Já Paula é a vibração e sabe variar o ataque, largando ou batendo com tudo. As duas poderiam ter ajudado a levantar a seleção e dar um pouco de maturidade ao time, mas não vejo nenhuma culpa em Natália, por exemplo, que teve que se virar como titular e, em vários jogos, foi a jogadora de segurança do time.
Saque e bloqueio: foram os pontos fortes do Brasil no Mundial. O bloqueio fez seu papel e, em quase todas as partidas, a seleção marcou mais de 10 pontos deste fundamento. E no saque, foi seguida a proposta, que era de encaixar o serviço, escolhendo o alvo do outro lado, e errar pouco.
Volume de jogo: acho que a defesa também teve boas apresentações e deu volume de jogo ao Brasil. As jogadoras estavam bem posicionadas e recuperaram diversas bolas. E no geral, quem estava na rede colaborou para concluir o contra-ataque. Mas vale a lição do Japão, que além de defender qualquer ataque, conseguiu colocar a bola em boas condições para a levantadora armar.
É isso! Doeu perder mais uma vez para a Rússia, ainda mais um jogo no qual o Brasil começou bem e mostrou que poderia ganhar. Foi um bom campeonato, com 10 vitórias em 11 jogos e uma final de igual para igual. Agora é desejar boa volta para casa e continuar trabalhando porque esse time deve se manter, pelo menos, até Londres. E cuidado porque a Rússia, apesar das veteranas Gamova e Sokolova, também tem boas novatas, como a ponteira Kosheleva, que ainda darão muito trabalho…