O pop e a pedofilia: Sting e “aquele livro do Nabokov”
Em 1980, o Police lançava seu terceiro álbum. Zenyatta Mondatta foi feito sob pressão da gravadora, que queria que a banda, liderada por Sting, mandasse logo outra turnê. O trabalho feito na correria rendeu bons frutos: uma das músicas, “Don’t Stand So Close to Me”, emplacou o primeiro lugar no Reino Unido e foi a primeira canção do grupo a chegar ao Top 10 americano, o que popularizou o grupo nos ‘Istêites’.
Para ouvir a versão lançada em 1980, clique aqui.
A mistura de reggae, punk e pop levada a cabo pelo trio foi um dos sons dos anos 80. Mas o que talvez você não saiba é que “Don’t Stand So Close to Me” faz referência a um livro que, ao contrário do single, não foi exatamente um sucesso instantâneo.
A letra da música fala de uma aluna que está perdidamente apaixonada por um professor, obviamente mais velho que ela. Entre a descrição das investidas da garota e os boatos que correm na sala dos professores, no finzinho Sting ilustra o nervosismo do professor comparando-o “ao velho daquele livro do Nabokov”.
“Young teacher, the subject
Of schoolgirl fantasy
She wants him so badly
Knows what she wants to be
Inside her there’s longing
This girls an open page
Book marking – shes so close now
This girl is half his age
Don’t stand, don’t stand so
Don’t stand so close to me
Her friends are so jealous
You know how bad girls get
Sometimes its not so easy
To be the teachers pet
Temptation, frustration
So bad it makes him cry
Wet bus stop, shes waiting
His car is warm and dry
Loose talk in the classroom
To hurt they try and try
Strong words in the staffroom
The accusations fly
It’s no use, he sees her
He starts to shake and cough
Just like the old man in
That book by Nabokov
Don’t stand, don’t stand so
Don’t stand so close to me”
Pois “aquele livro do Nabokov” se chama “Lolita” e foi lançado em Paris em 1955, depois que o autor, o russo Vladimir Nabokov, recebeu quatro sonoros “nãos” de editoras norte-americanas. Terminado em 1953, o romance falava de Humbert Humbert — um professor europeu de meia-idade obcecadamente apaixonado por Dolores Haze, uma garota americana de… 12 anos. Tá explicado porque tantas editoras americanas disseram não. E tá explicado porque Sting achou o livro propício para a letra da sua própria história de um affair proibido entre um homem mais velho e uma menina.
“Lolita” causou furor quando de seu lançamento. Na França, a tiragem de 5 mil cópias se esgotou rapidamente, mas a mídia não deu muita atenção. Foi só quando o escritor Graham Greene disse em uma entrevista ao “Times” londrino que era um dos melhores livros do ano é que foram ver do que se tratava. Aí, o editor do “Sunday Express”, também de Londres, publicou uma crítica afirmado que “Lolita” era “o livro mais nojento que ele já havia lido”. E, claro, o povo pirou e correu às prateleiras. Uma editora britânica bancou nova publicação — e o escândalo arruinou a carreira política de um de seus sócios.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, a primeira edição foi bem à beça: “Lolita” se tornou o primeiro livro, desde “E o Vento Levou”, a vender 100 mil cópias nas primeiras três semanas de publicação. Nada mal.
No entanto, a polêmica da história de pedofilia encobriu por muito tempo o talento indiscutível da prosa de Nabokov — que escreveu o livro originalmente em inglês, traduzindo-o ele mesmo para sua língua mater, o russo, poucos anos depois. A leitura do livro nos leva a repensar todo o preconceito levantado pela sinopse e vai muito além da velha história do “velho tarado que quer pegar uma menininha”. Chega um momento em que você simplesmente não sabe mais quem é a vítima da história. Se você duvida, corre lá e leia.
Profundo, irônico, triste, poético, “Lolita” foi considerado, em 2005, um dos maiores 100 romances de todos os tempos pela revista Time. Ganhou duas versões cinematográficas: uma em 1962, dirigida por Stanley Kubrick, roteirizada pelo próprio Nabokov e estrelada por Sue Lyon, que tinha 16 anos na época das filmagens; outra em 1997, dirigida por Adrian Lyne e estrelada por Dominique Swain — que, aos 15 anos, tinha de colocar um travesseiro entre ela e Jeremy Irons nas cenas mais “calientes”. Nenhuma, na modesta opinião desta escriba, chega aos pés da experiência da leitura de “Lolita”.
Se não conseguir assistir à memorável cena de Kubrick em que Humbert vê Lolita pela primeira vez, clique aqui.
Autor: Clarissa Passos - Categoria(s): Sem categoria Tags: anos 80, internacional, lolita, ninfeta, romance, sexo, stanley kubrick, sting, the police, vladimir nabokov
