Jorge ainda Ben e Charles, o anjo bandido
Você gosta de samba-rock? E de bandidos que comandam o morro? Pois hoje a estrela da nossa história é uma música, assim, mais ou menos de samba-rock. Digo mais ou menos porque é uma música de estrutura melódica meio maluca — especialmente para a época em que foi lançada. E também é uma música sobre um bandido que mantinha um dos morros cariocas em ordem, lá pelos fins da década de 60.
Antes de mais nada, solta o play aí em “Charles Anjo 45″, de Jorge Benjor (na época em que ele ainda se chamava Jorge Ben)!
Se não conseguir assistir, clique aqui.
Era 1969 e a ditadura ia muito bem, obrigada, no comando do Brasil. Reprimia qualquer oposição. Torturava gente nas celas de delegacia, matava guerrilheiros, sabotava ações. E pentelhava os artistas que era uma beleza. Caetano Veloso, por exemplo, teve mais problemas ainda quando resolveu gravar “Charles Anjo 45″.
“Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?
Charles, Anjo 45
Protetor dos fracos
E dos oprimidos
Robin Hood dos morros
Rei da malandragem
Um homem de verdade
Com muita coragem
Só porque um dia
Charles marcou bobeira
Foi sem querer tirar férias
Numa colônia penal…
Então os malandros otários
Deitaram na sopa
E uma tremenda bagunça
o nosso morro virou
Pois o morro que era do céu
Sem o nosso Charles
Um inferno virou…
Mas Deus é justo
E verdadeiro,
E antes de acabar as férias
Nosso Charles vai voltar
Paz alegria geral
Todo morro vai sambar
antecipando o carnaval
Vai ter batucada
Uma missa em ação de graças
Vai ter feijoada
Whisky com cerveja
E outras milongas mais…
Muitas queima de fogos
E saraivada de balas.
Pro ar,
Pra quando nosso Charles,
Voltar…
E o povo inteiro feliz
Assim vai cantar…
Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?”
A letra falava de um bandido da vizinhança onde Jorge morava. Claro que eram os idos de 1969 e os comandantes dos morros talvez tivessem um quê de inocência. De qualquer forma, para quem pensava que era de hoje que a ausência do Estado tornava possível a ascensão de um traficante como benfeitor social, aí está “Charles Anjo 45″, lançada em 1969. Ou seja: nesse aspecto, o negócio tá ruim faz tempo…
O que, é claro, não tira a beleza da música. “Charles, anjo 45 foi feita e inspirada no malandro carioca. E, além de tudo, Charles, anjo 45 porque ele usava uma 45 [tipo de arma] e ele era um anjo, porque quando ele chegava tudo ficava bem. Tudo se transformava”, disse Jorge Benjor em uma entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura.
Claro que a ditadura encrespou. Viu na letra mais uma apologia ao banditismo. Como se já não bastasse o frisson que o artista plástico Hélio Oiticica havia causado com sua estampa de uma foto de jornal que mostrava um traficante famoso à época, o Cara de Cavalo, morto pela polícia — e legendada pelo artista com a provocativa frase “Seja marginal, seja herói”.
E, se a apologia não fosse ao banditismo, a letra de “Charles Anjo 45″ era ainda pior: devia estar fazendo referências aos guerrilheiros. A Lamarca, ou a Che Guevara. De qualquer forma, acharam que não pegava bem sair por aí cantando um marginal. Não demorou para que os militares chamassem todo mundo para se explicar. Jorge não teve maiores problemas porque se posicionava como um artista apolítico desde o começo da carreira. Já Caetano… bom, logo Caetano seria sutilmente induzido a sair do país, junto com seu amigo Gilberto Gil.
Mas isso já é outra história.


Cara. Essa é uma das colunas mais fodas. Sério. De coração. Beijo. Continue assim.
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em 1969 eu estava com seis anos, conheci essa musica atraves dos paralamas do sucesso. sempre quis conhecer a historia da musica.obrigado pela informacao.
Super interessante essa desmistificação da musica do Grande Jorge Ben… curto muito essa musica e agora que sei o seu real significado gamei mais ainda….
Salve Jorge!!!!
Muito MASSA!
Estava ouvindo tim, dom, dom quando abri o IG e vi essa coluna piscando para mim. Muito interessante!
