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Arquivo de junho, 2009

29/06/2009 - 14:49

O pop e a pedofilia: Sting e “aquele livro do Nabokov”

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Em 1980, o Police lançava seu terceiro álbum. Zenyatta Mondatta foi feito sob pressão da gravadora, que queria que a banda, liderada por Sting, mandasse logo outra turnê. O trabalho feito na correria rendeu bons frutos: uma das músicas, “Don’t Stand So Close to Me”, emplacou o primeiro lugar no Reino Unido e foi a primeira canção do grupo a chegar ao Top 10 americano, o que popularizou o grupo nos ‘Istêites’.

Para ouvir a versão lançada em 1980, clique aqui.

A mistura de reggae, punk e pop levada a cabo pelo trio foi um dos sons dos anos 80. Mas o que talvez você não saiba é que “Don’t Stand So Close to Me” faz referência a um livro que, ao contrário do single, não foi exatamente um sucesso instantâneo.

A letra da música fala de uma aluna que está perdidamente apaixonada por um professor, obviamente mais velho que ela. Entre a descrição das investidas da garota e os boatos que correm na sala dos professores, no finzinho Sting ilustra o nervosismo do professor comparando-o “ao velho daquele livro do Nabokov”.

“Young teacher, the subject
Of schoolgirl fantasy
She wants him so badly
Knows what she wants to be
Inside her there’s longing
This girls an open page
Book marking – shes so close now
This girl is half his age

Don’t stand, don’t stand so
Don’t stand so close to me

Her friends are so jealous
You know how bad girls get
Sometimes its not so easy
To be the teachers pet
Temptation, frustration
So bad it makes him cry
Wet bus stop, shes waiting
His car is warm and dry

Loose talk in the classroom
To hurt they try and try
Strong words in the staffroom
The accusations fly
It’s no use, he sees her
He starts to shake and cough
Just like the old man in
That book by Nabokov

Don’t stand, don’t stand so
Don’t stand so close to me”

Pois “aquele livro do Nabokov” se chama “Lolita” e foi lançado em Paris em 1955, depois que o autor, o russo Vladimir Nabokov, recebeu quatro sonoros “nãos” de editoras norte-americanas. Terminado em 1953, o romance falava de Humbert Humbert — um professor europeu de meia-idade obcecadamente apaixonado por Dolores Haze, uma garota americana de… 12 anos. Tá explicado porque tantas editoras americanas disseram não. E tá explicado porque Sting achou o livro propício para a letra da sua própria história de um affair proibido entre um homem mais velho e uma menina.

“Lolita” causou furor quando de seu lançamento. Na França, a tiragem de 5 mil cópias se esgotou rapidamente, mas a mídia não deu muita atenção. Foi só quando o escritor Graham Greene disse em uma entrevista ao “Times” londrino que era um dos melhores livros do ano é que foram ver do que se tratava. Aí, o editor do “Sunday Express”, também de Londres, publicou uma crítica afirmado que “Lolita” era “o livro mais nojento que ele já havia lido”. E, claro, o povo pirou e correu às prateleiras. Uma editora britânica bancou nova publicação — e o escândalo arruinou a carreira política de um de seus sócios.

 

Poster do filme Lolita, de 1962

 

Enquanto isso, nos Estados Unidos, a primeira edição foi bem à beça: “Lolita” se tornou o primeiro livro, desde “E o Vento Levou”, a vender 100 mil cópias nas primeiras três semanas de publicação. Nada mal.

No entanto, a polêmica da história de pedofilia encobriu por muito tempo o talento indiscutível da prosa de Nabokov — que escreveu o livro originalmente em inglês, traduzindo-o ele mesmo para sua língua mater, o russo, poucos anos depois. A leitura do livro nos leva a repensar todo o preconceito levantado pela sinopse e vai muito além da velha história do “velho tarado que quer pegar uma menininha”. Chega um momento em que você simplesmente não sabe mais quem é a vítima da história. Se você duvida, corre lá e leia.

