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22/06/2009 - 19:46

Jorge ainda Ben e Charles, o anjo bandido

Você gosta de samba-rock? E de bandidos que comandam o morro? Pois hoje a estrela da nossa história é uma música, assim, mais ou menos de samba-rock. Digo mais ou menos porque é uma música de estrutura melódica meio maluca — especialmente para a época em que foi lançada. E também é uma música sobre um bandido que mantinha um dos morros cariocas em ordem, lá pelos fins da década de 60.

Antes de mais nada, solta o play aí em “Charles Anjo 45″, de Jorge Benjor (na época em que ele ainda se chamava Jorge Ben)!

 

Se não conseguir assistir, clique aqui.

Era 1969 e a ditadura ia muito bem, obrigada, no comando do Brasil. Reprimia qualquer oposição. Torturava gente nas celas de delegacia, matava guerrilheiros, sabotava ações. E pentelhava os artistas que era uma beleza. Caetano Veloso, por exemplo, teve mais problemas ainda quando resolveu gravar “Charles Anjo 45″.

“Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?

Charles, Anjo 45
Protetor dos fracos
E dos oprimidos
Robin Hood dos morros
Rei da malandragem
Um homem de verdade
Com muita coragem
Só porque um dia
Charles marcou bobeira
Foi sem querer tirar férias
Numa colônia penal…

Então os malandros otários
Deitaram na sopa
E uma tremenda bagunça
o nosso morro virou
Pois o morro que era do céu
Sem o nosso Charles
Um inferno virou…

Mas Deus é justo
E verdadeiro,
E antes de acabar as férias
Nosso Charles vai voltar
Paz alegria geral
Todo morro vai sambar
antecipando o carnaval
Vai ter batucada
Uma missa em ação de graças
Vai ter feijoada
Whisky com cerveja
E outras milongas mais…

Muitas queima de fogos
E saraivada de balas.
Pro ar,
Pra quando nosso Charles,
Voltar…

E o povo inteiro feliz
Assim vai cantar…

Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?”

A letra falava de um bandido da vizinhança onde Jorge morava. Claro que eram os idos de 1969 e os comandantes dos morros talvez tivessem um quê de inocência. De qualquer forma, para quem pensava que era de hoje que a ausência do Estado tornava possível a ascensão de um traficante como benfeitor social, aí está “Charles Anjo 45″, lançada em 1969. Ou seja: nesse aspecto, o negócio tá ruim faz tempo…

O que, é claro, não tira a beleza da música. “Charles, anjo 45 foi feita e inspirada no malandro carioca. E, além de tudo, Charles, anjo 45 porque ele usava uma 45 [tipo de arma] e ele era um anjo, porque quando ele chegava tudo ficava bem. Tudo se transformava”, disse Jorge Benjor em uma entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura.

Claro que a ditadura encrespou. Viu na letra mais uma apologia ao banditismo. Como se já não bastasse o frisson que o artista plástico Hélio Oiticica havia causado com sua estampa de uma foto de jornal que mostrava um traficante famoso à época, o Cara de Cavalo, morto pela polícia — e legendada pelo artista com a provocativa frase “Seja marginal, seja herói”.

serigrafia de Hélio Oiticica

E, se a apologia não fosse ao banditismo, a letra de “Charles Anjo 45″ era ainda pior: devia estar fazendo referências aos guerrilheiros. A Lamarca, ou a Che Guevara. De qualquer forma, acharam que não pegava bem sair por aí cantando um marginal. Não demorou para que os militares chamassem todo mundo para se explicar. Jorge não teve maiores problemas porque se posicionava como um artista apolítico desde o começo da carreira. Já Caetano… bom, logo Caetano seria sutilmente induzido a sair do país, junto com seu amigo Gilberto Gil.

Mas isso já é outra história.

 

 

Autor: Clarissa Passos - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , ,
18/03/2009 - 17:33

O marinheiro que virou feiticeiro: Elis Regina e a Revolta da Chibata

16 de novembro de 1910.
A bordo do encouraçado Minas Gerais, o marinheiro negro Marcelino Rodrigues Menezes é punido com 250 chibatadas, na presença da tropa e ao som de tambores. A escravidão no Brasil já tinha ido tarde, há quase três décadas. Mas na Marinha Brasileira, a despeito da modernização de equipamentos e embarcações, a punição a chibatadas ainda era legal.

Curiosamente, os marinheiros eram, em maioria, negros e mulatos. Os oficiais superiores eram brancos. E as chibatas estalavam sempre nas costas dos primeiros, como punição por faltas diversas. Cansados do tratamento absurdo, os marinheiros brasileiros planejaram, por dois anos, um motim.

Comandados pelo marinheiro gaúcho João Cândido Felisberto, em 22 de novembro eles dominaram as embarcações ancoradas na baía da Guanabara e ameaçaram bombardear a então capital do país caso não fossem atendidos em uma reivindicação bem razoável: que a Marinha melhorasse o grude servido a eles a bordo, anistiasse os revoltosos e acabasse com os castigos corporais.

Para Aldir e Bosco, João Cândido tinha a dignidade de um mestre-sala

Reprimidos pelo governo, os revoltosos foram punidos. Apesar da promessa do governo federal de anistiar os rebelados, João Cândido foi expulso da Marinha e internado no Hospital dos Alienados como louco e indigente. Morreu em 1969, de câncer, pobre e esquecido.

1973.
Elis Regina lança seu disco “Elis”, com a bela “Mestre-sala dos Mares”. Muita gente cantou o samba-enredo composto por Aldir Blanc e João Bosco sem saber a que se referia — e sem sequer saber que estavam cantando uma letra que não era a original. Dê o play e ouça aí embaixo a versão lançada por Elis! 

“Mestre-sala dos Mares” foi composta sobre a história de João Cândido e a Revolta da Chibata, forçosamente apagadas dos anais da Marinha. A censura vigente no Brasil nos anos 70 não gostou muito dos versos que exaltavam o “almirante negro” e falavam sobre a “figura de um bravo marinheiro a quem a história não esqueceu”, então só liberaram a canção se substituíssem as expressões acima por “navegante negro” e “figura de um bravo feiticeiro a quem a história não esqueceu”.

(Pessoalmente, não saquei a diferença da primeira – “almirante” para “navegante” tá quase ali, vai? – e achei a segunda bizarra – “marinheiro” para “feiticeiro” tem mais de légua de distância, exceto na sonoridade).

24 de julho de 2008.
Quase 40 anos após sua morte, João Cândido foi anistiado em lei publicada no Diário Oficial da União. Pouco menos de um ano antes, no aniversário da revolta em novembro de 2007, foi inaugurada nos jardins do Museu da República (antigo Palácio do Catete) uma estátua do Almirante Negro (apelido cunhado pela imprensa da época) — que agora tem um pouco mais em sua memória do que apenas “as pedras pisadas do cais”.

 

* Além da estátua e da anistia, João Cândido também recebeu singela homenagem de Hemeterio & Olinto Gadelha, autores de “Chibata! — João Cândido e a Revolta que abalou o Brasil” (ed. Conrad), uma caprichada graphic novel sobre a vida e os feitos do líder do motim. Corre que dá para ler o primeiro capítulo aqui.

 

Autor: Clarissa Passos - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , ,
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