Como informação, valeu para os que não sabiam deste contexto presente na música do JB, mas gente, sem oba-obice, pois tem tribos hoje em dia que adora encampar porralouquice para dar sentido ao vazio existencial de cada um. Emos, Zapatudas, Nazis e Tatooados-até-no-sul, esbanjam exemplos pelas ruas afora…
Falam em desencanar, só… é isso aí…yessssssss…
Deus meu, quanta babaquice campeia neste Brasil Imitador Inveterado!!!
O chato de ser mais velho, é que já sabia de tudo isso..
ainda faltava 1 ano para mim nascer, mais é mais uma página da realidade ao qual já vivia antes mesmo de ser esperma.
Já sabia dessa história, fico muito feliz em saber que as pessoas se interessam pela musica negra nacional, mas tem muito material desse tipo .
ATT Marcelo Santos
Legal ver gente falando do JB novamente, com conteúdo, a mídia da massa não dá o devido valor ao cara…
PS: Concordo plenamente jl. é chato ser mais velho, mas as vezes é legal retomar assuntos do baú… Abraços.
Muito feliz em ouvir essa música de novo, que foi tão vaiada pelos estudantes de 1969 no festival de música, interpretada por Jorge Ben e Caetano Veloso, o sempre polêmico Caetano Veloso. Sempre achei essa música a maior obra de Ben, junto com Que Maravilha! (parceria com Toquinho).
Abraços para a coluna.
A ausencia do estado e as musicas do Chico Buarque criaram essa mistica do Malandro carioca. O RJ algum dia vai se livrar desse mito ?
Parabéns pelo Blog. Muito bem sacado
esta letra na verdade teve muito há ver com o contexto sim ,porque esta Historia começou desta forma em varios lugares,vilas ,ruas e becos principalmente favelas ,graças ao bom Deus que teve malandro do tipo de Charles anjo 45 para impor de serta forma respeito ao lugar ,á uma vila inteira até sendo assim sabido disto certos batedores de carteira ou sejá ladrões pés de chinelo (noias)pensavam duas vezes em subir até o seu varal para roubar suas roupas ,e de até pensar em render sua mãezinha voltando do trabalho com o dinheiro do seu suor e o leite para alimentar seu irmão mais novo,é bem por ai este é sóum pedacinho do contexto.abraço…
Putz esse Paulo Lomach é uma besta quadrada (para usar uma gíria daquela época). Nã odiz coisa com coisa.
Estava ao computador ouvindo justamente … Caetano ! E vi o artigo: interessante, direto , acessível … Só pra discordar um pouquinho : o chato não é ser velho… difícil é ser velho num país sem memória ! Por isso é muito bom (como “velha” , educadora e apaixonada por MPB) ver q ainda há pessoas q usam a net pra despertar o bom gosto musical e a curiosidade pela nossa história nos “novinhos”… Parabéns !
O Charles voltou para a comunidade?
MPB=Muita Porcaria Brasileira.E brasileiro , em sua maioria, adora esse tipo de lixo.
VIVA O ROCK AND ROLL=LED ZEPPELIN, BLACK SABATH, THE WHO etc etc etc …O resto é lixo , isto é, defecação sonora de brasilzinho.Coisa de quem veio de Portugal.Por isso que vai continuar apanhando nos aeroportos europeus , sendo expulso e mandado de volta prá esse favelão chamado Brasil.
Salve Jorge ( Que não cantou nenhuma músIca triste)
P.S. O RIO DE JANEIRO CONTA COM A MÚSICA DO MORRO DE:
CARTOLA, PIXINGUINHA, ISMAEL SILVA, LUIS MELODIA,
CANDEIA, NOEL ROSA, WILSON BATISTA, NEY LOPES E
OUTROS MAIS E NÃO SÓ DE CHICO BUARQUE DE HOLANDA!
excelente o texto parabens
Muito legal seu texto Clarissa, infelizmente estou morando na China e qquer site modelo “tube” está bloqueado (qualquer semelhança com a ditadura é mera coincidência). Mas interessante mencionar que a letra da música é uma realidade que existe….fato. Podemos não concordar, não aceitar, não querer tomar conhecimento, mas ela está lá…É um retrato de um completo caos social que esperneia por qualquer tipo de justiça….nem que seja vinda de “anjos .45″…
Mas as músicas do Jorge são de letras simples, propositalmente confusas e de melodia que só quem muito apanhou e bateu na vida pode ter…mas, não é isso o tal de “cotidiano” dos grandes centros urbanos?
Vou passar por aqui mais vezes….