Profundo, irônico, triste, poético, “Lolita” foi considerado, em 2005, um dos maiores 100 romances de todos os tempos pela revista Time. Ganhou duas versões cinematográficas: uma em 1962, dirigida por Stanley Kubrick, roteirizada pelo próprio Nabokov e estrelada por Sue Lyon, que tinha 16 anos na época das filmagens; outra em 1997, dirigida por Adrian Lyne e estrelada por Dominique Swain — que, aos 15 anos, tinha de colocar um travesseiro entre ela e Jeremy Irons nas cenas mais “calientes”. Nenhuma, na modesta opinião desta escriba, chega aos pés da experiência da leitura de “Lolita”.

Se não conseguir assistir à memorável cena de Kubrick em que Humbert vê Lolita pela primeira vez, clique aqui.

Autor: Clarissa Passos - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , ,
22/06/2009 - 19:46

Jorge ainda Ben e Charles, o anjo bandido

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Você gosta de samba-rock? E de bandidos que comandam o morro? Pois hoje a estrela da nossa história é uma música, assim, mais ou menos de samba-rock. Digo mais ou menos porque é uma música de estrutura melódica meio maluca — especialmente para a época em que foi lançada. E também é uma música sobre um bandido que mantinha um dos morros cariocas em ordem, lá pelos fins da década de 60.

Antes de mais nada, solta o play aí em “Charles Anjo 45″, de Jorge Benjor (na época em que ele ainda se chamava Jorge Ben)!

 

Se não conseguir assistir, clique aqui.

Era 1969 e a ditadura ia muito bem, obrigada, no comando do Brasil. Reprimia qualquer oposição. Torturava gente nas celas de delegacia, matava guerrilheiros, sabotava ações. E pentelhava os artistas que era uma beleza. Caetano Veloso, por exemplo, teve mais problemas ainda quando resolveu gravar “Charles Anjo 45″.

“Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?

Charles, Anjo 45
Protetor dos fracos
E dos oprimidos
Robin Hood dos morros
Rei da malandragem
Um homem de verdade
Com muita coragem
Só porque um dia
Charles marcou bobeira
Foi sem querer tirar férias
Numa colônia penal…

Então os malandros otários
Deitaram na sopa
E uma tremenda bagunça
o nosso morro virou
Pois o morro que era do céu
Sem o nosso Charles
Um inferno virou…

Mas Deus é justo
E verdadeiro,
E antes de acabar as férias
Nosso Charles vai voltar
Paz alegria geral
Todo morro vai sambar
antecipando o carnaval
Vai ter batucada
Uma missa em ação de graças
Vai ter feijoada
Whisky com cerveja
E outras milongas mais…

Muitas queima de fogos
E saraivada de balas.
Pro ar,
Pra quando nosso Charles,
Voltar…

E o povo inteiro feliz
Assim vai cantar…

Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?”

A letra falava de um bandido da vizinhança onde Jorge morava. Claro que eram os idos de 1969 e os comandantes dos morros talvez tivessem um quê de inocência. De qualquer forma, para quem pensava que era de hoje que a ausência do Estado tornava possível a ascensão de um traficante como benfeitor social, aí está “Charles Anjo 45″, lançada em 1969. Ou seja: nesse aspecto, o negócio tá ruim faz tempo…

O que, é claro, não tira a beleza da música. “Charles, anjo 45 foi feita e inspirada no malandro carioca. E, além de tudo, Charles, anjo 45 porque ele usava uma 45 [tipo de arma] e ele era um anjo, porque quando ele chegava tudo ficava bem. Tudo se transformava”, disse Jorge Benjor em uma entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura.

Claro que a ditadura encrespou. Viu na letra mais uma apologia ao banditismo. Como se já não bastasse o frisson que o artista plástico Hélio Oiticica havia causado com sua estampa de uma foto de jornal que mostrava um traficante famoso à época, o Cara de Cavalo, morto pela polícia — e legendada pelo artista com a provocativa frase “Seja marginal, seja herói”.

serigrafia de Hélio Oiticica

E, se a apologia não fosse ao banditismo, a letra de “Charles Anjo 45″ era ainda pior: devia estar fazendo referências aos guerrilheiros. A Lamarca, ou a Che Guevara. De qualquer forma, acharam que não pegava bem sair por aí cantando um marginal. Não demorou para que os militares chamassem todo mundo para se explicar. Jorge não teve maiores problemas porque se posicionava como um artista apolítico desde o começo da carreira. Já Caetano… bom, logo Caetano seria sutilmente induzido a sair do país, junto com seu amigo Gilberto Gil.

Mas isso já é outra história.

 

 

Autor: Clarissa Passos - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , ,
09/06/2009 - 12:26

Billie Holiday e o estranho fruto sangrento do sul

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Em 1939, Billie Holiday lançou uma música de nome esquisito: “Strange Fruit”, ou “Fruto Estranho”, falava das estranhas frutas que pendiam dos álamos do sul, corpos negros e o cheiro de sangue no ar.

 

“Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop”

“As árvores do sul dão um estranho fruto,
Sangue nas folhas e sangue na raiz,
Corpos negros balançando à brisa do sul,
Estranhos frutos pendurados nos álamos

Cena pastoral e galante sulista,
Os olhos saltados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresco,
E então o repentino cheiro de carne queimando.

Aqui está a fruta para os corvos depenarem,
Para a chuva enrugar, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores derrubarem,
Esta é uma estranha e amarga colheita”.


Tá, todo esse papo poderia ser o fruto (estranho) da imaginação de um diretor de filme de terror. Mas o pior é que, embora soe como um cenário fictício, os versos foram escritos por um professor judeu e eram inspirados na mais pura verdade.

Ok, mas como um professor judeu e branco do Bronx emplacou a autoria do maior sucesso de Billie Holiday, que é também um dos hinos contra o racismo — e a primeira música a se posicionar contra a discriminação? Certo, vamos chegar lá. Mas vamos contar essa história de trás para a frente.

Em 1939, Billie Holiday teve um pequeno conflito com sua gravadora, a Columbia, porque queria gravar uma canção composta por um tal Lewis Allan. Depois de muita discussão, ficou decidido que a já aclamada cantora obteria uma licença para gravar a tal música em outra gravadora, a pequena Commodore – cujo dono, Milt Gabler, começou a chorar feito criança depois que Billie cantou para ele uma versão acapella da música.

No mesmo ano, em um compacto 78 rpm, saía “Strange Fruit”. A música fez um sucesso estrondoso; era o ponto alto (e final) dos shows de Lady Day. Todas as luzes se apagavam e apenas um foco de luz era aceso sobre a cantora; daí ela desfiava os versos tristes sobre aquele cenário de horror no sul. Dá uma olhada como era:

Se não conseguir assistir, clique aqui.

E os versos ficam mais tristes ainda quando sabemos que a canção, composta por Abel Meerpool (o professor judeu que usou o pseudônimo de Lewis Allan), foi inspirada por uma fotografia chocante, muito chocante.

Tá pronto para vê-la?
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O fruto estranho que balançava nas árvores do sul, em foto de Lawrence Beitler

A foto acima não saiu de nenhum filme de terror. É real e foi tirada em 7 de abril de 1930, quando uma multidão linchou Thomas Shipp e Abram Smith, ambos de 19 anos, em Indiana – e por pouco não pegou um terceiro rapaz, chamado James Herbert Cameron, 16. Os três, negros, foram acusados de roubar e matar um homem branco e estuprar a namorada dele. Antes que recebessem um julgamento, foram mortos e pendurados pela multidão.

Os linchamentos eram bem comuns em certas áreas dos Estados Unidos desta época – especialmente de homens negros acusados — ou não — de crimes contra brancos. Também eram usados como uma forma de amedrontar os negros e mantê-los longe das urnas e de qualquer exercício de seus (poucos) direitos de cidadãos. Depois que o fotógrafo Lawrence Beitler registrou a cena que inspirou a música “Strange Fruit” (e vendeu milhares de cópias desta mesma fotografia que você viu aí em cima, a 50 centavos de dólar cada), no entanto, eles deixaram de acontecer. Terá sido o impacto da música?

Epílogo

James Cameron escapou vivo, escreveu a auto-biografia “Time of Terror: A Survivor’s Story” (“Tempo de Terror: a História de um Sobrevivente”) e fundou o Museu Americano do Holocausto Negro, que, nas palavras do próprio site da instituição, se propõe a “educar o público sobre as injustiças sofridas por pessoas de ascendência negra, além de proporcionar aos visitantes uma oportunidade de repensar suas suposições sobre raça e racismo”.

E você, está bem educado sobre isso?

 

Autor: Clarissa Passos - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , , , ,
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